Capítulo 11 – Cérebro vs. Coração

O tempo real estava de volta e tudo voltava à sua velocidade normal no momento em que Thomas falava:

– Espero não ter perdido muito do show. Disse de maneira extremamente charmosa.

– Ele começou a cantar agora. Disse Vitória claramente perturbada, se levantando para cumprimenta-lo. –Tatiana, se lembra do Thomas, nosso amigo da escola?

– Claro que lembro. Quanto tempo! Como vai Thomas? Disse Tatiana também se levantando para cumprimentá-lo.

– Bem e você?

– Muito bem.

– Estão lindas! O tempo parece não ter passado para vocês.

– Obrigada! Disseram juntas.

– Hey! O que você vai beber? Perguntou Vitória.

– Hum! Cerveja. Vamos buscar comigo?

– Sim. Vamos! Disse Vitória empolgada, mas ainda atordoada pelo que tinha acontecido há pouco com José e sua música que mais pareceu uma declaração de amor.

– Muito legal esse lugar. Nunca tinha vindo aqui. Disse Thomas tentando preencher o silencio entre eles.

– É verdade! Aqui é bem legal. Principalmente para quem gosta de boa música.

– Meu tipo de lugar.

– Fiquei feliz que tenha conseguido vir.

– E eu muito feliz de ter vindo. Depois do meu furo com você no almoço dessa semana, estava me sentindo mal de não ter conseguido falar com você antes.

– Sem problemas. Agendas complicadas. Disse Vitoria querendo perguntar sobre a mulher, mas sem nenhuma coragem ou com excesso de juízo.

– Estou vivendo uma situação complicada com minha ex-namorada.

– Que tipo de situação?

– Nada que valha a pena dividir com você porque já vou resolver.

– Muito bem então. Posto isso, vamos aproveitar nossa noite. Tim-Tim. Disse propondo um brinde batendo sua garrafa de cerveja na dele.

– Tim-tim. Respondeu ele.

Eles se olhavam nos olhos enquanto bebiam após o brinde e um arrepio percorreu o corpo de Vitória.

– De repente parece que tenho 17 anos de novo. Esse seu olhar cheio de vida continua igualzinho. E era isso que eu mais gostava em você. Você fala pelos olhos. Declarou Thomas

– E o que os meus olhos estão dizendo?

– Que você quer ser beijada.

Vitória não respondeu, mas intensificou sua forma de olhar para ele lhe arrancando instantaneamente um sorriso e o fazendo chegar bem perto dela. Ele parou a poucos centímetros da boca dela e o resto do caminho ela mesma percorreu. E finalmente o beijo tão esperado aconteceu de novo.

Eles se perderam naquele beijo e aproveitaram a companhia um do outro. Ainda se beijavam quando foram interrompidos por José.

– Cara! Você? Quanto tempo. Disse José em tom de empolgação. – Desculpe interromper vocês, mas precisava te cumprimentar.

– Eu! Como anda José? Perguntou Thomas tentando recuperar o folego.

– Bem Cara! E você? Bom, não precisa nem dizer. Está beijando a garota do pôster. A menina mais bonita da escola.

– José! Disse Vitória em tom repreendedor. Percebendo que Thomas estava totalmente sem graça.

– Era assim que ele te chamava. Ops! Você se incomodou Thomas?

– De maneira nenhuma. E respondendo sua pergunta, estou realmente muito bem. Legal te rever. Seu som é incrível. Parabéns! Respondeu Thomas ainda sem jeito.

– Valeu cara. Desculpa a brincadeira. Disse José pegando uma cerveja e fulminando Vitória com o olhar.

José saiu e deixou os dois sem entender bem o que tinha acontecido.

– Bom! Está uma delicia aqui. Mas quero conversar com o José e a Tati antes que ele volte para o palco. Disse Thomas constrangido após a saída de José.

– Claro! Vamos voltar lá.

A partir dali a noite foi uma delicia e os quatro conversaram como se o tempo não tivesse passado e também como se não tivesse mais ninguém ali. Falaram das situações engraçadas que viveram juntos, dos amores não correspondidos e dos encontros e desencontros do amor. Falaram da vida, do que passou, do que lhes fortaleceu e de suas trajetórias. Isabela que já não tinha gostado nem um pouco da forma como o José olhava para Vitória enquanto cantava, foi ficando cada vez mais esquecida e emburrada, até que se cansou de ficar invisível ali e se revoltou:

– José, acho que definitivamente não era para eu ter vindo no que seria uma das noites mais especiais da sua vida. Nem parece que estou aqui! Disse já se levantando e saiu da mesa.

