Capítulo 18 – Um Lugarzinho no Meio do Nada

Vitoria repassava em sua cabeça mil e uma vezes seus momentos de romance e sexo dentro da sala de revelação de fotos que tinha tido minutos antes com Eric enquanto voltava para casa de madrugada. Seu coração parecia estar batendo fora do peito. A noite de testes tinha sido extremamente bem sucedida e no dia seguinte de manhã ela viajaria com Eric para a chácara de sua avó onde eles escolheriam as seis mulheres e desenhariam o roteiro da exposição. A expectativa de ter Eric em sua intimidade, no seu mundo, tão diferente do dele, criando algo que poderia ter repercurção mundial e tocar o coração de tantas mulheres a deixava ainda mais extasiada. Ela se sentia no inicio de uma grande aventura, com um caminho delicioso para percorrer onde aquele era somente o inicio. De repente em meio a devaneios de felicidades nasceu uma preocupação: “E se ele achar tudo simples demais, monótono demais? Será que foi uma boa ideia expor um lugar tão meu e tão íntimo para ele? Ele que é um homem que fotografa pessoas famosas em diferentes lugares do mundo e que vai a todo tipo de evento com cobertura de TV mundial. Onde eu acho que estou indo meu Deus? Já não sei se isso foi uma boa ideia. Mas por outro lado, isso é trabalho e precisávamos de um lugar tranquilo. Dane-se o que que ele vai pensar. Se ficar muito entediado que vá embora escolher sozinho essas fotos.” Vitoria concluía seu pensamento bipolar e morria de rir de si mesma quando resolveu aumentar o volume da música e curtir a sensação deliciosa que vinha de tudo que tinha acontecido naquela noite.

A sexta-feira feira voou e no final do dia Vitória foi surpreendida por uma ligação de Thomas que há tempos não a procurava. Ela resolveu atender. Por mais excitante que tivesse sua vida, estranhamente Thomas parecia ter sempre o seu lugar na vida dela.

– Oi Thomas! Tudo bem? Vitória atendeu feliz.

– Que bom ouvir sua voz. Quero saber como você está.

– Muito bem. Feliz com meus projetos profissionais. E você?

– Preocupado com a falta de projetos profissionais. Depois de ter feito a fusão parece que me falta algo desafiador para trabalhar. E ainda preocupado com a Laura. Ela ainda segue internada. Eu pensei que seria mais simples. Subestimei o problema.

– Nossa Thomas, que pena isso tudo. Mas tenho certeza que tudo ficará bem. Ela vai se recuperar e vocês dois poderão recomeçar suas vidas. Tenho certeza disso. Sobre o trabalho, descobri que é possível ser feliz quando se faz o que gosta. Independente do desafio, você vê valor na sua entrega diária?

– Vejo sim! Sou feliz na maioria dos dias.

– Então seu desafio é ver felicidade na rotina e não depender dos desafios constantes. Dentro do seu ramo de atuação você não pode contar com projetos enormes, como uma grande fusão, com grande frequência. Penso que seu desafio agora é fazer essa fusão ser um tremendo sucesso. Portanto acho que você ainda tem um enorme desafio pela frente.

– Você é sensacional Vitória. Sempre me mostra o lado doce das coisas.

– Eu vejo de fora. E as coisas sempre tem seu lado doce. Quem está de fora enxerga com muito mais facilidade.

– Por isso é sempre muito bom falar com você.

– Também gosto de falar com você.

– O que vai fazer no final de semana? Perguntou Thomas.

– Vou viajar a trabalho.

– Com o Eric?

– Sim.

– Vão acabar namorando…

– Thomas não comece, por favor! Vamos trabalhar de fato. E você, o que vai fazer?

– Vou para a fazenda. Preciso descansar e sair um pouco desse turbilhão que virou minha vida. Me liga quando puder sair para um café ou jantar?

– Ligo Thomas! Aproveite seu tempo de escape.

– Obrigado! E para você boa sorte no trabalho. Espero te ver em breve.

– Nos veremos. Preciso ir. Um beijo para você Thomas.

– Outro para você. Respondeu ele.

Vitória sentia uma enorme paz sempre que falava com Thomas e se dava conta que ele tinha um espaço especial na vida dela. Era o homem dos sonhos de qualquer mulher e parecia gostar dela como nenhum outro homem seria capaz de gostar. Isso a dava paz, mas não fazia o coração dela acelerar. E passado esse minuto de paz, ela voltou a pensar na mala que faria para passar o final de semana no campo com o Eric. O que fazia seu coração bater rápido de novo. Precisava de roupas confortáveis e quentes, já que estavam no meio do outono e o clima podia ficar frio por lá no final do dia. Ela resolveu mandar uma mensagem para o Eric com dicas sobre que tipo de roupa levar. E ele respondeu com um obrigado, seguido de uma carinha feliz e um até amanhã, sem criar qualquer oportunidade de seguir com conversa ali. Eric sempre passava sinais esquisitos para Vitória, ela parecia estar muito mais dentro de uma possível relação do que ele. Ela não sentia que tinha ele inteiro nunca e tinha a eterna sensação que a qualquer momento ele iria embora para sempre e que sempre estava ficando com outras mulheres, quando não estava fisicamente com ele.

