Capítulo 14 – Coração Sem Vergonha

Eles chegaram no hospital e Vitória logo encontrou com o seu sobrinho, que apesar de assustado estava bem e esperando para fazer uma tomografia. O médico explicou que ele teve uma fratura grave e que precisava fazer a tomografia para descartar a hipótese de cirurgia.

Enquanto aguardavam ,Thomas e Vinicius conversavam sobre os mais variados assuntos. Parecia que Thomas supria a ausência do pai ou de uma figura masculina na vida de Vinicius, pelo menos naquele instante. A empatia entre os dois foi tanta que Vitória se sentiu sobrando ali. E entre um esporte e outro Vitória se pegou pensando que Thomas daria um excelente pai e isso o tornou ainda mais atraente aos olhos dela.

Depois de quase 1 hora de espera, Vinicius foi para a tomografia e Vitória e Thomas foram esperar no café.

– Não sabia que você gostava tanto de crianças. Disse Vitória.

– Tem muitas coisas sobre mim que você ainda não sabe.

– Você tem razão. Pensei sobre isso outro dia. Apesar de termos tido uma relação forte no passado ficamos muito tempo sem notícias um do outro. E crescemos, nos modificamos, passamos por muitas coisas transformadoras e por isso acho que apesar de velhos conhecidos, estamos ainda nos conhecendo.

– Apesar de velhos conhecidos estamos ainda nos conhecendo? Repetiu rindo Thomas.

– Isso. Respondeu Vitória rindo também.

– Você tem razão. E para isso teremos tempo. E sim! Respondendo ao seu comentário, gosto muito de crianças e o Vinicius me pareceu um cara bem legal.

– Não deve ser fácil para ele.

– O que aconteceu com o pai?

– Minha irmã engravidou com 20 anos e ainda grávida foi abandonada pelo namorado. Ele aparece de vez em quando, mas acho que deixa o Viny mais triste do que feliz.

– Nossa! Ele foi embora quando ela estava grávida? Sua irmã é uma mulher muito forte.

– Ela é a pessoa mais forte que eu conheço. Ela aguenta qualquer coisa e tudo que se propõe a fazer, faz bem feito. Ela é mais nova do que eu, mas parece bem mais velha.

– Acho que a vida fez isso com ela. Comentou Thomas.

– Você tem razão. Mas ela sempre foi capaz de lidar bem com problemas. Vai atrás dos sonhos dela. Não desiste nunca. Consegue fazer mil coisas ao mesmo tempo. Cria um filho, trabalha em uma galeria de arte e tem o próprio negócio. Ela é demais.

– Você admira muito sua irmã, né?

– Preciso te confessar que tive pena dela. Achei que a vida dela tinha acabado. E a forma como ela conduziu tudo me fez a admirar muito. Passei a ter pena de mim.

– Por que?

– Passei anos trabalhando em algo que não tinha nada a ver com o que eu tinha sonhado para mim, apenas por comodidade. E certamente estaria lá ainda se não tivesse sido mandada embora. Me joguei em relações superficiais e as fiz mais importantes do que eram de fato, porque achava que precisava ter um namorado para ser completamente feliz. Questionava muito se queria filhos, família ou se queria simplesmente ter liberdade para ir para Paris quando desse na telha. Eu nunca tive muita certeza do que buscar enquanto minha irmã sempre pareceu muito determinada e certa do que ela queria. Cada hora eu aprecia querer algo diferente. Uma hora família e férias na Disney em outra liberdade e conhecer o mundo.

– Para mim, isso é apenas uma forma diferente de sonhar e realizar os sonhos.

– Não é não. Minha irmã é corajosa e eu sou muito medrosa. Tenho medo das mudanças, de situações mais definitivas, de dar o primeiro passo, de renunciar e deixar para trás. Sou muito medrosa.

– E o que decidiu sobre as situações mais definitivas e ter filhos e família ou liberdade para ir à Paris quando der na telha?

– Acho que ainda não decidi. Preciso começar a tentar ter filhos logo, se eu quiser de fato tê-los. Mas ainda tenho tanto para viver. Não sei se o timing das coisas fazem sentido. E você? O que quer da vida?

