Capítulo 12 – Copo Meio Cheio

Vitória acordou com seu celular tocando. Contrariada porque queria dormir até mais tarde. Quando foi atender viu que era um número desconhecido e preferiu tentar voltar a dormir. Mas o número desconhecido insistia muito, o que a fez desistir de tentar dormir e atender o telefone.

– Alô.

– Oi Vitória. Tudo bem?

– Quem é?

– O Thomas.

– De que número está me ligando?

– Mudei de número de telefone.

– Por que?

– Tem a ver com a lista de explicações que te devo.

– Ah deve mesmo! Respondeu ela brava.

– Desculpe te ligar tão cedo, mas estou realmente ansioso para falar com você. Podemos nos ver hoje para conversarmos?

– Podemos. O que você sugere?

– Um jantar em um japonês que acabou de inaugurar e que tem tempo que quero conhecer. Tudo bem para você?

– Tudo bem. Adoro comida japonesa. Como chama o restaurante?

– Osho. Fica no Itaim. Posso te pegar às 20 horas?

– Thomas, prefiro te encontrar lá, se não se importa.

– Você quem manda.

– Até mais tarde. Te encontro às 20 horas lá. Despediu-se Vitória com um tom seco.

– Beijo. Disse ele tentando adoçar um pouco as coisas.

E ela desligou o telefone sem mandar um beijo de volta. Porque se sentia realmente mal com tudo o que ele tinha feito. E não tinha vontade de beijos ou encontros românticos com ele, mas estava bastante curiosa para conhecer a história que ele ia contar para ela.

Vitória aproveitou o domingo ao ar livre com sua irmã Catarina e seu sobrinho e aproveitou para conversar e colocar toda conversa em dia. Catarina falou dos progressos de seu negócio de criação de estampas que estava começando a sair do papel. Falou sobre a dificuldade de criar um filho sem o pai. Ela se sentia exausta e apesar de amar o filho mais que tudo e amar estar com ele, sentia o peso de fazer tudo sozinha e não ter tempo nenhum para ela. Enquanto Vitória falava de seu medo de ser demitida depois da fusão, mesmo tendo feito um bom trabalho, das suas aventuras no amor, dos dilemas constantes entre o seu coração e o seu cérebro e ainda sobre estar ficando velha e o seu medo de não conseguir ter uma família e os filhos que sempre quis ter. Catarina sempre foi muito mais prudente e mais bem resolvida que Vitória. Depois de correrem, brincarem de bola, se estressarem com o Viny no patinete tirando finas de outras crianças, terminaram a tarde com um pic-nic ao por do sol.

– Tudo vai dar certo. Tenho certeza. Disse Catarina à irmã.

– Tem dias que tenho certeza absoluta que sim. Já em outros…

– Você precisa acreditar que dará certo e fazer a sua parte. Sempre.

– Às vezes quero fazer certo, mas não sei em que acreditar. Tenho medo de me entregar para o Eric e parecer uma tola ao descobrir que ele sempre jogou somente para me levar para cama de novo. Medo de acreditar em Thomas e ser outra boba. As coisas de repente não parecem mais como eram. O Eric parece mocinho e o Thomas bandido na história. Meus olhos não conseguem ver e nem cérebro ou coração conseguem distinguir mais nada. São batalhas em vão.

– Bom, a única coisa que posso dizer é que você precisa arriscar. Para ver se ganha no final.

– Você tem toda razão. E vamos ver o que o Thomas vai me explicar hoje.

– E por falar em hoje. Precisamos ir. O Vinicius tem aula cedo e amanhã e eu talvez ganhe um sócio investidor para o meu negócio. Preciso ir dormir cedo e tenho coisas para organizar para a minha reunião de amanhã. E você precisa estar linda para o seu encontro. O Thomas precisa ver o mulherão que você é.

– Ah! Catarina, você não é uma irmã, é um presente.

E assim elas terminam a tarde. Se deliciando da companhia uma da outra e aproveitando o sol até ele se por.

Vitória se apressou pois acabou chegando em casa um pouco depois das 19 horas e logo ela teria 50 minutos para ficar linda e estar no restaurante. Demorou mais do que queria porque não conseguia acertar na roupa. Queria algo sério, que mostrasse que ela não estava pensando em seduzir ninguém, mas que ao mesmo tempo a deixasse linda, mostrando a ele o que estava perdendo. Escolheu por fim uma calça preta curta um pouco acima dos tornozelos bem justa, tenis all star dourado e uma camisa sem manga com um nó na frente fazendo com que quase aparecesse um pedacinho da barriga dela. Caprichou na maquiagem usando olhos esfumados em preto e um batom nude.

