Capítulo 14 – Enfim Budapeste. E tudo virou poesia.

O avião de Ana finalmente decolou e à medida que ele ganhava altura ela acompanhava tudo pela janela. Ela via tudo ficando para trás, diminuindo de tamanho, até sumir. Era assim que ela via todos os problemas naquele momento. Eles se reduziam até sumir. Ela sentia seu coração cicatrizando, mas sentia que ele jamais voltaria a bater como antes. Algo dentro dela tinha se transformado para sempre.

Ilonka estava mais ansiosa do que esperava e mãe e filha ficaram por horas em silencio ouvindo apenas seus pensamentos barulhentos até adormecerem.

Elas foram acordadas pela aeromoça lhes oferecendo o café da manhã.

– E aí mãe? Como está se sentindo? Perguntou Ana.

Ilonka respirou fundo e parecia procurar as palavras para responder a pergunta de Ana.

– Estou me sentindo estranha.

– Como assim?

– É estranha a sensação de voltar depois de tanto tempo. É estranha a sensação de reencontrar as pessoas da minha família, que eu não vejo desde muito pequena. As pessoas são minha família, mas não tenho ideia de que caras elas tem. Se são pessoas boas, de quem eu vou me orgulhar ter como parte da minha família. Eu deixei uma vida aqui. Reconstruí minha vida longe daqui. E agora estou voltando depois de paralisar as coisas que construí lá no Brasil. Estou largando meu emprego para viver de… Ilonka tentava achar a palavra ideal. – Para viver, de que meu Deus?

– Para viver de vida mãe!

– Para viver de vida! Boa alternativa minha filha.

– Não se preocupe tanto.

– Ana, precisamos comer, usar transporte, enfim, precisamos de dinheiro.

– Mãe, você tem dinheiro e pense que agora não tem mais que pagar minha faculdade.

– Vai dar tudo certo Ana. Isso é o que menos me preocupa, na verdade.

– Mãe, você vai viver um monte de coisas novas, que estavam te esperando esse tempo todo. Não precisa se preocupar com nada.

– Tomara minha filha. Tomara. Agora me fale as suas expectativas.

– Eu sempre quis conhecer a Hungria e a Europa na verdade. Sempre li muito, mas nunca vi de verdade. Sempre ouvi suas histórias e fantasiei sobre as paisagens. Estou com a sensação que finalmente vou ver com os meus olhos o que fantasiei na minha mente.

– Isso eu sei Ana, mas e a história de amor que você estava vivendo, como ficou? Vi bem o tamanho do bouquet de flores que você recebeu. Isso sim é complicado.

– Nisso você tem razão. Isso é muito complicado. Mas sempre foi complicado, portanto não há novidade alguma.

– O importante é ficar bem minha filha.

– Mãe, deixei essa história quando esse avião decolou. Todo o meu coração está tomado pelas expectativas do que está por vir.

– Nem me fale minha filha. Acho que posso te dizer o mesmo.

E nesse momento, o piloto anunciou que o pouso havia sido autorizado e o coração de ambas começou a bater em expectativa.

“Bem-vindos à Budapeste. O tempo está aberto, faz sol e a temperatura é de 25º.” Disse o piloto assim que o avião tocou o solo. E assim elas saíram do avião em busca de suas bagagens.

– E agora mãe? Perguntava Ana assim que as malas foram recolhidas das esteiras.

– Vamos pegar um taxi e ir para casa da minha prima Agnes. Ela está nos esperando e ficaremos hospedadas na casa dela.

– Que legal! Finalmente vou conhecer a minha família.

– E quanto à mim, finalmente voltei para casa. Disse Ilonka.

Elas pisaram na calçada em busca do taxi e esse ato em si já deixou Ana totalmente empolgada. “Estou pisando no solo de um outro país. Está acontecendo. Estou começando a conhecer o mundo.” Pensava Ana consigo mesma sentindo uma certa histeria.

Já dentro do táxi, Ilonka falava com o motorista. Apesar de estar fora do país há muito tempo, ela ainda falava húngaro muito bem. Ela pediu para que a viagem até o destino fosse acrescida por algumas passagens em pontos turísticos da cidade, para começar presenteando a filha.

E assim elas aproveitaram aquela ida para casa, que seria a casa delas pelos próximos meses, já explorando alguns pontos turísticos e paisagens paradisíacas da cidade.

