Capítulo 15 – Coração Confuso

Ele percorreu todo o caminho até a boca dela depois que ela fechou os olhos. Se beijaram de maneira carinhosa mas com vontade um do outro. Como sempre acontecia, ele foi muito carinhoso com ela e mesmo pensando no quão errado aquilo parecia Vitória acabou permitindo que ele tirasse as suas roupas.

Ele beijou o corpo dela inteiro e em poucos minutos o corpo de Vitória implorava pelo dele. Os dois se entregaram um ao outro naquele terraço como se não existisse mais ninguém no mundo.

Eles olhavam o céu em silêncio e retomavam o folego com a respiração super acelerada quando Vitória pensou sobre seu juramento de não transar com ele nem que ele fosse o último ser humano da face da terra. O que a fez rir de si mesma e despertou a curiosidade dele.

– O que foi? Ele perguntou.

– De repente parece que não existe mais ninguém no mundo além da gente nesse terraço. E me dou conta que acabei quebrando meu o juramento porque transei com você, mesmo parecendo que você é o último homem do mundo.

– Você tem razão sobre parecer não existir mais ninguém no mundo além de nós dois. Sinto a mesma coisa. E que bom que quebrou o seu juramento.

– Sou mesmo muito fraca. Não consegui resistir e fazer o certo.

– Mas o que você fez de errado?

– Agi como as mulheres vulgares que ficam com você, mesmo você tendo uma namorada. Essas mulheres que tanto critico. De repente me tornei uma delas.

– Você não fez nada errado. Eu fiz.

– Vamos mudar de assunto. Vamos acabar girando em torno do mesmo tema, mas nunca vou concordar com você. Foi bom! Mas foi errado. Ponderou Vitória.

– Não se culpe Vitória. Foi uma delicia. Nos divertimos.

– Nisso você tem razão. Foi realmente divertido. Mas agora eu realmente preciso ir embora.

– Mas já?

– Sim. Está tarde. Tenho um super trabalho para começar amanhã. E você precisa trabalhar.

– Então vamos. Vou te levar para casa.

– Não se preocupe. Prefiro ir de taxi.

– Como quiser. Mas por favor, leve numa boa o fato de termos tido esse lance. Temos muitas coisas para fazer juntos e estou botando muita fé em você.

– Ok! Pode ficar tranquilo. A partir de hoje sou sua assistente. Mas se não se importa, vou evitar transar com você. É muito bom na hora, mas depois fico me sentindo uma pessoa horrível.

– Não se sinta. Você é uma pessoa linda. Não tem nada de horrível em você.

Vitória tentava acreditar, mas as atitudes dele só provavam o quanto ele não valia nada. Ela não sabia se era a vítima ou a vilã da história.

– Boa noite Eric! E muito obrigada pelos novos desafios profissionais. Estou muito feliz.

– Obrigado a você por vir comigo nessa história. Boa noite. Te ligo amanhã para combinarmos. Disse Eric se despedindo dela já dentro do táxi.

Vitória tinha recebido uma proposta de trabalho dos sonhos, para um projeto grandioso que podia ter uma enorme repercussão. O convite veio de um fotografo famoso e extremamente charmoso que ainda fez um sexo gostoso e carinhoso com ela, depois de tentar muito seduzi-la. Mas apesar de ter todos os motivos para se sentir a pessoa mais feliz do mundo, não era assim que ela se sentia. Pensava em Thomas, que parecia estar vivendo um problema sério e a tratava com muito amor e respeito, mas ainda assim ela não resistiu ao primeiro cafajeste charmoso que se esforçou para seduzi-la e foi desleal com ele. Ela afinal acabou cedendo aos encantos de Eric, arruinando com o todo o seu plano de se dar valor e corresponder às investidas dele de maneira controlada somente para fazer bem ao seu ego. Ela se sentia sabotando a si mesma. Todo o poder que sentia sobre o controle da situação tinha virado angústia e medo do que estava por vir.

