Capítulo 12 – Coração de Pedra

Olivia passa a tarde de domingo em um café dentro de uma livraria. Tinha comprado várias revistas e livros de moda e estava escrevendo alguns posts novos para o seu o blog que andava bem abandonado ultimamente devido aos últimos acontecimentos na agência, as festas e tantos compromissos da sua vida pessoal. Ela precisava de silencio e de um espaço somente dela. Coloca sua playlist favorita para tocar, escolhe quebrar o silêncio para se inspirar por suas músicas favoritas. Quando começa a tocar Clocks do Coldplay seus pensamentos vão para outro lugar. Se lembra de Flavio e do beijo que ele roubou dela. Naquele momento, era essa a música que tocava. E como se encontrasse os pensamentos dele, toca seu celular e era ele ligando.

– Oi! Atende Olivia.

– Oi! Tudo bem?

– Sim e você?

– Também. O que você está fazendo?

– Estou escrevendo para o meu blog. Por que?

– Queria te ver. Preciso falar com você. Podemos tomar algo mais tarde? Quero te levar em lugar especial.

– Podemos. Onde nos encontramos?

– Te pego na sua casa às 14h.

– Mas onde vamos?

– Surpresa!

– Então o que devo vestir?

– Você fará um passeio ao ar livre. E lá venta. Então leve um casaco.

– Até já então. Beijo

Ela também queria ver ele. De repente começava a torcer para os finais de semana passarem mais rápido, só para vê-lo na segunda-feira. Ela ficou feliz com esse encontro. Seguiu com seus textos, sua música e seu café até às 13h. Então satisfeita com o que tinha produzido, foi para casa. Era difícil para ela assumir. Mas sentia algo muito especial por Flavio.

Ele chega pontualmente às 14h, ela está vestindo uma calça branca de piquet com botões dourados, camiseta branca levemente transparente com listras finas na cor azul marinho e um casaco azul marinho de lã fininha. Nos pés sapatilhas e o cabelo que está bem comprido, solto e super ondulado. Batom vermelho e óculos escuros. Ela é tão estilosa que o fato de não ser bonita, não faz falta nenhuma.

Quando entra no carro, Flavio a elogia, diz que sua roupa não poderia estar mais apropriada e conclui falando que ela está linda.

Pegam a estrada. No rádio toca uma sequencia de músicas do Coldplay. Ele sabia que estavam entre as músicas preferidas dela e estrategicamente começa pela música Clocks. Chegam em 2 horas no local. Era uma marina e nesse momento ela desconfia que seria um passeio de barco.

– Meu Deus! Que loucura. Vamos passear de barco?

– Sim! Vou te levar para ver o por do sol e jantar em alto mar.

– Que delícia! Muito inusitado.

Sairam às 16h em direção ao alto mar. Somente os 2, um piloto e uma pessoa que serviria o jantar. Conforme o planejado, o barco para em um ponto onde se pode ver um por do sol deslumbrante. Aquilo não parecia real e Olivia estava encantada.

Flavio olha profundamente nos olhos dela e vai se aproximando, sem dizer nada. Quando está bem perto, ele diz:

– Eu não consigo mais viver sem beijar você. Mas não vou fazer isso até que você me diga que também quer.

– Então beija. Diz simplesmente.

E se beijam e no beijo ao invés de pressa e intensidade tão comuns em beijos muito esperados o que um oferece para o outro é carinho. Muito carinho.

– Gostou? Pergunta Flavio.

– Do beijo?

– Também do beijo, mas estou querendo saber se gostou de tudo.

– Eu amei tudo, ainda mais do beijo.

E se beijam de novo, com ela apoiada na grade da proa do barco. De novo, sem pressa e ainda mais intensamente.

Conversam sobre o que sentem um pelo outro e descobrem muitos sentimentos em comum. Não brigaram nem uma vez como era de costume. Jantaram em alto mar, como o planejado e até que enfim, Flavio pediu Olivia em namoro. Ela aceitou. Ele levou ela nos braços para a cama e como se já estivessem juntos há muito tempo fizeram sexo com uma afinidade que somente casais juntos há muito tempo tem.

Voltaram para casa bem tarde. Eles estavam namorando. Ela não podia acreditar que estava namorando o cara que chamou tantas vezes de insuportável.

Nesse mesmo horario, estão chegando no aeroporto Malu e seus amigos que voltavam no último vôo para São Paulo.

