Capítulo 18 – Quando algo se transforma, a ponto de ser visto

Eles saíram de dentro da cave e encontraram uma linda paisagem do lado de fora. Muitas plantações de uvas e muitos barris gigantes de carvalho onde várias pessoas pisavam uvas de diferentes qualidades. A multidão de pessoas desconhecidas seguia passando de um lado para o outro e aquele lugar parecia não ter mais fim e a sua beleza parecia ficar cada vez mais estonteante.

O passeio seguiu pelas plantações e de repente Mark recebeu um telefonema e se calou. Sua postura mudou e ele estava muito parecido com o misterioso e calado Mark de sempre. Elizabeth não parava de falar. Ela explicava, muito orgulhosa, cada cena da paisagem. Depois de andarem quase 20 minutos pelas plantações, e deixarem finalmente aquela enorme quantidade de turistas para trás, Elizabeth convidou todos para um almoço especial servido ao ar livre em um local muito reservado da propriedade, que não era aberto ao público.

Quando chegaram ao local onde aconteceria o almoço, a vista que até então era estonteante, fez os queixos de todos caírem. Mesmo quem já tinha visitado a propriedade antes, nunca havia estado ali.

O lugar parecia ficar no topo do mundo e a vista alcançava várias camadas de diferentes vegetações e flores. O sol, que ainda estava alto para o início da tarde parecia ter um local perfeito para se por, entre algumas montanhas.

Homens e mulheres com uniformes muito elegantes, levando a marca, os receberam e os levaram para seus lugares em uma mesa impecavelmente colocada com toalhas e guardanapos bordados, com estampas coloridas típicas da Hungria, louça de porcelana com acabamento dourado, combinando com talheres igualmente dourados, além de muitas taças de cristal de diferentes tamanhos para beber alguns dos melhores vinhos do mundo.

“Uma mesa com 7 taças. É assim que se come em casa de dono de vinícola. Espero que nos ensinem o que se bebe onde.” Pensou Ana rindo de si mesma ao concluir seu pensamento chocado mediante aquela mesa aparentemente tão complicada, quanto bonita.

Todos se sentaram e receberam o primeiro prato, servidos com um vinho de entrada. E lá se foi a primeira taça. Em outra taça serviram água. Logo restavam 5 taças ainda.

“Restam 5 taças. Certamente ficarei bêbada, meu Deus.” Seguia Ana pensando e rindo de seus pensamentos.

O almoço seguia e todos conversavam animados. Quando Elizabeth propôs um brinde agradecendo a presença de todos e em especial as de Ilonka e Ana.

– É um prazer recebê-los aqui. Em especial às queridas Ilonka e Ana. Vocês trouxeram alegria para o meu coração. Desde que meu querido marido se foi, eu não tinha conseguido voltar a percorrer esse caminho que percorri tantas vezes com ele. Vocês me deram força para continuar e seguir em frente. Preparei esse almoço especial para a agradecer a vocês a companhia. Vocês fazem meu coração feliz. E a você Mark, que está aqui comigo quando queria e precisaria estar em outro lugar. Obrigada meu filho, por cuidar de nossa família.

Mark apenas fez um gesto de agradecimento com a cabeça. E seguiram em silencio por uns instantes em respeito aquele discurso tão lindo. Ana quebrou o silêncio se dirigindo à Elizabeth em sua fala:

– É muito especial estar aqui com você. Eu que agradeço uma acolhida tão generosa. Nunca vi tanta poesia em minha vida como tenho visto aqui. Sobre o seu coração, estou certa de que nada substituirá o seu marido, mas algo vai se transformar aí dentro do seu coração.

– Você é sábia para uma menina de 21 anos. Obrigada pelas palavras Ana. Disse Elizabeth. – De fato já me recuperei depois de importantes perdas. E tem algo transformador que acontece mesmo.

– Só tive experiências ruins no amor. Não comparo à sua perda, de forma alguma, mas acho que independente da dor, elas melhoram porque alguma coisa se transforma para sempre em nosso coração.

– Parece muito experiente nas coisas do coração, Ana. Disse Mark impressionado.

– Nem tudo que reluz é ouro, Mark. Minha idade não permitiria tamanha experiência. Respondeu Ana sem pensar muito bem.

– Faz sentido. Mas você fala como quem já viveu muito. Pela lógica do tempo, talvez não seja a quantidade, mas a intensidade. Disse ele.

– Agora tenho que concordar com você. Respondeu Ana.

– Outro brinde. Propôs Elizabeth. – Às mágicas transformações de nossos corações, capazes de nos devolver a vida depois de momentos de tristeza profunda.

– Às transformações! Responderam todos.