– Eu quero filhos e família. Vou à Paris quando der. Também quero liberdade, mas antes, uma família com quem compartilhar a vida. Prefiro compartilhar e ter alguém a ser livre e solitário.

– Se está tão certo disso, porque não ficou com sua ex-namorada quando ela te pressionou para casar e ter filhos.

– Porque não quero isso a qualquer custo. Quero fazer isso com a pessoa certa. E não sentia que era ela.

– Isso faz todo sentido. Respondeu Vitória se sentindo a pessoa mais imatura e confusa da face da terra.

Enquanto Vitória pensava no que dizer depois de ter dito algumas bobagens foi salva pelo médico.

– Olá! Tenho notícias do Vinicius. Vamos lá? Convidou o medico.

– Claro! Que bom. Ele está bem? Perguntou Vitória.

– Sim! Ele está bem.

Quando entraram na sala Vinicius estava quietinho e todo engessado.

– Ele teve uma fratura importante, mas não precisará de cirurgia. A tomografia mostrou que o osso apenas se partiu em 2 lugares, mas o gesso pode consertar. Ele terá que ficar 30 dias imobilizado e não pode em hipótese nenhuma colocar o pé no chão. Precisará ficar 10 dias em casa e depois de uma primeira avaliação vemos se o pé poderá ir para o chão apoiado por muletas.

E nesse momento são interrompidos por Catarina chegando.

– Desculpem. Diz Catarina abrindo a porta. – Filho! Que alívio te ver. Como você está? Disse ela com lágrimas nos olhos correndo na direção do filho como se não tivesse mais ninguém ali.

– Estou bem mamãe. A tia Vick e o Thomas cuidaram de mim. E o Dr. Diego é muito legal.

– Que bom meu filho. Desculpe a mamãe não estar aqui.

– Está tudo bem mãe! Respondeu o filho.

– Que bom. Disse ela, limpando as lágrimas dos olhos e finalmente se voltando para as outras pessoas na sala. – Como ele está? Obrigada por terem cuidado dele.

E o médico voltou a falar e repetiu tudo o que tinha acabado de explicar para a Catarina.

– Nossa que susto. Poderia ter sido grave.

– Poderia! Mas não foi! O Vinicius ficará muito bem e em 2 meses vai estar jogando futebol de novo. Concluiu o médico.

E nesse momento começou a tocar a celular de Thomas e ele saiu da sala para atender.

Elas terminaram de ouvir as últimas recomendações médicas e encontraram Thomas na recepção.

– O que houve? Você parece aflito. Perguntou Vitória muito preocupada.

– Vou precisar ir. Depois te conto. Não quero te aborrecer ou te preocupar.

– Hey! Assim está me preocupando. O que houve?

– A Laura, minha ex-namorada, está no hospital. Parece que tentou se suicidar.

– Meu Deus! Exclamou Vitória chocada.

– Não sei o que fazer.

– Vá até lá ver o que aconteceu e lá você saberá o que fazer.

– Vou deixar vocês em casa.

– Não se preocupe! Minha irmã está de carro.

– Desculpe por isso.

– Não precisa se desculpar.

Ele deu um beijo em Vitória, se despediu carinhosamente de Catarina e Vinicius e foi embora desnorteado em direção à saída do hospital.

– O que aconteceu para ele ter ido embora assim? Perguntou Catarina.

– Problemas com a ex-namorada.

– Coitado! Obrigada pela ajuda Vick. Não sei o que faria sem você. O celular da mamãe está sem sinal até agora.

– Pode contar sempre comigo. Agora vamos para casa. Estamos cansados. Né, Viny?

– Sim! E com fome. Respondeu ele.

– Vamos para casa! E hoje o jantar será por minha conta e o Viny escolhe o cardápio. Disse Catarina.

Eles foram embora em silêncio. Catarina aliviada e fazendo uma prece silenciosa por seu filho estar bem, enquanto empurrava a cadeira de rodas dele. Vinicius estava chateado pensando que aquele era somente o primeiro dia daquele gesso incomodo que ia fazer ele ficar longe dos amigos, das brincadeiras e do futebol que ele tanto amava. Vitória sentia um nó na garganta e sua intuição dizia que a felicidade talvez estivesse pedindo paciência para ela.

