Capítulo 1 – Quando Me Tornei Invisível?

Havia chovido muito. Uma tempestade de verão típica do mês de janeiro, que derrubou muitas árvores interditando ruas importantes da cidade, deixando muitas regiões sem luz, sem sinal de celular e internet, fazia o congestionamento bater recordes na cidade de São Paulo e Arthur estava atrasado.

Depois de uma hora de atraso, sem conseguir contato com Vitória, ele finalmente chega e precisa colocar o carro na garagem para poder avisar sobre sua chegada pelo interfone.

Depois de alguns minutos, Vitoria finalmente estava no carro.

– Oi Arthur, boa tarde! Como você demorou! Fiquei preocupada porque você nunca se atrasa. E não consegui falar com você nem pelo rádio e nem pelo celular. Está tudo bem? Pergunta de forma sinceramente preocupada.

– Me desculpe por esse atraso Dona Vitoria, mas a cidade está realmente um caos. Árvores caídas, sinais de transito piscando, sem sinal de celular. A tempestade dessa tarde foi rápida, mas fez estragos. Eu não pude me comunicar para avisar. Já te adianto que não chegaremos ao aeroporto a tempo.

– Posso imaginar sua angustia! Mas pelo amor de Deus, por favor faça o possível para ir o mais rápido que puder. Imagina deixar a Patrícia esperando horas no aeroporto? Vou ouvir broncas por horas até deixá-la no hotel.

– Ela é mesmo muito difícil, né Dona Vitoria?

– Hey você precisa parar com essa mania de me chamar de dona. Já te disse isso milhares de vezes. Eu tenho somente 30 anos! E já trabalhamos juntos há mais de 2 anos. Acho que você é uma das pessoas que mais vejo na vida. Disse rindo Vitoria.

– É o habito Dona Vitoria. E nessa hora ele sentiu o olhar de Vitoria o repreendendo e logo consertou. É o habito Vitoria. Vou me esforçar.

– Quanto tempo ainda para o aeroporto de acordo com o GPS? Pergunta realmente muito tensa.

– 30 minutos.

– Vou seguir tentando falar com ela para avisar sobre o atraso.

Depois de 15 minutos tentando, Vitoria finalmente conseguiu sinal e ligou para Patrícia.

– Oi Patrícia, tudo bem?

– Não! Na verdade muito mal. Estou aqui há 30 minutos te esperando e nada de você. Nem sinal. Nem uma única ligação.

– Entendo. Me desculpe, mas a cidade está um caos hoje. Nem sinal de celular eu tinha. Ainda demoramos 30 minutos. Tome um café, compre uma revista. Daqui a pouco estaremos aí.

– Tenho outra opção?

Vitoria pensou em responder: Tem sim! Sua bruxa! Você pode pegar um taxi, ir a pé, ir para a puta que pariu… Mas pensou no seu emprego, que não era exatamente o emprego dos seus sonhos, mas ajudava a pagar as contas. Ela trabalhava em uma pequena agencia de modelos chamada TAI e sua função era receber os briefings dos clientes e enviar as melhores opções de modelo possíveis para conseguir o trabalho para a agência. Conseguindo o trabalho, Vitoria era responsável por acompanhar as modelos aos compromissos de trabalho. Ela era formada em Moda e seu sonho era trabalhar com produção de moda para o cinema e a TV. Acabou em uma agência de modelos pois achou que seria bom para o seu networking. Havia mais de 2 anos que realizava esse trabalho e se sentia cada vez mais infeliz e preocupada sobre a sua realização profissional, mas o salário era bom, as pessoas eram legais, de vez em quando ela fazia viagens incríveis, por isso ia ficando. Ia postergando uma mudança tão necessária e desejada, por comodidade, mas também por não ter ideia em que direção ir.

Depois de ponderar e respirar fundo, respondeu: – Tente se distrair, Patrícia. Daqui a pouco estaremos aí.

– Ok! Te espero. Disse suavizando a voz, tentando parecer menos cruel.

Vitoria desligou o telefone bufando e resmungando baixo, chamando Patrícia de bruxa.

– A Senhora é engraçada. Diz Arthur quebrando o gelo.

– Vou fingir que não ouvi o senhora…. responde rindo, bem mais relaxada.

Depois de alguns minutos finalmente chegaram.

– Nossa como vocês demoraram. Reclama Patrícia ao entrar no carro.

– Me desculpe! Como te disse, a cidade está um caos. Fez boa viagem?

– Sim. Sai do Rio com 30º e cheguei aqui com 23º. Que cidade mais estranha. Essa temperatura em pleno mês de janeiro.

– A cidade é estranha mesmo. Podemos aproveitar para repassar seus compromissos?

– Sim! Claro.

– Te deixaremos no hotel agora e amanhã passaremos para te pegar às 7h. As fotos começam às 9h, mas nos pediram para estar às 8h para fazer a produção com tempo por ser uma foto de beleza. Quanto às suas solicitações: “Camarim próprio e você como aprovadora dos produtos de maquiagem.” Foram negadas. O cliente alega que o local é simples e tem um único camarim. Você terá que dividi-lo com as outras 2 modelos. Sendo uma campanha de beleza, você precisará usar os produtos da campanha em questão, não cabendo aprovações da sua parte. Espero que tudo esteja bem para você, porque afinal esse cache é bem acima do valor padrão para esse tipo de trabalho.

– Como assim? Minhas solicitações foram negadas? Não vou fazer essa foto.

