Capítulo 13 – Sendo Totalmente Surpreendida

Vitória acordou sem perspectivas. Ela não imaginava como um emprego ditava o ritmo da sua vida. Era um dia de semana e ela não tinha ideia do que iria fazer. Ela olhava para o teto e pensava: “Por que eu? Fiz tudo certo. Entreguei resultados. Fiz o combinado. O combinado! Se fiz o combinado, por que aconteceu comigo? E agora? Por onde começar a procurar? Seria uma grande irresponsabilidade não procurar emprego e ir fazer meu curso em Hollywood. Não estou mais de férias. Estou D-E-S-E-M-P-R-E-G-A-D-A- e isso muda tudo. Preciso arrumar outro emprego medíocre que pague as minhas contas e me permita continuar juntando dinheiro para ir morar sozinha. Tenho 30 anos e moro com a minha mãe. Sem contar que sou totalmente descartável. Quem vai cuidar das minhas tarefas hoje? Tinha um dia cheio. Dia de shooting. Realmente meu trabalho não significava nada. Minha presença não significava nada. Posso sair de um dia para o outro que não causa abalos na agenda de ninguém. Um outro alguém dará conta da minha lista de tarefas. Eu era invisível ou meu trabalho não era realmente importante. Tinha tanta gente lá que fingia que trabalhava, que se construía em cima do trabalho dos outros e puxava o saco dos chefes enquanto alguns realmente trabalhavam. Muitos dos que trabalhavam foram demitidos. Por que? O mundo está do avesso. Não sei ser assim. Nunca vou conseguir sobreviver no mercado corporativo. Será que foi esse o meu problema?”

– Bom dia filha! Disse mãe interrompendo os pensamentos de Vitória.

– Oi Mãe! Bom dia! O que você está fazendo em casa?

– Como minha filha não tem que trabalhar hoje, resolvi tirar o dia de folga. O que você quer fazer?

– Preciso arrumar um emprego mãe.

– Mas não será hoje. Hoje você vai descansar e relaxar essa cabeça cheia de coisas.

– Mãe, não consigo sair por aí relaxando enquanto preciso arranjar um novo emprego.

– Tudo ao seu tempo minha filha. Você precisa tentar. Vem, vamos fazer algo divertido. Aproveitar que você não precisa trabalhar.

– Mãe, de verdade não consigo. Mal consegui dormir essa noite.

– Minha filha podemos conversar um pouco sobre isso. Não sou uma grande especialista no mundo corporativo porque sempre fui uma profissional autônoma, mas posso te ajudar a olhar novas perspectivas. Por favor, tome um banho, coloque uma roupa bem confortável e vamos sair.

– Você venceu mãe. Posso começar a procurar emprego na segunda-feira.

– Muito bem minha filha.

Vitória estava saindo do banho quando seu celular tocou. Era o Eric ligando.

– Alô.

– Olá Vick. Estou em um dia de shooting com a Patrícia e você não está aqui. A pessoa que está acompanhando a Patrícia me disse que você saiu da agência. O que houve?

– Fui demitida.

– Mas por que?

– Na fusão optaram pela outra área e acabei sem emprego.

– Meus dias de shooting serão muito mais chatos sem você. Como você está? Precisa de alguma coisa? Tenho muitos contatos com agências de modelo e posso indicar seu currículo. Só me falar.

– É um grande alívio te ouvir dizendo isso. Você está me fazendo acreditar que tudo vai dar certo.

– Claro que vai. Você é demais. Nunca vai ficar sem trabalho.

– Tomara.

– Se você puder, podemos sair nesse final de semana. Tenho algumas ideias e gostaria de dividir com você.

– Pode ser! A gente se fala. Muito obrigada pela ligação e pelo seu apoio.

– Pode contar sempre comigo Vick! Fique bem e lembre-se que estou por aqui.