Elas chegaram em casa e Vitória foi tomar banho antes do jantar. Eles jantaram e ouviram atenciosamente o relato de Vinicius sobre o que tinha acontecido. Helena chegou e eles tiveram que contar toda a história para ela, que tinha passado o dia trabalhando em um lugar onde o celular não pegava e ficou sem bateria durante o jantar.

Thomas não ligou e Vitória não quis incomodar apesar de querer muito saber onde ele estava e como estavam as coisas. Foi checar seu telefone e viu 6 chamadas não atendidas e uma mensagem de Eric.

“Tentei muito falar com você. Queria muito compartilhar uma ideia que tive com você e te propor uma parceria de trabalho. Me liga quando puder. Beijo”

Ela tinha esquecido totalmente de Eric depois daquele dia intenso cheio de emoções. Mas era tarde e ela deixou para retornar a ligação no dia seguinte. Ela sentia falta de notícias de Thomas então resolveu ligar para ele, mas ele não atendeu. Na hora de dormir enviou uma mensagem para ele:

“Estou preocupada. Está tudo bem? Por que não me atendeu?”

Ele respondeu depois de alguns minutos.

“Desculpe não te atender. Mas as coisas estão um pouco complicadas. Vou dormir no hospital. Amanhã te ligo.”

E mais uma vez ele estava se explicando para ela. Essa parecia ser a amarga realidade deles. Dias doces com ingredientes amargos que demandavam explicações em que eram faladas muitas vezes as expressões “me desculpe” e “amanhã te explico”. Vitória preferiu não responder nada e procurava pensar no lindo dia que tiveram e no apoio que ele deu a ela quando ela precisou. “Ele é um homem bom, passando por um momento difícil, conduzindo as coisas de uma maneira que eu não concordo.” Pensava ela. “Ele é um homem bom, mas dormir com ela no hospital é demais. Ele está querendo dar esperanças para ela. Talvez ainda não tenha desistido totalmente da relação deles.” E entre afirmações e especulações sobre Thomas ser ou não um grande homem, estar sendo gentil por preocupação ou alimentando esperanças da ex-namorada, Vitória finalmente conseguiu dormir.

Vitória acordou cedo e ficou preguiçosa em frente à TV. Perto do hora do almoço Thomas ligou.

– Alô. Atendeu Vitória com uma grande expectativa na voz.

– Olá Vitória, tudo bem?

– Tudo e com você?

– Mais ou menos. A Laura tomou alguns comprimidos e ficou no hospital em observação. Os pais dela estiveram aqui e deram a entender que a culpa do desequilíbrio dela é minha. Pelas falsas esperanças que dei a ela. Me acusaram de jogar com ela. Me senti culpado e por isso resolvi passar a noite com ela. Sei que você não vai gostar e nem acreditar nas minha intenções. Mas senti que precisava fazer isso. E prometi aos pais que vou ajudar na recuperação dela, mas deixei claro que não tenho intenções de ficar com ela.

Vitória ficou sem fala. Pensando no que falaria. E sentiu seus olhos se encherem de lagrimas.

– Por favor Vitória, fale alguma coisa.

– Não sei o que te dizer. Acho que você conduz as coisas de maneira muito diferente de mim. Eu jamais faria o que você está fazendo. Mas se precisa fazer isso para ter paz na sua consciência, faça! Continue alimentando as esperanças dela. Essa mulher precisa ser internada para ser cuidada por profissionais. Estar com você só vai piorar as coisas. Mas essa é a minha opinião. Faça o que tiver que fazer.

– Eu vou levar ela para casa dos pais dela quando ela receber alta e vou para a sua casa.

– Thomas, de verdade. Acho que você precisa descansar e pensar sobre sua vida e sobre como quer conduzir as coisas.

– Mas e a gente?

– O que tem a gente?

– Como ficamos?

– Vamos ser sinceros. Não temos nada ainda Thomas. Não existe “a gente”.