Enviou uma mensagem já dentro do taxi avisando que atrasaria 10 minutos e foi treinando mentalmente seu discurso de garota que não permite que a enganem até chegar no restaurante.

– Olá! Me desculpe pelo atraso. Disse quando chegou ao restaurante.

– Valeu à pena esperar. Você está linda.

– Um pouco simples para o nível de sofisticação desse lugar. Disse ela envergonhada olhando em volta e vendo um lugar lotado de pessoas bem vestidas com tubinhos preto e saltos altos Loubotain.

– Você está linda. Não se compara com essas moças que parecem ter saído do mesmo closet.

– Obrigada. Me sinto melhor com meu tênis agora.

– Se não se importa, pedi o menu degustação. Assim provamos tudo que há de melhor e não perdemos tempo escolhendo os pratos.

– Não me importo! Pelo contrário, adorei a ideia. Agora me diga o que tem a dizer.

– Em primeiro lugar, me desculpe ter dormido enquanto te esperava sair do banho. Minhas expectativas eram altas, acredite! Mas eu estava muito cansado.

– Isso não me chateou de maneira alguma. Não precisa se desculpar por isso. Enquanto todo o resto me fez ficar bem zangada com você.

– Com toda razão.

– Mas estou certa que você tem uma explicação. Porque eu ficaria realmente muito desapontada se você estivesse saindo comigo tendo uma namorada. Porque só isso justificaria eu ter que me esconder.

– Certa mais uma vez. Nós terminamos um pouco antes de eu reencontrar você. Naquela noite que ficamos juntos eu quis você, como nunca quis ninguém. Eu sempre quis você na verdade. E durante toda a semana seguinte ao nosso encontro você me evitou, me tratou com frieza e pensei que definitivamente você não me queria e eu precisava lidar com isso. Me afastei de você e procurei minha ex-namorada. Por autoafirmação, carência, sei lá a razão, mas não por amor. Fui viajar com ela para a fazenda de um grande amigo. Lá é um refugio para mim. E o nosso final de semana foi muito esquisito. Claramente não tínhamos mais nada a ver um com outro. Mas desde então ela começou a insistir na história. Aparecia de surpresa nos lugares e chegou a ir para a minha casa com as malas. No dia que furei com você, fui almoçar com ela. Ela apareceu no escritório sem avisar, me ameaçando de pedir metade de tudo que era meu pelo tempo que moramos juntos. Ou melhor pelo tempo que ela morou comigo na verdade. Não acho que um juiz que gozasse de seu pleno juízo daria ganho de causa para ela. Mas essa atitude desequilibrada dela me preocupou. Cheguei até a procurar um advogado. E não bastasse ela começou a me ligar de madrugada e acabou com aquela cena que você presenciou. Imaginei que se ela me visse com outra mulher poderia ficar ainda mais desequilibrada. Acredite que tentei preservar você e não te esconder.

Vitória olhava para ele enquanto ele dizia todas aquelas coisas e acreditava em cada palavra dele. E de repente seu pensamentos gritaram: “Hey! Esse moço é um moço para casar. Certinho, verdadeiro, preocupado, sincero. Beija bem.” E por mais tensa que fosse a história que ele contava já tinha sido perdoado por ela e tudo que ela queria, era fazer sexo e talvez casar com ele.

– Fale alguma coisa! Está me deixando aflito.

– Desculpe. Não foi minha intenção. Eu estava processando tudo que você me falou. Eu acredito em você. Por mais que eu tenha me sentido muito humilhada com tudo o que aconteceu, eu acredito em você. Mas não entendo porque demorou tanto para me ligar. Isso sim, me fez pensar mal sobre suas reais intenções.

– Ela jogou meu celular pela janela junto com algumas roupas. Me disse que se eu não fosse dela, não seria de mais ninguém e depois dessa cena, me ameaçou e foi embora.

– Te ameaçou como?

– Dizendo que não permitiria que eu fosse feliz com outra mulher.

– Meu Deus! Você acreditou nela?

– Não! Ela está com raiva. Vai passar. Ela é uma boa pessoa e sempre foi muito equilibrada.

– Não sei não. Eu acreditei nela.

– Tenho certeza que vou conseguir resolver isso. Mas não tinha certeza se ia conseguir resolver as coisas com você.