– Obrigada de novo! A gente se fala. Beijo

– Beijo

Ele respondeu e Vitória desligou o telefone feliz por ser apoiada daquela maneira. Depois da ligação de Eric, várias pessoas ligaram. Manuela, a produtora, Wagner, o maquiador, Arthur, o motorista, algumas pessoas da agência perplexas com a saída dela, sua amiga Tatiana, José e Thomas. Ela atendeu a todas às ligações, menos a de Thomas. Naquele dia seus amigos e pessoas que realmente se importavam com ela a fizeram sentir-se a pessoa mais amada do universo. “Pelo menos descobri que existe muita gente que gosta de mim.” Pensava ela ao longo do dia, se sentindo realmente muito querida.

O dia na companhia da mãe estava sendo muito melhor do que ela esperava. Elas almoçaram no restaurante preferido de Vitória, foram ao cinema assistir um filme concorridíssimo que era impossível aos finais de semana e depois do cinema foram tomar sorvete em uma sorveteria italiana que tem os sorvetes mais famosos do mundo e fica em um generoso terreno nos jardins onde se pode tomar o sorvete na calçada e observar o vai e vem das pessoas mais bem vestidas da cidade.

– Obrigada por esse dia mãe. Agradeceu Vitória – Confesso que está sendo muito melhor do que eu esperava.

– Obrigada a você minha filha. Tem tempo que queria ter um dia assim, mas nunca consegui por falta de companhia. Como você está se sentindo?

– Mãe, a sensação é muito estranha. Não sei o que fazer, onde ir, onde procurar emprego. Não sei por onde começar. Passei a vida pedindo por tempo livre, para fazer as minhas coisas, para fazer as coisas que me dão prazer e agora que tenho, não faço a menor ideia do que fazer com o meu tempo livre.

– Tenho certeza que você tem armários e gavetas para arrumar, pendências médicas como exames atrasados ou uma consulta ao dentista por rotina, livros empilhados fazendo fila na sua mesa de cabeceira, pegar sol na piscina numa tarde de segunda em que a piscina não é disputada por várias pessoas de diferentes idades, aprender algo novo, fazer um curso, começar a fazer coaching para ter uma orientação mais precisa sobre seu próximo passo na sua carreira (já que você estava querendo mudanças mesmo), aprender um novo idioma, fazer trabalho voluntário, fazer exercícios físicos. Enfim, há muitas coisas a se fazer aproveitando esse período de espera na sua vida. Ele talvez não se repita. É preciso vivê-lo e não desperdiça-lo.

– Ouvindo você, começo a achar que você tem razão.

– Minha filha, antes de decidir como ir, você precisa decidir onde quer chegar. Às vezes você está procurando uma bicicleta achando que vai aqui do lado, mas precisa de um avião porque quer ir para um outro país. Você pode até achar a bicicleta, mas nunca vai conseguir chegar onde quer.

– Mais uma vez certa, mãe! Talvez eu não queira mais trabalhar num lugar como o último que trabalhei. Apesar de parecer a escolha mais obvia.

– Agora você tem tempo e dinheiro para descobrir onde realmente quer estar. Aproveite. Encare como oportunidade e não distribua currículos antes de saber onde quer trabalhar.

– Mãe! Eu te amo. Muito obrigada! Você é muito sábia.

– Sábia nada minha filha. Enxergo porque estou fora da situação. Imagino como está sendo difícil para você.

– Eu queria tanto ir morar na minha casa.

– Sua prioridade agora é descobrir onde quer estar na sua carreira, mudar de casa deixou de ser importante. Invista seu dinheiro nessa descoberta. Porque te garanto que quando você estiver trabalhando no lugar certo o dinheiro virá como consequência.

– Você tem razão.

– Minha filha: A-P-R-O-V-E-I-T-E! Te garanto que passará logo.

– Farei isso mãe! Pelo menos prometo que vou tentar.

– Primeiro passo minha filha. Encare como o recomeço e não como o fim. Para começar algo novo é preciso que o velho termine. Posso dizer que ouvi várias vezes você pedindo por essa mudança. Não deixe essa oportunidade passar.