No banco de trás do carro Vitória observava o vai e vem das pessoas em uma das principais avenidas da cidade, mesmo já sendo inicio da madrugada. Ela pensava sobre o que seria da vida dela. “O que eu vou falar para o Thomas amanhã se ele me ligar? E para o Eric? Como vai ficar nossa relação de trabalho depois de eu não resistir a ele, mesmo jurando que o faria. Essa semana a namorada dele aparece e vou sentir muita vergonha. Hey, Vitória, calma! Você e o Thomas não namoram, talvez ele nem te ligue e o Eric é um safado. Você tem tudo sob controle e pode estabelecer a relação que quiser com ele. Você precisa ficar feliz pelo que está acontecendo na sua vida e não se sabotando dessa maneira.” Dizia ela para si mesma em seus pensamentos perturbados.

Ela foi dormir angustiada pensando sobre como iria encarar a primeira segunda-feira depois de perder o seu emprego. Era como se seu tempo de folga tivesse se esgotado e ela precisasse traçar um plano para voltar ao mercado de trabalho. Ela fazia uma lista mental de lugares para onde poderia enviar seu currículo, quando o cansaço venceu e ela conseguiu dormir.

Na segunda-feira sua casa já estava vazia quando ela acordou. Sua mãe e sua irmã estavam trabalhando e o seu sobrinho tinha ido para a escola, mesmo com a perna quebrada, por que tinha prova. Ela ligou para Tatiana para contar as novidades, porque não tinha retornado a ligação da amiga, mas ela não atendeu. Vitória refletia sobre a angústia de ter tempo livre e não saber o que fazer ele e ainda sobre o fato de a vida dela ter mudado, mas a de todo mundo continuar igual. Ela tinha tempo agora, mas seus amigos e sua familia seguiam ocupados com suas vidas. Eles não tinham nenhum tempo para ela e de repente ela se sentiu muito sozinha.

Ela decidiu ir correr no parque e quando estava terminando de se arrumar, recebeu uma ligação de José.

– Oi José. Atendeu feliz.

– Oi Vick, tudo bem?

– Tudo indo… estou me sentindo tão sozinha aqui.

– Não fica assim não. Vai dar tudo certo e você sempre terá a mim. Nunca estará sozinha.

– Ainda bem que tenho você na minha vida. Obrigada por não me abandonar.

– Não viaja Vick. O que você vai fazer hoje? Disse José mudando de assunto.

– Hum… deixa eu ver minha agenda… Nada! Não vou fazer nada hoje. Nada na agenda.

– Que sorte a minha! Preciso da sua ajuda.

– O que você precisa de mim?

– Preciso comprar umas roupas. Vamos começar a divulgar o disco da banda e o time da gravadora me orientou a comprar roupas legais. Não sei nem por onde começar.

– Nossa que legal! Te ajudo com o maior prazer e sei bem por onde começar.

– Só não vai me fazer gastar um rio de dinheiro.

– Pode deixar! Disse muito mais animada.

– Posso te pegar aí na hora do almoço? Podemos almoçar juntos.

– Pode! Estarei te esperando.

– Até já! Beijo. Se despediu José.

– Até. Se despediu feliz Vitória.

“Que sorte a minha! Meu primeiro trabalho com produção de moda para um artista e a busca de rostos que retratem uma beleza real e inspiradora. Até que não está tão ruim assim para quem acabou de perder o emprego.” Pensava ela terminando de calçar seu tênis para ir fazer sua corrida.

A corrida fez bem a Vitória e ela que não era chegada aos esportes se surpreendeu com o quanto ela estava se sentindo bem e decidiu que faria exercícios todos os dias dali em diante. Enquanto tomava banho pensava nas lojas que iria com José. Era desafiador, porque as roupas precisavam parecer caras, mas não podiam se caras.

Ele chegou e ela o abraçou com euforia.

– Você não sabe como isso está me fazendo bem. Disse Vitória empolgada antes mesmo de dizer oi.