– Por que você trocou o número do celular se acredita nela?

– Para dificultar um pouco. Preferi ficar mais invisível para ela.

– Entendi. Mas se eu fosse você, não subestimaria a ira de uma mulher apaixonada e não correspondida.

– Vou redobrar meu cuidado então.

– Acho melhor.

– Agora podemos falar de outra coisa? Tem alguma coisa sobre essa história que você quer saber? Serei totalmente sincero com você.

– Acho que por enquanto isso tudo já é suficiente. E te agradeço se falarmos de outra coisa.

– Então me conta o que você fez no final de semana.

Vitória morreu de vergonha ao se lembrar de quase ter cedido aos encantos de Eric e preferiu ocultar essa parte da história.

– Fiquei em casa, sai para jantar com alguns amigos e hoje passei o dia com minha irmã e meu sobrinho. Amo estar com eles! Me faz muito bem. E o seu?

– O meu não foi nada bom! Negociei com uma maluca e passei horas em meio a burocracias para poder ter um celular novo, basicamente.

– O seu não foi muito legal mesmo. E na verdade eu já sabia. Respondeu Vitória sem graça com vergonha de ter perguntado.

– Mas está terminando muito melhor do que eu esperava. Obrigado por ter aceitado meu convite.

– Fico feliz em contribuir! Disse Vitória abrindo seu maior sorriso e deixando Thomas totalmente encantado.

– Sabe o que acabei de me dar conta? Perguntou Thomas.

– O que?

– Que trabalhamos juntos.

– Isso muda alguma coisa para você?

– Só se mudar para você. Afirmou Thomas.

– Acho que não. Nunca tive nada com alguém no trabalho. Não faço ideia sobre o que pensar sobre isso. Mas acho que ainda não precisamos nos preocupar tanto com isso.

– Você tem razão. Vamos viver uma coisa de cada vez. Respondeu Thomas com medo de ter dado a entender que queria namorar com ela e de que precisavam negociar como ficariam as coisas no trabalho.

– Isso. Já tem confusão demais na sua vida nesse momento. Quero ser a parte leve e divertida.

– Ah Vitória, que delícia de pessoa você é.

– Preciso confessar que pensei alto. Não queria ter te falado isso. Apesar de ser verdade.

– Você confessa que pensou alto? Você é demais.

E os dois caíram na gargalhada.

– Essa comida é algo de outro mundo. A melhor comida japonesa que comi na minha vida. Elogia Vitória desviando o assunto sobre o possível relacionamento deles. Porque por mais encantada que estivesse não tinha certeza se queria namorar com ele.

– Muito melhor do que eu esperava, depois das boas críticas que li.

– Você é um homem que sabe o que é bom.

– Eu posso dizer que sou um homem que procura o que é bom. Mas ainda tenho muito o que aprender.

– E ainda é modesto. Ela se arrependeu assim que terminou a frase. Mais uma vez pensava alto e falava coisas que não queria.

– E isso é bom ou ruim? Perguntou Thomas sem entender.

– Isso é bom Thomas! Muito bom. Respondeu Vitória sem graça, virando num gole só o que restava no copo do seu pisco sour.

– Você é muito engraçada Vitória. Fala tudo o que pensa. Literalmente! Te admiro por isso.

Ela agradeceu tímida. Seguiram conversando sobre o que aconteceu na vida deles em todo esse tempo que estiveram separados, falaram sobre os seus pais e irmãos dando atualizações sobre o que cada um estava fazendo da vida. Conversaram como dois grandes amigos que compartilharam uma parte da vida um do outro, mas que estiveram por muito tempo distantes vivendo uma série de coisas.

– De repente parece que o tempo não passou. Disse Thomas encantado concluindo a conversa.

– Ah passou! E já é quase meia noite. Temos que trabalhar amanhã. Precisamos ir.

– Mais uma vez certa. A realidade pode ser bem amarga. Vamos. Quer mais alguma coisa? Vou pedir a conta.

– Mesmo que eu quisesse, não caberia. Ela respondeu rindo.

Ele pagou a conta e saíram juntos lado a lado. De repente o silencio tomou conta de tudo. Thomas se perdia na presença dela.

– Você está de carro? Ele perguntou quebrando o silencio.

– De taxi.

– Posso te levar para casa?

– Agora que está tudo explicado… Pode! E eu agradeço.