– Como disse Clarice Lispector: “Se perder também é caminho”. Concluiu Vitória, sentindo pela primeira vez que talvez aquilo tudo realmente fosse o melhor para ela.

E elas seguiram sentadas naquela calçada observando as pessoas bem vestidas e outras bem intencionadas mas tragicamente vestidas, falando da vida e apreciando o melhor sorvete do mundo como se o tempo tivesse parado e não existisse outra vida além daquela. Sem pressa nenhuma, como não haviam estado há muito tempo em suas vidas.

Depois de alguns minutos de silêncio Vitória voltou a falar.

– Como é estranho não ter pressa. Vejo as pessoas passando apressadas e queria estar no lugar delas. Preocupada para não perder meu próximo compromisso.

– É minha filha. Desejar ter pressa é bem estranho. O mundo está do avesso.

– Pensei exatamente isso hoje de manhã.

– Bom. Hora de ir. Apesar de não termos pressa há muitas pessoas esperando para se sentar e posso dizer que aproveitamos muito esse lugar.

– Você tem razão. Vamos!

As duas foram direto para casa já anoitecendo e Tatiana surpreendeu Vitória chegando na sua casa com compras do supermercado para fazer um jantar e com planos para assistir filmes românticos e falar sobre a vida.

– Oi Vick! Como você está? Perguntava Tatiana começando a conversa enquanto picava tomates.

– Acho que estou tentando entender. Mas estou bem.

– Sabe o que eu acho? Que você precisava disso para fazer as mudanças que sempre desejou. Se dependesse de você, aposto que iria ficar pelo tempo que fosse. Agora você precisa correr atrás da sua felicidade. Não adianta esperar ela chegar.

– Vendo por este lado… se fecha uma porta e se abre uma janela.

– Com portas francesas e de frente para um lindo jardim. Você vai ver. Tenho certeza que você vai brilhar muito e ser muito feliz. Complementava Tatiana enchendo a amiga de esperança.

– Ai Tati, talvez você tenha razão e isso aconteceu para o meu bem.

E o celular de Vitória começou a tocar interrompendo a fala dela.

– Quem é? Não vai atender? Perguntou Tatiana curiosa.

– O Thomas. Ele não para de ligar. Pensei ter deixado claro que não quero falar com ele.

– Ué, você estava animadíssima com a possibilidade de progresso da relação de vocês. O que mudou?

– Acho que estou o culpando pela perda do meu emprego. Tudo aconteceu porque ele chegou. E ele sumiu depois do nosso encontro no final de semana.

– Minha amiga, que bobagem é essa? Ele não te escolheu. Essas coisas acontecem e ele não deve ter tido gerência sobre isso. Acho uma grande bobagem você desperdiçar sua grande possibilidade de ser feliz no amor porque está infeliz na sua vida profissional. De repente até para a relação de vocês será melhor não terem vínculo de trabalho. Já pensou nisso? E ele pode não ter ligado por causa do tema da sua demissão.

– Perdi meu emprego para ganhar um marido ideal? Conclui Vitória caindo na gargalhada.

– Isso mesmo engraçadinha. Não desconsidere essa possiblidade. Porque é óbvio que você vai arranjar outro emprego e tenho certeza que você poderá escolher. Agora outro potencial homem da sua vida… já não sei.

– Tati, você e minha mãe me deram conselhos muito sábios hoje. Me fizeram ver tudo com novas perspectivas. Estou tão melhor agora do que na hora que acordei hoje. Sou muito grata por ter você na minha vida. Acho que nunca te disse isso antes.

– Ai Vick que fofa! Também sou muito grata por ter você na minha vida. Agora vamos comer nossos nachos e assistir uma bela comédia romântica.

– Vamos!

Elas saíram da cozinha carregando bandejas e foram para a sala de TV.

– E aí, qual desses você quer ver? Perguntava Tatiana apontando o controle remoto para enorme listas de filmes disponíveis.

– Hum, acho que Bridget Jones, No Limite da Razão.