Após o brinde a mesa se encheu de diferentes assuntos cotidianos e eles seguiram apreciando sem pressa aquela demorada e deliciosa refeição com pratos harmonizados com vinhos. O olhar de Ana fitava a paisagem ainda mais feliz, depois de tanto vinho e sua respiração ganhava certa calma, levando um sorriso espontâneo ao seu rosto. As suas bochechas estavam coradas e o seu coração em festa. Ela voltou seu olhar para a mesa e de repente seu olhar relaxado ficou tenso ao cruzar com o olhar de Mark que parecia a estar observando. Nessa hora a poesia acabou. Ana desviou o olhar do dele, olhando para baixo e, totalmente sem graça, bebeu todo o conteúdo de vinho rosé de uma das suas taças.

Mark achou graça e soltou um sorriso espontâneo com a situação.

O sol começava a se por e o céu ganhava tons de vermelho, rosa, amarelo e laranja. A cena que já vinha sendo linda o dia todo, ficou ainda mais bonita. Ana nunca tinha visto nada parecido com aquilo. O céu parecia ter sido pintado por algum famoso pintor impressionista. E enquanto degustavam a última taça de vinho, a quinta taça, acompanhada de uma deliciosa sobremesa feita com nozes e chocolate, o sol se pôs. Exatamente entre as montanhas, no espaço que parecia estar destinado para a sua retirada naquele dia tão encantador.

Ana sentia o coração cheio de alegria e o corpo totalmente relaxado depois de viver aquela tarde cheia de provocações a todos os seus sentidos e talvez pelo vinho ou pelo relaxamento ela olhou para Mark e o achou mais bonito e relaxado do que nunca. Esse pensamento a fez corar e rir. “O vinho é capaz de transformar tudo mesmo.” Ela concluía em silencio e ria de si mesma e das bobagens que pensava sobre Mark. No meio de seus devaneios Mark se levantou da mesa e se afastou para atender o telefone. Na volta pediu licença para ir resolver alguns problemas. Saiu da mesa de maneira rude mostrando um comportamento mais alinhado com o usual. O verdadeiro Mark parecia ter voltado ao normal depois de tanta doçura que ele tinha demonstrado um pouco mais cedo.

Ana seguiu se maravilhando com o que vivia, deixando Mark e seu misterioso mundo para lá, e seus pensamentos acabaram em Michel e em seu bilhete que ela não tinha lido e que estava no bolso da sua calça jeans até aquela hora. Então ela resolveu ler:

“Olá Ana,

Espero que goste da surpresa e que sinta muito orgulho de si mesma. Você é uma menina que tem uma grande mulher dentro si.

Você é uma mulher linda e uma menina encantadora.

Você faz falta por aqui.

Siga conquistando o mundo, você nasceu para isso. E ele é seu.

Espero que a gente se encontre um dia.

Com carinho,

Michel”

Ana abraçava o bilhete e pensava no quanto aquele homem já tinha virado a cabeça e a vida dela de cabeça para baixo e acreditava que aquele bilhete um mês atrás a faria sair pulando de alegria a ponto de cumprimentar estranhos na rua. Mas algo tinha se modificado em seu coração, tanto em relação à Michel, quanto em relação à própria vida dela. “Ah como eu queria esse bilhete há alguns meses atrás.” Pensava ela consigo mesma, ainda abraçada ao pedaço de papel.

– Tudo bem filha? Perguntou Ilonka, a arrancando de seus pensamentos.

– Sim mãe. Tudo bem. Por que?

– De repente ficou distante.

– Estou fazendo uma retrospectiva da minha vida. Dos últimos meses.

– O homem das flores?

– Ele mesmo.

– Ele que enviou a revista?

– Ele mesmo.

– Ele parece se importar com você.

– Agora parece mesmo. Eu estava justamente pensando sobre isso. Como pode um mesmo bilhete poder levar a gente até a lua em um momento e num outro não fazer quase nenhuma diferença na nossa vida.

– Essas são as coisas do coração minha filha.

– Ah essas coisas do coração. Respondeu Ana, já sentindo o coração dela batendo de maneira estranha de novo. E depois de dizer isso, ela respirou fundo.

– Acabei de saber que Tibor está vindo para cá com meu primo Estevan para um jantar aqui hoje à noite. Fiquei nervosa, minha filha. Disse Ilonka. E dessa vez foi ela quem respirou fundo.

– Que legal mãe! Você deveria estar feliz.

– E estou! Eu acho! Disse Ilonka.

E com a frase de Ilonka ambas caíram na gargalhada.

Todos apreciaram um delicioso café e finalmente, depois de um almoço deliciosamente demorado, que durou até o sol se pôr, eles finalmente voltaram para casa. Mark não tinha voltado mais depois da ligação que o tinha tirado dali e de alguma maneira o lugar dele vazio no carrinho que os levava de volta trazia alguma angustia, inesperada e nada bem-vinda, ao coração de Ana.