Um pouco antes de aterrizar Betsy e Malu conversam sobre Felipe. E Betsy pergunta:

– Como você está se sentindo, Malu?

– Estranha! Parece que tomei uma anestesia para fazer uma cirurgia no coração e hoje estou vivendo o pós operatório. O momento que o efeito da anestesia passa e eu posso sentir tudo. O corte, os remendos e o medo de que a cirurgia não dê certo. Estou sentindo dor e medo.

– Isso vai passar. Pensa que a cirurgia pode ter dado certo. O que você e o Felipe combinaram?

– Absolutamente nada. Não vou namorar ninguem agora. Seria muito leviano. Ele mora em outro Estado. Vamos levando e ver no que vai dar. Não tem porta aberta, nem fechada. Mas gostei de ficar com ele. Me fez bem. É legal pensar que o destino nos deu uma segunda chance.

– Que bom minha amiga. E o Rodrigo? Vocês precisam conversar.

– Eu sei! Vou chamar ele para jantar amanhã. Somos amigos. Temos amigos em comum. Somos adultos. Estou pronta para conversar com ele.

– Muito maduro e sensato de sua parte. Sobre o casamento, vou colocar ele no altar com a Grazi e você com o Vitor. Tudo bem?

– Nem tinha pensado nisso. Faça como achar melhor Betsy. Se precisar que eu fique com ele, fico sem problemas.

– Você quer levar o Felipe no casamento?

– Não! Ainda é muito cedo para isso. Quero curtir seu casamento e tentar pegar seu buque para ver se a minha sorte muda. Não posso ter nenhuma distração. Diz isso e ensaia um sorriso pela primeira vez naquela noite.

Se juntam à conversa em que Grazi conta animadamente para Vitor e Edu tudo sobre seu encontro com Rodrigo Santoro. Disse que ele vai voltar para Los Angeles, mas combinaram de manter contato um com o outro. Porém Grazi sabe que isso é da boca para fora. Claro que eles não vão se ver nunca mais. Mesmo assim eles não podiam acreditar no que tinha acontecendo. Mesmo assim ela estava radiante com tudo que aconteceu entre eles.

Aterrizaram em São Paulo, o aeroporto estava vazio e estavam todos exaustos. Se despediram no momento em que entraram nos táxis que os levariam para casa.

Já em casa, Malu sente um enorme vazio, extamente como previa que aconteceria. O sonho tinha acabado e sua dura realidade estava de volta. Começando pela conversa pendente com Rodrigo que sabia que não podia adiar mais. No próximo final de semana, eles viajariam juntos e tudo precisava estar mais esclarecido até lá. Antes de dormir, ela envia uma mensagem para ele.

“Estou pronta para conversar. Podemos jantar amanhã?”

“Sim! Por favor.” Responde na hora, como se estivesse olhando para o telefone esperando pelo contato dela.

“Vamos nos encontrar às 20h no restaurante aqui em frente à minha casa. Tudo bem para você?”

“Sim! Qualquer lugar esta bom.” Responde sentindo uma enorme tristeza pela maneira formal como a Malu o tratou.

O dia seguinte chegou logo e Malu acordou se sentindo cansada. Tinha abusado no final de semana. Se arrasta para o trabalho dando graças a Deus por ter uma agenda tranquila sem nenhum compromisso, exceto por uma reunião perto da hora do almoço que permitiria que ela fosse mais cedo para casa. Mas logo que chega no escritório, seus planos de tranquilidade desmoronam quando Rebeca aparece toda animada, chamando todos para uma reunião que não estava planejada para contar que tinham conquistado mais um cliente e que seria um projeto de implementação de uma ação que percorreria 8 estados. Ela apresentava a ação extremamente empolgada. Como eram muitos dias viajando, as 4 duplas de atendimento de sua esquipe estariam envolvidas na fase incial do projeto e no final da reunião, sortearam os estados que cada dupla iria. Malu e Caique ficaram com Rio de Janeiro e Salvador. Ela ficou feliz com a possibilidade de ficar uns dias no Rio a trabalho. Era uma oportunidade de ficar com Felipe. A ação começaria no meio de setembro. Logo depois da volta deles de Cannes e eles tinham somente uma semana para planejar tudo. Rebeca, que está muito bem humorada brinca com eles:

– Sei que vocês adoram um desafio então a corrida pelo Brasil e o prazo curto devem ser bons combustíveis para vocês. Boa Sorte! Desculpem a reunião não planejada. Mas é uma boa causa. Agora podem voltar para o trabalho e qualquer dúvida, estou por aqui.