– Boa escolha. Estava com saudades de Bridget.

E assim que apertou o play as duas ficaram em silêncio com seus nachos. Vitória se entregou ao filme de maneira relaxada, oposta ao que ela esperava. Pensava ela que não conseguiria se concentrar em nada além dos últimos acontecimentos desastrosos de sua vida.

O filme terminou e Tatiana foi embora. E com a despedida, chegou a temida hora de ir para a cama. Vitória se sentia em pânico só de pensar em tentar dormir porque sabia que seus pensamentos não seriam tão bonzinhos como foram ao longo daquele dia. Porém mais uma vez seus medos se mostraram infundados. Ela deitou e antes de começar a buscar pensamentos para arruinar com o belo dia que tinha tido, ela adormeceu.

Vitória acordou cedo. E aproveitou a companhia do sobrinho em casa. Montaram quebra-cabeças, jogaram cartas, pula pirata e perto da hora do almoço seu celular tocou e era Thomas ainda insistindo para falar com ela.

Ela se lembrava da fala da amiga e acabou atendendo o telefone.

– Que bom que você finalmente me atendeu. Disse ele aliviado.

– Que bom que te deixei feliz. Respondeu espontaneamente.

– Por favor, vamos nos encontrar. Se a palavra explicação te incomoda. Posso ter a chance de te mostrar minhas perspectivas da história.

– Pode.

– Posso?

– Pode.

– E como podemos fazer?

– Sugira você. Eu tenho tempo agora… você que é a pessoa ocupada da história. Disse Vitória terminando com uma gargalhada.

– Então sugiro um almoço hoje. Disse simplesmente, não respondendo à provocação dela.

– Pode ser.

– Posso ir te buscar na sua casa?

– Pode.

– Então te pego às 13 horas. Tudo bem para você?

– Tudo!

– Espero que você esteja menos monossilábica quando nos encontrarmos.

– Vou me esforçar.

– Três palavras! Já é um avanço.

– Até mais tarde. Beijo. Disse Vitória rindo.

– Mais três palavras e beijo? Já me considero um cara de sorte. Até mais tarde. Outro beijo para você.

Vitória desligou o telefone sorrindo e só percebeu alguns instantes depois. Thomas afinal fazia muito bem para ela e ela se sentia feliz ao constatar isso.

Ela foi tomar banho e se sentiu ansiosa ao pensar na roupa que iria usar. De repente todos os seus problemas profissionais pareciam ter evaporado. Ela escolheu uma saia jeans curta, tênis de couro e uma camiseta soltinha, brincos pequenos e alguns colares com pequenos pingentes complementaram o look.

Ela já esperava pronta por ele, quando ele ligou pontualmente no horário combinado avisando que estava na frente do prédio esperando por ela.

Quando ela entrou no carro ele a elogiou e como sempre acontecia quando estavam sozinhos em carros o silêncio se instaurou entre eles. Geralmente Vitória quebrava o silêncio beijando Thomas, mas não tinha clima para isso até que eles conversassem.

– Quero agradecer mais uma vez você ter aceitado conversar comigo. Disse ele quebrando o silêncio.

– Acho que precisamos conversar. Eu não estava sendo nada madura misturando as coisas.

– Quando ouvir minha parte na história verá que não tive nada a ver com isso.

– Tenho quase certeza disso.

Eles seguiram em silêncio o resto do caminho, como se só tivessem autorização para voltar a falar depois de estar tudo esclarecido.

Chegaram em um restaurante tranquilo e Thomas pediu uma mesa no jardim, para ter mais privacidade e aproveitar a tarde amena e agradável de outono.

– Que lindo esse lugar. Não sabia que tinha restaurante aqui nesse Museu. Muito menos que tinha esse jardim imenso em meio a essa selva de pedras. Disse Vitória maravilhada com o lugar sentindo que tinha caído no buraco de Alice. “Preciso tomar cuidado com plantas e vegetais tóxicos.” Pensava ela rindo de si mesma e seus pensamentos.