– Fico feliz que alguém esteja feliz de fazer isso. Coisa chata essa de comprar roupas.

– José você acabou de me dar uma ideia! Disse Vitoria gritando.

– O que foi? Que ideia?

– Se isso der certo eu posso trabalhar para essas gravadoras já que elas indicam que seus artistas façam isso. Posso oferecer minha consultoria para eles.

– Acho genial. Não sei quanto a outros artistas, mas eu preciso de auxilio para isso. Não tinha ideia de como fazer isso se eu não tivesse você.

– Não é simples definir um estilo e conseguir traduzi-lo em roupas. E acho de verdade que consigo fazer isso. Pelo menos com você. Que conheço tão bem, eu acho que consigo.

– Que alívio te ouvir. Não estava acreditando nem que você conseguiria resolver essa parada.

– Pode deixar comigo.

– Se você quiser, te indico na gravadora.

– Obrigada! Mil vezes obrigada.

– De nada. Respondeu José muito feliz com a empolgação da amiga.

– Você não tem ideia como ter alguma expectativa de que as coisas vão dar certo estão me fazendo bem.

– Pela sua cara, acho que consigo fazer alguma ideia. O que vai querer comer?

– Hambúrguer!

– Boa. Vamos no Vinil, nosso preferido?

– Boa José. Vamos no Vinil.

Enquanto eles comem, conversam e falam um por cima do outro. Eles são amigos que se conhecem bem, que tem muitas histórias juntos e assuntos em comum.

De repente José ficou em silêncio e Vitória se preocupou:

– O que foi José?

– Sei lá. Nunca diria na vida que um dia você me ajudaria a comprar roupas. Eu diria qualquer coisa. Menos isso. Parada engraçada. Disse José.

– Eu preciso confessar que nunca apostaria nisso também.

E caíram na gargalhada.

– Agora precisamos ir porque preciso estar na gravadora às 17h e pelo que vocês demoram quando compram roupas não acredito que vá ser rápido.

– Pelas ideias que tenho aqui acho que não vai demorar muito.

– Por isso acho que acertei na minha contratação.

– Tomara. Agora vamos. Precisamos produzir o novo astro pop da musica desse país.

– Acho que não dou conta disso não.

– Você? Claro que dá conta disso. E achei que tinha me contratado para isso.

– Não exagera Vick.

– Não estou exagerando. Confia em mim.

– Eu confio Vick.

– Então vamos.

Eles saíram do restaurante e Vitória levou José em uma loja imensa que oferecia todos os artigos de vestuário que um homem precisava. Grande oferta de roupas do mais variados estilos, sapatos para todos os gostos, acessórios combinando com os variados estilos.

– Caraca! Não sei nem por onde começar. Não sabia nem que existia uma loja assim para homens.

– Mas eu sei! Respondeu Vitória com brilho no olhar.

Ela mostrou algumas opções de diferentes estilos para que José mostrasse o estilo que fazia mais sentido para ele. A partir das escolhas dele, ela começou a separar as roupas e José foi para o provador.

Era estranho para ela pensar que seu amigo estava vestindo roupas para mostrar para ela, mas quando pensava que estava ajudando a construir um artista, tudo fazia mais sentido. Ela descobria ali, algo que poderia fazer na vida profissional dela e que a faria muito feliz.

A cada saída do provador, mais constrangido José parecia.

– Hey você está um gato. Está parecendo um artista. Não fique constrangido. Dizia ela.

– Não estou! Mentia ele.

– Te conheço José. Mas pode ficar tranquilo. Você está um gato de deixar as meninas babando.

– Que exagerada. E aí. Terminamos?

– Acabamos de começar José. Mas acho que seu estilo já encontramos. Que era o mais difícil. Casual arrumadinho. Com um que de bagunça milimetricamente organizada.

– Acho essa calça muito justa.