Todos pararam de falar na hora, um pouco chocados, mas dando razão para ela. E mandando José ir atrás da namorada com o olhar.

– Eu sempre estrago a porra toda. Disse José no momento que foi atrás de Isabela.

– Uau. Acho que essa é minha deixa. Disse Tatiana. – São quase 5 horas da manhã. Com vocês o tempo sempre voa. Preciso ir. Tenho coisas do casamento para ver amanhã cedo, ou melhor, daqui a pouco. Não vou ter a menor condição. Foi um enorme prazer te reencontrar Thomas.

– Eu também achei. Você são demais. Respondeu ele.

– Acho que podemos ir também. Emendou Vitória. – Saímos juntos. Pode ser Thomas?

– Claro! Está de carro? Posso te levar para casa.

– Aceito de coração a carona.

– Tati, não quer vir com a gente? Você bebeu demais. Disse Vitoria com a voz cheia de preocupação.

– Amiga, minha casa é aqui do lado. Se eu tivesse que ir até o Guarujá pediria para me levarem. Mas moro aqui do lado. Estou bem. Não precisa mesmo.

– Certeza? Perguntou Thomas achando a resposta dela bem engraçada e típica de alguém que está mesmo muito bêbado.

– Absoluta. Vamos.

E assim eles deixaram o NOW sentindo um misto de coisas. Saudades, nostalgia, ansiedade sobre o futuro. E Vitória desejou muito ficar sozinha com Thomas.

Já dentro do carro ele quebrou o silencio ligando o rádio enquanto pensava no que ia falar. Vitória era a única mulher na vida dele, que o deixava sem jeito e sem palavras. Mas antes de ele falar qualquer coisa, Vitória subiu no colo dele e o beijou matando toda a vontade que tinha sentido dele a noite inteira.

Thomas se animou com o ataque inesperado e sugeriu levar Vitória para a casa dele. Ela, aceitou na mesma hora, afinal queria isso a noite toda.

Quando chegaram, Vitória se impressionou com o padrão do apartamento dele. Ele tinha apenas 30 anos e morava em um lugar que somente a mãe dela, depois de muitos anos trabalhando para enfim ter sucesso na profissão, poderia pagar. E ria de si mesma pensando que ela não acreditava que conseguiria pagar algo daquele nível nessa vida.

Ele se preocupou em criar um clima romântico. Abriu uma garrafa de vinho e colocou música, mesmo sendo quase 6 horas da manhã. Sem falar nada, foi caminhando na direção dela e começou a beija-la de um jeito que fazia o corpo dela pedir por ele. Enquanto se beijavam, cada vez mais ardentemente, ela se lembrou do quanto tinha suado naquele dia correndo de um lado para o outro e não se sentia nem um pouco confiante em se entregar para Thomas pela primeira vez naquele estado. Então interropeu o beijo:

– Sei que você vai achar bem estranho. Mas você se importa se eu tomar um banho rápido?

Ele riu. E respondeu:

– Claro que não. Vamos lá. Ele disse se levantando e levou ela até o banheiro pela mão.

Ele pegou toalhas limpas, ligou o chuveiro deu um selinho nela e saiu dizendo:

– Estou te esperando aqui fora.

Vitória se apressou em entrar no banho. A água quente parecia um bálsamo de relaxamento depois do dia e noite exaustivos que tivera. Ela relaxou embaixo daquela ducha forte e não havia nenhum lugar no mundo que ela queria estar senão ali. E além de tudo, pensar que faria sexo com o Thomas em alguns minutos também lhe causava um certo frenesi. Ela se perdeu ali por alguns minutos, caprichou no sabonete pelo corpo todo, mas se apressou para sair logo dali. Quando ela saiu do banheiro, cheirosa e confiante, encontrou Thomas dormindo profundamente na cama ainda todo vestido e totalmente mal acomodado. Ela morreu de vergonha. Não percebeu que tinha demorado tanto. Sem saber o que fazer, acabou arrumando ele na cama e deitando ao lado dele.

“Bom talvez quando acordarmos a gente consiga resolver isso.” Pensava Vitória rindo da situação.

Ela estava se sentindo a pessoa mais esquisita de todo o universo. Porque apesar de terem sido grandes amigos, tinham acabado de se reencontrar e dormiam juntos na mesma cama, o que era algo bem íntimo para ela.

