Capítulo 09 – Coração cheio de pontos de interrogação

Enquanto se beijavam, Ana sentia seus pés deixarem de tocar o chão. Michel começava a exercer um enorme poder sobre ela e isso a fazia não querer que aquele beijo terminasse apesar do medo que sentia de serem pegos por alguém ali.

– Acho que agora podemos voltar para a mesa. Disse Michel quando pararam de se beijar.

– Acho que sim. Respondeu Ana simplesmente, tentando retomar o ar.

– Vá indo na frente e chego depois. Sugeriu ele.

E Ana foi embora para a mesa se sentindo zonza com tudo aquilo.

– Nossa! Você demorou! Está tudo bem? Disse Cris quando ela chegou.

– Tudo bem. Tinha fila no banheiro. Disse Ana, já se arrependendo, ao olhar em volta e ver o bar ainda vazio.

– E o Michel? Não encontrou ele?

– Não.

– Se ele demorar mais 5 minutos vou atrás dele. Concluiu Cris.

Elas convesavam sobre amenidades quando foram interrompidos por Marcio.

– Olá Cris! Tudo bem? Aceitam mais uma companhia? Perguntou ele.

– Claro chefe! Sente-se com a gente. O Michel está aqui também.

– Que legal. Estou precisando de um drink, Tive um dia complicado hoje.

– Problemas na revista? Perguntou Cris um pouco aflita.

E nesse momento Ana se sentia uma planta. Ela não tinha nada a ver com aquelas pessoas. Nem idade, nem cargo, nem interesses e nem qualquer outra coisa.

– Nada com o que se preocupar Cris. Mas obrigada pela preocupação. E você? Quem é? Perguntou Marcio se dirigindo à Ana.

– Que mal educada eu fui! Essa é a Ana. É nossa estagiária. Ana, esse é o Marcio, o CEO da revista.

– Muito prazer Ana. É sempre bom ter gente jovem como você por perto.

– O prazer é meu. Respondeu Ana.

Nesse momento Michel chegou.

– Marcião! Que legal te-lo conosco.

– Michel, foi uma grata surpresa encontrá-los. Eu estava mesmo precisando de um drink e de uma boa conversa.

A conversa começou leve, mas em poucos minutos estava totalmente focada em trabalho e nos problemas da revista. Ana pouco falava e não era parte da conversa. Nem Cris e nem Michel faziam questão de colocá-la na conversa porque estavam aproveitando o momento com o chefe. Ela tentava acompanhar, mas aquilo era tão chato que a fez desistir de qualquer aproximação e assim, acabou se perdendo em seus pensamentos. “Acabamos de nos beijar e parece que nada aconteceu. Não entendo as atitudes do Michel. Mas o que eu queria? Que ele chegasse aqui e pegasse na minha mão? Que passasse o braço por trás do meu ombro? Que me desse beijinhos carionhosos na boca? Mas essa frieza toda é demais! E esse idioma que eles estão falando? Até quando não falam de trabalho, não consigo acompanhar. Acho que preciso começar a estudar Filosofia ou Geopolitica. Aliás, acho mesmo que preciso ir embora. Acho que se eu sair sem dizer nada, ninguem vai perceber que fui embora. Mas é claro que não posso simplesmente levantar e sair. Mas como interromper para me despedir?” E de repente Michel a salvou:

– Acho que o papo está deixando a Ana um pouco entendiada.

– Somos gente velha. Brincou o Marcio. – Você tem razão. Acho que devemos parar de falar de trabalho.

– Vamos pedir outra rodada de drinks e comemorar pelo que está por vir. Sugeriu Michel. E deu uma piscada sexy para a Ana.

– Adorei a proposta de matéria de capa da Cris. Seu time está de parabens. Disse Marcio para Michel.

Michel se surpreendeu por ele pensar que a ideia tinha sido dela e não de Ana. Pensou em corrigir a injustiça, mas não quis expor a Cris. Preferiu correr o risco de ser injusto com Ana.

Ana se surpreendeu com tudo, se decepcionou, mas depois de tudo que tinha visto naquela noite preferiu deixar para lá. E a piscada sexy que tinha acabado de ganhar acabou ganhando mais espaço do que todo o resto.

– Eu agradeço a oportunidade e o drink, mas preciso ir. Disse Ana, aproveitando o momento para se despedir. – Tenho prova amanhã.