– Você tem razão. Eu tinha planos e expectativas tão diferentes de tudo isso em relação a você. Eu te ligo amanhã então. Obrigado por compreender Vitória. Um beijo

– De nada Thomas. Respondeu Vitória sem acreditar se compreendia de fato tudo aquilo que estava acontecendo e começando a achar que o Thomas não teria mais espaço na sua vida. Não desse jeito.

Vitória desligou o telefone sentindo que Thomas estava indo embora sem nem ter chegado direito na vida dela e naquela hora ela sentiu vontade de estar com alguém que a fizesse bem e por isso resolveu retornar as ligações de Eric.

– Oi Vick! Atendeu Eric feliz.

– Oi Eric. Desculpe não ter te atendido. Tive um dia cheio ontem. Meu sobrinho foi para o hospital com a perna quebrada.

– E ele está bem?

– Sim! Tudo bem.

– Podemos tomar um café no final do dia lá na galeria onde está acontecendo minha exposição? Quero ter propor uma parceria em uma ideia que tive para minha próxima exposição.

– Podemos! Estou realmente curiosa.

– Então nos encontramos lá às 17h. Funciona para você?

– Perfeitamente. Até lá. Beijos.

– Beijos

E de repente o dia de Vitória tinha ficado claro de novo e ela preferia pensar sobre o que Eric teria para propor para ela à o que Thomas estaria fazendo para a ex-namorada se sentir melhor e amparada.

Ela aproveitou a visita à galeria de arte e foi mais cedo do que o combinado para ver a exposição. Terminou seu tour totalmente encantada com o trabalho de Eric e ansiosa pela chegada dele. Ela estava parada diante de uma das fotos mais belas que tinha visto na exposição quando foi surpreendida.

– Oi! Me espiando? Disse Eric no ouvido de Vitória a arrancando de seu momento de contemplação.

– Me pegou! Chegou mais cedo também?

– Eu tinha que resolver umas coisas burocráticas. Fiquei feliz de te ver aqui prestigiando meu trabalho.

– Você faz um lindo trabalho. Estou realmente encantada.

– Me sinto lisonjeado. Vou resolver o tema que preciso e já te encontro no café. Pode ser?

– Claro. Nos vemos em 30 minutos. Respondeu Vitoria. E seguiu ali de volta ao seu momento de contemplação daquele lindo trabalho.

Ela se sentia cansada depois de passar tantas horas caminhando dentro daquela galeria e foi para o café. Pediu um café e um bolo de chocolate com calda extra. Enquanto se deliciava com o seu doce, se perdeu em seus pensamentos: “Cafajeste ou não. O Eric é um excelente fotografo. De uma sensibilidade que ele pouco aparenta em suas relações em geral. Um homem com essa sensibilidade não pode ser tão canalha. Ah no caso dele pode. Ele trai a namorada, saindo com outras mulheres e trai essas outras mulheres flertando com outras mulheres no mesmo ambiente que as mulheres que ele está ficando estão. Isso é sério. Ele é um tremendo sem vergonha. Por outro lado, quando se mostra de verdade, parece um cara normal a fim de ser feliz. Não se engane Vitória! Ele quer te iludir para te levar para cama. Enquanto Thomas parece um santo, mas dia sim e no outro também está enrolado se explicando por sua falta de sorte ou de talento para escolher as namoradas e ainda nem transamos ainda. Nem sei se o sexo com ele bom. Será que o Thomas não se esconde atrás de um homem bonzinho, mas é um tremendo canalha também?” Ela ria de seus pensamentos tentando não levar tudo tão a serio e dando o benefício da dúvida para os dois quando foi interrompida por Eric.

– Meu reino por seus pensamentos. Disse ele.

– Eles não estão valendo tanto. Desconversou Vitória. – Agora por favor me fale dessa proposta. Estou curiosa.

– Claro. Vou pegar um café. Quer alguma coisa.

– Acho que estou bem com meu super bolo de chocolate com cobertura extra.

– Adoro mulheres que comem bolo com cobertura extra. Ele disse ao sair para buscar o café dele.