– Gente! Isso tudo é muito mais lindo do que eu imaginava. Obrigada por isso mãe. Disse Ana totalmente encantada.

– Eu que te agradeço me incentivar a viver isso de novo.

E assim elas terminaram o longo passeio desde o aeroporto e foram recebidas por Agnes.

– Oi prima! Obrigada por nos receber. Disse Agnes abraçando a prima.

– Seja bem-vinda prima. É um prazer te-las aqui. E essa deve ser a Ana. Disse Agnes indo abraçar Ana.

Apesar de tudo estar acontecendo em húngaro, e Ana não falar quase nada no idioma, ela entendeu o que acontecia ali.

– Muito prazer. Disse Ana em húngaro. Ela tinha aprendido algumas poucas expressões para ser simpática com quem a recebia. Mas por mais que tivesse tentado aprender, ela não falava quase nada na língua.

Elas foram rapidamente apresentada para os cômodos da casa. O marido de Agnes e as duas filhas estavam fora de casa, portanto Ana e Ilonka só os conheceriam a noite.

– Ajeitem suas coisas e descansem um pouco. Quero leva-las para almoçar e aproveitar a culinária Húngara. Vamos passear hoje a tarde. Saímos em uma hora. Ok? Convidou Agnes as deixando no quarto de hóspedes.

– Agnes, que gentil! Será uma delicia passarmos nosso primeiro dia assim.

– Será um prazer. Descansem e nos encontramos em 1 hora. Até já. Disse Agnes fechando a porta.

E assim ficaram mãe e filha no quarto, na expectativa pelo que estava por vir, analisando minuciosamente o que seria a nova casa delas pelos próximos dias.

O relógio deu um salto e elas mal ajeitaram as coisas e trocaram de roupa e já era hora de sair.

Agnes as levou ao Mercado Municipal, um edifício construído em 1896 e com seu teto colorido aos moldes da Igreja Mathias. Elas encantaram os olhos uma variedade imensa de alimentos, incluindo culinária típica, temperos, doces e salgados. Almoçaram um prato típico chamado Lángos, uma massa frita, coberta com queijo ralado e sour cream, chamada pizza comunista.

“Aqui se come com todos os sentidos.” Pensava Ana enquanto a mãe conversava em húngaro com a prima.

Depois do almoço foram passear às margens do rio Danúbio e conhecer de perto os prédios, como o Parlamento Húngaro, com arquitetura única que tornavam aquela paisagem um deleite para o olhar. Depois de mais de uma hora de caminhada, Agnes as levou em uma confeitaria húngara muito tradicional chamada Gerbeaud, famosa por seus doces, seu estilo e também por seus preços altos. O lugar era de uma beleza estonteante. Ana se sentia voltando no tempo ao entrar naquele lugar de decoração clássica. Aquelas salas com cadeiras estilo Luis XV, lustres de cristal e molduras no teto e nas paredes pareciam ter saído de algum castelo. Além dos olhos, o paladar foi mais uma vez surpreendido. Ana comeu seu doce húngaro preferido com massa leve, recheado com semente de papoula acompanhado de chocolate quente. A sensação era de ela voltaria para casa rolando depois de ter comido tanto e experimentado tantas coisas novas. O coração dela agradecia aquele primeiro dia na Hungria.

Voltaram a caminhar e Agnes as surpreendeu com um passeio de barco pelo Rio Danúbio antes de voltarem para casa. Ana seguia em silencio, por não acompanhar nada da conversa entre a mãe e Agnes. Ela fazia uma prece silenciosa em agradecimento a tudo que tinha experimentado até ali, quando de repente se deu conta de que não tinha pensado em Michel nenhuma vez. Ela se sentia estranha em relação a tudo. Parecia que tinha deixado sua história em outro planeta, muitos anos atrás, apesar de sua despedida ter de fato ocorrido no dia anterior. “O tempo é realmente relativo.” Pensava Ana consigo mesmo orgulhosa de sua própria capacidade de regeneração.

O passeio de barco acabou e elas voltaram para casa de ônibus. O sol começava a se por e Ana e Ilonka começavam a sentir o peso do cansaço. O dia foi intenso e cheio de coisas incríveis, mas muito cansativo.