– Claro! Disse Cris mais feliz do que queria parecer. – Você é tão madura, que às vezes esquecemos que ainda é uma menina na faculdade.

– Que gentil. Disse Ana espumando de raiva.

– Como você vai embora? Se preocupou Michel.

– Estou de carro. Até amanhã pessoal. Falou Ana se levantando e saindo apressada.

– Até amanhã Ana. Disse Michel depois que ela já tinha se virado.

Ana caminhava com raiva e sentia uma tremenda vontade de chorar. Ela estava muito triste com a forma que Michel tinha a tratado naquela noite. Ela entendia a situação corporativa, mas seu coração não.

Ana ia repassando a tragédia da noite na cabeça e já estava chegando em casa quando seu celular anunciou a chegada de uma nova mensagem. Quando ela pegou, viu que era de Michel.

“A noite foi muito estranha… e bem diferente do que eu tinha planejado. Era para ter sido só nós dois, mas tudo saiu dos trilhos. Espero que me desculpe. Estou querendo mais, depois daquele beijo. Durma bem.”

Ana não sabia o que pensar ou o que responder para ele. E pela primeira vez, desde que aquela avalanche tinha começado, ela sentia sua autoestima realmente abalada, então preferiu não responder, apesar do turbilhão de sentimentos que passavam por ela. Apesar da ternura que parecia fazer parte da mensagem dele.

“Apenas palavras bonitas para me convencer que ele não é um cafajeste. E ele é bom com palavras. Estão faltando atitudes.” Pensava ela enquanto tomava coragem para sair do seu carro que estava estacionado na garagem há alguns minutos, enquanto ela decidia o que fazer.

Seguiu determinada a não responder. Silêncio era tudo o que ele precisava, concluia ela.

Mesmo toda a determinação para retomar sua autoestima não fazia o coração dela ficar em paz e por isso toda a sua rotina antes de dormir parecia ser mais lenta e pesada do que o normal.

A noite finalmente terminou e o dia amanheceu ensolarado mostrando que aquela tinha sido apenas uma noite ruim, apesar do beijo de perder fôlego e das promessas da noite anterior. E assim, Ana seguiu com sua rotina, determinda a gostar mais de si mesma, se dar mais valor e ignorar a presença de Michel na sua vida.

Ela foi para a faculdade e pela primeira vez em dias conseguiu se dedicar ao que acontecia ali. Ir para o trabalho foi forçadamente algo normal e quando chegou procurou notícias sobre sua matéria de capa que tinha sido entregue na noita anterior. Ela estava decidida a olhar apenas para o lado brilhante da vida. Mas ninguem tinha notícias ainda. O comitê que aprovava as pautas ainda estava acontecendo.

Ana se sentia ansiosa, porque por mais que não tivesse grandes expectativas sobre a sua carreira ali, a possibilidade de ter uma matéria na capa de uma revista tão importante a faziam se importar como nunca tinha feito antes.

Depois de alguns cafés e milhares de atualizações em sua caixa de emails finalmente a sua chefe apareceu, mais feliz que de costume, indo direto para a mesa da Ana.

– Olá Ana! Sua matéria foi aprovada. Somos a capa da próxima edição da nossa revista.

– Que legal! Fico muito feliz.

– Deveria mesmo! Vou sair com Michel para uma reunião e não volto mais hoje. Tire o dia de folga! Você merece. Disse Cris, já saindo e indo em direção à sua sala, sem esperar qualquer resposta de Ana.

“Que vacaaaaaaa! Nossa matéria???? Essa mulher não fez nada para essa matária acontecer. E essa reunião com Michel? E essa felicidade toda estampada no rosto dela? Que odioooooo. E o meu reconhecimento? Para que? A matéria é dela afinal.” Pensava Ana quando foi interrompida por Kate:

– Vamos tomar um café? Vamos comemorar sua capa.

– Não tão minha né?

– Para de bobagem! Todos sabem que é sua.

– De repente nem eu acredito mais que é realmente minha.

– Ahhhh! Vamos para o café Ana.

– Vamos Kate. Mas de verdade, não estou gostando da postura dela.

– Se ela já andava insuportável, imagine agora que trocou beijos com o chefe. Disse Kate.

– C-O-M-O A-S-S-I-M, T-R-O-C-O-U B-E-I-J-O-S C-O-M O C-H-E-F-E? Ana perguntou em caixa alta, totalmente alterada. Porque de repente o problema de autoria da capa deixava de existir e ela só conseguia se preocupar com o envolvimento de Cris com o Michel dela.