Quando volta para a mesa, Malu encontra um enorme buque de flores, um jardim na verdade, e todos em volta fazem brincadeiras enquanto ela lê o cartão. Eram de Felipe, dizendo que estava feliz por ter tido uma segunda chance com ela e que não conseguia tirar da cabeça as últimas horas, com o beijo, a conversa, o sexo, a nostalgia. Ela achou bonitinho. Mas para ela tinha sido apenas legal e naquele momento não passaria disso, portanto aquela abordagem, com romance, palavras bonitas e flores, pareciam um pouco demais e deixaram ela um pouco assustada. Malu não se conformava por não achar aquilo romântico e lindo, mas sim muito invasivo e apressado e pensava perguntando para ela mesma: – Será que o Rodrigo transformou meu coração em uma pedra?

– De quem são as flores? Pergunta Thales, interrompendo seus pensamentos.

– De um amigo que reencontrei nesse final de semana.

– São lindas. Esse amigo parece ter ficado feliz por ter reencontrado você. Por que você não parece feliz?

– Porque não entendi muito bem porque ele enviou.

– Ele enviou porque quer que você saiba que ele te acha especial.

– Faz sentido! Vou ligar para ele para agradecer.

– Você deveria! Ele deve estar ansioso esperando. Eu estaria no lugar dele.

– Você tem razão. Vou ligar para ele.

Malu, acha graça naquele homem ainda desconhecido praticamente mandando nela e sai com o celular para ligar para Felipe.

Desde que chegou, esse foi o maior diálogo que o Thales teve com alguém da agência e foi bem ousado. Perguntou o que todo mundo queria saber e ainda praticamente mandou na Malu.

Olívia também acha graça e diz baixinho para Duda:

– Eu te falei que o Thales tem uma queda pela Malu. Você viu o que acabou de acontecer? Ele todo tímido, bonitinho e atrapalhado falando com ela.

– Você tem razão. O gostoso misterioso está afim dela.

– E o Ricardo que não tira o olho de você e concorda com tudo o que você fala. Você reparou? Acho que ele está afim de você.

– Olívia, não viaja!

– Não estou viajando. Ah, quando a Malu voltar, vamos tomar um café? Tenho uma coisa incrível para contar para vocês.

– Ai. O que é? Estou curiosa.

– Espera a Malu voltar.

Assim que a Malu volta para a mesa, Olivia e Duda, não deixam nem ela se sentar e correm para o café do terraço.

– Eu e o Flavio estamos namorando! Desde ontem. Diz Olívia sem tomar ar entre as palavras, antes de dizer qualquer coisa.

– Aiiiii! Eu sabia que isso acontecer! Que lindo. Parabéns para vocês. Diz Malu.

– Finalmente vocês se assumiram. Nunca vi um casal demorar tanto para começar a aproveitar a vida. Comenta Duda. – Como foi que aconteceu?

– Foi demais. Nunca imaginei que ele fosse tão romântico. E seguiu contando tudo sobre o pedido de namoro em riqueza de detalhes.

– E eu fiquei com um amor do passado nesse final de semana lá no Rio. Eu nunca tinha ficado com ele, apesar de ter vontade, porque estava começando a namorar o Rodrigo na época em que nos conhecemos.

– Uma segunda chance? Que história linda. Diz Duda.

– Parece que sim.

– E eram dele as flores? Pergunta curiosa Olivia.

– Sim!

– Você não parece muito empolgada.

– Fiquei assustada na verdade, muito cedo para isso. Acho que meu coração virou uma pedra.

– Eu achei bem romantico. Diz Olivia.

– Olívia você está vendo flores e corações em tudo. Sorte sua! Para você tudo deve parecer muito romântico. Diz Malu.

– Acho que seu coração virou mesmo uma pedra Malu. Porque isso tudo é sim, muito romântico. Diz Olívia.

– Acho que você está certa Olivia. Meu coração virou uma pedra.

– Meninas, precisamos voltar, essa reunião fora dos planos atrapalhou toda a minha manhã.

– Duda, espera um pouco. Pelo menos até eu terminar meu café. Diz Olivia.

Nesse momento, chegam no café Theo, Pedro e os dois atendimentos novos Ricardo e Thales. Iam fazer uma reunião sobre o contrato da nova conta e como não acharam uma sala de reuniões, optaram por conversar em uma mesa no terraço. Enquanto esperam o café, Ricardo pergunta:

– Vocês sabem dizer se a Duda tem namorado? Estou louco por essa mulher. Que mulher demais.