– É bom ir se acostumando com ela. Agora precisamos de camisetas brancas e blazers. Disse Vitória empolgada. – Ele não está um gato? Perguntou Vitória para uma mulher que trabalhava na loja.

– Muito gato. Respondeu a moça constrangida.

– Viu! Você está um gato. Agora me espera aqui que vou te trazer mais algumas peças.

– Ok Dona Vitória, estou te esperando. Mesmo porque estou sem nenhuma coragem de sair daqui com essa calça apertada.

Vitória voltou em poucos minutos com varias camisas, camisetas brancas, coletes e blazers.

– Agora vista essas peças.

– Sério? Colete?

– Sim! Sério. Vamos. Vista.

Ele obedeceu e quando saiu do provador, Vitoria teve certeza que tinha acertado. Ela via um homem lindo, estiloso e pronto para o sucesso. O que fez seu coração explodir de felicidade.

– E aí? O que achou? Perguntou ele.

– Que está perfeito. Aí estão suas roupas e o artista estiloso que sua gravadora pediu. E a boa notícia é que conseguimos resolver tudo aqui e não precisaremos ir a mais nenhuma loja.

– Preciso concordar que essa é realmente uma ótima notícia. Concordou ele.

José pagou a conta preocupado por ter gasto tanto dinheiro.

– Está feliz? Perguntou Vitória enquanto saiam da loja.

– Gastei muito dinheiro. E em roupa! Que desperdício.

– José, encare isso como um investimento. E você ficou incrível. Tenho certeza que a gravadora vai aprovar.

– Vamos ver. Não sei nem como te agradecer.

– Que tal me pagar um sorvete?

– Acho que não tenho mais dinheiro. Respondeu e deu uma gargalhada.

– Pobrezinho de você. Disse Vitória rindo também.

Eles tomavam o sorvete e José encarava Vitória.

– O que foi? Por que está me olhando assim? Está bravo porque te fiz gastar tanto dinheiro?

– Não estou bravo. Só curioso.

– Sobre o que?

– Sobre o Thomas. Vocês ficaram juntos? Estão saindo?

– Longa história. Ficamos juntos, mas está tudo tão enrolado.

– Por que?

– Ele tem uma ex-namorada maluca que persegue ele. E não estou sabendo lidar com isso direito. E ele quer família grande, filhos e viagens de férias e eu ainda não conheci metade dos lugares do mundo que quero conhecer.

– Você está curtindo? O sexo é legal?

– José! Que vergonha falar disso com você.

– Por que?

– Sei lá. Ainda não transamos. Não posso falar sobre o sexo.

– Fala sério! Como assim? O cara está saindo com uma tremenda gata e ainda não transou com ela? O cara é mole hein.

– Sempre acontece alguma coisa quando estamos quase lá.

– Parada estranha.

– E você e a Isabela? Como estão? Acha que ela é a mulher da sua vida? Perguntou Vitória mudando de assunto.

– Sei lá Vick. Não fico pensando muito sobre isso. Esta bom. Mas não sei onde isso vai dar. Gosto dela e por agora acho que basta. Acho que está legal.

– Fiquei feliz de termos resolvido aquele lance que criei entre a gente e queria te agradecer ter me colocado no lugar.

– Você anda precisando muito que te coloquem no lugar.

– Nem me fale. Você tem razão.

– Juízo moça.

– Eu tenho.

– Eu sei que tem. Agora precisamos ir. Vou deixar você em casa e vou para a gravadora.

– Vamos. Que bom que alguém trabalha aqui.

– Para com essa auto piedade Vick. Você não precisa disso. Isso nem combina com você.

– Você tem razão. Mas não me dê bronca.

– Então faça por merecer não tomar broncas.

Vitoria riu e pensou sobre as possíveis broncas que José daria se soubesse que ela tinha ficado com o Eric, cafajeste e comprometido, no meio dessa confusão toda.

– Está rindo de que Vick?

– Da vida! E do quanto ela pode ser engraçada às vezes.

