Capítulo 15 – Arrepio

A cena seguiu acompanhada pelo canto dos ciganos até todos começarem a se acomodar nas mesas. Elas foram rapidamente apresentadas a todos. Haviam 15 pessoas ali, mas ainda havia gente para chegar.

Ilonka foi apresentada ao homem misterioso que tinha capturado totalmente a sua atenção na chegada. Ele, se chamava Tibor. Era dono de uma pequena fazenda que produzia vinho e outros alimentos e era fornecedor de vários locais na Hungria, inclusive do restaurante de Estevan. Acabou se tornando muito amigo de Estevan, o primo de Ilonka. Eles nunca tinham se visto antes, mas algo aconteceu entre eles e ambos achavam que já tinham se visto, ou que estavam esperando um ao outro há muito tempo.

Em poucos minutos a grande mesa estava lotada de pessoas e a família estava reunida ali para conhecer a parte que faltava. Fora a família de Ilonka, todos voltaram para a Hungria após a queda do muro de Berlim.

Os ciganos seguiam tocando e o vinho era servido em abundancia.

Tibor seguia encantado e curioso sobre Ilonka e acabou dando mais atenção a ela do que a qualquer outra pessoa. Ele tinha ido trabalhar no restaurante naquela noite para ajudar Estevan, mas a presença de Ilonka o fez esquecer de todos os planos solidários daquela noite.

Ilonka tentava dar atenção a todos, afinal, aquele jantar era para ela e para Ana, mas também acabava dando muito mais atenção para Tibor.

Ana se comunicava da maneira que conseguia e apesar da barreira do idioma, acabavam todos se entendendo. Ana estava muito feliz de estar vivendo aquelas descobertas todas e se sentia realmente parte daquela família.

Tibor e Ilonka seguiam conversando até descobrirem que antes de Ilonka deixar a Hungria, eles dois brincavam juntos pois moravam na mesma rua. Eles eram amigos de infância, mas se separaram muito cedo. Eles nunca se reconheceriam, mas de alguma maneira, mesmo sem saber de nada, se conectaram. Apesar de tantas novidades e de tanta gente para conhecer, Ilonka seguia não conseguindo dar atenção à mais ninguém, além de Tibor. Enquanto Ana, seguia interagindo com tudo mundo.

A noite seguia animada regada à musica de qualidade produzida pelos ciganos que eram extremamente animados, à comida típica húngara que era diversa, farta e deliciosa e aos vinhos deliciosos que eram servidos em grandes galões.

Se passavam da dez horas da noite quando Estevan pediu um minuto para falar algumas palavras:

– “É um enorme prazer ter Ilonka e Ana aqui conosco. Elas eram a parte que faltava em nossos corações. Fico feliz que finalmente tenham vindo conviver conosco pelo menos por um tempo, prima Ilonka. E que presente nos trouxe. Ana é uma menina realmente encantadora. Nossa prima Elizabeth, que mora em Mad, não pôde estar com a gente pelas razões tristes que todos conhecem, mas nos enviou algumas garrafas de seu espumante mais especial e valioso para podermos brindar ao reencontro da família. Ela me pediu para dizer-lhes que está feliz em recebe-las por alguns dias lá em Mad. Então, proponho um brinde ao reencontro da nossa família.” Propôs Estevan concluindo seu rápido discurso.

– Saúde. Responderam todos em coro.

Os brindes seguiram acompanhados do valioso champagne e de mais música cigana. Ana foi curiosa interromper a mãe para perguntar sobre as questões tristes de Elizabeth que todos sabiam, exceto ela.

– Mãe, o que houve com a sua prima Elizabeth?