– Não que eu saiba. Responde Theo tentando parecer indiferente mas querendo dar um soco na cara dele.

– Ela parece ser muito boa de cama. Continua falando Ricardo.

– Cara, não fala assim das mulheres daqui não. Você acabou de chegar e elas são mulheres corretas. Diz Theo.

Pedro fica perplexo com aquele discurso e acha graça. O próprio Theo fala assim das mulheres o tempo todo. Ah, o problema não é falar de mulheres. O problema é falar da Duda. Pedro tenta ajudar:

– Acho que a Duda tem namorado.

– Cara de sorte. Segue se derretendo Ricardo e enquanto fala de Duda e não desgruda os olhos dela.

Thales que estava quieto o tempo todo comenta:

– As mulheres aqui são muito bonitas. Mas a mais interessante de todas é a Malu.

– Ela acabou de ficar solteira. Incentiva Theo.

– Mas não acho que está aberta a relacionamentos. Retruca rapidamente Pedro.

– Isso nós vamos ver. Desafia Thales.

Pedro pensa em dizer algo para impedir Thales de chegar perto da Malu, mas nessa hora chegam os cafés e eles enfim começam a reunião. Pedro aproveita que Malu está passando e pergunta se ela está melhor. Ela diz que sim. Ele quer perguntar sobre as flores, mas decide fazer isso depois. Ele está morrendo de ciúmes dela. Tanto que mal consegue se concentrar na reunião.

Quando Pedro volta para sua sala, procura Malu para saber das flores e sobre o final de semana. Mas só encontra as próprias flores na mesa porque ela já tinha saído para almoçar. Ele passa a tarde olhando de sua sala para a mesa dela mas ela não volta. Então pergunta para Rebeca sobre ela dando uma desculpa de trabalho. E ela diz que Malu está fora em uma reunião de briefing e que iria direto para casa. Pensa em ligar para ela. Mas nesse momento Fabio liga para combinar o horário que iriam se encontrar para o jantar que tinham combinado naquela noite e acaba distraindo Pedro de sua fixação pelas flores.

Pedro chega pontualmente no horário combinado no restaurante e se encontra com Fabio, Stela a namorada dele e Diana, a amiga de Fabio com quem ele está saindo. Mas apesar da noite estar bem agradável, ele não pára de pensar em Malu, quer saber sobre as flores e se ela está melhor em relação ao seu coração partido. Ele está sem cabeça para encontros naquela noite e acaba sendo bastante distante a noite inteira. Fabio percebe e pergunta:

– Cara, está tudo bem?

– Sim! Só estou um pouco preocupado. Tenho uma coisa para resolver que se arrastou o dia todo hoje.

– Trabalho?

– Mais ou menos.

– Depois conversamos.

Fabio percebe que o amigo precisa ir embora e apressa o final do jantar. Já no carro a caminho de casa, Pedro resolve ligar para Malu. Mas ela não atende porque está no meio da conversa com Rodrigo.

Malu está jantando com Rodrigo e fica feliz por não se sentir tão triste quanto pensava que se sentiria. Era como se todo o alcool que ela tinha tomado nos últimos dias tivesse diluido toda a sua dor e tivesse feito seu coração virar uma pedra. Nesse momento se dá conta de que não quer mais Rodrigo. Mas ele insite:

– Malu, foi um caso. Já passou. Estou arrependido. Volta para mim. Me dá uma chance. Me perdoa! A gente vai se casar!

– Rô. Eu amo você. Mas não consigo te perdoar pelo que você fez. Você foi extremamente desleal comigo. Você agiu de maneira horrível. Você foi cruel. E não! Não vamos mais nos casar.

– Mas a gente tem uma história. Você não pode acabar com tudo assim.

– Rô, não fui quem acabou com tudo. Foi você. E você me enganou. Manipulou meus sonhos e minha vida. Sinto uma enorme tristeza quando penso nisso. Você mentiu para mim, inúmeras vezes. Eu quero manter você na minha vida. Vamos seguir com as nossas amizades em comum e conviver civilizadamente, mas não quero mais você como namorado. Acabou para mim. Vamos seguir em frente. Pelo menos é isso que eu estou tentando. E acho que você deveria fazer o mesmo.