Ficaram em silencio no carro ao som de John Mayer. De repente parecia que todo assunto tinha se esgostado. Mas na verdade o desejo tinha tomado conta de tudo e a vontade que um tinha do outro podia ser sentida no ar. Podia quase ser tocada. E no primeiro sinal de transito que eles pararam já estavam os dois enroscados um no outro.

– Não sei o que acontece com a gente em carros. Disse Vitória depois do beijo.

– Eu também não! Mas confesso que gosto muito disso.

Eles chegaram na porta da casa de Vitória e ambos tinham vontade de ficar um com o outro, mas se despediram, mesmo a contra gosto.

– Obrigado pela noite deliciosa e principalmente por ter me ouvido. Disse Thomas.

– Eu que te agradeço pelo jantar e companhia deliciosos! Até amanhã.

– Até amanhã.

Vitória deu um selinho nele e saiu do carro.

Ela caminhou feliz até o portão do seu prédio pensando que Thomas poderia ser sim o homem de sua vida e nem a ex-namorada irada perseguidora assustava ela em relação ao futuro que eles poderiam ter juntos. José já não tinha mais espaço nos pensamentos dela e o fato de Eric ter vindo atrás dela e ter lhe dito coisas que fizeram tão bem à sua autoestima, colocava tudo em uma excelente perspectiva. E essas novas perspectivas a fizeram pegar no sono feliz.

Quando chegou no escritório de manhã, estava bem humorada tendo flashes do seu final de semana se reapresentando o tempo inteiro. Ela sentia um certo frio na barriga por encontrar Thomas no escritório. Mas em poucos minutos seu bom humor e alegria foram abalados por um clima tenso na agência. Ela viu sua amiga Cris sair de uma sala chorando e correu para falar com ela.

– O que houve?

– Acabei de ser demitida. Disseram que foi uma decisão por número de pessoas, que não fiz nada de errado. Mas fui demitida. Não sei o que fazer.

– Não acredito que demitiram você.

– Pelo que me disseram vão acontecer mais ao longo dessa semana.

– Acho que posso ser demitida também. Na verdade sinto que posso mesmo ser demitida. Dizia Vitória acreditando que ela poderia estar na mesma situação em poucas horas ou dias.

– Você conquistou os rostos que valorizaram a agência e ajudou a fusão a chegar no ponto certo para ser vendida. Eles seriam muito loucos e injustos. Discordava Cristina.

– Você sempre trouxe muitos bons resultados e nem por isso foi poupada. Nem sempre é possível esperar lógica em uma situação como essa. Pode acontecer com qualquer um.

– É verdade. E o pior é que não sei nem por onde começar a procurar um emprego. Eu nunca tinha sido demitida.

– Nem eu. Não tenho nem currículo atualizado. Concordou Vitória se sentindo em pânico só de pensar no assunto.

– E o mercado está super complicado. Mais gente precisando trabalhar do que empresas contratando.

E nesse momento Thomas passou por elas bem apressado desejando um bom dia.

– Tudo isso está acontecendo por causa dele. Ele não vai poupar as pessoas daqui. Não tem nem ideia da contribuição e potencial de cada um e está demitindo as pessoas. Continuou Cristina falando ressentida com Thomas.

– Ele não tem culpa disso. Defendeu Vitória.

– Tem sim. Ele está priorizando o time da empresa dele.

Vitória tentava defender Thomas porque gostava dele, mas não achava mais argumentos acabando por concordar com Cristina.

– Talvez você tenha razão. Ele não conhece a gente.

E nesse momento Vitória se deu conta que sabia muito pouco sobre Thomas. À primeira vista e somadas às impressões que Vitória tinha dele dos tempos da escola ele realmente parecia alguém do bem. Mas não sabia se ele era ambicioso, se passava por cima das pessoas para conseguir o que queria, se tratava bem as pessoas mais humildes. Ela concluiu que precisava de mais tempo para definir se ele era de fato um homem para casar como ela havia concluído precocemente.

O dia seguiu tenso no escritório com algumas demissões acontecendo, o que tornava o clima realmente horrível e instaurava um estado de pânico em todos.

A angústia tomou conta do coração de Vitória e todas as lembranças do final de semana romântico se foram completamente. Ninguém conseguia trabalhar e todos ficaram olhando para os seus telefones esperando serem chamados para as terríveis salas de reunião onde as demissões estavam acontecendo.

