Capítulo 10 – Preciso aprender filosofia

Ana seguia andando com raiva daquela situação e pensava alto sobre o que responderia quando foi surpreendida por Lara:

– Amiga! Finalmente te encontrei. Você desapareceu desde minha festa de aniversário. Está tudo bem? Parecia até que estava falando sozinha enquanto andava!

– Oi Cabeça! Nem me fale. Parece que virei do avesso depois que conheci o Michel.

– Mas o que houve? Você parecia tão feliz e empolgada. Supreendeu-se Lara.

– Ah amiga. Tudo parece tão complicado. Me sinto tão menina. Parece que não temos muito assunto fora do trabalho. Ele me trata de maneira sexy, mas um pouco fria. Não sei explicar direito a sensação. Sinto que preciso aprender filosofia e tudo o mais. Parece que existe um abismo entre a gente. Esses 10 anos de diferença fazem muita diferença. Ele me enviou essa mensagem hoje. Disse Ana mostrando o celular para Lara.

– Que grosso. O que ele quis dizer com isso?

– Essa é a mesma pergunta que faço. Ele me confunde. E acaba comigo. Basta um chamado dele para eu largar tudo que estou fazendo e correr para encontra-lo. Mesmo jurando para mim mesma que não faria ou que não faria novamente. Eu me amo! Não deveria sair correndo cada vez que ele resolve me encontrar. Parece que esqueço de mim.

– Ai amiga! Nem sei o que te dizer.

– Não se preocupa comigo. Vou ficar bem. Agora precisamos correr porque temos prova. Disse Ana tentando encerrar o assunto.

– Não estudei nada. Nem me fale nessa prova. O Caique anda me distraindo muito. Desse jeito nem me formo.

– Amiga para de falar de bobagem. Claro que vai se formar. Está faltando pouco agora.

– 2 meses amiga! Faltam 2 meses para a gente se formar.

– Nem me fale, não vejo a hora. Respondeu Ana. E isso a fez lembrar da Hungria e uma calma momentanea tomou conta de seu coração.

E assim foram as duas para a prova que tinha tirado o sono delas.

Ana se sentia confusa ao fazer a prova. Por mais que dominasse todo aquele conteúdo, Michel acabava roubando os pensamentos dela e como vinha acontecendo sempre, ela estava sem concentração, estava displicente e tinha o coração mandando em seu cérebro. Além de ser tudo muito intenso, também era muito novo. Era a primeira vez que ela vivia aquela avalanche de emoções.

A prova finalmente terminou e depois do que parecia uma eternidade ela foi trabalhar. A expectativa de encontrar Michel era enorme e à caminho do trabalho ela se deu conta de que não tinha respondido a mensagem de Michel que tinha enchido sua cabeça de interrogações.

Ela chegou ao trabalho e irracionalmente já começou a procurar por Michel. Ela evitava se expor tanto, mas seu coração definitivamente mandava em tudo desde que aquela história tinha começado.

Ela mal sentou em sua mesa e foi distraída por Kate:

– Estava louca para falar com você. Vamos tomar um café? Disse Kate.

– Vamos! Respondeu Ana.

– Eu fui chamada para uma reunião para falar sobre efetivação. Hoje é o dia que eles informam para os estagiários quem fica efetivado ou vai embora ao se formar. Quero tanto esse emprego! Eu amo o que faço aqui. Estou super nervosa. Disse Kate.

– Nossa! O tempo voou. Parece que foi ontem que comecei a trabalhar aqui. Foi um período importante na minha vida.

– Do jeito que você fala parece que não quer ficar.

– E na verdade não quero.

Nesse momento Ana se deu conta que a vida que tinha escolhido ia a separar totalmente de Michel e de repente toda a certeza foi embora e seu coração se encheu de dúvidas. Ela não queria ficar longe dele, apesar de querer muito a Hungria e não querer nada o emprego.

– Você é a primeira estagiária que não quer o emprego já que conheci!

– Quero viajar Kate. Quero trabalhar em museus. Quero viver de verdade o que me fez escolher história. E não vivo a história aqui. Disse Ana enquanto se perdia em seus pensamentos. “Não vivo a história, mas estou vivendo uma história de amor. E talvez isso por si, faça tudo valer à pena.”

– Te admiro por isso. Queria ter a metade da sua coragem. Disse Kate.

– Ah isso não é coragem. É escolha. Estou em busca do que me faz feliz. O que são alguns meses afinal? Depois volto e procuro um emprego. E o que vivi estará aqui para sempre. Disse Ana colocando a mão no seu coração.

Quando foram interrompidas:

– O que está aí para sempre, no seu coração? Perguntou Michel, surpreendendo Ana completamente.

Ela ficou paralisada por alguns segundos, porque nunca sabia direito o que responder para ele. Ainda mais em uma situação como aquela.

– As coisas que vivi. Respondeu ela. – No final elas estarão sempre aqui e nenhuma carreira de sucesso será capaz de dar às pessoas o que a experiencia ou as realizações de sonhos poderão dar.

– Boa perspectiva. Disse Michel de maneira charmosa, enchendo uma xícara de café. – Até mais meninas. Despediu-se.

Assim que ele saiu, Kate derreteu-se:

– Que homem é esse? Sorte da mulher que pode beijá-lo.

– Será? Disse Ana sem pensar.

– Como assim?? Ele é muito incrível. Indignou-se Kate.

– Ele é mesmo incrível. Mas não deve ser nada simples se envolver com alguem assim.

– Não quando você tem 21 anos, com certeza. Brincou Kate. – Mas ele não é para para o meu bico. Um homem como esse, jamais olharia para meninas como nós. Concluiu.

– Você tem razão. Disse Ana, querendo encerrar aquela assunto e achando uma certa graça.

E nesse momento Kate foi chamada pelo chefe. Tinha chegado a hora da tal conversa que ela esperava tanto.

– Até já Ana. Despediu-se Kate.

– Boa sorte! Respondeu Ana.

Ana voltou para a sua mesa tentando não pensar em Michele e em tudo aquilo, mas como sempre aquilo tudo parecia ser mais forte do que ela.

O dia passava arrastado e Ana estava sem ter muito o que fazer. Sua chefe estava em reunião externa e ela aproveitou para fazer algumas pesquisas sobre a Hungria e listar os lugares que queria conhecer.

Já estava quase na hora de ir embora quando Ana recebeu uma mensagem no celular de Michel:

“Quer jantar comigo hoje?”

“Quero” Ana respondeu sem pensar.

“Te pego na sua casa às 20h30.”

“Estarei esperando”

Depois de marcar aquele encontro, todas as perspectivas dela mudaram e tudo que ela queria era uma hora no cabeleireiro. Conseguiu marcar e saiu apressada do escritório para chegar a tempo.

Ana fez depilação, unhas do pé e da mão, sobrancelha e o cabelo. Saiu atrasada do cabeleireiro, mas estava mais linda do que nunca. Chegou em casa 20h15 e já tinha a roupa que usaria na cabeça. Tomou um banho rápido, se vestiu e terminava de se maquiar quando Michel ligou.

– Oi. Atendeu ela.

– Olá menina! Tudo bem?

– Sim e você?

– Combinamos de jantar hoje, mas o Marcio me prendeu aqui no escritório e não conseguirei sair. Podemos deixar para outro dia?

– Claro Michel. Sem problemas. Deixamos para outro dia.

– Para uma menina, você é muito madura e compreensiva.

– Bom trabalho então. Nos vemos amanhã.

– Beijos menina. Boa noite.

– Boa noite Michel.

Ana desligou o telefone espumando de raiva! Ela se via no espelho pronta para sair e deslumbrante. Se arrependia por todo dinheiro que tinha gasto no cabeleireiro. “Como ele pode cancelar o compromisso 5 minutos antes do horário marcado. E essa história de menina? Até gostava de ser chamada assim, mas não gosto mais. Eu odeio o Michel!” Pensava Ana enquanto decidia se ia limpar a maquiagem e colocar o seu pijama ou chamar seus amigos para sair.

Decidiu aproveitar a produção e chamar Alex e Lara para sair. Eles toparam e Ana se sentia melhor ao substituir Michel por seus melhores amigos.

A noite acabou sendo mais divertida do que ela esperava. E por algumas horas ela não pensou uma única vez em Michel.

Na hora de dormir ela não conseguiu evitar pensar em Michel e na revista. Provavelmente no dia seguinte ela conversaria com Cris, a sua chefe sobre a sua permanência na revista. Ela estava decidida a não ficar. Mas correr o risco de nunca mais ver Michel era assustador para ela. De repente Michel tinha virado o estímulo para ela se levantar da cama todos os dias e isso não aconteceria mais do dia para a noite. “Pare de pensar tanto e durma Ana.” Pensava consigo mesma quando finalmente dormiu.

Ana não tinha aula naquela sexta e por isso ficou na cama até mais tarde. Algo nela queria ser ainda mais surpreedente para Michel naquele dia e por isso ela caprichou na produção para ir ao trabalho.

Ao chegar na revista, mal conseguiu cumprimentar as pessoas e já foi convidada por Cris para conversarem.

Ana sentia um frio na barriga ao caminhar até a sala de reuniões lado a lado com a chefe. Elas caminharam por alguns segundos totalmente em silêncio.

Quando chegaram na sala, tinha uma pessoa do RH as esperando.

– Olá Ana, como vai? Disse Luzia, a gerente de RH.

– Estou muito bem Luzia. E você? Respondeu Ana.

– Muito bem também. A ideia desse bate papo é falarmos sobre o seu passado e seu futuro aqui na revista. Quer acrescentar algo Cris? Disse Luzia.

– Acho que é isso. Respondeu Cris secamente.

– Ok! Estamos montando o quadro de funcionários do ano que vem e redesenhando o programa de estágio. Alguns estagiários, infelizmente não terão espaço no nosso quadro e por isso estamos conversando com os que se formam agora no meio do ano. Temos muito interesse em mantê-la conosco, mas eu gostaria de te ouvir um pouco. Como está o seu momento? Quais são seus planos Ana?

Ana não tinha a menor ideia sobre o que responder e começou a procurar desesperadamente as melhores palavras para dizer que não ficaria. Então mais uma vez deixou o seu coração falar.

– Eu adoro trabalhar aqui. Aprendi muito nesses dois anos. Consegui evoluir e fazer coisas relevantes. Porém quero viver mais a história. Quero trabalhar em outros lugares, como em museus por exemplo e quero viajar. Quando me formar tenho planos de viajar para a Europa para conhecer minha família. Então agradeço por terem interesse em me manter, mas realmente preciso viver essas outras coisas. E agradeço muito pela oportunidade que tive aqui.

– Nossa! Que decidida. Quantos anos você tem. Perguntou Luzia.

– 21. Respondeu Ana.

– Ainda tem muita vida vida pela frente. Está super certa. Disse o RH.

– Eu não esperava por isso. Disse Cris em tom mais ríspido.

– Acho que é porque nunca conversamos devido à sua falta de tempo. Repondeu Ana desabafando na frente do RH.

– De qualquer maneira, boa sorte para você. E é melhor que seja sincera e assim nos permite contratar alguem que realmente tenha interesse em ocupar o seu lugar.

– Com certeza. Respondeu Ana.

– Agradeço a conversa e desejo muita sorte para você Ana. Despediu-se Luzia.

– Obrigada. Respondeu Ana.

– Você é mesmo uma caixinha de surpresas. Disse Cris assim que Luiza se foi.

– Espero que boas. Respondeu Ana sem graça.

– Sei que às vezes sou exigente demais e pareço brava. Mas queria te dizer que foi a melhor estagiária que tive. Acho uma pena que não vá ficar e te desejo muita sorte nessa nova jornada. Eu queria ter tido essa coragem quando tinha sua idade. Se eu te admirava antes, te admiro ainda mais agora.

Ana ficou chocada com a declaração de Cris. Ela acabava descobrir que ela tinha coração.

– Cris, foi um enorme prazer trabalhar com você. Até quando eu trabalho?

– Você pode ficar com a gente até junho. Mas você decide. Já cumpriu suas horas de estagio para a faculdade?

– Sim! Já cumpri. Mas acho que quero ficar até o final. Gosto de levar meus ciclos até o final.

– Então vou te aproveitar o máximo que eu puder nesses últimos 2 meses. A começar com uma pesquisa sobre idealização. E para isso quero que conheça melhor Platão e leia o Conto da Ilha Desconhecida de José Saramago. Quero que me proponha uma matéria sobre isso.

– Adorei! Começarei agora mesmo.

– Vá lá. Vou ficar por aqui mais um pouco.

Ana saiu feliz da sala. Estava aliviada por ter falado que não trabalharia mais ali. E de alguma maneira ela se libertava de sua nova obsessão chamada Michel.

O dia seguiu leve e Ana se distraiu com sua pesquisa sobre Platão e suas teorias sobre idealização, estudou o amor platônico e podia se identificar com cada linha do que lia ali. Ela sentia que ganhava repertório e se tornava alguém mais interessante aos olhos de uma homem tão experiente e culto como Michel. Ela fingia para si mesma que não se importava. Mas mesmo em meio a uma deliciosa pesquisa que a projetava para outro lugar, Michel acabava ganhando algum espaço nos pensamentos dela.

Ela estava indo embora, feliz pela chegada do final de semana, e se sentindo empolgada pela nova pesquisa que recém começara e já dentro do elevador ouviu alguém chamar por seu nome.

– Ana!!

E Michel apareceu correndo impedindo que a porta do elevador fechasse.

– Precisamos conversar. Disse ele entrando no elevador.

Ele entrou e a porta se fechou deixando os dois sozinhos ali.

– O que houve? Ana perguntou.

– Acabei de saber que você recusou a oferta de seguir trabalhando aqui. Tem a ver com o meu furo de ontem? Eu realmente me enrolei aqui. Me desculpe.

– Hey! Calma. Não tem nada a ver com ontem.

Nesse momento o elevador chegou no térreo e eles desceram. Ana caminhava pela calçada sendo seguida por Michel, como se ele estivesse indo para o mesmo lugar que ela.

– Se não foi isso, o que foi? Esse é o sonho de todo universitário. Ser efetivado em uma empresa de renome. O que houve? Não consigo entender.

– Michel, apesar de termos tido alguma intimidade, nunca conseguimos conversar. Não sabemos nada um do outro. Vou viajar e passar um ano fora quando terminar a faculdade. Esse estágio foi importante, mas não me traz a paixão que a História me traz. Quero trabalhar em museus, escrever livros, sei lá onde mais. Eu já não ficaria muito por aqui antes de você chegar.

– Que mulher você é! Admirou-se Michel.

“Cadê a menina na sua frase?” Pensou Ana, mas ponderou e resolveu ser mais leve:

– Pensei que me achasse menina.

E nesse momento começou a chover. Uma chuva forte que já chegou molhando tudo sem avisar.

– Mas você é uma menina. Uma menina que me surpreende a cada dia. E que está virando a minha cabeça e por isso está cada vez mais difícil de resistir.

Ela ficou paralisada por um segundo e ele a beijou.

Ele a beijava apaixonadamente debaixo da chuva torrencial, que tinha feito todos correrem para se proteger, a poucos metros do escritório, não se preocupando em esconder aquele beijo de ninguém.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 11 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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