Quando chegaram em casa, o resto da família de Agnes já estava lá e elas conheceram o marido e as filhas. As filhas eram um pouco mais velha do que a Ana, tinham 24 e 22 anos e o marido mais jovem que Agnes e muito alegre.

Eles seguiram na sala conversando e dessa vez todos falavam em inglês, então pela primeira vez Ana conseguia participar de uma conversa desde que chegaram. Eles conversavam pela primeira vez, mas parecia que se conheciam há muitos anos porque a conversa era farta, fluída e divertida. Gostaram um do outro instantaneamente.

Eles jantaram e beberam o melhor e mais famoso vinho húngaro, que era produzido pela família delas. O vinho era muito incrível e Ana sentia um tremendo orgulho por aquilo ser parte da família dela. Isso resultava em felicidade pura para as papilas gustativas e o coração de Ana. “Que delicia é a vida. Um vinho incrível. O mais incrível da região, feito pela minha família.” Pensava Ana enquanto dava um generoso gole no seu delicioso vinho.

Na hora de dormir uma expectativa tomou conta de Ana. “E amanhã, o que faremos?” Pensava um pouco aflita por não ter nenhuma rotina estabelecida.

– Boa noite Ana. Posso apagar a luz? Perguntou a mãe.

– Mãe, o que faremos amanhã? Perguntou Ana.

– Ah minha filha… sei lá. Podemos ir ao Museu.

– Que ideia maravilhosa! Vou amar. É estranho não ter rotina. Não morar em um lugar, mas também não estar em uma viagem planejada de férias.

– Então vamos aproveitar essa oportunidade de viver o único, minha filha. Provocou a mãe.

– Você tem razão! Que momento especial mãe! Obrigada por tudo. Estou amando tudo o que estamos vivendo aqui.

– E amanhã a noite terá um jantar para nós duas, no restaurante do meu primo, onde conheceremos o resto da família. E no final de semana, vamos para Mad, a cidade da minha mãe. Vamos passar o final de semana na casa de uma outra prima que é dona da vinícola que produz o vinho que tomamos hoje. O mais famoso da Hungria.

– N-Ã-O A-C-R-E-D-I-T-O! Mãe, nossa família produz vinho. Isso não poderia ser mais incrível.

– Tem muitas coisas incríveis vindo por aí. Espere até ver os ciganos tocando amanhã.

– Como assim?

– Vai precisar esperar até amanhã. Disse Ilonka mantendo um ar de surpresa. Agora vamos dormir. Precisamos descansar. Boa noite filha.

– Boa noite mãe! Disse Ana apagando o abajour que ficava na mesa de cabeceira entre as camas delas.

Apesar de se sentir exausta, Ana não conseguia dormir. Tinha um frenesi dentro do corpo dela que acordava qualquer sinal de sono. Ela repassou os últimos dias na sua cabeça e sentia que tinha vivido 1 ano em 1 semana. Ela pensou em Michel e no delicioso encontro atrás das cortinas de veludo, depois lembrou do sumiço dele e das mensagens contrárias que ele passava para ela. Teve receio por nunca mais vê-lo na vida e ela não sabia exatamente o que achar disso porque aquilo era alívio misturado com apreensão. Lembrou das flores lindas e do cartão que a fez sentir que tudo foi real para ele também. E aí suas ultimas experiências na Hungria ganharam o coração dela. Ela nunca tinha estado tão feliz como naquele momento e toda a expectativa do que estava por vir a faziam sentir ainda mais euforia. Depois de mais de uma hora refazendo seus caminhos percorridos e projetando os caminhos do futuro, ela finalmente dormiu.

Ana acordou sem se lembrar onde estava. Tentando reconhecer o ambiente. A exaustão a tinha feito dormir muito bem. Em segundos estava localizada e uma lenta de demorada espreguiçada a deixaram pronta para levantar da cama. Sua mãe já não estava mais lá e ela não tinha ideia de que horas eram. Antes de se levantar resolveu dar uma olhada na caixa de emails através do seu celular.

Em meio a varias propagandas de coisas que ela não queria comprar ela encontrou um email de Lara:

“Ana, você foi embora hoje e já estou morrendo de saudades. Parece que você viajou há anos. A boa notícia é que em 20 dias estarei aí. Eu e o Caíque faremos aquela viagem que ele me deu no meu aniversário e nossa primeira parada será a Hungria. Espero que esteja amando tudo por aí! Te amo, Lara.”