Eles estão caminhando para o carro carregando as 10 sacolas com as roupas de José quando o celular de Vitória começa a tocar.

– Ai meu Deus, estou cheia de sacolas e não consigo atender. Será que é de alguma empresa para marcar entrevista?

– Você já enviou muitos currículos?

– Nenhum na verdade.

– Então porque te chamariam para entrevista.

– É, você tem razão. No carro eu vejo quem é.

– Isso. Relaxa Dona Vitória.

Vitória se apressou para chegar logo no carro porque estava realmente curiosa sobre a ligação em seu celular. Entrou no carro e correu para ver quem tinha ligado.

-E aí? De quem foi a tão esperada ligação?

– Do Thomas.

– Você não vai ligar de volta?

– Mais tarde eu retorno.

– Está brava com ele?

– Estou tentando entende-lo e evitando me envolver até que eu o conheça melhor. A vida dele parece meio complicada.

– A vida de todo mundo é meio complicada e quanto mais o tempo passa. Mas complicada a vida fica.

– Nisso você tem razão.

O transito fluía muito bem e rapidamente já estavam na casa de Vitória.

– Chegamos! Muito obrigado por toda ajuda hoje. Me fez até comprar colete. Fala sério.

– De nada. Espero que eles gostem e que você arrase.

– Depois te conto. Boa tarde para você. E fique calma.

– Vou tentar. Espero sua ligação para saber o que acharam lá na gravadora.

– Vou falar de você para eles.

– Obrigada meu amigo querido.

Eles se despediram rapidamente e Vitória voltou para a sua vida desocupada pensando se deveria ou não, retornar a ligação de Thomas. Resolveu ligar.

– Oi Vitória. Atendeu ele em tom formal.

– Oi Thomas. Tudo bem?

– Tudo bem. Acabei tendo que passar o final de semana com ela, mas hoje finalmente ela cedeu e os pais a colocaram em uma clinica para que médicos a acompanhem de perto.

– Nossa. Então ela foi para uma clínica? Eu pensei que essa era a solução mais sensata. Você pode ter boas intenções, mas não consegue ajudar a tratar o problema. Pode até piorar dependendo do seu nível de envolvimento com ela nessa fase.

– Pois é. No final todos concordaram com isso. E como você está?

– Bem. Recebi uma proposta de trabalho temporário com um fotografo que me deixou bem contente.

– Com o Eric? Vi a foto de vocês. Que alívio saber que era trabalho.

– Ah você viu a foto? Foi uma tremenda maldade do jornalista.

– Pareceu que vocês estavam juntos. Pensei ter perdido todas as minhas chances com você. E com ele a concorrência é desleal. Ele é boa pinta, rico, famoso.

– Pare de falar besteira. Ele é um amigo querido e está me dando uma oportunidade incrível de trabalhar em um projeto muito legal.

– Fico feliz de te ver feliz. Podemos sair para jantar hoje?

– Podemos. Respondeu Vitória sem pensar muito.

– Te pego na sua casa às oito horas. Ok?

– Te espero.

– Preciso desligar. Bom resto de dia para você.

– Para você também. Disse Vitória e desligou o telefone.

Vitória assistia a um dos seus filmes preferidos pela 90ª vez e mal percebeu o tempo passar. Quando olhou para o relógio já estava atrasada para se arrumar para o seu jantar com Thomas. Correu tomar banho e se arrumou com menos tempo do que gostaria. Ela terminava sua maquiagem quando ele ligou dizendo que estava na porta do seu prédio.

Ela entrou no carro e seu perfume tomou conta do ambiente de maneira agradável.

– Está linda e muito cheirosa. Como sempre. Elogiou Thomas.

– Obrigada. Ela respondeu simplesmente.

Ela se sentia estranha naquela situação. Parecia estar forçando uma situação para se apaixonar por alguém por quem o próprio destino não vinha deixando com que ela se apaixonasse. Quando as coisas estavam começando a mexer com o coração dela, algo bizarro acontecia fazendo com que tudo retrocedesse e ela se esquecesse do que poderia vir a sentir por ele.