Vitória ficou sem fala, gostando ainda mais daquele bolo calórico e delicioso que ela tinha escolhido. Mas sem entender porque ele adora mulheres que não contam calorias e namora uma top model. Enquanto Eric pegava seu café, Vitoria percebia as pessoas cochichando a apontando para ele. Pessoas que tinham ido ver a exposição dele estavam vendo o artista ali e isso as empolgava. O que fazia Vitoria se sentir a pessoa mais sortuda do mundo por ter ele sentado na mesa dela. Algumas pessoas o abordaram no café, o que acabou atrasando muito a volta dele para a mesa, deixando Vitoria sozinha esperando por ele.

– Acho que no final, não foi muito boa a ideia de te encontrar aqui. Não pensei que essas interrupções poderiam acontecer. Me desculpe.

– Estou me dando conta de que você é famoso.

– Estou começando a acreditar que sou mesmo famoso. Quer ir para outro lugar?

– Não imagina. Posso conviver com isso.

– Mas eu não! Não quero que ninguém nos interrompa. O assunto é sério.

– Uau! Então como quiser. Podemos ir para outro lugar.

– Então vamos para a minha casa.

– Na sua casa não! Ambiente neutro.

– Está com medo de mim?

– De você não! De mim. Confessou Vitória sem pensar.

– Então eu ainda te causo medo.

– Sim! Mas isso não muda minhas intenções em relação a você. E acho que podemos ficar por aqui mesmo.

– Não. Vamos para o meu estúdio então. Não gosto muito de ir lá aos finais de semana porque me lembra trabalho. Mas lá é neutro e teremos privacidade. Ah e queria dizer que fiquei feliz com o fato de você ter medo de ficar sozinha comigo.

– Foco Eric. Isso é uma reunião de trabalho e não um encontro. Portanto não há problema em irmos para o seu local de trabalho. Disse Vitória seria.

– Você tem razão. Mais uma vez. Vamos.

No momento que estavam saindo Eric colocou a mão no ombro de Vitória e um jornalista tirou uma foto deles.

Eles chegaram ao estúdio e finalmente conseguiram estabelecer a conversa planejada.

– Tive uma ideia para minha próxima exposição e você é a pessoa para me ajudar a executá-la. Disse Eric indo direto ao assunto.

– Não consigo imaginar como. Respondeu Vitoria confusa.

– Quero fotografar a beleza em diferentes perspectivas e olhares. Mulheres bonitas, mas que não tenham belezas óbvias, que sejam fortes e interessantes. Mulheres com vidas inspiradoras. Quero fotografá-las enquanto converso com elas. Também quero que uma mulher se fotografe por vários dias seguidos e faça um diário sobre como ela sente dia a dia em relação à beleza dela. E depois quero fazer uma sessão de fotos com ela trazendo minha percepção sobre ela e também quero que essa mesma mulher seja fotografada por alguém que a ame muito. Enfim não está tudo super bem definido, mas essa é a ideia geral.

– Eu amei a ideia. Fotografar a vida real com a beleza realmente inspiradora e acessível. Por exemplo mulheres que comem bolo de chocolate com calda extra. Isso é demais. Só não entendi como posso te ajudar.

– Jura que não entendeu?

– Você quer eu seja sua modelo? Perguntou Vitória perplexa. – Porque se for isso, nem pensar.

– Sua maluca. Quero que você me ajude a achar esses rostos. Essa beleza que não é óbvia. Quero mulheres com histórias de vida interessantes. E você é uma caçadora de talentos, de rostos. Tem habilidade com isso. Não que não pudesse ser a modelo. Porque você ilustra bem o quero fotografar e mostrar para o mundo.

Vitória riu alto. E nesse momento Eric tirou uma foto dela.

– Claro! Que estupidez. Depois que fui demitida esqueci até com o que eu trabalho. E que foto foi essa? Quero ver.

– Olha do que eu estou falando. Disse Eric mostrando a foto que tinha tirado de Vitória com o seu celular. – Quero retratar essa beleza.

Ela estava linda na foto. Espontânea, mas expressiva. Ela amou a foto e conseguiu entender exatamente o que ele estava querendo dizer.

– Entendi exatamente o que você quis dizer. E acho que posso te ajudar a encontrar esses rostos. Mas como seria essa parceria? Quanto tempo eu teria? Quantas pessoas você precisa?