Enquanto conversam toca a música Boa Sorte da Vanessa da Mata. Malu acha graça na ironia daquela musica e aproveita para provocar ele.

– Como diz a música, irreais expectativas. Acabou Rô. Preciso ir.

Malu pede a conta. Não quer ficar mais ali. Diz ainda que tem que trabalhar muito cedo no dia seguinte e deseja boa sorte prometendo que serão grandes amigos. Está nervosa e não consegue parar de falar. Ela precisa sair logo dali.

Se despedem na porta do restaurante e nesse momento, Malu que estava firme o tempo todo, desaba. Começa a chorar de maneira desesperada e Rodrigo a abraça e chora também.

– Por que você fez isso com a gente? Você tinha me pedido em casamento! A gente ia casar! Meu Deus! Por que?

– Malu, eu não sei. Fui fraco. Simplesmente aconteceu. Aquilo não significou nada.

– Você acabou comigo. Acho que aquela Malu que você namorou nem existe mais. Agora preciso ir mesmo. Diz isso, limpando as lágrimas do seu rosto e se solta dele. Atravessa a rua no sentido da sua casa, chorando desesperadamente. Ele olha a cena com as mãos na cabeça, não conseguindo acreditar que ela estava mesmo indo embora.

Já deitada na cama, ela escreve uma mensagem para Pedro: “Não podia atender. Desculpe. Algo urgente?” Ele responde instantaneamente: “Nada urgente. Posso te ligar?”. “Pode”.

– Oi! Como você está? Pergunta Pedro.

– Estou mal, acabei de ter uma conversa definitiva com o Rodrigo e foi muito triste. Muito mais do que eu esperava. Mas vou ficar bem.

– De quem eram as flores hoje? Pergunta sem ao menos responder sobre o estado de Malu que ela tinha acabado de declarar.

– Do Felipe. Um amigo. Uma pessoa do meu passado que eu reencontrei e acabei ficando junto lá no Rio.

– Amor do passado?

– Mais ou menos.

– Cuidado para não se machucar. Não vai se envolver tão rápido.

– Definitivamente, essa não é minha intenção. Mas me fez bem. E você e a caça?

– Igual. Nada novo. Nenhuma mulher desperta nada em mim.

– Daqui a pouco sua sorte muda e uma mulher conquista seu coração.

– Tomara. Não vou aguentar essa vida muito tempo. Ou não também. Acho que preciso de um tempo sozinho. Não quero me envolver com ninguem agora.

– Nem eu! Agora vamos dormir? Almoçamos amanhã se você puder e continuamos. Aí podemos falar sobre o fato dos nossos corações terem virado pedras. Estou acabada! Diz Malu.

– Vai descansar. Vamos descansar. Almoçamos amanhã. Beijos linda.

Assim que desligam o telefone Malu se pergunta: Beijos linda? O que tinha dado nele? Mas o cansaço derruba ela e apesar da tristeza não consegue pensar em nada e cai em sono profundo.

No dia seguinte, apesar de todo o choro da noite anterior, acorda bem e disposta. Passa um dia intenso no trabalho se dividindo entre o planejamento da ação de seu cliente novo, a finalização do seu case de Cannes e o trabalho das contas dela. Para piorar, Caique ainda estava em lua de mel e voltaria apenas 2 dias antes da viagem, que já era na próxima semana. Já não havia mais tempo, estavam na reta final para o festival.

Malu está enlouquecida em meio a tanto trabalho quando é distraída pelo telefone.

– Oi Pedro.

– Oi Malu, nosso almoço está confirmado hoje?

– Aham, não lembrava. Sim! Mas tem que ser rapido. Estou muito ocupada sem o Caique aqui e hoje temos happy hour de aniversário da Duda.

– Ok! Almoço rápido. Podemos sair já?

-Vamos.

Resolvem ir no restaurante mexicano bem perto da agência.

Mal sentam e Pedro pergunta:

– Como você está se sentindo em relação ao Rodrigo?

– Alternando momentos de alívio e certeza com tristeza e dúvida. E você? Já se recuperou do divorcio. Acostumou com sua nova vida e com mais espaço na cama na hora de dormir?

– Estou mais ou menos como você. Alternando momentos. E o cara das flores? Ele parece ter curtido ficar com você.