A sexta terminou com pizza na casa Vitória pedida pela mãe que levara seu namorado para jantar com as filhas. Depois do jantar delicioso regado a bom vinho e boa conversa Vitória, mais ansiosa do nunca pelo dia seguinte, foi dormir.

No sábado bem cedinho, Vitória já esperava com sua mala na portaria do prédio quando Eric chegou.

– Bom dia! Disse Vitória entrando no carro.

– Bom dia! Animada?

– Muito! E você?

– Muito animado. Coloca o endereço aqui no GPS, por favor?

– Claro. Respondeu Vitória já começando a digitar o endereço da chácara de sua avó. – Chegaremos em 1 hora, de acordo com o GPS.

– Que bom. A seleção de músicas para a viagem dará perfeitamente, porque temos 1 hora de música.

– Você criou uma playlist para nossa viagem?

– Sim senhora. A música me acompanha em tudo na minha vida. Não viajo, por mais curta que a viagem seja, sem uma playlist.

– Então você faz isso para todas as suas viagens? Perguntou Vitória, um pouco decepcionada pois tinha pensado que aquela playlist era parte de investidas românticas por parte de Eric.

– Sim! Todas. Respondeu simplesmente.

A viagem foi rápida e foram o caminho todo acompanhados por um céu sem nuvens e muito azul, típico do outono. A playlist feita por Eric combinou perfeitamente bem com a paisagem e com o ritmo que o carro andava e de repente Vitória passou a ver poesia em tudo aquilo, tamanha a harmonia e beleza de tudo.

Eles chegaram um pouco depois das 10 horas da manhã. O lugar era simples, mas parecia ter alma. Tudo era muito bem cuidado e as árvores e flores eram as grandes protagonistas da paisagem que davam as boas vindas para quem chegava no lugar. Ao longe já se podia ver uma chaminé soltando fumaça naquela hora da manhã. A casa era de tijolos aparentes com portas e janelas brancas tinha uma grande varanda que dava acesso a um imenso jardim.

Foram recebidos pela avó de Vitória, que já os esperava na porta de na porta da casa.

– Oi vó! Que saudades.

– Oi minha querida. Que boa surpresa tê-la aqui. Estava com saudades.

– Demorei para vir dessa vez. Me desculpe! Eu estou com saudades. Disse Vitória dando um abraço apertado na avó. – Deixa eu te apresentar meu amigo e chefe Eric. Vamos trabalhar por aqui durante todo o final de semana. Essa é minha avó Elizabeth.

– Muito prazer Dona Elizabeth. Obrigado por nos receber. A Vitória fala muito da senhora.

– É um enorme prazer tê-los aqui. Devem estar com fome. Preparei um café da manhã especial para vocês.

– Ai que delicia! Começou! Prepare-se Eric. Aqui parece que todas as refeições são especiais. Vamos comer Vó! Empolgou-se Vitória começando a caminhar abraçada com a avó para entrar em casa.

Eles entraram e a casa parecia ter parado no tempo. Era sofisticada e simples ao mesmo tempo, mas a marca registrada daquele lugar era o conforto. Era uma casa convidativa com sofás confortáveis estampados com flores e repletos de almofadas, combinando com as cortinas, a cadeira de balanço no canto da sala, ao lado de uma grande mesa redonda com enfeites e uma grande luminária que parecia do século passado, uma grande lareira de tijolos, muitos quadros espalhados pela parede com pinturas originais, uma sala de jantar com uma mesa de madeira maciça imensa cercada por 12 cadeiras feitas em madeira e palha e uma enorme cristaleira com louças decoradas e cristais, digna de um antiquário.

Eric olhava o lugar maravilhado, custando a acreditar que ainda existiam lugares como aquele. Ele nunca tinha estado em um lugar como aquele. Ele entendia totalmente o que Vitória dizia quando falava do lugar que tinha parado no tempo e que trazia paz e alegria ao coração.

– Acha que esse lugar pode funcionar para nossa seleção? Era dessa paz que você estava falando? Perguntou Vitória tirando Eric de seu momento de contemplação.

– Acho que não poderia ser mais perfeito.

– Que bom! Agora vem, vamos comer! Disse Vitória empolgada parecendo uma garotinha.

– Meninos, como o tempo está agradável, coloquei a mesa para vocês na varanda.

A lateral da sala de jantar que se juntava com a cozinha tinha uma grande porta francesa que dava acesso à uma enorme varanda que tinha ligação também com a cozinha. Eles estavam sentados à mesa quando a Vanda, funcionária da casa chegou com algumas bandejas repletas de pães e doces frescos, recém saídos do forno.