– Eu ainda não tenho todas essas respostas. Mas isso é algo que quero muito fazer. Acabei me tornando um fotografo de pessoas famosas e quero mostrar mais do meu trabalho.

– Eu acho muito válido e amei a ideia de abordar a beleza dessa maneira. Já estou me sentindo mais bonita. Isso é libertador. Será realmente um sucesso entre as mulheres.

– Estou aqui pensando que posso buscar parceria com empresas que abordem a beleza dessa maneira. Posso falar com revistas de moda que podem dar espaço para esse assunto e promover editoriais de beleza mais reais. Enfim, tenho um monte de ideias na minha cabeça e preciso de uma pessoa para me ajudar a fazer isso tudo acontecer.

– Mas como seria o nosso contrato de trabalho?

– Eu vou te contratar como assistente para fazer esse trabalho e você pode trabalhar com outras coisas, porque isso não deverá tomar o seu dia todo. Te pagarei um salário de um assistente de fotografo por 2 meses e você vai me trazendo os rostos e vamos direcionando as buscas. Depois podemos estudar uma forma de te pagar um percentual do dinheiro que eu fizer com a exposição. O que você acha?

– Eu amei tanto a ideia. E ainda vou receber por isso. Fico até constrangida.

– É o seu trabalho e ele vale dinheiro. Você vai viabilizar minha ideia através do seu olhar treinado para isso. Não subestime o seu valor. Isso é uma parceria de trabalho.

– Você tem razão. Me empolguei. Adorei muito a ideia.

Nesse momento tocou o telefone de Vitória.

– Amiga, não acredito! Disse Tatiana empolgada.

– O que foi Tati?

– Você está com o Eric né?

– Estou! Como você sabe?

– Olha o seu Instragram e assim que puder me liga.

Vitoria desligou o telefone e correu acessar o Instagram. Entre as primeiras fotos uma a deixou totalmente perplexa.

– O que houve Vitória? Perguntou Eric curioso.

– Tem uma foto nossa no Instagram, tirada lá no café, postada pela GLAM, a revista de fofocas, com a seguinte legenda: “Eric Castro estaria trocando Isabel Arantes a super top model por uma mulher comum? Linda, mas comum?”

– Meu Deus! Esses caras são foda. Não estávamos fazendo nada de mais. Nem sei o que fazer. A Isabel vai ficar uma arara. Revoltou-se Eric.

– Eles foram tão cruéis que marcaram ela na foto. Disse Vitória.

– Deixa eu ver isso. Disse ele procurando a foto em seu celular. – Está aqui. E olha quantos comentários perguntando quem é a sortuda que desbancou a Isabel. Agora você também está famosa. Me desculpe por isso. Vou acioná-los e eles vão ter que se retratar.

– Na prática eles não estão afirmando nada. Não sei se se retratar seria a palavra.

– Eles vão precisar esclarecer. Dizia Eric bravo quando chegou uma mensagem de Isabel em seu celular.

“Que porra é essa?”

“É apenas uma amiga para quem estou propondo uma parceria de trabalho para viabilizar minha próxima exposição.”

“Trabalho? Sei bem que tipo de trabalho. Precisamos conversar. Não dá para continuar assim.”

“O que você propõe? Já que estamos a um continente de distância.”

“Estou indo para o Brasil nessa semana. Era para ser surpresa. Tenho um trabalho aí.”

“Fico feliz que esteja vindo.”

“Eu não ficaria no seu lugar.” Respondeu ela encerrando o assunto.

– Me enrolei totalmente por causa dessa foto. A Isabel está uma fera. Disse Eric preocupado.

– Eu também estaria no lugar dela. E logo comigo, com quem você não tem nada de fato. Você é um tremendo sem vergonha, mas dessa vez não tinha feito nada errado mesmo.

– Que merda isso tudo. Vou enviar um email para esse jornalista. Eles não podem fazer isso.

– Agora estou começando a concordar com você. Sinto muito por isso.

– Me desculpe te envolver nisso.

– Não se preocupe. Respondeu Vitória temendo que Thomas visse a foto e pensasse que ela estava saindo com outro enquanto ele resolvia sua tragédia pessoal.