– Estou achando que ele está indo rápido demais. Foi gostoso ficar com ele. Mas não pretendo me envolver com ninguem agora. Preciso colocar tudo no lugar, cabeça, coração, expectativas. Ele me pressiona um pouco, mas devo admitir que tê-lo encontrado fez muito bem para o meu processo de recuperação. Sei lá, às vezes parece que meu coração virou uma pedra e de repente coisas que me tocavam tanto me incomodam. Ganhei flores duas vezes e tive vontade de jogar todas no lixo, aliás uma delas eu joguei. Enfim, devem ser os efeitos de um coração partido.

– Me identifiquei completamente com tudo o que você acabou de falar. Nada me toca. Também estou tentando colar os cacos e refazer minha vida. Mas acho que essas coisas que a gente passou mudam a gente para sempre.

– Pois é. Vamos ser positivos, talvez não tenhamos pedras no lugar do coração, as cicatrizes que tornam nossos corações mais insensíveis.

– Tudo muito recente para saber. Um brinde ao band aid que certamente ajuda a cicatrizar os corações partidos. Pedro diz isso levantado seu copo de suco.

– Que fofo. Você lembra do band aid. Um brinde ao band aid, então.

– Malu, eu nunca vou me esquecer do band aid.

Terminam o almoço com esse brinde. Malu tem muitas coisas para entregar e precisa sair cedo para estar com sua amiga Duda. O resto do dia voa e Malu corre já atrasada para o happy hour. Ela se espantava pela quantidde de eventos que apareceram na sua vida depois que começou a trabalhar na agência e não se lembrava de quando tinha tido uma noite tranquila, sem eventos, nos últimos meses.

Duda está radiante. Muitos de seus amigos apareceram. Ela estava vestida de maneira clássica como sempre. Vestia uma pantalona preta, uma blusa estampada com pequenos desenhos de flores e um casaco comprido de malha fina, mas com aspecto quente, não usa maquiagem, exceto por uma batom vermelho, que desde a chegada de Malu, tinha virado moda entre as meninas da agência. Ricardo se senta ao lado de Duda e dá em cima dela o tempo todo. O que faz Theo morrer de ciúmes. Ela percebe e gosta de provocar isso nele. Então retribui a atenção de Ricardo. Isso enlouquece Theo que já não sabe o que fazer. Tem vontade de levantar, puxar a cadeira e beijar ela na frente de todo mundo para acabar com aquilo. Então resolve levantar e chama ela para ir com ele buscar um drink.

– Sei que de acordo com o nosso pacto ninguem pode saber o que acontece entre a gente e podemos ficar com outras pessoas, mas não vai ficar com esse babaca exibido. Você está me matando retribuindo as investidas dele. E eu não posso fazer nada.

– Theo, eu não vou ficar com ele. Quer dizer, ele é bem bonito. E bem mais sossegado que você. Menos mauricinho. Tem mais a ver comigo.

– Sério? Você vai fazer esse tipo de brincadeira agora? Diz Theo bravo.

– Não viaja Theo! Vamos voltar e agir como pessoas normais e descomprometidas que somos. Duda diz isso e sai com seu drink, deixando Theo bufando para trás.

Olívia e Flavio assumem o namoro e se comportam de maneira totalmente apaixonada na frente de todo mundo. Priscilla segue tentando impressionar Pedro e não sai do lado dele. Thales, senta perto de Malu e procura saber mais sobre a vida dela. Eles conversam muito. Tem gostos em comum, como a música. Rebeca vai com o marido famoso e está mais falante do que o normal naquela noite.

Tarde da noite, chega uma mulher com quem Pedro está saindo, era a primeira que vez ele apresentava uma mulher para os amigos. Malu pensou que essa talvez fosse especial. Num momento em que Malu está sozinha com Pedro ela aproveita para perguntar:

– Você apresentou ela para os seus amigos. Ela pode ser A mulher?

– Gosto dela. Mas ainda não acho que achei A mulher. Diana é leve, divertida, não me pressiona para ter algo sério, o sexo é bom. Sei lá. Mas falta alguma coisa nela.

– Que sortuda! É bom que ela seja boa para você.

– Você acha que ela tem sorte?

– Sim! Conquistar seu coração é sinal de sorte para uma mulher. Você é um homem incrível.

– Hum! Então você me acha um homem incrível? E o Thales? Você também acha ele incrível? Parece que ele gosta de você.

– Você acha? Ele é uma possibilidade. Bonito, misterioso, sexy. Ele me trata bem. Deve beijar bem.

– Fala sério Malu! Ele acabou de chegar. Como você sabe isso tudo?