O dia terminou e Vitória foi para casa aliviada por ter sobrevivido empregada àquele dia, mas muito triste por se despedir de pessoas queridas que tinham sido mandadas embora tão injustamente. Thomas não a procurou o dia todo e ela tampouco tinha vontade de falar com ele porque de certa forma o culpava por tudo que estava acontecendo.

Quando chegou em casa encontrou a mãe e a irmã felizes a esperando com uma garrafa de champagne gelada.

– Oi Vick que bom que você chegou! Estávamos ansiosas te esperando. Disse a irmã realmente empolgada.

– Uau! Aconteceu o que estou pensando?

– Sim! Consegui um sócio investidor e vou finalmente realizar o sonho de ter meu próprio negócio.

Vitória dava gritos de felicidade e correu abraçar a irmã.

– Parabéns Caty! Você merece. Faz um trabalho maravilhoso e batalhou tanto por isso.

– Obrigada! E você? Como foi o encontro com Thomas?

– Foi realmente gostoso. Mas hoje muitas demissões aconteceram na agência e me dei conta que a culpa é um pouco dele. Acabei percebendo que estou idealizando um pouco ele, porque no final, ainda não o conheço direito. Hoje não quis olhar para a cara dele. Senti raiva da frieza com a qual ele conduziu as coisas.

– Minha filha, você tem razão em esperar para conhecê-lo melhor, mas não odeie ele por antecipação. Isso não faz sentido. O mundo corporativo infelizmente tem dessas coisas e ele é um empresário bem sucedido, por isso faz parte do trabalho dele tomar esse tipo de decisão.

– Mas antes de tudo ele é humano. A decisão é parte do trabalho dele, mas como conduzir a história é uma escolha dele. Ponderou Vitória.

– Mas então você não foi demitida como estava com medo? Perguntou Catarina.

– Ainda não! Mas dizem que as demissões acontecerão ao longo da semana. Respondeu Vitória.

– Você fez um excelente trabalho. Eles não teriam razões para te demitir. Disse Helena.

– Mãe adoraria que as coisas fossem assim. Mas essa noite é de comemoração e não de especulações sobre a justiça no mundo corporativo.

– Vai dar tudo certo. Sempre dá minha filha. E agora a nossa razão da comemoração do dia: Ao novo negócio de Catarina que começa hoje depois de tanto sonho e tanto trabalho.

– Ao sucesso da Catarina e suas estampas tão exclusivas e cheias de personalidade. Completou Vitória.

Elas brindaram ao sucesso de Catarina e a angustia seguia ocupando o coração de Vitória mesmo sabendo que tinha feito um excelente trabalho e que não deveria ter motivos para se preocupar.

Na hora de dormir não conseguia pensar em mais nada além de sua possibilidade de demissão. “Eles deveriam mandar embora todo mundo de uma vez. Isso é uma tortura. Sobreviver a um dia empregado, sabendo que seu dia pode ser amanhã é uma tremenda angústia. Mas pensando bem, assim é a vida. Ela não oferece garantias.” Concluía Vitória em seus pensamentos. Até que finalmente depois de horas se virando de um lado para o outro na cama, conseguiu dormir.

Ela acordou antes do despertador tocar. No final tinha conseguido dormir apenas 4 horas. A preocupação com o que podia estar por vir parecia um grande polvo com seus 8 tentáculos grudados na sua cabeça. Nada parecia tirar aquele polvo da cabeça dela.

O dia de trabalho foi mais tranquilo. Poucas demissões aconteceram e ela sobreviveu empregada a mais um dia. Mas seguia angustiada. A semana passou voando e depois das demissões em massa da segunda-feira poucas pessoas foram demitidas ao longo da semana. Thomas não falou com Vitória a semana toda e ela sentia que ele a evitava por causa dos temas de trabalho. Ela começou a acreditar que seria muito difícil levar a história com ele adiante estando trabalhando no mesmo lugar que ele. Ele era sem dúvida muito profissional e isso fazia ele perder muitos pontos como o ser humano maravilhoso que Vitória via nele.

Na quinta-feira Vitória já estava saindo do escritório quando foi chamada por Rebeca para um alinhamento.

“Alinhamento? A essa hora? Meu Deus está acontecendo! Serei demitida.” Pensava ela enquanto ia buscar um copo d’água antes de ir para a sala de Veronica. Ela tremia da cabeça ao pés e pedia calma para si mesma, quando respirou fundo e entrou na sala.

– Oi Vitória, tudo bem?

– Sim! E com você.