– Agora que está feito. Está feito. Não vamos deixar isso atrapalhar nossa noite. Quero comemorar com você.

– Como você consegue? Como tem cabeça para isso? Sua namorada está magoada. Você deveria estar preocupado.

– O que eu posso fazer para mudar isso? Vou enviar o email. Os caras vão corrigir isso. Mas até lá eu realmente não posso fazer mais nada e não vou deixar isso ficar me consumindo e atrapalhar a conversa incrível que estávamos tendo e essa parceria que vai viabilizar um grande negócio.

– Você tem razão. Acho que eu me preocupo demais com as coisas.

– Só pense se pode ou não fazer algo e se fez tudo que poderia ter feito. O resto não é gerenciado por você.

– E como vamos comemorar?

– Com sexo!

Vitória olhou incrédula para ele.

– Serio?

– Claro que não é sério. Vamos tomar uma cerveja. É tudo que tenho aqui no estúdio.

Vitória respirou aliviada.

Eric foi buscar as cervejas e voltou com um sorriso enorme no rosto.

– Estou realmente empolgado com essa história. Acho que isso vai ficar incrível.

– Eu estava aqui pensando na repercussão dessa história e acho que essa exposição pode viajar o mundo porque é uma abordagem muito global, que qualquer mulher se identifica, independente da origem, da nacionalidades, raça, credo, classe social. Acho que será um tremendo sucesso.

– Não tinha pensado nessa possibilidade. Mas você tem razão. E se isso acontecer, vou ter que te dar muito dinheiro. Agora vem cá que acabei de ter uma ideia.

– Onde vamos?

– Fica tranquila. Lá não poderemos ser fotografados.

Ele a puxou pelas mãos, carregando na outra mão um cooler cheio de cerveja e a conduziu por uma escada para o terraço do prédio de 3 andares. Não era muito alto, mas tinha uma vista estonteante da cidade e dava acesso a um céu tão estrelado que não parecia real e muito menos ser um São Paulo.

– Acho perigoso.

– Você está com medo de cair? Fique tranquila Vitoria. É seguro aqui.

Ela não se referia à altura, mas depois de tantas coisas, achou melhor não entrar mais uma vez nesse tipo de negociação com ele.

Eles ficaram sentados ali naquele terraço bebendo cerveja e falando sobre a beleza, sobre a vida, sobre as coisas do mundo. Eles tinham muito em comum e se sentiam muito bem na companhia um do outro. A cada cerveja que Vitória bebia, mais vontade de beijar ele ela tinha e mais errada ela se sentia.

“Preciso sair correndo daqui. Esse homem não é real. E não posso me esquecer que me beijar é um desafio para ele. Ele acabou de arruinar o relacionamento dele e está aqui me fazendo sentir vontade de beijá-lo. Ele não vale nada.”

– O que foi? Ficou quieta de repente. Está tudo bem?

– Sim! Está tudo bem.

– Parecia tão longe daqui.

– Não estava longe não. Eu estava aqui. Bem aqui. Acredite. Mais até do que gostaria.

– Não se preocupe tanto. Você é livre. Aproveite isso. Não se julgue tanto. As pessoas não tem nada a ver com a sua vida.

– Nossa você parece estar dentro da minha cabeça.

– Você não tem ideia de como eu gostaria de estar aí dentro.

– Não é possível! Você é mesmo impossível.

– Estou brincando. E estava falando da sua cabeça. Agora vem aqui. Deita aqui comigo. Vamos olhar as coisas sob novas perspectivas. Prometo me comportar.

Ela aceitou. Se deitou ao lado dele e resolveu seguir seus conselhos e relaxar completamente.

– Não tem ninguém te olhando aqui. Ele disse.

Ela olhou para ele mas não disse nada. Ele ficou a olhando fascinado por alguns segundos, não conseguiu resistir àquele olhar brilhante e se aproximou dela de modo que ela não conseguia distinguir se o ar que ela sentia saia do nariz dela ou do dele. Com o coração disparado e tirando todos os julgamentos da sua cabeça e do seu coração, ela fechou os olhos.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 15 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *