Capítulo 04 – Passagem só de ida

Assim que acordou, Ana teve o capítulo da noite anterior se reapresentando na sua cabeça. Ela sentia angustia ao lembrar da situação estranha que poderia ter se estabelecido em sua conversa esquisita e quase beijo com Alex. As lembranças dos beijos no Deus grego, de quem ela nem soube o nome, que a deixou para beijar outra e ainda a procurou depois, como se nada tivesse acontecido, até a fizeram rir sozinha, mas o bêbado que foi falar com ela depois de ter acabo de vomitar tirou o sorriso de sua boca.

Os pensamentos sobre tudo que tinha acontecido na noite anterior a paralisaram na cama e apesar do dia importante que teria, ela resolveu que não iria na faculdade. Mais do que o cansaço a vergonha que sentia de Alex a fazia adiar o quanto pudesse o encontro com ele.

Ela ficou ali na cama, na mesma posição, e a Hungria tomou conta de seus pensamentos e seu coração. De repente uma paz enorme se instaurou nela e ela tinha certeza absoluta de que tudo daria certo. Algo a dizia que seu coração morava lá e que insistir em qualquer coisa diferente disso era total perda de tempo. Não resolvia seus problemas atuais para encontrar o amor, mas lhe traziam um tremendo alívio.

Seu coração voltava a bater em um ritmo normal quando seu celular tocou a tirando de seus devaneios.

– Oi Lara! Disse Ana quando atendeu o telefone.

– Cabeçaaaaaa, cadê você que ainda não está aqui na faculdade? Perguntou empolgada.

– Lara, acordei tão cansada, que resolvi não ir para a faculdade.

– Hoje tem entrega de trabalho!

– Eu entrego em um outro dia.

– Amiga! Está maluca? Está valendo nossa formatura. Vou ver com o professor se você pode enviar por email. Digo que teve um problema pessoal. Quer?

– Boa ideia Cabeça! Fiz o trabalho. Só não consegui levantar da cama para ir entregar. Fala com ele por favor, que envio assim que ele der o ok. Que alívio você ter me dado essa ideia. Mil vezes obrigada.

– De nada Cabeça. Vou falar com ele e te aviso. Agora mudando de assunto. O que aconteceu ontem? Você desapareceu. Te procurei por todo canto. Perguntou Lara realmente curiosa.

– Ai Lara… a noite foi toda errada. Toda, toda errada, mesmo.

– Mas o que houve?

– Te conto depois. Não quero falar disso agora. Nada demais, de verdade. Agora me fala de você e dos beijos com o Caíque! Pediu Ana, realmente interessada, mas querendo mudar de assunto.

– Cabeça!!!! Dormi na casa dele. Ele mora em um apartamento incrível do lado da faculdade. Disse empolgada.

Ao contrário de Ana, que estava esperando a pessoa certa e o momento especial para perder a virgindade, Lara não tinha problema nenhum em dormir com um cara que gostou, mesmo que estivesse saindo com ele pela primeira vez. E ela levava o assunto numa boa. Não esperava compromisso. Não esperava nada. Ela queria apenas se divertir.

– Cabeça, não acredito. Queria viver um milésimo da vida emocionante que você vive. E aí? Foi legal? Ele é… bom de cama?

– Foi maravilho. Acho que foi o melhor sexo da minha vida.

– Nossa Lara! Parece até que dessa vez foi diferente. Vão sair de novo?

– Ah sei lá Ana! Não estou pensando muito nisso. Quero viver um dia de cada vez e ficar aproveitando hoje as lembranças da noite de ontem.

– Ah amiga! Tudo para você parece tão simples.

– Tudo é simples Ana. As pessoas que complicam. Você precisa se divertir mais. Daqui a pouco começa a namorar e não aproveitou nada. Promete que vai se preocupar menos e aproveitar mais?

– Prometo.

– E o Alex?

– Assunto proibido. Faz parte dos assuntos de ontem dos quais não gostaria de falar.

– Amiga, vocês são amigos.

– Eu sei Lara, mas de verdade, não quero pensar nisso agora, por…

– Ah meu Deus! O Caíque… Disse Lara interrompendo Ana.

– Nossa amiga suspirando pelo Caíque?

– Não exatamente! Ele está vindo. O que eu faço?

– Lara está apaixonada! Nunca ficou assim sem saber o que fazer antes.

– Não fala bobagem! Vou desligar.

– Ok! Não esquece de falar do meu trabalho com o professor.

– Ok! Beijos. Disse Lara com a respiração ofegante e desligou o telefone.

Ana seguia na cama e agora com muito mais o que pensar. “Meu Deus, como a Lara parece ser mais feliz do que eu. Por que eu me preocupo tanto com tudo? Preciso me preocupar menos!” Dizia para si mesmo quando acabou pegando no sono.

Ela dormiu por mais 1 hora e acordou com o telefone apitando pela chegada de mensagens.