– Gosto muito daqui. Gosto de vir aqui sozinho almoçar durante a semana. Me relaxa.

– Belo lugar. Agora me conte suas perspectivas da história. Impôs Vitória indo direto ao assunto.

– Em primeiro lugar. Sinto muito por você e sua perda de emprego. Essa situação já é complicada normalmente, porém no seu caso é ainda pior. Não teve nada a ver com você, mas com uma situação que você não podia gerenciar. Nada dependia de você. Você deve estar se sentindo muito injustiçada. E queria te falar isso como o homem, o amigo, que realmente se importa com você.

– Devo dizer que você conseguiu traduzir bem meus sentimentos. Agradeço sua compaixão. E como chefe? O que você tem a me dizer?

– Como chefe devo dizer que não sabia que você seria desligada. Existem coisas desse processo que são extremamente confidenciais e que por isso não posso dividir com você. Mas te garanto que a escolha não foi minha e que não envolveu minha aprovação. Basicamente, na fusão fizemos alguns combinados de algumas áreas soberanas e de alta performance nas duas agências e infelizmente, mesmo apesar do excelente trabalho que você vinha fazendo, essa função de agente de modelo deixou de existir e a parte de busca por novos rostos é uma das maiores fortalezas da agência que comprou a agência de vocês. Já estava decidido que seria assim no momento que os papéis foram assinados.

– Mas nesse pouco tempo que trabalhamos juntos você sabia que eu seria demitida e agiu normalmente comigo como se nada estivesse acontecendo?

– Vitória, eu mal tive tempo de saber onde seria a minha sala. Eu não sabia quem eram as pessoas que seriam dispensadas. Essa decisão foi totalmente do seu time. Eu não sabia nem que as demissões aconteceriam naquele dia. Fui avisado de manhã quando as demissões já tinham começado.

– Ok! Entendi. Você não teve nada a ver com a minha demissão. Não diretamente, porque indiretamente você foi o culpado. Se não fosse a fusão eu teria o meu emprego.

– Nisso você está certa. Mas se eu pudesse voltar atrás, tinha pedido para te manter no time.

– Você me protegeria por sair com você?

– Talvez…

– Meu Deus! Não porque sou uma boa profissional que ajudou muito a agência a chegar onde chegou com os rostos que eu, pro-ativamente, descobri? Alterou-se Vitória interrompendo Thomas.

– Hey! Calma. Não foi isso que eu quis dizer. Você nem me deixou falar.

– Então me explica. Porque não entendi muito bem.

– Acho que você desempenhou um trabalho importante, tem determinação, foco em negócio e certamente como profissional gostaria de alguém com o seu perfil no meu time. Talvez eu pudesse influenciar sua ex-chefe pensar melhor antes de tomar uma decisão.

– Então você acha que tenho qualidades profissionais?

– Mas é claro! Você é um talento desperdiçado, que estava na área errada.

– Entendi melhor agora. E por que você sumiu? Não me ligou mais desde o nosso último encontro no domingo. Isso me soou muito estranho. Você aparece e daí some e daí reaparece me pedindo desculpas e me querendo me explicar as coisas. Estou ficando zonza com tudo isso.

– Vitória, acho que as coisas estão realmente conturbadas e demandando mais explicações e pedidos de desculpas do que eu gostaria. Mas na segunda eu soube de todos os desligamentos, inclusive do seu e honestamente quis ficar distante para não me envolver com isso. Estar com você sabendo de tudo que aconteceria sem poder te falar não era uma opção para mim. Achei que você entenderia, porque sabe das minhas intenções em relação a você.

– Mas quero dizer que muitas vezes você tem me confundido e não sei direito o que pensar. Depois que você explica, me sinto até mal por ter ficado brava, mas realmente não consigo evitar. E você me deixa muito brava.

– Como você é brava Vitória.

– Por que você me chama de Vitória?

– Porque é o seu nome.

– Meus amigos e minha família me chamam de Vick. É estranho ouvir você falando meu nome. Parece até que o nome tem mais letras do quem tem de fato.

