Capítulo 01 – A travessia

“O ano era 1959. Havia tido uma revolução na Hungria e muitos húngaros fugiam da comunismo para tentar uma vida melhor em outros países. Com a nossa família não foi diferente. De repente, por problemas políticos do país tivemos que abandonar tudo.

O dia ainda nem tinha amanhecido e fomos acordados pelo papai nos pedindo para ir rápido. Eu não conseguia registrar muito bem o que acontecia porque eu tinha apenas 8 anos, mas me lembro de algumas coisas. Uma das coisas mais marcantes foi o rosto de minha mãe cheio de lágrimas. Ela estava deixando para trás toda a vida que tinha construído até ali e hoje eu consigo entender perfeitamente o que ela sentia.

Naquela madrugada abandonamos nossa casa, levando algumas peças de roupas e as imagens de santos penduradas no pescoço, representando nossa fé de que tudo daria certo. Deixamos roupas, móveis e nossa casa para trás, perseguindo um destino totalmente incerto e um caminho desconhecido que até aquele momento não tínhamos ideia de quão longo seria.

Nós fugíamos do comunismo e da miséria implacável que batia à nossa porta. Viajávamos clandestinos na esperança de imigrar em algum país e recomeçar. Nossa vida até ali parecia boa. Não nos faltava nada. Apesar de muito nova, me lembro vagamente das mesas fartas e das muitas horas que os adultos ficavam sem fazer nada em volta dela enquanto as crianças brincavam. Eu não entendia muito bem que graça os adultos viam nisso. Hoje acho que era por causa do vinho.

Assim que saímos de casa, um homem nos conduziu pelas ruas de Budapeste ainda era madrugada e nos acompanhavam outras dezenas de famílias. De repente éramos uma multidão andando pelas ruas que já não conseguia parecer muito despercebia. E nesse momento o papai pediu que parássemos um pouco para nos separarmos de tantas pessoas e ficarmos o máximo invisível quanto fosse possível. Fazia muito frio e nevava muito. Andávamos com neve nos tornozelos. O inverno naquele ano tinha sido muito rigoroso e tudo parecia contribuir para levar mais drama para a situação que vivíamos naquela noite. Quando voltamos a caminhar, o homem que nos conduzia nos pedia para ir depressa e fazer silencio e meu pai reforçava o pedido dele, eles estavam preocupados que o dia amanhecesse e impedisse nossa travessia. Me lembro do meu pai nos pedindo para andar mais rápido, com medo nos olhos.

Num determinado momento, em que aquele caminho parecia interminável, depois de andarmos pouco mais de 2 horas a pé e mais uma hora de carro, finalmente chegamos na fronteira com a Iugoslávia. Quando estávamos bem perto, uma ronda policial nos fez voltar e buscar um lugar para nos esconder. Ficamos escondidos por mais ou menos 30 minutos. Quando fizemos uma segunda tentativa, mais uma ronda nos surpreendeu, dessa vez eram comunistas. Algumas famílias foram presas e nós conseguimos voltar e nos esconder mais uma vez. A tempestade de neve aumentou e o frio era insuportável. Para piorar ainda mais o cenário, o dia começava a amanhecer. O homem que nos conduzia nos avisou que seria a última tentativa naquele dia, e já com o dia clareando finalmente conseguimos atravessar a fronteira. Parte da nossa liberdade estava conquistada.

Minha mãe chorava e meu pai não dizia uma única palavra. Aquela foi a noite mais longa e fria da minha vida.

Assim que atravessamos a fronteira, um outro homem apareceu e nos entregou nécessaires com escova e pasta de dente. Eu pensava que pegaríamos um navio naquele dia, mas o nosso destino final foi um alojamento junto com muitas outras famílias.

Ficamos nesse alojamento por vários dias, por quase 1 mês, onde muitas pessoas chegavam. Até que finalmente recebemos uma carta de chamada do Brasil onde uma irmã da minha mãe já vivia depois de ter saído da Hungria e vivido em Paris por alguns anos. Nós éramos privilegiados, pois já sabíamos para onde ir. Muitos ali alojados não faziam ideia de qual seria o destino deles.