Ela tentava dormir e relaxar apesar da situação de desconforto, quando a lembrança de José cantando para ela se apresentou nos seus pensamentos. Mas ela mal teve de processar tudo e dormiu profundamente.

Ela dormia como uma pedra quando foi acordada por Thomas.

– Hey, Vitória. Desculpe. Mas preciso que você acorde.

– Oi Thomas. Bom dia. Disse ela olhando em volta tentando se situar.

– Preciso te pedir 1 milhão de desculpas, mas minha ex-namorada está aqui. O porteiro disse que ela está subindo e ninguém conseguiu segurar ela lá embaixo. Ela está fazendo um escândalo. Por isso preciso recebê-la, para evitar o pior.

– Claro. Vou embora. Nos falamos depois. Respondeu Vitória atordoada enquanto ia pegando suas coisas.

– Te explico tudo depois, com calma. Ele dizia enquanto conduzia ela até a porta. – Queria também te pedir para descer pelo elevador dos fundos, porque não gostaria que ela te visse aqui.

– Claro Thomas. Consentia Vitória se sentindo o último ser humano da face da terra. Sem ter forças para mostrar toda a sua indignação com tudo aquilo.

– Ela anda muito desequilibrada e por isso estou pedindo esses absurdos para você.

E nesse momento a ex-namorada começou a esmurrar a porta.

– Abre essa porta Thomas. Quero conversar. Você está me enlouquecendo.

– Meu Deus! Quer que eu chame os bombeiros? Perguntou Vitória brincando, achando um pedacinho do seu senso de humor.

– Se eu não te ligar em 1 hora, chame por favor. Respondeu ele rindo e também se reencontrando com seu senso de humor.

-Abre Thomas. O porteiro me disse que você está aí! Seguia a mulher gritando enquanto esmurrava a porta.

Vitória correu para a porta dos fundos. Porque naquele momento já sentia até um pouco de medo.

– Acredite. É para te preservar. Te ligo assim que resolver essa história. Disse ele se despedindo de Vitória com um selinho e claramente aflito.

– Ok! Te espero. Ela disse já caminhando em direção ao elevador.

Ela entrou no elevador não sabendo exatamente o que estava sentindo e desejou estar longe dali. Por sorte conseguiu pegar um taxi que já estava à espera de um passageiro no ponto bem em frente ao prédio de Thomas.

No caminho para a sua casa, sentia o peso da noite mal dormida e não conseguia definir se Thomas era um cafajeste ou uma vítima de uma mulher ressentida e apaixonada. Era seu cérebro brigando com o seu coração. O cérebro dizia: “Acorda! Ele está te enrolando. É mais um cafajeste. Te pediu para sair pelos fundos. Como uma fugitiva que está fazendo algo errado!” E o coração argumentava: “Calma, ele gosta muito de você. Certamente ele é vítima dessa mulher e vai te explicar tudo.”

Quando chegou em casa Vitória foi direto para a cama. Ela estava exausta. Ainda eram 10 horas da manhã e ela tinha dormido apenas 2 horas. No estado de cansaço que estava certamente não conseguiria concluir nada. E apagou sem conseguir pensar em nada. Cérebro e coração levantaram uma bandeira branca e ela dormiu.

Ela dormia profundamente quando o som do seu celular invadiu seus sonhos. O telefone tocava com muita insistência e ela decidiu despertar de seu sonho para atender.

– Alô. Atendeu ainda dormindo.

– Olá Vitória. Está dormindo? Já se passa da uma da tarde!

– Quem é?

– O Eric.

– Eric? Como você conseguiu meu telefone?

– Fiz greve de fome e acampei na portaria do prédio da Manuela até ela me dar seu telefone.

Vitória pensou por um momento que ainda estava dormindo e aquilo era um sonho com um toque de surrealismo.

– Hey está aí? Perguntou Eric.

– Sim. Estava pensando que isso poderia ser um sonho surreal.

– Nada disso. Quero te levar para jantar hoje.

– Já te disse que nem…

– que eu fosse o último homem da face da terra. Interrompeu Eric completando a frase dela.

– Isso mesmo! Concordou ela.

– Vamos? Como amigos. Quero me explicar para você. Preciso disso para voltar a deitar a minha cabeça com tranquilidade no travesseiro. Fui horrível com você e gostaria de me explicar.

– O que vai mudar? Nada que você faça será capaz de mudar a ideia que construí de você depois dos últimos acontecimentos.