Quando chegaram de volta em casa, foram todos descansar para o jantar que aconteceria para a família à noite. Ana deitou em sua cama, mas não conseguia sequer fechar os olhos. Aqueles momentos no campo, tão longe da cidade pulsante que ela tanto queria viver, estavam sendo muito melhores do que ela esperava e de repente ela sentiu que parte daquilo era o que ela buscava, mas não tinha ideia. Ela precisava de silencio, de diferentes tons de verde, de diferentes coloridos de flores, ceu colorido e vinho, mais do que pensava, para seu coração ficar em paz. Mark parecia fazer alguma diferença nesse contexto, mas ela afastava rapidamente a ideia, pensando na enorme confusão, ou melhor, mais uma enorme confusão em seu coração e em sua vida. Vida essa que parecia estar feliz, como nunca tinha sido antes. Ela lembrou do bilhete carinhoso de Michel e decidiu responde-lo por email.

“Michel,

Que surpresa boa.

A revista, o reconhecimento e o seu bilhete carinhoso.

Você representa algo muito especial na minha vida (um dia prometo que te conto porquê) e por isso, sempre terá um lugar muito especial em meu coração e na minha vida.

Obrigada por todas as oportunidades que você me deu.

Você tem razão quando diz que sou uma menina em busca. Nunca me senti tão menina e tão em busca em toda a minha vida.

Sabe quando eu descobri que estou em realmente em busca?

Quando comecei a encontrar o que eu nem sabia que estava procurando!

Vamos manter contato.

Mais uma vez, obrigada por tudo.

Como todo carinho,

Ana”

E apertou o enviar, sem sequer reler a mensagem para corrigir um problema de digitação ou declarações demasiadas reveladoras. Ela já não se preocupava mais com isso. Sentia que não precisava impressiona-lo mais.

Assim que enviou o email, viu um novo email de Lara e acorreu abrir curiosa e em expectativa.

“Ana,

Quero antecipar minha viagem. Irei antes, sem o Caíque, passar alguns dias com você. Quero chegar no dia do seu aniversário. Espero que você goste da surpresa. Preciso que me diga se concorda para eu correr para antecipar minha viagem. Afinal você faz aniversário daqui 1 semana.

Te amo

Lara”

“Meu Deus, meu aniversário é daqui a uma semana. Eu nem tinha me dado conta. Seria incrível ter a Lara aqui! Preciso perguntar para a minha mãe se podemos hospeda-la por alguns dias. E onde estaremos em 1 semana.” Falava Ana consigo mesma, enquanto corria encontrar a mãe para perguntar se tudo bem, antes de responder para a amiga.

Quando chegou na sala, encontrou a mãe, conversando com Elizabeth.

– Mãe, tudo bem, pode falar comigo um minuto? Perguntou ansiosa.

– Claro filha! Está tudo bem?

– Sim.

– Diga.

– Na semana que vem é meu aniversário e a Lara quer vir antes, para passar meu aniversário comigo. Onde estaremos na semana que vem? Seria um problema hospeda-la por uns dias?

– Se permitem que me intrometa. Disse Elizabeth de maneira divertida. – Gostaria que estivessem por aqui ainda. A presença de vocês está me renovando. Seus amigos estão convidados para estar conosco. Claro, se quiserem estar por aqui. Podemos preparar uma linda festa para você.

– Seria maravilhoso! Podemos mãe?

– Claro que podemos minha filha.

– Obrigada Elizabeth! Você me fez muito feliz. Disse Ana empolgada abraçando a prima da mãe. – Obrigada também mãe! Ana abraçou a mãe antes de sair.

Ana correu de volta para o quarto, empolgada para escrever para Lara.

“Venha antes Cabeça. Acabei de saber que ficaremos mais uns dias por aqui e que terei uma festa de aniversário aqui :).

Você pode ficar aqui comigo, na casa da prima da mãe, que tem aquela paisagem de perder o folego que te enviei por foto no outro dia.

Tenho tanta coisa para te contar. Estou muito feliz. E morrendo de saudades de vocês. Você vindo deixará tudo perfeito.

Nunca fui tão feliz minha amiga.

Te espero assim que der para você chegar! Me avise que dia chega!

Love you! <3”

Ana enviou a mensagem e continuou ali uns instantes agradecendo por todas as bençãos da vida dela. Antes de se levantar para se arrumar para o jantar ela disse em voz alta: “Obrigada vida! Por ser tão generosa comigo.”

E com uma sensação enorme de gratidão que tomava conta dela, ela foi se arrumar. Ao terminar a maquiagem aprovou sua imagem no espelho. Ela nunca tinha visto seus olhos brilhando tanto em toda a sua vida.

Mais alguma coisa se transformava nela. E ela podia ver isso acontecendo com os próprios olhos enquanto olhava para o espelho.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 19 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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