Era de Lara:

“Cabeça, está com sorte. O professor disse que você pode enviar por email. Mas agora!  miguelprof@xxxx.com.br.”

E Ana respondeu aliviada:

“Que bom! Obrigada Cabeça! Vou enviar agora.”

“E como foi o encontro com o Caíque?”

Ela respondeu na mesma hora:

“Foi tão bom que resultou num jantar. Vamos sair para jantar hoje.”

Ana se sentiu feliz pela amiga.

“Não acredito! 2º encontro? Gostou dele mesmo!”

Lara não respondeu mais e Ana acabou reunindo forças para levantar da cama e ir enviar seu trabalho por email para o professor. Ela não queria perder essa chance de ouro que tinha conseguido por pura sorte.

Ela tinha acabado de enviar o email quando seu celular começou a tocar. Ela correu na expectativa de ser Lara e ter mais informações sobre os novos sentimentos da amiga.

Quando pegou o telefone viu que era Alex ligando.

– Oi Alex. Ela disse ao atender.

– Oi Ana, tudo bem?

– Sim! E você?

– Tudo bem também. Por que você não veio para a aula?

Ana pensou em falar um monte de bobagens para ele e deixa-lo carregar um pouco da culpa por ela ter se sentido tão rejeitada na noite anterior. Mas lembrou do quanto eram amigos e do quanto gostava dele e por isso resolveu voltar a ser mesma pessoa de sempre. A mulher divertida que sempre dizia algo engraçado. E respondeu:

– Ah Alex. Estou me recuperando da noite anterior. Foram muitas emoções.

– Sério? Disse ele. – Está chateada comigo? Não veio por minha causa?

– Alex! Estou brincando. A noite ontem foi bem estranha, mas não fui porque estou cansada. Se tivesse ido, não conseguiria ir trabalhar hoje à tarde.

– A noite foi bem estranha mesmo. Cheguei a acreditar que você estava considerando ficar comigo, mas fui todo errado na forma como te tratei ontem. Desculpa.

– Alex, eu também falei bobagens. E achei até charmoso. Vamos fingir que nada aconteceu e vamos voltar para a vida um do outro como sempre estivemos?

– Acho uma boa ideia. Achei que ia perder minha melhor amiga.

– Nunca Alex. Mas por hora… acho que vai perder.

– Por que?

– Preciso tomar banho para ir trabalhar.

– Assim sim! Vai lá. Fiquei feliz por estar tudo bem.

– Eu também. Beijo Alex.

– Beijo Ana.

Ana se sentia aliviada quando desligou o telefone. No fundo do coração tinha uma ponta de angústia pelo que havia acontecido entre ela e Alex e estar numa boa com seu amigo levou parte do peso de seu coração. E assim, se sentindo mais leve, foi tomar banho para ir trabalhar.

Ela saiu apressada. A manhã preguiçosa tinha atrasado toda a sua rotina e não conseguiu comer. Levou apenas uma maçã.

O dia seguiu arrastado e ela tinha dificuldade de se concentrar em qualquer coisa. A cada dia, mais se sentia um peixe fora d’água naquele ambiente tão formal.

Ela participava de uma reunião de pauta que parecia interminável quando se perdeu em seus pensamentos:

“Gente, como aguentei trabalhar aqui mais de 1 ano? Essas pessoas não tem nada a ver comigo. As roupas dessas pessoas. A falta de brilho nos olhos delas. A forma como elas pensam. A forma como pareço errada ao fazer um comentário para descontrair o clima. Acho que estive muda nos últimos meses. Aliás onde eu estava nos últimos meses?”

E nesse momento seus pensamentos foram interrompidos pelo celular que vibrava anunciando uma mensagem.

“Oi filha, que tal pipoca e filme hoje? Saudades da minha filhota. Li um texto sobre maternidade e senti ainda mais saudades de você.”

“Que delícia de convite. Saudades de você também mãe. E hoje pode escolher o filme.”

“Acho que podemos abrir uma garrafa de vinho especial hoje. Que tal?”

“Um dos vinhos húngaros?”

“Sim”

“:)”

“Até mais tarde. Beijos filha.”

“Beijos mãe.”

Ana sentia uma enorme felicidade percorrer seu corpo. Ela amava muito a sua mãe e suas noites juntas… e o vinho húngaro.

“A felicidade mora logo ali. A gente que complica.” Pensava ela quando foi interrompida pela chefe:

– Ana, está parecendo tão distante. Tudo bem?

– Sim, Cris. Tudo bem?

– Fico feliz. Então gostaria que nos propusesse uma pauta mais ligada às mudanças de comportamento que a evolução trouxe para os seres humanos. Pediu a chefe, desafiando Ana.

A pergunta parecia tratar de algo realmente difícil de entender. E por um instante um tremendo pânico tomou conta de todo o seu corpo. Porém de repente tudo fez sentido, quando ela conectou a pergunta com sua reflexão sobre a felicidade.