– Eu sabia que você gostava de uma fofoca. Brincou Kate.

– Vamos Kate, me conte. A Cris ficou com o Michel??

– Olha não se sabe exatamente, mas isso é tudo o que comentaram por aqui hoje. A Cris chegou aqui toda feliz hoje e começaram a dizer que ontem, depois de um happy hour que tiveram, eles ficaram juntos. Todos estão dizendo que ela foi a 3ª vítima dele. Você estava lá, não estava? Percebeu algo?

– Não percebi nada. Respondeu Ana confusa e arrasada.

– Bom… onde tem fumaça, tem fogo. E hoje a tarde saíram juntos depois do comitê. Aí tem coisa! Concluiu Kate. – Mas, vamos deixar eles para lá e vamos comemorar essa capa. Você é uma estagiária do tipo “excede” amiga.

– Para de bobagem. Disse Ana querendo parecer mais animada do que realmente estava se sentindo.  Naquele instante seu coração se partia em 1000 pedaços.

Elas terminaram o café e Ana voltou para a sua mesa se sentindo derrotada. O Michel tinha roubado e partido seu coração em pouquissimos dias. Logo o coração dela, que parecia tão racional e tão imune às insanidades que uma paixão pode causar. Logo o coração dela que tinha esperado tanto pelo momento certo.

Ela terminou seu dia com uma sensação de amargor na boca que jamais tinha sentido na vida. Ela pensava em enviar uma mensagem para ele cobrando satisfações, mas não estava ainda tão irracional a ponto de cometer uma loucura dessas.

O caminho para casa nunca tinha sido tão longo e por mais que tentasse pensar em outras coisas, Michel e todos os momentos que tinham vivido juntos tomavam conta de tudo e Ana não conseguia entender como seu cerebro poderia ser tão irracional versus todas as verdades que tinham se apresentado recentemente.

Ela já chegava em casa quando seu celular anunciou a chegada de uma mensagem de Michel.

“Sua capa foi aprovada hoje. Parabéns.”

Ela sentia vontade de gritar, de ligar para ele falando um monte de bobagens, mas respondeu simplesmente:

“Obrigada.”

“O que houve?”

“Nada”

“Não parece. Nunca te vi assim tão séria.”

“Acho que nunca me viu de fato.”

“Vi sim! Você nem imagina o quanto.”

“Acho que você tem distrações demais, para ter me visto tão bem como você fala.”

“Acho você divertida.”

“Acho que está tentando me distrair.”

“Consegui?”

“Quase”

“Posso passar na sua casa?”

“Agora?”

“Só a expectativa já me pôs no caminho da sua casa.”

“Então vem. Quem sou eu para te desviar do caminho?”

“Você já fez isso.”

Ana estava sem ar. E já não sabia o que responder para ele. O coração dela estava acelerado e ela mal conseguia respirar. O Michel estava indo para a casa dela. E ao contrário de tudo que a racionalidade pedia naquele momento, mesmo depois de tudo que ela tinha ouvido naquele dia e da desconfiança de que há poucos minutos ele estava com outra mulher, tudo o que ela desejava era que ele chegasse logo.

Ela se apressou em tomar um banho e escolher uma roupa especial. Enquanto passava seu perfume preferido, seu celular apitou anunciando a chegada de Michel.

Ela descia em expectativa no elevador enquanto tentava inultimente pensar no que falaria para ele.

– Oi. Disse ela entrando no carro dele.

– Ainda bem que você aceitou me encontrar. Temos trabalhos a terminar.

– Onde vamos? Talvez eu não esteja vestida adequadamente.

– Acho que não precisaremos de roupas. Disse Michel maliciosamente.

– Fico aliviada.

– Você é um perigo menina.

“Se eu sou um perigo. O que seria você?” Pensava Ana consigo mesma, enquanto buscava algo interessante ou sexy para responder para ele, mas como sempre tudo sumia quando ela estava perto dele. Parecia que todo o repertório dela sumia. O coração trabalhava tanto que o cérebro não conseguia pensar.

E depois de algumas provocações entre eles e momentos de silêncio, a música preencheu o ambiente até que eles chegaram na casa de Michel.

– Bem-vinda à minha casa. Disse ele de maneira sexy ao abrir a porta de seu apartamento.