Já ele, se sentia feliz por estar com ela ali ao seu lado, mesmo apesar de todos os últimos acontecimentos, e torcia para que dessa vez não acontecesse nada de extraordinário como vinha acontecendo sempre.

Eles chegaram a um restaurante extremamente sofisticado o que fez Vitória questionar sua escolha de roupas. Como acontecia sempre quando ela saía com ele.

– Nossa. Acho que estou mal vestida para esse lugar. Disse ela olhando em volta enquanto o metre os levava para a mesa que Thomas tinha reservado.

– Você está sempre linda Vitória. Não precisa se preocupar com isso de maneira nenhuma.

– Obrigada.

Eles se sentaram e Thomas pediu um vinho e uma entrada para os dois. Vitória achava fofo, até romântico, mas gostaria de ser consultada antes dele decidir pelos dois. Thomas realmente parecia um homem do século passado. Isso incomodava um pouco Vitória, que naquele dia via mais os defeitos do que as qualidades dele.

– O que foi? Está tão quieta? Perguntou ele.

– Nada. Estou pensando em coisas aleatórias. Mentiu ela.

– Que bom. Espero que você tenha entendido a história com a Laura.

– Claro que entendi. O que não quer dizer que não me incomodo com isso tudo.

– O que exatamente te incomoda?

– A forma como você obedece as vontades dela. Você tem medo de que?

– Vitória, ela tentou tirar a própria vida por minha causa. Não vejo outra maneira de agir senão assim. Você pode até julgar errado, mas honestamente minha consciência está bem com a dedicação que dei a ela.

– Você tem razão. Estou sendo egoísta olhando somente a minha perspectiva. Não tenho ideia do que faria no seu lugar.

– O importante é que, aparentemente, tudo ficará bem. Te peço um pouco de paciência.

– Tomara que fique. Mais por ela do que por qualquer um de nós inclusive. E tudo que tenho tido é paciência. Ou não?

– Você tem sido mesmo muito paciente. E concordo que tenho exigido muito de você. Concordava Thomas. – Agora me conta sobre o seu projeto com o Eric. Ele é o fotografo mais bem cotado da atualidade. Creio que você está em excelente companhia.

– Estou bastante empolgada. Não posso falar muito sobre o projeto. Mas estarei trabalhando com ele pelos próximos dois meses. Ela respondeu sentindo-se totalmente acanhada lembrando que tinha transado com ele.

– Entendo.

– O que foi?

– Nada.

– Você não está com ciúmes né?

– Claro que não. Será bom para você! E ele tem uma namorada. Uma das top models mais bem pagas do mundo.

– Ah claro. O que ele vai querer com uma mulher como eu se tem uma namorada como a Isabel?

– Não foi isso que eu quis dizer.

– Mas foi isso que eu entendi.

– Hey. Se acalme. Te acho uma mulher incrível e minha intenção nunca foi te diminuir. Me desculpe se pareceu isso.

– Não precisa se desculpar. Acho que exagerei.

Por mais que tentassem estabelecer um clima leve, havia uma tensão no ar e para os dois parecia que jamais conseguiriam estabelecer novamente a relação que estavam começando a construir quando tantos contratempos os afastaram um do outro.

– Onde você se vê daqui a 10 anos? Perguntou Thomas. Tentando mudar de assunto.

– Hum. Nem ideia. Difícil responder. Espero estar empregada. Brincou Vitoria.

– Claro que você estará empregada! Mas você acha que terá filhos, uma família?

– Não tenho a menor ideia. A questão de filhos ainda é uma grande indefinição para mim. Em alguns momentos quero muito e me preocupo em não conseguir pela passagem do tempo, mas em outros momentos não me vejo mãe e muito menos desejo uma vida onde uma família dependa de mim. Quero liberdade para ir e vir sem depender de ninguém. E também penso sobre a dificuldade de criar um filho hoje em dia. Acho que não vou dormir se tiver filhos. Enfim. Nada muito definido. E você? Onde se vê daqui 10 anos?