– Acho que deveríamos tentar trazer o conceito de felicidade nesse contexto de evolução. Enquanto a humanidade evoluía a relação com felicidade foi mudando de acordo as novas necessidades que surgiram. Felicidade é um tema que sempre será atual, mas conceitualmente sempre mudou muito. Acho que deveríamos ir por esse caminho. O da felicidade.

– Uau! Disse Cris, realmente surpresa. – Acho que pode ser um assunto interessante.

– Digo mais. E perdoe te interromper. Disse Michel o chefe de edição da revista. – Acho tão interessante que poderia ser uma matéria de capa. O que acha Ana?

Michel era o editor da revista e tinha conseguido o cargo recentemente depois de uma contratação que envolveu muito dinheiro para tirá-lo de uma revista concorrente. Ele tinha apenas 31 anos e era um dos editores mais reconhecidos do mercado. Era descontraído e parecia um pouco diferente de todos que há tempos estavam ali. Ele tinha projetos de levar a revista para a era digital e também de tornar seu conteúdo mais jovem sem perder a seriedade. Ele era extremamente charmoso. Moreno, com cabelos impecáveis, camisas sempre bem passadas e tinha nos óculos seu acessório de moda e marca registrada, pois usava um mais estiloso que o outro. Tinha terminado um noivado recentemente porque a noiva foi morar na Nova Zelandia e ele priorizou a carreira. Desde que tinha chegado, as mulheres, que eram a maioria, tinham até comprado roupas novas na esperança de ganhar um olhar dele. Ele parecia um ancora de jornal. Falava com propriedade e a roquidão de sua voz contribuía para que ele parecesse ainda mais charmoso.

“O que acho? Nunca tinha reparado que você é tão charmoso.” Pensava Ana pega de surpresa com a pergunta dele.

– Eu acho maravilhoso! Disse ela, sem pensar, aquilo que veio do coração.

– Eu também acho maravilhoso. Respondeu ele, achando Ana muito espontânea e divertida. – Com isso acho que encerramos né? Ele concluiu se dirigindo a todos.

A cara da chefe da Ana não era de bons amigos, apesar de ter conseguido emplacar uma capa com a ideia da funcionária. E ela saiu emburrada, sem dizer uma palavra.

– O que está acontecendo com ela? Perguntou Ana para Kate, uma outra estagiária.

– Acho que está com ciúmes.

– Eu hein. Mal sabe ela que não quero de jeito nenhum o cargo que é dela. Ana concluiu e a duas caíram na risada.

– Eu não estava falando exatamente de trabalho. Disse Kate.

– Do que falava?

– Ele parece estar a fim de você.

– Está louca? Respondeu Ana. E mais uma vez as duas caíram na gargalhada.

Ana foi para a sua mesa caminhando em nuvens. Já se sentia feliz com os bons acontecimentos do dia e aquela reunião a fez se sentir ainda mais feliz.

Ela desligou o computador e deixou um bilhete para a chefe dizendo que tinha ido embora.

Quando chegou em casa, sua mãe já esperava e assim que viu Ana correu na direção dela com duas taças de vinho.

– Oi filha! Tim tim. Disse a mãe propondo um brinde.

– Oi mãe! Disse Ana provando o vinho. – Hum é o do rótulo laranja. Meu preferido. Comentou feliz ao provar o vinho.

– A ocasião merece. Disse Ilonka empolgada mostrando as passagens só de ida para Hungria.

– Não acredito! É real. E quando voltamos?

– Quando quisermos!

– Como assim? E o seu trabalho?

– Pedi uma licença de 1 ano e a empresa aceitou!

– Mãe que coisa incrível. Nem sei o que te dizer. Estou eufórica. Passagem só de ida?

– Minha filha, há anos eu escrevi algumas coisas que gostaria de fazer na minha vida. E essa era uma delas. Achei que era o momento.

– Você é muito maravilhosa. Estou eufórica. Gritava Ana enquanto virava todo vinho da sua taça.

– A vida que é maravilhosa. Não podemos perder mais tempo. Viajamos dia 01/07, no dia seguinte do seu último da de aula. E vamos conhecer muitos lugares. Talvez eu de uma volta ao mundo. Nunca é tarde.

– Mãe! Você tem razão. Nunca é tarde.

– Adiei demais isso. Agora não quero mais perder tempo.

– Agora só te falta um novo amor mãe.

– Ah minha filha. Isso talvez seja em um outro capítulo.

– Acho que você deveria se abrir mais para isso.

– Acho que devemos encher nossas taças de vinho. Disse a mãe mudando de assunto.

– Acho que você está certa. Concordou Ana optando por manter o clima leve.

Enquanto a mãe enchia as taças, um único pensamento tomava conta de Ana.

“Viagem marcada para a Hungria. E com passagem só de ida. Que sorte a minha.”

CONTINUA…

O CAPÍTULO 05 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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