– Vitória, nos reencontramos há poucos dias. Ainda não temos intimidade. Sei lá. Para mim é respeitoso.

– Nossa como você é formal.

– Você acha?

– Muito! Sua carreira supersônica te transformou num cara formal. Você parece bem mais velho do que é.

– Epa mocinha. Assim está acabando comigo.

– Quis dizer em comportamento. Não em aparência.

– Então está me dizendo que na aparência está tudo bem apesar de parecer um velho pela forma respeitosa que eu trato você?

– Mais ou menos isso. Respondeu Vitória mais relaxada.

– Eu me lembrava de você exatamente assim. Espontânea e engraçada. Disse ele.

– E agora que você falou… acho que você sempre pareceu mais velho do que era no comportamento. Sempre foi mais maduro do que os meninos da nossa idade.

– Eu era tímido.

– Mas sempre foi mais formal e mais “respeitoso”.

– E isso é bom?

– Naquela época era estranho, mas hoje acho que é bom sim. Uma qualidade rara. Mas por favor, me chame de Vick, ou do que quiser. Mas não de Vitória. Parece que está me dando uma bronca.

– Ok! Vick! Vick! Vick! Vou me esforçar.

– Te agradeço por isso.

– Agora vem aqui. Quero te levar para ver uma coisa. Disse Thomas já puxando Vitória pelas mãos.

Eles caminharam de mãos dadas e Thomas levou Vitoria para um lugar que ficava atrás de um muro de folhas e flores onde aparentemente era o final da propriedade. Atrás do muro tinha um pequeno espaço muito florido e um lago com peixes e uma cascata de água.

– Meu Deus! Que lugar é esse? Disse Vitória encantada.

– Impressionante né?

– Muito.

– Conheci esse lugar…

E no meio da fala dele, ela maravilhada, se colocou na ponta dos pés e interrompeu sua fala com um beijo, que foi prontamente retribuído.

O beijo dele se encaixava perfeitamente com o dela e a fazia querer ir para o céu, mas antes para a cama. Com apenas um beijo Thomas tinha o poder de fazer o corpo de Vitória querer o dele.

– O que você dizia sobre o lugar? Perguntou ela de maneira divertida quando pararam de se beijar.

– Que conheci esse lugar em um dia muito estressante em que vim até aqui para pensar, como sempre costumei fazer. Porém nesse dia, o dono do restaurante, sentou à mesa comigo para conversarmos e ficou compadecido com meu stress, me presenteando com esse lugar que poucas pessoas conhecem.

– Nossa e agora eu também conheço. Estou me sentindo especial.

– Você é especial. Disse ele e de repente corou. Ele tinha medo de se declarar demais e ela fugir dele. – Agora vamos voltar lá, porque as sobremesas aqui são imperdíveis.

“Gente, como você consegue querer comer agora? Quero ir embora daqui, fazer sexo com você.” Pensava Vitória, achando graça na formalidade dele.

– Vamos! Se for nessa toada acho que vou ter um orgasmo comendo essa sobremesa. Disse Vitória já se arrependendo antes de terminar a frase.

– Espero que suas necessidades sejam saciadas. Respondeu rindo Thomas não conseguindo disfarçar sua cara de espanto provocada pela fala espontânea dela.

– Não foi isso que eu quis dizer… disse sem graça.

– Eu entendi. Não se preocupe! Sou formal e aparento ser um velho, mas tenho algum senso de humor.

– Ainda bem. Respondeu ela ainda mais arrependida.

– Vamos! Você terá muitas opções para satisfazer suas expectativas e quem sabe atingir o que deseja…

– Estou ansiosa para ver esse cardápio. Disse ela entrando na brincadeira e se deixando seduzir por ele.

Quando estavam de volta à mesa uma tensão sexual, que quase podia ser tocada, pairava entre os dois quando foram interrompidos pelo garçom que trazia o cardápio com as opções de sobremesa.

– Já decidiram? Perguntou o garçom após alguns segundos.