– O marido dela, George, faleceu há quase 1 mês. Ele sofreu um acidente de carro. O primeiro marido de Elizabeth morreu da mesma maneira. Então toda a tristeza ganha um certo drama. Elizabeth era casada há pouco mais de 1 ano e estava grávida de Lindy quando o marido morreu. Depois de 5 anos, em que Elizabeth só se dedicou ao trabalho e à Lindy, ela conheceu George em um evento de vinhos na França. George era inglês. Ele era um duque e sua família é descendente da família real britânica. Ele tinha dois filhos, Mark e Caroline. Eles eram pequenos quando a esposa faleceu. A morte dela nunca foi explicada. Ela morreu afogada durante um passeio de barco. Foi uma tragédia. E assim, George ficou viúvo quando os filhos eram bem pequenos. Mark tinha 4 anos e Caroline 2. Ele ficou sozinho até conhecer Elizabeth. Eles se apaixonaram à primeira vista. Logo se casaram e ele deixou o cargo publico que tinha na Inglaterra e veio com a família para a Hungria para fazer prosperar o negócio de vinhos de Elizabeth, que era muito promissor na época e virou um fenômeno. Então, depois de suas tragédias pessoais formaram uma nova família e fizeram da pequena vinícola a terceira marca de espumantes e vinhos mais importante e valiosa do mundo. A marca é exportada para o mundo inteiro. Eles tem produção na Hungria e na França, na região de champagne, a mais tradicional do mundo. Eles criaram uma enorme potencia. Eram um casal muito feliz e viviam somente os dois em Mad. Lindy está fazendo faculdade de gastronomia na França, Mark mora na Inglaterra e é advogado e Caroline, uma artista plástica, que mora com Lindy na França. Nenhum dos 3 filhos mora com eles e nenhum deles seguiu uma profissão para continuar os bem sucedidos negócios da família. Agora com a morte do George, ninguém sabe o que vai acontecer, mas o fato é que Elizabeth está totalmente sozinha em Mad. Eu não tinha ideia de toda essa tragédia na vida dela. Ela sempre foi muito reservada e a mais bem sucedida da família. Ela criou Mark e Caroline como mãe, desde que tinham menos de 10 anos. Eles eram realmente uma família, mas agora, com a morte do pai, não se sabe o que vai acontecer. Inclusive eu queria conversar com você sobre a possibilidade de passarmos mais tempo em Mad, se a Elizabeth quiser que fiquemos por lá. Acho que podemos ajudá-la nesse momento. Mas podemos falar disso depois.

– Claro mãe! Que história. Meu Deus coitada. De novo passando pelo mesmo tipo de perda.

– Pois é minha filha. E ainda tem o negócio super promissor da família sem rumo, pois nenhum herdeiro se interessou pelo negócio que era muito bem tocado pelo George.

– Eles devem ser muito ricos, mas não querem ser muitos ricos. Ou talvez não queriam trabalhar. Eu certamente conduziria os negócios da família.

– Mais ou menos isso. Não sei mais nada além do que contei dessa história. Mas amanhã saberemos, porque estaremos lá.

– Nossa mãe, que história. Agora mudando de assunto. E o Tibor que não sai de perto de você? E parece estar recebendo muita atenção de sua parte. Você gostou muito dele né?

– Filha, acredita que brincávamos juntos aqui quando éramos crianças? Eu achei ele muito interessante. Não sei explicar esse sentimento, mas ele é forte.

– Que coincidência. E que romântico. Disse Ana.

– Está gostando minha filha?

– Se estou gostando? Estou amando tudo mãe! Está sendo muito melhor do que sonhei. Nossa família é incrível.

– Fico feliz minha filha.

– E você mãe, está gostando? Passou aquele medo? Perguntou Ana.

– Estou amando minha filha. Nunca pensei que me sentiria tão em casa, como estou me sentindo. Nossa família é muito incrível mesmo! Agora me arrependo de ter demorado tanto para vir. Não sei do que fugi esses anos todos. Agora vou precisar correr atrás do tempo perdido.

– Sempre é tempo mãe!

– Ainda bem minha filha. E ainda bem que tomei a decisão de virmos sem data para voltar. Isso me traz uma enorme esperança de ir buscar todo esse tempo perdido.

E nesse momento um garoto da idade de Ana a tirou para dançar. E ela se entregou animadíssima para a dança.

Tibor aproveitou a saída de Ana e monopolizou Ilonka novamente e dessa vez ainda a levou para dançar.

A noite ia seguindo animada e os brindes se repetiam, cada vez pedindo mais saúde e prosperidade e enaltecendo a família, que era o real motivo de estarem todos reunidos ali.