Finalmente o dia de viajar ao Brasil chegou e fomos para a Itália, a viagem foi longa. Atravessamos a Iugoslávia de trem. Na Itália viajamos até Genova e finalmente, de lá embarcamos em um navio chamado Bretagne rumo à nossa nova casa. Naquela noite não consegui dormir e vi o sol nascer no oceano. No meio de tanta tristeza, aquela cena parecia ainda mais bonita e poética. Foi o momento que vimos alguma beleza e falamos com Deus no meio de tanta tristeza. De alguma maneira, aquele nascer do sol nos dava uma nova chance. Apesar de eu ter apenas 8 anos, me lembro com precisão do que via e do que sentia naquele momento.

Os rostos cheios de lágrimas dos meus pais já carregavam em sua expressão um certo alívio. Parecia que enfim nós teríamos a chance de começar de novo.

Foram muitos dias viajando. Mas a cada dia que nascia, crescia em nós a esperança de que conseguiríamos concluir aquela travessia. O comunismo ficava para trás. A miséria, a instabilidade econômica e o medo ficavam para trás, dando lugar para a esperança de uma vida melhor.

Até que finalmente, depois de 15 dias navegando, chegamos ao Brasil. Quando desembarcamos minha tia nos recebeu e nos conduziu para a casa que já estava alugada. Como minha tia já vivia no Brasil, tivemos muita sorte de obter seu apoio para chegarmos com uma bela estrutura. Os desafios estavam só começando. Eu não tinha amigos e fiquei alguns meses sem ir à escola. Eu não compreendia nada do que as pessoas diziam e levei um tempo para aprender o português. Mas a vida é bela demais e acabei me adaptando muito bem à nova vida. Logo fui para escola, logo aprendi português, logo eu já amava o calor e logo eu parecia pertencer àquele novo lugar. E não tão logo, conheci o seu pai no colégio, quando eu tinha 15 anos e logo começamos a namorar e nos casamos.

Nunca mais voltei para a Hungria. Nunca mais falei com ninguém da minha família. Muitas pessoas se nacionalizaram em outras nacionalidade para voltar para lá e ver a família, porque essa era a única forma de retornar à Hungria antes da queda do muro de Berlim. Eu sempre fui húngara, não me nacionalizei e acabei não voltando mais.

Depois da queda do muro de Berlim as coisas melhoraram e eu poderia ter voltado, mas eu já não sabia se queria voltar. As lembranças não eram boas. E também já tinha você e aconteceu a separação do seu pai, tive que aprender uma profissão aos 40 anos e depois disso você sabe.”

– Obrigada por contar de novo, pela milionésima vez, essa história. Disse Ana para a mãe, encantada.

– Filha, eu conto com o maior prazer e fico feliz com a sua curiosidade em relação à essa história.

– Mãe, quando vamos para a Hungria? Quero conhecer esses lugares. Quero conhecer essa parte da minha história. Quero conhecer minha família. Por favor mãe! Vamos.

– Filha, isso tudo é tão complicado. Mas vou tentar. Preciso resgatar o contato com as pessoas da família e não acredito que vá ser simples. De repente esse será o seu presente de formatura! Você pega o seu diploma de história e nós passamos juntas um tempo na Hungria onde vou te levar conhecer pessoalmente todas as partes dessa história de que você gosta tanto.

– Promete mãe?

– Prometo! Esse será o meu presente de formatura para você.

– Você não poderia ter acertado mais no presente. Empolgou-se Ana e foi abraçar a mãe.

– Agora vamos dormir. Está tarde. E para valer o presente você precisa se formar. Precisa se dedicar agora na reta final.

– Está certa. Boa noite mãe. Vou sonhar com isso. Disse Ana se levantando da mesa onde tinham passado várias horas enquanto terminavam de jantar e bebiam vinho.

– Durma bem minha filha. Em seis meses faremos a travessia de volta.

– Não vejo a hora.

– Nem eu minha filha.

– Onde mora o seu coração mãe? Perguntou Ana interrompendo seu caminho para a cama e surpreendendo a mãe completamente.

– Minha filha! Aqui com certeza. E o seu? Retrucou a mãe.

– Eu já não tenho essa certeza. Respondeu Ana.

Ao contrário de tudo que esperava, a mãe de Ana estava de fato muito animada para enfim fazer essa travessia de volta e pensava ter certeza sobre onde mesmo estaria o seu coração.

CONTINUA…

O 2º CAPÍTULO SERÁ PUBLICADO NA PROXIMA SEXTA-FEIRA

 

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