– Hey! Não seja tão dura. Não sou esse cara. E trabalhamos juntos. Precisamos ficar numa boa. Se você não aceitar vou acampar na portaria do seu prédio até você aceitar sair comigo.

– Gente! Você é sempre assim?

– Só quando quero muito alguma coisa.

– Sem segundas intenções?

– Sim! Sem segundas intenções.

– Acho bom! Porque não vou te beijar e muito menos fazer sexo com você. Não sou dessas que você tem saído.

– Tenho certeza disso. Vou me comportar. Prometo.

– Onde nos encontramos?

– Te pego em casa.

– Nada disso! Eu te encontro!

– No restaurante Magnolia às 20h.

– Até mais tarde, preciso voltar a dormir. Disse Vitória desligando o telefone.

Eric ficou sem fala do outro lado da linha se dando conta mais uma vez que o jeito de Vitória mexia com ele como nunca uma mulher tinha feito.

Vitória finalmente conseguiu dormir e acordou às quatro horas da tarde se sentindo a bela adormecida acordando depois de uma longa noite de sono. Se sentia bem até seu cérebro começar a gritar com ela.

“Hey mocinha. Você nem ouviu as explicações do Thomas e já aceitou sair com outro. Aquele tremendo sem vergonha que te faz fazer um monte de bobagens. Você me esquece quando está com ele.” E dessa vez o coração apoiou:

“Você não deveria sair com alguém, senão com Thomas depois de suas últimas resoluções.”

“Ele expulsou ela da casa dele pela porta dos fundos! Enquanto o Eric fez greve de fome até conseguir o telefone dela.” Dizia o cérebro.

“E ele disse que ligaria e não ligou.” Apoiou o coração.

E nessa batalha entre o cérebro e coração ela começou a sentir uma tremenda angustia. O fato de Thomas tê-la tratado daquela maneira e não ter ligado, mostrava que o seu coração podia estar muito enganado. Ele estava se comportando como um tremendo canalha. Enquanto Eric parecia gostar dela. Parecia arrependido e querendo consertar as coisas.

“Meu Deus! Onde estou me enfiando?” Pensava ela enquanto olhava para geladeira tentando resolver sobre o que iria comer.

Ela comia um iogurte com mel e granola quando seu telefone tocou.

– Oi Tati!

– Oi Vick! Tudo bem? Estou ligando para saber das novidades. Transaram?

– Amiga você não vai acreditar no que aconteceu comigo depois que nos despedimos de madrugada.

– Amiga nem você vai acreditar o que aconteceu comigo depois que nos despedimos.

– O que aconteceu com você? Perguntou Vitória curiosa.

– Eu bati o carro 2 vezes. Respondeu Tatiana terminando com uma gargalhada.

– Como assim? E você está bem?

– Sim, estou bem! Bebi um pouco demais. Quando cheguei no estacionamento o manobrista já começou a gritar. “Hey dona! Finalmente apareceu. Estou te esperando para poder fechar o estacionamento. E a senhora levou a chave quando chegou. Tive que empurrar seu carro até ali.” Depois que ele disse isso tive vontade de rir, mas senti pena dele e meu bom senso falou mais alto. Pedi desculpas e fui cambaleando buscar o carro. E nisso o moço devia estar pensando que eu sou a mulher mais louca do planeta.

– O que você disse para ele? Perguntou Vitória.

– Pedi desculpas e disse que foi sem querer. Aí ele fofo disse que já tinha passado a raiva dele e ainda gritou de longe perguntando se eu estava em condições de dirigir. E eu respondi como todo bêbado. Disse que eu estava ótima. Nisso comecei a dar ré no carro e só parei quando bati em uma parede a uns 20 km por hora. Não sei o que deu em mim. Agora você pode imaginar o susto que eu dei no homem.

– Amiga! Não acredito. Dizia Vitoria dando gargalhadas. – Mas você está bem? O manobrista e a parede sobreviveram?

– Sim! E acordei com o susto. Todos sobreviveram, exceto o para-choques traseiro do meu carro que ficou um pouco avariado.

– Mas você disse que estava ótima quando te perguntei. Você lembra que falou sobre pedir carona só se precisasse ir até o Guarujá? Disse rindo Vitória.

– Amiga, me lembro vagamente.

E as duas caíram na gargalhada.

– Mas e a segunda batida de carro? Como foi?