– Nada bem na verdade depois da semana horrível que tivemos. Mas o mundo corporativo exige certas coisas que nem sempre são justas e esse é o preço a pagar, infelizmente.

– Concordo com você.

– O motivo da nossa conversa não é nem um pouco bom. Disse Veronica tentando arrumar uma maneira de fazer aquilo ser mais fácil para as duas.

Nessa hora o coração de Vitória batia tão rápido que ela tinha medo de desmaiar.

– Veronica, pode dizer.

– Infelizmente, estamos demitindo você. Acredite que a culpa não é sua. Você fez um excelente trabalho e sua alta performance nos últimos meses foi indiscutível. Totalmente acima da média. Mas infelizmente a área de prospecção de talentos da TOP é uma referência e eles impuseram que ficasse 100%, o que fez a gente precisar dispensar você. Acredite que estou muito chateada com essa decisão e fizemos de tudo para mantê-la. Tentamos te recolocar em outras áreas, mas infelizmente não foi possível.

– Eu já esperava por isso.

– Você é uma profissional incrível que certamente irá se recolocar rapidamente. Você está entrando em um pacote financeiro interessante e terá convênio médico por 6 meses, apoio de uma consultoria focada em transição de carreira, 6 salários de bônus pelo seu tempo de trabalho, além de todos os encargos demissionais aos quais você tem direito.

– Obrigada Veronica. É só isso? O que faço agora?

– A Viviane do RH vai falar com você e te explicar tudo. Ela vai entrar agora. Posso te dar um abraço. Pediu Veronica emocionada.

– Claro. Respondeu Vitória totalmente perplexa.

– Estou certa que existe algo incrível te esperando.

– Eu também. Concordou Vitória sem saber o que falar para ela.

Veronica saiu e no momento em que Vitória ficou sozinha na sala esperando pela chegada de Viviane ela não tinha ideia do que estava sentindo. Não sabia dizer se era raiva, alívio, medo ou se era o que ela precisava para correr atrás da verdadeira satisfação dela. Mas uma coisa ela sabia. Sentia que estava sendo muito injustiçada depois de toda entrega bem sucedida que tivera.

Viviane entrou na sala com um copo d’água e tratou dos temas burocráticos com Vitória. Ela não quis saber nada sobre os sentimentos dela, o que fez Vitoria realmente questionar o que acontecia com o lado humano das pessoas quando elas se tornavam bem sucedidas em sua profissão. Viviane estava sendo uma excelente profissional, mas um ser humano horroroso. Isso fez Vitória experimentar um sentimento reconfortante. Alívio por não fazer mais parte daquele grupo de pessoas que tinham atitudes tão desprezíveis.

Ela foi para casa tentando ver o copo meio cheio. Agora ela teria dinheiro e poderia fazer o curso de produção para o cinema em Hollywood que ela tanto queria. Ela finalmente poderia trabalhar naquilo que queria, porque agora ela não tinha escolha, precisava escolher algo para fazer. Se dependesse dela, jamais investiria em seus sonhos, jamais trocaria a estabilidade de um emprego medíocre pela incerteza da realização de um sonho. Jamais trocaria um emprego de verdade por algo que poderia dar totalmente errado e geraria um rombo na sua vida financeira, fazendo ela morar para sempre com a mãe. Ela admirava sua irmã que mesmo tendo um filho tão jovem, correu atrás da vida, garantiu boa educação para ele e conseguiu começar seu próprio negócio. Era a mulher mais corajosa que Vitória conhecia.

Quando ela estava chegando em casa seu celular tocou. Era Thomas ligando. Ele ligava pela primeira vez desde que se despediram no domingo à noite. Vitória não sabia o que dizer para ele, além da vontade que tinha de mandar ele para o inferno. Então achou melhor não dizer nada até que soubesse o que ia dizer e preferiu declinar a ligação. E assim ela fez nas outras 10 tentativas seguintes dele.

Depois de tantas ligações não atendidas ele enviou uma mensagem.

“Precisamos conversar. Quero te explicar tudo e saber como você está.”

Para essa mensagem ela já sabia a resposta e enviou na mesma hora para ele.

“Acho que estamos tratando de explicações demais para a mesma semana. E de verdade, já estou ficando farta de explicações. Nada pessoal. O problema sou eu.”

“Entendo muito bem o que está dizendo. Mas quero saber como você está.”

“Eu vou ficar bem.” Ela respondeu e desligou o seu celular.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 13 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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