Ilonka e Tibor dançavam quando tudo pareceu ficar em câmera lenta e eles se beijaram como se mais ninguém estivesse ali. Ilonka sentia seus pés deixarem de tocar o chão.

Ana via a mãe beijando outro homem pela primeira vez desde que tinha se divorciado de seu pai e seu coração ficou feliz com a cena. “Finalmente minha permitiu que alguém chegasse perto dela.” Pensava Ana admirando a troca de olhares cumplices dos dois enquanto seguiam dançando depois do beijo.

Ilonka, apesar de feliz, se sentia um pouco envergonhada por ter beijado um desconhecido na mesma noite em que se conheceram, mas toda aquela atração que sentia era mais forte que a vergonha ou qualquer outra coisa.

A noite finalmente chegou ao fim e o restaurante já estava fechado quando as pessoas da família começavam a se despedir e se cobrar pelo próximo encontro.

Tibor insistia para que Ilonka ficasse com ele e dormissem juntos, mas ela não se sentia confortável com a situação junto à prima que a hospedava então precisou ser forte para recusar o convite tentador.

A noite chegou ao fim e com ela um jantar inesquecível para Ilonka e Ana. Elas eram a parte que faltava da vida daquelas pessoas e aquelas pessoas a parte que faltava na delas.

Estavam todos em silencio no carro de Agnes, exaustos depois de tantas horas de dança, conversa e diversão, quando Ana quebrou o silencio:

– Mãe, eu não podia imaginar que sentiria me tão em casa. Muito obrigada por ter nos trazido aqui. Por favor diga para a sua prima Agnes que estou muito feliz e muito grata por estar aqui.

– Você é muito especial Ana. Todos por aqui te adoraram. Também nunca imaginei que me sentiria tão em casa. Respondeu Ilonka surpresa com tanta doçura de sua filha. – Agnes, Ana me pediu para dizer que está muito feliz e grata por estar aqui. Emendou em húngaro para a prima que já cochilava no banco da frente.

– Ana é uma garota muito encantadora. Diga a ela que está sendo um enorme prazer recebe-las e conhece-las. Respondeu Agnes.

Ilonka fez as traduções para filha e Ana prometeu que aprenderia húngaro.

Elas seguiram em silencio o resto do caminho. Ana repassava sua noite deliciosa na cabeça e se dava conta de que Michel era um pensamento bem menos frequente e mesmo quando aparecia, vinha de um jeito bem diferente de dias atrás. Ela sentia que finalmente começava a deixar aquela história para trás. Ela olhava pela janela do carro e via passando uma paisagem deslumbrante, muito nova para o seu olhar, e tudo que sentia naquele momento era gratidão.

“Meu Deus, muito obrigada por isso tudo. Obrigada por me permitir estar aqui e poder ver e sentir isso tudo.” Fazia uma prece silenciosa para si mesma tamanha era sua gratidão.

Ana e Ilonka mal deitaram na cama e já estavam dormindo. Elas acumulavam cansaço, sono, fadiga, expectativa e álcool. Não conseguiram nem pensar sobre o seu dia ou sobre o que viria amanhã.

O sábado amanheceu ensolarado e os pássaros pareciam mais animados do que de costume naquele dia. No café da manhã Agnes, já pronta disse que sairiam para Mad em 30 minutos e que ficariam alguns dias por lá. Por isso ambas se apressaram para arrumar algumas coisas. Enquanto terminavam de se arrumar Ana sentia uma certa frustração de ter aproveitado tão pouco Budapeste e seguir para o interior. Ele estava aflita sobre a quantidade de tempo que perderiam no campo e na quantidade de coisas que deixariam de conhecer. Então resolveu dividir sua aflição com a mãe:

– Mãe, estou super empolgada para ir para Mad. Mas quando a Agnes disse que ficaríamos alguns dias, fiquei com receio de serem muitos dias. Quero muito ir e acho que a situação delicada pede compreensão e compaixão de nossa parte, mas não queria ficar no campo muitos dias, afinal acabamos de chegar. Quero conhecer Budapeste, pulsar junto com a cidade. Ficar isolada no campo muito tempo me preocupa. Serão quantos dias mãe?