– Então. Consegui chegar em casa sem atropelar mais nada. Dormi 4 horas e precisei ir fazer degustação de bem casados. Eu não podia desmarcar. E o Tato está trabalhando hoje. Então eu tinha que ir. Mesmo morrendo por dentro. De sono e de ressaca. Parei em um semáforo e me distrai completamente. Comecei a tirar uns pelos do meu cachorro da minha calça e de repente. Pow! Bati no carro da frente. Tirei o pé do freio enquanto limpava os pelos. O carro deu aquela mini acelerada e bateu no carro que estava parado na minha frente esperando o semáforo abrir.

– Não acredito! Mas amassou o carro?

– O dele não! O meu avariou um pouco o para-choques da frente.

– Acho que um para-choque ficou com ciúmes do outro.

– Só pode ser! Mas no final deu tudo certo e consegui finalmente contratar os bem casados. Comi um pedaço do céu.

– Que delicia amiga. E que alívio saber que você está bem depois de tantos incidentes com os seus para-choques.

– Agora me conta o que foi tão surpreendente hoje? Não vai me dizer que fez xixi na cama dele como na noite que você ia perder a virgindade.

– Ai que vergonha dessa história. Não. Nada disso. Foi pior.

– Pior?! Espantou-se Tatiana.

– A gente estava na casa dele se beijando e há poucos segundos de começar a tirar a roupa para transar e eu pedi para tomar um banho. Não sei se demorei no banho, porque o chuveiro dele é o melhor que já vi até hoje, mas quando eu saí, toda animada e cheirosa, ele estava dormindo.

– Não acredito!!!! Berrou Tatiana do outro lado da linha.

– Pode acreditar. Aí eu não sabia o que fazer e acabei dormindo ao lado dele na esperança de rolar quando acordássemos.

– E aí? Rolou quando acordaram?

– Amiga. Eu fui acordada pela noiva do Chuck esmurrando a porta do apartamento dele e ele implorando para eu ir embora pela porta dos fundos para não cruzar com ela.

– M-E-U D-E-U-S D-O C-É-U! N-Ã-O A-C-R-E-D-I-T-O!!

– Tati, nem eu acredito.

– O que você fez?

– Perguntei se ele queria que eu chamasse os bombeiros.

Tatiana morreu de rir.

– Mas você foi embora pela porta dos fundos e deixou ele lá com outra mulher?

– Fui. O que mais eu poderia ter feito? Comecei a sentir medo de ficar ali.

– É verdade! Você não tinha muito o que fazer. Mas e aí?

– Fui embora me sentindo a gata borralheira quando a madrasta roubou o vestido dela, que tinha sido de sua mãe e a proibiu de ir ao baile.

– Que merda! E que babaca é o Thomas.

– Ai Tati. Nem sei o que dizer.

– Ele te ligou para te explicar como disse que faria?

– Ainda não. Mas o Eric me ligou!

– Que? Como assim? Realmente foram muitos acontecimentos.

– Tati ele fez um teatro dizendo ter feito greve de fome até conseguir meu telefone com a Manuela, produtora que organiza os meus shootings.

– Que romântico!

– Ele é um canalha! Ele não é romântico e não me engana com esse papinho de “te quero de qualquer jeito e vou mover o mundo se preciso.”

– Vick e aí? O que mais?

– Ele me chamou para jantar.

– E aí? Você aceitou? Está me matando aqui de tanta curiosidade.

– Tati, aceitei depois de ele ter implorado. Mas não vai rolar nada. Preciso te confessar que fez bem para o meu ego depois do que aconteceu com Thomas.

– Muito estranho esse sumiço do Thomas. Será que ele é mesmo um canalha?

– Tati não sei dizer se ele é bandido ou mocinho na história. Mas aquele cara que se dizia tão apaixonado por mim na adolescência, que insistiu tanto para sair comigo e que me beijou daquele jeito, não parece em nada com esse Thomas com namorada perseguidora. Absolutamente todas as nossas tentativas de ficarmos juntos foram interrompidas por uma mulher.

– Estranho mesmo, amiga. Mas estranho é ele não ter te ligado.

– Bom. Vou seguir a vida. Talvez ele não fosse assim tão apaixonado por mim lá atrás.

– Amiga você foi tomar banho e o moço dormiu te esperando quando achava que ia finalmente transar com você.

– Com a garota do pôster. Sabia que ele me chamava assim?

– Que fofo! Ele te contou?

– Não! Foi o José com cara de raivinha.

– Esse moço gosta de você. Ele há de conseguir explicar. Gente e o José? Será que o namoro dele sobreviveu à noite de ontem? E o jeito que ele cantou para você?