– Eu gostaria de ter uma família. Quero pelo menos três filhos. Sou filho único e sempre desejei a casa cheia. Quero planejar viagens de férias e comprar coisas para decorar a casa com a minha família. Quero dormir com alguém que seja uma grande companheira da vida.

Vitória ouvia atentamente e apesar de ser muito tentador e de Thomas parecer um homem correto, ela não se via como a mulher que ele descrevia e tampouco se via nessa vida que ele descrevia.

– Você é uma raridade. Não se fazem mais homens como você. Mas você quer que a mulher pare de trabalhar para cuidar dos filhos?

– Claro que não! Não sou antiquado. Quero uma mulher interessante e produtiva. Quero que ela faça o que deixa feliz! E sobre ser uma raridade, isso foi um elogio?

– Acho que sim. Isso é o que a grande maioria das mulheres desejam.

– Vitória isso é o que todo mundo deseja. Não exatamente nesse formato. Mas desejam amar e serem amados. Ninguém é feliz sozinho.

– Nesse ponto preciso concordar com você. Estamos sempre em busca disso.

– Tem muita sorte quem consegue achar. Disse ele olhando profundamente nos olhos de Vitoria.

– Como você tem tanta clareza sobre o que quer? Perguntou ela.

– Faço terapia há muitos anos e recentemente comecei a fazer coaching porque estou buscando entender melhor onde quero ir, o que me faz feliz, meu propósito de vida. E o processo tem sido bastante rico para mim. Consegui um alto cargo ainda muito jovem. Senti necessidade de ter um profissional me ajudando a guiar minha carreira, minhas escolhas, trabalhar nos meus pontos de desenvolvimento.

– Nossa que legal. Se conhecer bem deveria ser uma meta pessoal de todo mundo. Te ouvindo falar me sinto ainda mais perdida. Disse rindo Vitória.

– Se perder também é caminho. Faz parte da busca Vitória.

– Fico aliviada em saber.

Eles seguiram conversando sobre coisas mais leves e se divertiram. O clima leve estava de volta e a nuvem de tensão que acompanhava eles por toda a noite parecia ter se dissipado. Até que o telefone de Thomas tocou e ele pediu lincença para atender a ligação com privacidade.

Ele voltou se desculpando e dizendo que era a mãe de Laura pedindo que ele a acompanhasse na visita que faria à filha mais tarde.

Vitoria não sabia descrever seus sentimentos em relação a tudo aquilo. E de repente o Thomas parecia velho demais, com problemas demais e desejando ter uma vida diferente demais da vida que ela achava que desejava.

Eles terminaram o jantar mais leves, mas Vitória não sentia nenhuma vontade de beijar Thomas como havia acontecido em todos os encontros anteriores deles. Enquanto ele, não conseguia pensar em nada senão na sua vontade de beijar Vitória e continuarem de onde pararam. Ele pensava desesperadamente sobre o que fazer para que tudo ficasse mais leve e para voltar no tempo.

No carro o silencio tomou conta de tudo, e dessa vez, Vitória que sempre tomava a iniciativa de beija-lo não o fez. A distancia que Vitória estabelecera acabou terminando com a pouca coragem que Thomas tinha para tentar qualquer coisa. Por isso naquela noite acabaram se despedindo sem beijos e sem o sentimento de quero mais que vinha os acompanhando em todos os encontros anteriores deles.

Vitoria saiu do carro e foi para casa se sentindo estranha por não querer estar com ele depois de te-lo desejado tanto, depois de ter se convencido que a paz que ele a proporcionara era tudo que ela queria. Já ele, foi embora triste por estar sentindo que Vitória, a garota dos seus sonhos, parecia estar realmente indo embora para sempre, depois de quase ter sido sua.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 16 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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