“Quantas mulheres devem ter vindo aqui? Sou mais uma ou melhor… uma em um milhão.”

– Que lindo o seu apartamento. Disse Ana sem jeito.

– Não foi para te mostrar a decoração que eu te trouxe aqui. Disse ele arrastando ela para o quarto.

Chegando no quarto, Michel começou a tirar a roupa de Ana sem pressa enquanto a beijava com carinho. Ela se entregava totalmente para aquele momento, apesar de não fazer ideia do que fazer ali. Não sabia se começava a tirar a roupa dele também. Aquilo era muito novo para ela. A primeira vez no carro tinha sido mais simples, porque as coisas simplesmente aconteceram.

“Deixe simplesmente acontecer.” Pensava Ana tentando relaxar e se preocupar menos, para aproveitar todo o carinho que Michel dava a ela. E em poucos minutos ela estava mais relaxada e começava a tirar o que tinha sobrado das roupas dele.

“Fazer sexo na cama me parece realmente melhor e mais confortável do que no carro.” Pensava Ana enquanto ia descobrindo um novo mundo e se encantando cada vez mais com Michel ali em cima dela. “Você fica muito bem nesse angulo.” Seguia falando consigo mesma e achando certa graça daquela situação.

Eles foram tomar banho juntos e tudo que tinham começado na cama seguia acontecendo embaixo do chuveiro e Ana ia gostando cada vez mais daquilo tudo.

Depois do banho e de algumas horas de sexo, Michel pegou no sono e Ana pensava que precisaria ir para casa naquela hora da madrugada de taxi e sozinha, porque tinha prova na primeira aula no dia seguinte.

Ela ficou alguns minutos olhando Michel dormir e ela sentia que cada vez que estavam juntos seria a última e por isso tentava aproveitar ao maximo cada segundo da companhia dele e cada centímetro da pele dele.

Já se passavam das 2 horas da manhã e ela chamou um taxi um pouco contrariada.

Antes de sair deixou um bilhete:

“Precisei ir para casa.

Tenho prova na faculdade amanhã e não posso perder de jeito nenhum, porque corro o risco de não me formar se perde-la.

Obrigada pela noite.

Beijos

Ana”

Ela deixou o bilhete na cabeceira da cama ao lado de onde dormiria, colocou sua roupa e foi embora.

Já no taxi ela sentia certa angustia, apesar da noite deliciosa que tinha tido. Se sentiu deixada de lado ao se ver sozinha naquele taxi voltando para casa. Se sentiu usada, por terem feito sexo e ela estar sozinha no taxi voltando para casa. Logo estar voltando sozinha no taxi para a sua casa a fazia se sentir cada vez pior. E no meio desse turbilhão de sentimentos que minavam a sua autoestima, ainda apareceu a Cris. A chefe bonitona que a tratava mal e que, diziam todas as linguas do escritório, tinha ficado com o Michel na noite anterior e tinha saído mais cedo com ele naquele mesmo dia do escritório. Logo ela poderia ser a segunda mulher com quem Michel tinha feito sexo naquele dia. E isso tudo misturado a fazia sentir-se ainda pior. Ainda mais usada.

Naquela noite foi difícil pegar no sono e a angustia que chegava ao lembrar do dia que se aproximava com a prova que ela teria na primeira aula, deixava tudo ainda mais dificil. Até que, depois de algumas horas, virando de um lado para o outro, ela finalmente conseguiu dormir.

O dia amanheceu e a primeira coisa que Ana fez foi procurar uma mensagem de Michel, mas não encontrou nada.

“Você não tem novas mensagens. Nem da sua mãe.” Pensava ela e caia na risada ao repetir em seus pensamentos um trecho divertido do filme “O Diário de Bridget Jones”. “Nunca fui tão Bridget Jones, ainda bem que estou longe de ser uma solteirona lunática.” Seguia se divertindo com os seus pensamentos.

Ela já estava chegando na faculdade, cansada como se tivesse corrido uma maratona em volta da Terra, quando seu celular apitou anunciando a chegada de uma mensagem.

“É dele!” Pensou Ana empolgada ao ver o nome do Michel no visor.

“Me desculpe ter dormido e não ter te levado para casa. Me esqueço que ainda é uma menina que tem prova na faculdade.”

“Só isso?????? Isso é tudo que você tem para me dizer? Como assim?? Menina???” Pensava Ana querendo ligar gritando aquele monte de pontos de interrogação para o Michel.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 10 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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