– Pense bem Patrícia. O cachê é maravilhoso. A marca é incrível. Você vai fazer uma campanha de maquiagem e produtos de beleza. Não faz sentido você aprovar os produtos que serão usados. A empresa não pode mentir que esta usando seus produtos, enquanto você usa outros. Acredito que você não deveria ter aceitado o trabalho se não gosta dos produtos da marca. Agora é tarde para esse tipo de ponderação.

– Eu gosto dos produtos da marca. Por isso aceitei.

– Então qual é mesmo o problema?

– Ah ok! Nem eram solicitações tão importantes mesmo. E você está muito mal humorada hoje.

– Me desculpe. O ano mal começou e me sinto cansada. Além disso o dia hoje não foi nada fácil.

Nesse momento começa a tocar o celular de Vitoria.

– Oi José! Tudo bem?

– Sim! E você? Saudades. Só queria saber se nosso encontro de ano novo está confirmado amanhã. Tenho uma surpresa.

– Sim! Nosso primeiro encontro do ano, claro que está confirmado! Estarei lá. Você falou com a Tati?

– Sim! Ela estará com a gente.

– Nos vemos amanhã então. Beijos. Se despediu e logo desligou o telefone, sem ao menos esperar a resposta dele.

– Namorando? Perguntou Patrícia de maneira realmente interessada.

– Não. Era o meu melhor amigo, José. Amanhã teremos um encontro de ano novo. O primeiro do ano. Ainda não me recuperei do meu último tombo. Acho que não vou namorar nunca mais.

– Que exagero. Todo mundo já foi traído! A diferença é que você soube.

– Saber faz muita diferença Patrícia. E prefiro mudar de assunto, se você não se importa.

– Claro, como preferir.

– Chegamos! Diz Arthur mais entusiasmado do que realmente queria parecer.

– Boa noite! Durma bem e esteja linda amanhã. Diz Vitoria.

– Como sempre! Respondeu convencida Patrícia, mas em tom de brincadeira. – Até amanhã. Espero que sem atrasos dessa vez.

– Eu também! Até amanhã. Responde Vitoria da maneira mais polida possível, totalmente vencida pelo cansaço.

– Ela é difícil mesmo Dona Vitória. Diz Arthur, enquanto seguem para a casa de Vitoria.

– E coloca difícil nisso. Mas não importa, porque finalmente estamos indo para casa e esse dia difícil está acabando.

Foram em silencio o resto do caminho. O que fez Vitoria viajar por seus pensamentos. Pensou no final do seu namoro tão recente e tão dolorido, o que acabou fazendo seus olhos se encherem de lágrimas. Se lembrou que desde o final do namoro ela havia voltado a morar com a sua mãe e não tinha reservas financeiras para ir morar em um lugar que fosse só dela. Refletiu sobre mais um ano ter passado e ela estar conformada com uma posição no trabalho que não a realizava, nem a projetava para ser a grande estilista de moda que sonhara e que, para piorar toda a situação, a fazia sentir-se invisível na maioria dos dias, mas que não conseguia mudar. Não beijava na boca e nem fazia sexo desde o final do seu namoro e sentia que seu coração jamais se apaixonaria por alguém novamente. Sentia ter perdido seu brilho e a vontade de seguir em frente. Não se sentia motivada nem para se arrumar. Foi se transformando em uma mulher que ama moda, mas não tem seu próprio estilo. Se sentia uma tremenda perdedora. “Calma!” Dizia para si mesma em seus devaneios, ainda com as lágrimas percorrendo seu rosto. “Essa é só uma fase ruim. Coisas boas estão por vir. Só podem ter coisas boas por vir agora, depois de tudo que passou. E afinal, algumas mudanças dependem somente de mim. Preciso fazer alguma coisa para me sentir viva de novo.” Quando foi interrompida por Arthur.

– Chegamos! Está tudo bem Dona Vitória?

– Sim! Disse ela enxugando as lágrimas. Foi só um dia ruim.

– No meio de um monte de dias bons. Emendou Arthur. – Do jeito que a senhora me ensinou.

– Isso mesmo! Amanhã será melhor. Tomara que não chova. Te espero às 6h30. Ok?

– Combinado. Boa noite e tente descansar.

Ela se olhava no espelho do elevador que a levava para o 18º andar. Apesar de ser muito bonita, não conseguia ver nada além de cansaço. Estava cansada de tudo, ainda mais no final daquele dia.

Ela é uma mulher bonita. Morena, cabelos compridos e lisos, mas com volume na medida certa. Pele dourada, ainda mais, depois das mini férias na praia. Olhos castanhos num tom de mel, sempre destacados pelo lápis kajal preto que é sua marca registrada. Boca grande, que lembra a da Angelina Jolie. Corpo magro, sem muita definição, porque não é muito adepta aos esportes, com leves curvas distribuídas nos seus 1m70. Não estava se sentindo bonita naquele dia e ainda não tinha se sentido bonita naquele ano. Não se sentia bonita desde o final do seu relacionamento.

“Sou uma mulher muito comum. Não tenho estilo. Me tornei básica demais. Não me destaco em nada. Deve ser por isso que ninguém me vê. Por isso que me tornei invisível. No meio de tanta mulher bonita que acompanho diariamente, quem me notaria? Eu pareço não ter a menor importância afinal… Como deixei isso acontecer? Mas preciso mudar isso. Vou mudar isso.” Pensava ela no momento em que o elevador abria as portas.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 2 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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