– Hum. São muitas opções e me parece cada uma melhor que outra. Disse Vitória realmente indecisa. – Me surpreenda!  Disse ela.

– Como assim? Perguntou o garçom confuso.

– Me traga a melhor sobremesa. A que você acha que eu vou amar.

– Ah entendi. Sugiro…

– Não me conte! Disse Vitória interrompendo o garçom. – Quero surpresa.

– Entendi. Muito bem! Vou te surpreender. E para o senhor?

– O mesmo que o dela. Respondeu Thomas totalmente encantado com ela.

Assim que o garçom saiu Thomas voltou a falar.

– Você é totalmente surpreendente.

– Mas o que eu fiz de tão surpreendente?

– Com certeza você foi a primeira pessoa que falou isso para esse garçom. As pessoas não são assim.

– Mas isso é ruim?

– Não! Isso é delicioso.

Dessa vez foi Vitória que ficou sem graça com o elogio e ficou sem palavras para responder qualquer coisa para ele.

– Delicioso é bom!

E nesse momento foram interrompidos pelo garçom que chegava com um sorbet de frutas vermelhas em cima de uma porção de frutas amarelas picadas e uma calda que parecia mel.

– Espero conseguir surpreender a Senhorita. Disse o garçom colocando o prato de sobremesa na frente dela.

– Os olhos já foram surpreendidos com certeza! Disse ela com um sorriso nos olhos.

O garçom saiu deixando os dois sozinhos.

– E aí? Perguntou Thomas em expectativa.

– Fui totalmente surpreendida.

– Vou dobrar a gorjeta do garçom.

– Acho muito justo com ele. Mas não estou falando dele agora.

– Se não é dele… é de mim. Surpreendi você foi?

– Totalmente.

– Estou desculpado.

– Já nem lembrava mais porque eu estava brava.

Eles acabaram a sobremesa e Thomas pagou a conta dobrando a gorjeta do garçom. Já no carro Vitória perguntou:

– Para onde vamos agora?

– Quer seguir sendo surpreendida?

– Sim!

– Então nós vamos para praia.

– Não tenho roupa para praia.

– Para os meus planos você não vai precisar de roupa.

Vitória ficou sem fala. Maravilhada com aquele homem tão tímido, tão formal e tão cheio de atitude.

– Então… podemos ir. Respondeu ela.

Eles estavam pegando a estrada quando o celular de Vitória tocou. Era Catarina, a irmã dela ligando.

– Oi Vick! Que bom que você atendeu. Preciso muito da sua ajuda.

– O que houve?

– O Viny caiu no futebol e está no hospital. Parece que quebrou a perna. Estou fora de São Paulo visitando um fornecedor e chego à noite. Não consigo falar com a mamãe.

– Claro! Pode contar comigo. Mas ele está bem? Em que hospital ele está?

– No Santa Clara. Perto de casa.

– Estou indo para lá. Te ligo quando encontrá-lo para te dar notícias.

– Muito obrigada irmã.

– Imagina. Até mais tarde. Beijo

Vitória desligou o telefone e olhou para o rosto aflito de Thomas.

– O que houve? Perguntou ele preocupado.

– Meu sobrinho se machucou no futebol e parece que quebrou a perna. Minha irmã está fora da cidade e me pediu para ficar com ele até ela voltar. Me desculpe. Mas precisaremos deixar a praia sem roupas para depois.

– Claro. Vamos para o hospital. Que hospital ele está?

– No Santa Clara do Morumbi.

– Vamos ver seu sobrinho.

– Desculpe por isso!

– Não se preocupe. Teremos tempo para isso.

Vitória ficou sem fala. Ele poderia estar muito bravo por ter que cuidar do sobrinho ao invés de fazer sexo na praia, mas não estava. O apoio dele era genuíno. E isso fazia Vitória olhar para ele e sentir que tinha encontrado o amor da sua vida. E a cada gesto dele, mais certeza disso ela tinha.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 14 SERÁ POSTADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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