– Nossa é verdade! Fortes emoções em poucas horas hein amiga.

– Boa sorte no seu encontro com o cafajeste gostosão hoje. Preciso ir. O Tato acabou de chegar e vamos fazer a degustação do buffet. Com tanta degustação acho que não vou caber no meu vestido. Te amo amiga. Juízo.

– Boa sorte para você também! E claro que você vai caber no seu vestido! Te amo amiga.

Vitória desligou o telefone e foi tomar banho. Ela não podia acreditar que ia sair de novo com o Eric e menos ainda que ele ia conseguir dizer algo que a fizesse acreditar que ele não era um grande cafajeste.

Mesmo sem nenhuma intenção de ter qualquer coisa com ele, caprichou na produção. Escolheu uma roupa sexy, bem justa, mas que não deixava nenhum pedaço de pele aparente além das suas canelas. Escolheu uma sandália bem alta. Fez escova no cabelo e caprichou na maquiagem arrematando o look com um batom vermelho bem vivo.

Quando chegou no restaurante, Eric já a esperava e abriu um enorme sorriso que mostrava todos os dentes quando ela chegou. Além dele, todos em volta notaram sua presença no momento em que ela entrou no restaurante. Ela caminhava triunfante na direção dele. O plano era fazer ele querer ela mais que tudo na vida, mas não ceder.

– Uau! Que gata. Disse Eric se levantando para cumprimentá-la.

– Obrigada! Respondeu ela.

– Que bom que aceitou jantar comigo, mesmo ainda existindo tantos homens na face da terra.

– Aceitei porque fiquei bem curiosa. E também com medo de você. Greve de fome, acampamento e outras ameaças que você me fez.

– Acho que você é a mulher mais charmosa que já conheci na vida. Sua presença de espírito deveria ser estudada e patenteada.

– Vou pensar sobre isso.

“Gente, como esse homem é bonito!” Derretia-se em seu pensamentos. “Foco Vitória! Nada de ver as coisas boas dele. Não abandona o plano!”

– Você deveria mesmo pensar sobre isso. O que vai beber?

– Água.

– Ah por favor! Água? Está com medo de perder o controle?

– Claro que não! Estou muito bem resolvida em relação a você. Bebi demais ontem. Por isso hoje vou tomar água.

– Como queira. Vou beber vinho. Apesar de não gostar de beber vinho sozinho.

Nesse momento o garçom os interrompeu trazendo uma cesta de pães:

– Com licença. Boa noite. Já escolheram algo para beber?

– Sim! Para mim uma garrafa de vinho rose Shiraz Ocean da Africa do Sul e para a senhorita água.

– Muito bem. Já decidiram os pratos?

– Ainda não. Respondeu Eric.

– Volto em alguns instantes. Com licença.

O garçom saiu e Eric retomou a conversa:

– Quer escolher seu prato?

– Hum quero.

Vitória olhava o cardápio e pensava em uma forma de provocar Eric. “Hum, acho que vou pedir ostras. Mesmo nunca tendo tido coragem de experimentar. Elas não devem ser tão ruins quanto são asquerosas na aparência. Só para provocá-lo.” Pensava ela que não estava com nenhuma fome.

– Decidiu? Perguntou ele quando ela fechou o cardápio.

– Sim. Quero ostras.

– Escolha interessante. Dizem ser um afrodisíaco.

– Ouvi dizer. Ela respondeu simplesmente. Se sentindo ótima ao conseguir o efeito que queria com as ostras.

Quando foram mais uma vez interrompidos pelo garçom que trazia as bebidas. O garçom serviu as bebidas e perguntou:

– Decidiram os pratos?

– Sim! Para a senhorita ostras e para mim um risoto de frutos do mar.

– Muito bem. Somente ostras Senhorita?

– Sim! Somente as ostras. Respondeu Vitória.

Assim que o garçom saiu, Eric finalmente começou a falar sobre o queria naquela noite.

– Obrigado por ter vindo, mesmo depois de tudo.

– De nada! Agora me diga o quer tanto me dizer.

– Acho que não fui bacana com você. Te tratei mal quase de todas as formas que um homem pode tratar uma mulher. Estávamos saindo e começando a nos aproximar, mesmo eu tendo uma história com outra pessoa. Uso como desculpa a distância para justificar um tremendo mal comportamento porque para mim, ficar muito tempo sem sexo é bem complicado. Acabo saindo para me divertir, sem qualquer intenção de me envolver. Mas com você foi diferente. E eu realmente não sabia como agir.

– Até agora não me revelou nada de que eu já não desconfiasse.

– Nem a parte que confesso que me envolvi com você mais do que eu queria.

– Essa é a parte que você usa para tentar deixar a história mais bonita e justificar sua canalhice. Não acredito que você se envolveu. Quem está envolvido não faz o que você fez. E numa boa. Para alívio da sua consciência. Eu sabia que existia ela. Você chegou em um momento de total carência minha e também te usei. Para fugir de algo que eu estava vivendo e não queria viver.

– Ah então você está confessando que me usou?

– Exatamente.

– Então não se ofendeu comigo?

– Não até esse momento. Depois me ofendi sim.

– Qual parte te ofendeu?

– A forma como você foi frio e me descartou no dia que me apresentou ela como sua namorada, mesmo sem nunca ter tocado nesse assunto comigo. E seu sumiço depois. E na hora que reapareceu te vi arrasando o coração de outra mulher. Por vaidade talvez? Porque tenho certeza que você não gosta da Patrícia. Mesmo tendo assumido publicamente seu namoro dias antes. Quando fiquei com você, eram apenas especulações feitas sobre um possível caso entre vocês. Sei lá. Pareceu que você faz isso por prazer. Não pensa nos sentimentos dos outros. Isso para mim é estranho.

– Eu ainda estou aqui chocado com sua afirmação sobre ter me usado.

– É estranho quando a gente é parte usada da história né?

– É! Bem estranho. Mas queria que você soubesse que não te usei. Você apareceu na minha vida em uma condição diferente. Difícil te explicar. Mas eu não planejei. Simplesmente aconteceu e foi acontecendo. E preciso te confessar que fiquei de fato feliz quando te encontrei sem planejar nas últimas duas vezes que ficamos juntos. Você me envolveu muito além do sexo. Foi uma delícia estar com você, conversar com você.

– Mas o sexo não foi bom? Interrompeu Vitória brincando.

– O sexo foi uma delícia.

– Então por que você sumiu?

– Eu não tinha o seu telefone.

– Não me venha com isso. Até ontem você não tinha meu telefone e deu um jeito de conseguir. Naquela época você já tinha informações suficientes sobre mim para conseguir o número do meu telefone.

– Certa mais uma vez. Acho que não sabia o que te dizer. E te reencontrar me deu clareza. Queria realmente me desculpar e dizer que você foi especial para mim. Apesar de não parecer. Queria que você soubesse.

– Ok! Acredito em você. Mas isso não muda nada.

– Muda para mim! Você me desculpa pela forma como te tratei e conduzi as coisas?

– Desculpado.

– Amigos?

– Sim! Amigos.

E nesse momento foram interrompidos por uma mulher.

– Olá. Mil desculpas por interromper vocês, mas se não for incomodar muito, você poderia me dar um autografo? Fui na sua exposição e amo o seu trabalho. Disse a mulher loira, extremamente bonita, se derretendo para Eric.

– Oi! Claro. Não nos incomoda. Você tem um papel e uma caneta?

– Sim. Aqui. Respondeu lhe dando o material.

– Como é seu nome?

– Patrícia.

E nessa hora Vitória engasgou com a água. O que fez Eric rir também.

– Muito bem. Aqui Patrícia.

– Muito obrigada! Foi um prazer te conhecer. Me desculpem mais uma vez.

– O prazer foi meu.

E a loira deslumbrante saiu rebolando feliz com seu autógrafo enquanto Vitória se dava conta que ele era famoso, bonito, bem sucedido e que tinha uma fila de mulheres esperando para ficar com ele. Isso a fazia duvidar ainda mais das reais intenções dele e minavam um pouco da sua autoestima que parecia tão inabalável horas atrás.

Antes que voltassem a conversar, foram mais uma vez interrompidos pelo garçom que chegava com os pratos.

– Suas ostras estão lindas.

– Seu risoto também.

O plano era sensualizar com as ostras, mas depois do autógrafo e da chegada das dita cujas à mesa, ela estava totalmente desencorajada. Ela nunca tinha provado porque tinha muito nojo da aparência. Porém agora era tarde demais para pensar nisso e ela precisava colocar aquilo na boca, como se fosse a coisa mais deliciosa do mundo.

