O que é um sapo para quem já engoliu um brejo inteiro?

É comum falar sem pensar, gritar, ignorar e até xingar. É comum ir dormir brigado e acordar como se nada tivesse acontecido. É comum não pedir desculpas e não exigir que o outro peça desculpas por pura preguiça ou desistência. É comum ver o orgulho se sobressaindo frente a outros sentimentos muito mais dignos e importantes. É comum deixar passar, deixar pra lá, até justificar a falha do outro. Frases como: “Ela é assim mesmo” ou “Ele não sabe o que está fazendo”, começam a ficar comuns para justificar a fuga do confronto e o acerto de contas.

Há contas que precisamos pagar ou cobrar na hora, que não dá para deixar pra lá, porque com o tempo elas vão ficando caras demais. Elas acabam com o sossego e trazem inquietude para a vida e para o coração.

É comum engolir sapos e justificar dizendo: O que é mais um sapinho para quem já engoliu o brejo inteiro? O fato é que em algum momento esse monte de sapos vai causar uma tremenda indigestão. Portanto, não é normal engolir sapos e muito menos enfiar sapo goela abaixo dos outros. Às vezes é melhor evitar engolir um sapo e vomitar o brejo inteiro.

A rotina e a pressa trazem uma grande urgência para a vida e vão fazendo com as que coisas importantes percam o valor e sejam colocadas de lado. Para que perder tempo discutindo isso? A pessoa evita colocar os pingos nos is, mas fica horas remoendo a raiva que está sentindo de si mesmo por ter deixado aquilo passar, por ter levado o desaforo para casa.

E assim seguimos, nos distanciando do outro. Entre um deixa para lá e um deixa estar, a distância vai ficando cada vez maior. E assim seguimos nos desconectando das pessoas e das coisas mais importantes da nossa vida. Desistimos de carreiras bem sucedidas, porque foi mais fácil fugir do problema do que encarar uma conversa com séria com o chefe. Perdemos uma amizade que poderia ser para sempre, porque achamos algo que talvez nem existisse. Esses pequenos delitos do dia a dia distanciam pais de filhos, marido de mulher, companheiros. Transforma em inimigo aquele que poderia ser o amigo da vida inteira. Isso porque deixamos pra lá… deixamos passar.

É preciso estar presente nas relações, deixar claro quando nos sentimos desrespeitados, mostrar como queremos ser tratados. Apontar o dedo na cara do outro. Por que não, se ele estiver de fato errado? Não levar desaforo para casa. Não transformar o próprio estômago em um brejo povoado de sapos. Como também é preciso reconhecer o erro e buscar o perdão do outro. Respeitar as pessoas e seus espaços.

Não importa de que lado estamos. Lado certo ou errado. Porque no final, tudo é uma questão de perspectivas. É preciso conversar, esclarecer, se entender, apontar, justificar. Poucas coisas não se resolvem com uma boa conversa. Uma conversa de alma pelada resolve até as separações inevitáveis. As boas conversas garantem que lá na frente estaremos de bem com as nossas decisões do passado e garantem ainda que as pessoas realmente importantes estarão sempre ao nosso lado.

Não parece, mas é muito mais fácil assumir o erro, admitir para si mesmo que não é infalível, aprender de fato a se colocar no lugar do outro e tratar as pessoas como gostaria de ser trado. Geralmente reconhecer isso é libertador. Ao mesmo tempo que construir relações de amor leva tempo e demanda muito trabalho, mas também é extremamente recompensador.

Os dilemas do dia a dia podem facilmente perder espaço para o orgulho, a pressa, a preguiça, o medo e a descrença no outro. E assim, eles vão minando as relações e criando distâncias que podem se tornar grandes demais.

Não podemos permitir que a distancia se torne grande o suficiente para que os corações fiquem tão longe um do outro a ponto de nunca mais encontrarem o caminho de volta.

Coração

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