– Entendo seu ponto Ana, mas Agnes está indo e não me sinto bem em ficar por aqui sem ela. Elizabeth está precisando de apoio e por isso não temos muito controle sobre o tempo. Entendo sua angustia minha filha. Mas dê uma chance a Mad. O lugar é bem movimentado e tão bonito que vai te fazer perder o folego.

– Estou esperando coisas incríveis. E quero muito ir. Minha única preocupação é ficar muito tempo lá. Prefiro a cidade ao campo, apesar de amar a ideia de conhecer vinícolas.

– Só te peço que dê uma chance. Vamos monitorar a questão do tempo. Te prometo. Disse a mãe tranquilizando Ana.

– Obrigada mãe.

E nesse momento foram chamadas por Agnes para saírem.

A viagem para Mad foi tranquila e acompanhada de um caminho repleto de belezas. Quanto mais se aproximavam do destino, mais linda a paisagem ficava. Assim que o carro parou em frente ao portão da propriedade para anunciarem sua chegada, Ana e Ilonka não podiam acreditar no que viam. Aquele lugar era imponente, apesar de simples. Tinha muita vida e muita beleza ali. Os pássaros cantavam ainda mais alto e os cantos eram muito variados. As flores eram muitas e as árvores e pinheiros também. A natureza era rica em muitos elementos que se misturavam em harmonia resultando em uma paisagem de tirar o folego. A entrada não foi diferente. Um longo caminho cercado de natureza mostrava ao fundo um imenso casarão cheio de portas francesas e grandes janelas. Ao fundo e a perder de vista muitos campos de uva. Era uma imensidão de beleza aquele lugar.

Quando chegaram na frente da casa, Elizabeth e Mark estavam parados a esperando.

– Que felicidade te-las aqui. Disse Elizabeth as recebendo.

Elizabeth era uma mulher com pouco mais de sessenta anos, que não parecia ter cinquenta. Ela era uma mulher deslumbrante. Ao lado dela, vestido de maneira muito formal, em total contraste com a paisagem e o clima, o sério e reservado Mark. Ele era moreno e dono de um charme indescritível, mas um homem totalmente inexpressivo e intimidador. Era impossível saber o que ele estava pensando e dava um certo receio falar qualquer coisa com ele. Ele tinha 26 anos, mas aparentava bem mais de 30.

– Prima Elizabeth, obrigada por nos receber. Como andam as coisas por aqui?

– É um prazer Agnes. Tudo começando a se ajeitar. Mark tem ajudado muito.

– Como vai Agnes? Perguntou Mark.

– Tudo bem. E você, cada vez que vejo, está mais bonito.

– Obrigado Agnes. Ele respondeu friamente.

– E vocês são Ilonka e Ana. Nossa parte da família que mora no Brasil. Disse Elizabeth as cumprimentando. – Sejam bem-vindas.

– Um prazer finalmente te conhecer prima Elizabeth. Obrigada pela acolhida. Disse Ilonka.

– O prazer é todo meu.

– Vocês não imaginam a felicidade que é estar aqui. E aqui está, minha filha Ana. E ela ainda não fala húngaro.

– Ana, que linda menina você é. Muito prazer conhece-la. Disse Elizabeth em inglês.

E nesse momento Mark fez uma careta involuntária. Ele parecia ter ficado indignado por Ana estar com a família húngara, na Hungria e não falar o idioma.

“Que cara mais arrogante.” Pensou Ana, como se pudesse ouvir os pensamentos dele.

– Sejam bem-vindas. É um prazer conhece-las. Agora se me dão licença tenho algumas coisas a fazer. Disse ele já se retirando.

“Cara esquisito. E bonito… Mas mais esquisito do que bonito. Já vai tarde.” Pensava Ana achando certa graça da situação.

E assim que Mark saiu as mulheres finalmente entraram na bela casa. Ana ficou parada por um instante observando Mark se distanciar. Ela não entendia muito bem, mas uma sensação estranha causava um arrepio no seu corpo todo.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 16 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEITA

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