“Esquece a consistência e engole direto. Coma de maneira sexy, para o sacrifício não ser em vão.” Dizia para ela mesma em seus pensamentos. E se encheu de coragem, colocou muito limão e meteu a ostra para dentro da maneira mais sexy que ela conseguiu. Na hora sentia que estava bebendo o mar. O oceano inteiro tinha tomado conta da sua boca, garganta, barriga tudo. Ela odiou. Assim como achava que odiaria. E não tinha nada para beber, além de água para espantar aquele gosto horrendo da sua boca.

Ele achou graça.

– Acho que sei bem o que está tentando fazer. E queria te dizer que está conseguindo. Disse Eric.

– Sabe é? O que estou tentando fazer?

– Me fazendo ficar com vontade de você. Eu já tenho vontade, independente da forma sexy como esta engolindo essa ostra.

Já sem conseguir se concentrar, ela mal ouvia o que ele dizia e com medo de vomitar, pediu uma taça de vinho para ver se amenizava aquele gosto horrível.

– Oi por favor! Disse ela chamando o garçom. – Poderia por favor me servir uma taça de vinho?

– Resolveu beber vinho comigo? Acho que a ostra está tendo o mesmo efeito em você que teve em mim.

Ela achou muita graça porque bebia para acabar com aquela tortura.

– Talvez… Você nunca vai saber. Respondeu ela.

– Nunca ninguém me desafiou como você mocinha.

– Já disse que faço sem querer,

– Isso é o mais inacreditável.

Eles conversaram o resto da noite de vários assuntos e Vitória não comeu mais nenhuma ostra sequer, porém acabou bebendo meia garrafa de vinho.

Quando o garçom veio retirar os pratos e oferecer a sobremesa, estranhou o prato de Vitória cheio e perguntou:

– A Senhorita não comeu nada. Algum problema com o prato?

– Não. Estava perfeito. Eu que não estava com muita fome. Respondeu ela constrangida.

– Melhor assim. Respondeu ele. Sobremesa?

Vitória se sentia tonta pelo vinho e estava morrendo de fome por isso resolveu pedir sobremesa.

– Para mim uma torta de maçã com sorvete creme e chantili extra. Pediu Vitória decidida.

– Para o senhor?

– Um creme brule magnolia por favor.

– Muito bem. Disse o garçom saindo.

– Por que não comeu nada? Está tudo bem? Perguntou Eric parecendo realmente preocupado.

– Queria guardar espaço para a sobremesa. Dizem que a torta de maçã daqui é ótima. Uma referencia do cardápio.

– Pensei o mesmo do creme brule que leva o nome do restaurante. Por isso pedi. Mas não sabia da fama das sobremesas daqui e comi todo o meu risoto.

– Você pode.

– Um elogio?

– Sim! Um elogio.

– Você me desculpou e me fez um elogio? Acho que ganhei minha noite.

Eles terminaram a sobremesa e Vitória se sentia mais feliz e relaxada depois de tanto álcool e tanto açúcar. Assim que pagou a conta Eric provocou Vitória:

– Que pena que essa noite na sua companhia acabou.

– Uma pena mesmo. Esse jantar foi realmente uma delicia. Muito obrigada.

– Você está de carro?

– De táxi.

– Posso te levar em casa?

– Prefiro o táxi. Mas não é pessoal. Juro.

Eles caminharam ainda conversando até o ponto de táxi. Quando ela ia entrar do táxi ele a puxou para perto dele.

– Acredita em mim? Te acho realmente muito especial. Por isso fiz tanta questão de me explicar para você. Disse Eric a poucos centímetros de distância da boca de Vitória.

Vitoria sentia vontade de beijá-lo, mas não poderia se entregar assim tão fácil depois de tudo que ele fez. E então ela respondeu:

– Estou começando a acreditar. Agora me deixa ir. Disse ela se afastando.

– Nem um beijo?

– Nem um beijo. Eu te disse antes. Fazer diferente ia acabar fazendo você parar de acreditar em mim. E a ideia é acreditarmos um no outro. Certo?

– Você é mesmo incrível.

– Obrigada pelo jantar. Disse ela dando um beijo no rosto dele e entrando no carro.

O taxi ia se distanciando e Eric continuava ali parado na esperança de ela pedir para parar o carro, descer e correr ao encontro dele. Ela acompanhou a cena pelo retrovisor. Mas não olhou para trás. Sentiu vontade de sair do carro, mas se manteve firme. Até que enfim o carro virou em uma rua deixando o Eric parado, ainda na mesma posição, para trás. E ela enfim respirou aliviada. Apesar de ter fortes argumentos, naquela noite seu coração era vencido pelo seu cérebro.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 12 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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