– Não sei. Mas é o que eu imagino. Ele é bom em causar isso. Imaginação.

– Acho que você não deveria ficar com ele.

– Quem está falando em ficar? E por que eu não deveria ficar com ele?

– Do jeito que você falou dele parecia estar considerando ficar com ele. E acho que você não deveria ficar porque vocês trabalham juntos. Ele parece o tipo que se apaixona fácil. Vai ficar um climão.

– Nossa que justificativa é essa? Às vezes é preciso correr riscos. Como disse Clarice Lispector “A salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale à pena”. E não acho que o que você me apresentou como impeditivos sejam problemas reais que me impediriam de ficar com ele.

– Ok! Eu não gostaria que você ficasse com ele. Me incomoda a ideia de você ficar com um cara da agência. Não gosto do jeito que ele te olha. Acho que ele pode te machucar. Sei lá. Acho que pode ser posse de amigo. Diz isso, mas segue não conseguindo ser nem um pouco convincente.

– Que bonitinho, você está com ciúmes! Posse de amigo? Relaxa Pedro, não vou ficar com o Thales. Agora vai lá ficar com a sua Diana.

– Não me entenda mal. Quero o seu bem.

– Eu sei! Você cuida de mim e adoro isso. Agora vai lá cuidar da sua Diana que não conhece ninguem aqui e está lá sozinha há um tempão. Afinal você tinha vindo apenas pegar uma bebida.

Naquela noite Diana perdeu completamente a graça para Pedro. Ele estava mais preocupado com a Malu e com o quanto Thales conversava com ela perto demais. E para piorar, quando finalmente Thales se afasta, ele vê Malu beijando um homem. A primeira coisa que vem à sua cabeça é: Que porra é essa?

Felipe tinha aparecido de surpresa para passar a noite com ela antes da viagem para a França. Ela gostou da surpresa. Mas se sentiu um pouco sufocada com as abordagens dele. As flores, agora a surpresa que o fez pegar um avião para passar uma única noite em São Paulo. Ela achava que tudo estava indo rápido demais. Apesar de se sentir pressionada, acaba indo logo embora com ele para aproveitarem a noite.

Theo aproveita que Malu foi embora e chama Duda para ir embora também. Leva ela para casa e dormem juntos na casa dela. Ele pede para que ela tenha cuidado, pois o Ricardo parece bem mal intencionado e ele não gostaria de dividir ela com ninguém e ameaça contar sobre eles para todo mundo, se ela não se comportar. Ela acha graça. Como sempre, transam a noite inteira e mal dormem. Acordam exaustos no dia seguinte. E como o combinado, seguem fingindo que não se importam um com outro e ninguem no trabalho desconfia do que eles tem juntos.

Malu segue tendo dias cheios e os dias passam voando, ela se sente super cansada e torce para o Caíque e para a sexta-feira chegarem logo. Ela ia para Campos, na casa de Betsy com seus amigos no final de semana e sempre relaxava e se divertia muito por lá. Caique retorna de férias e ela fica 2 dias mergulhada em um status dos trabalhos para que ele saiba o que está acontecendo. E quando finalmente chega sexta, tenta fazer tudo até às 18h, nem sai para almoçar, mas acaba trabalhando até mais tarde e atrasa a saída para viagem com seus amigos. Liga para Vitor avisando que vai atrasar 30 minutos, porque ele vai passar para pegá-la.

Estão todos os seus amigos indo para Campos, inclusive Heloisa, a nova namorada do Eric. Rodrigo vai também e todos se comportam de maneira muito civilizada. Rodrigo bebe e tenta ficar com Malu, que já não tem mais vontade nenhuma de estar com ele. Dessa vez não falam uma palavra sobre casamento, para felicidade de Malu, Grazi e Eric. Porque o assunto casamento constante naquela roda de conversa, vinha deixando Heloisa, que estava começando o namoro com Eric, empolgada demais com a possibilidade. Passam um final de semana de frio delicioso, como o de sempre, com longas caminhadas, lareira, foundue, muito vinho, muita conversa boa, jogo de cartas, conversas profundas sobre o futuro. No final da viagem Malu acredita do fundo do coração que será capaz de passar por cima de tudo o que aconteceu e ser uma grande amiga de Rodrigo e o fato dele correr atrás dela, faz muito bem para a sua auto estima e faz ela se sentir um pouco vingada. Morre de vergonha de si mesma, mas admite que gosta de vê-lo correndo atrás dela.