Ela respondeu feliz o email de Lara:

“Cabeça, estou amando tudo por aqui. Seguem algumas fotos que ilustram bem o que foi o meu primeiro dia aqui. Também estou morrendo de saudades. Melhor amiga, você faz muita falta. Vou contar os dias para a chegada de vocês. Amo você, Cabeça! Beijos, Ana.”

Mais algumas propagandas e de repente um email que fez o coração de Ana parar de bater. Era do Michel.

“Olá Ana, espero que tudo esteja indo muito bem por aí. Por aqui tudo meio sem graça desde que você foi embora. Tenho uma novidade. A revista com sua capa está pronta. Quero te enviar um exemplar. Você merece! Me passe seu endereço. Na foto já pode ver o resultado, até que ela chegue aí. Siga aproveitando muito por aí. Um beijo, Michel.”

Ana não conseguia respirar. Ela se dizia imune, mas ele ainda a deixava completamente descontrolada. Seu coração ainda disparava só com a expectativa do conteúdo da mensagem dele. Ela abriu o arquivo anexo para ver a foto. Era uma foto dele segurando a revista com a matéria de capa dela. Ela amava ver aquela edição ali impressa, mas seus olhos insistiam em analisar cada detalhe do rosto dele. “Ah esse homem. O que eu faço com o que sinto por ele? O que eu faço meu Deus?” Perguntava para si mesma enquanto tentava controlar o seu coração.

Como sempre pensou em mil coisas para responder para ele e começou a responder a mensagem, mas se deu conta de que não tinha o endereço da casa onde estava hospedada. Por isso, salvou o começo da resposta em um rascunho e foi tomar café da manhã.

Foi pisando em nuvens para a cozinha e encontrou a mãe conversando com a prima. Elas pareciam se divertir enquanto tomavam café. O cheiro da casa era de café coado misturado a bolo recém assado no forno. Aquela cena provocava seus sentidos e deixava tudo ainda mais poético.

– Bom dia! Disse Ana em húngaro.

– Bom dia! Responderam Ilonka e Agnes ao mesmo tempo.

– Mãe, preciso do endereço daqui. Uma pessoa da revista vai me enviar o exemplar impresso que tem a minha matéria na capa.

– Claro minha filha. Tome. Disse mãe anotando o endereço em um papel.

Ana terminou seu café e foi terminar sua resposta para Michel.

“Oi Michel, Por aqui tudo indo incrivelmente bem. Espero que por aí também. Estou enfim descobrindo um mundo que sempre existiu em meus sonhos. Obrigada pela lembrança. Estou feliz e orgulhosa por essa capa. Irei esperar muito ansiosa pela chegada dela. Segue endereço anexo. Espero que tudo de certo por aí. Beijo enorme, Ana.”

Ela apertou enviar e ficou estática olhando para a tela esperando que uma resposta chegasse instantaneamente. Ela esperou alguns minutos, até que desistiu de esperar ao ser chamada pela mãe.

– Vamos começar a nos arrumar. Combinei de sair às 5 da tarde para o nosso jantar. Então nosso dia será curto. Quer tomar banho?

– Vou! E museus demandam tempo. Vou me apressar mãe. Respondeu Ana e correu para tomar banho.

Logo elas saíram. O dia estava muito quente e o céu muito azul, sem nenhuma nuvem. A poesia continuava se apresentando ao olhar de Ana. Elas chegaram ao Museu Nacional Húngaro e passaram o dia ali dentro. Ana se deliciava com tanta história. No final do dia voltaram para casa sem pressa. Tomaram sorvete às margens do Rio Danúbio e voltaram para casa caminhando.

Se arrumaram para o jantar que aconteceria em homenagem a elas. Ilonka estava mais bonita do que nunca. Parecia ter um novo brilho no olhar dela.

Elas chegaram ao restaurante que pertencia à família e tinha uma enorme mesa na varanda cercada de flores e iluminada com luzes de velas. Assim que entraram foram recebidas por ciganos animados tocando e cantando para elas. De repente a cena ficou em câmera lenta. Ana viu sua mãe paralisada ao olhar para um homem que parecia também estar hipnotizado por ela.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 15 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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