A volta para casa foi tranquila e já chegando na casa de Malu, Vitor conversa com ela:

– O Rodrigo correu atrás de você o tempo todo né? O que você achou disso?

– Eu bem que gostei. Devo admitir. Mas fiquei tão decepcionada, que de verdade, não sinto mais vontade de ficar com ele. Talvez, depois que a raiva passar, a vontade volte com tudo. Ele é lindo, charmoso e sempre tivemos uma química incrível. Mas nesse momento a tristeza e a decepção são maiores. Não tenho vontade nenhuma de ficar com ele.

– Redenção à sua tristeza.

– Mais ou menos isso. Enquanto ela estiver aqui vou curti-la, dessa forma quando ela for embora, não volta mais. Pelo menos, não por esse motivo. Assim espero.

– Tomara minha amiga! Mas agora é hora de pensar em Cannes. Malu você vai arrasar lá! Tenho certeza.

– Tomara meu amigo! É certamente um grande teste para minha maturidade profissional.

– Tchau meus amores! Obrigada pela carona. Até a volta.

– Tchau baby!

Se desepedem e Malu está de volta em casa. Dando graças a Deus por ter um monte de coisas para fazer e por isso não vai ter espaço, nem tempo para sentir a sua solidão. Enquanto se prepara para fazer suas malas e planeja tudo para tentar ir dormir cedo, depois de um final de semana super cansativo, Felipe liga para desejar boa viagem e diz que está morrendo de saudades. Ele age como se fosse namorado dela e isso a incomoda demais. Ela não consegue disfarçar e não mente dizendo que também está com saudades. Diz para ele que na sua volta, combinam de fazer algo juntos. Ela desliga o telefone e vai fazer suas malas, um pouquinho irritada, mas logo se distrai porque afinal em algumas horas ia estar na praia no final do verão europeu, o melhor período do ano para viajar para a Europa. Colocou suas melhores roupas na mala e até enviou uma mensagem para Olivia, agradecendo por ter obrigado ela a comprar aquele monte de coisas lindas. Se sentia segura e confiante para esse momento tão importante na sua vida.

Quando já se preparava para ver um filme na sua cama até a hora de ir dormir, toca o interfone. O coração dela dispara. Tem medo que seja Felipe para uma surpresa ou Rodrigo, que se comportou de maneira quase perseguidora no final de semana. Sentiu alívio ao saber que eram seus amigos Vitor e Edu, que depois que a deixaram em casa resolveram ir comprar uma garrafa de champagne e voltar para celebrar a viagem com ela. Ela pediu que eles subissem.

– Oi meus amores! O que vocês estão fazendo aqui? Acabaram de me deixar em casa.

– Voltamos para tomar esse champagne com você. Diz Edu, mostrando uma garrafa de Veuve Cliquot que parecia muito gelada.

– Que fofos! E vamos brindar a que?

– À França, meu bem! E às supresas que esse país pode estar te reservando. O prêmio que talvez você ganhe. À vida! Diz Edu extremamente animado.

Enchem as taças e seguem fazendo brindes até o último gole da garrafa. Malu desencana do filme e acabam ouvindo música e conversando sobre como era excitante ter uma vida cheia de possibilidades. Ela tentava parecer animada, mas só ela era capaz de sentir o enorme vazio em seu coração que a faria trocar qualquer uma dessas novas possibilidades para ter seu Harry Winston de volta no dedo acompanhado por um homem que ame de verdade.

Eles se despedem e desejam boa viagem. Malu se anima e volta a olhar para o copo meio cheio. Promete se divertir e dar notícias.

Au revoir, cherie! Diz Vitor

Bon voyage mon amour. Diz Edu.

Merci beaucoup! A bientot mes amis. Responde Malu.

E todos caem na risada. Depois de uma garrafa de champagne, estavam todos falando francês fluente.

Na hora de dormir, quando coloca o celular para despertar para acordar no dia seguinte, um arrepio percorre seu corpo. Finalmente o dia de viajar para Cannes tinha chegado. E de repente parecia que ela tinha 5 anos e aquela era noite de Natal.

Clocks 🔊🎶🎶🎶

Boa Sorte 🔊🎶🎶🎶

Au revoir, cherie! – Tchau, querida!

Bon voyage mon amour. Boa viagem meu amor

Merci beaucoup! A bientot mes amis. – Muito obrigada! Até logo meus amigos.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 13 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA 6a FEIRA.

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