– Oi Vanda! Como você está? Disse Vitória. – Esse é meu amigo e chefe Eric.

– Como você está linda Vitória. Cada dia mais bonita! Tudo bem comigo. Prazer Seu Eric.

– O prazer é meu. E não sou chefe dela. Somos parceiros de trabalho. Respondeu Eric. – Aliás, por que está dizendo que sou chefe? Perguntou olhando para ela.

– Obrigada Vanda. Disse Dona Elizabeth. – Agora vamos comer. Vitória está muito magrinha. Precisa se alimentar direito essa menina.

E nesse momento os cheiros que Vitória descrevia tomavam conta do lugar. Pão assado, café coado na hora, bolo recém saído do forno e uma sensação de felicidade instantânea tomava conta dos corações de todos ali sentados à mesa. Na mesa, impecavelmente colocada, uma toalha florida e pratos e xícaras de ágata já desgastados pelo tempo que pareciam deixar os sabores ainda melhores.

– Não estou magrinha coisa nenhuma vó. Estou bem. Respondeu Vitória.

– Você parece bem minha neta. Agora me digam, que tipo de trabalho vão fazer?

– O Eric é fotografo e está montando uma exposição. Ele fez fotos de várias mulheres na semana passada e precisamos escolher 6 mulheres. Temos milhares de fotos para olhar para escolher as mulheres que melhor representam em foto aquilo que a exposição quer passar.

– E do que se trata a exposição?

– Será sobre beleza. Respondeu Eric. – Mas uma forma mais humanizada e mais real de mostrar a beleza. Uma nova perspectiva para abordar o tema.

– Entendo… Disse Elizabeth, sem estar muito certa que entendia de fato. – Parece muito bom.

– A ideia é libertar as mulheres de estereótipos e fazê-las sentir-se mais bonitas do jeito que são. Tentou ajudar Vitória.

– Mas tem mulher que é muito feia minha filha. Essa promessa é difícil cumprir! Né?

Eles caíram na gargalhada com a espontaneidade de Dona Elizabeth.

– É difícil Vó, mas mesmo as muito feias, tem algo de lindo dentro delas. A beleza vai além da parte de fora vó.

– Nisso preciso concordar com você. Conheço gente feia por fora, muito bonita por dentro. Aliás muito mais bonitas que um monte de gente bonita por fora que eu conheço. A Vanda por exemplo. Não é muito bonita do lado de fora, mas é uma das pessoas mais lindas que eu conheço. E ainda conseguiu criar quatro filhas direito, mesmo tendo um marido ausente que passava mais tempo no bar do que em casa. Você acredita que as 4 filhas da Vanda já estão fazendo faculdade?

– É por aí Dona Elizabeth. É isso que queremos mostrar nessa exposição.

– Agora acho que começo a entender. E acho que vocês tinham que fotografar a Vanda.

– Vamos pensar sobre isso. Respondeu Eric encantado.

Eles seguiram ali conversando em volta da mesa perdidos no tempo, apreciando uma linda paisagem, sentindo uma brisa cheirosa e fresca na pele e desfrutando de uma comida que era um presente para a alma.

Assim que terminaram de comer Vitória levou Eric conhecer a casa e o quarto que ele iria dormir. Escolheram um lugar calmo da casa, onde a avó de Vitória costumava fazer seus trabalhos manuais. Era o cômodo mais iluminado da casa devidos às grandes janelas e tinha uma cara de local de trabalho com grandes mesas de madeira e armários e prateleiras repletos de tintas, linhas coloridas, agulhas, pinceis. Depois de instalados, Vitória convidou Eric a explorar o lado de fora da propriedade e o levou para ver a horta, o pomar, os animais que eram criados ali. Apresentou Eric para outros funcionários da chácara e ele ia ficando cada vez mais encantado. Aquele tipo de lugar nunca fez parte da vida dele. A terra e a natureza em geral não eram parte de apreciação na rotina da família dele. A vida dele sempre foi na cidade, cercada de luxo, empregados, louças e mobílias finas. As férias eram explorando novos países, mas nunca em contato com aquele tipo de natureza.

Eles caminhavam de volta para casa para iniciar o trabalho quando Eric começou a falar:

– Eu conheço várias estações de esqui, praias paradisíacas. Me definia como um homem que conhece muito do mundo e hoje me dei conta que ainda tenho muito a conhecer.

– Como assim?

– Essa natureza, essa naturalidade. Tudo isso que vi hoje, vi pela primeira na minha vida. Você está me apresentando um universo totalmente novo. Uma simplicidade que se aproxima muito mais da felicidade. Não sei bem como te explicar. Mas estou realmente querendo mais da vida.

– Nossa que bom saber disso. Em compensação, essa é minha perspectiva do mundo. Passei muito tempo nesse tipo de natureza. Vi neve poucas vezes e o mar mais azul turquesa que vi foi em Miami. Não conheço a Europa, nunca fui ao caribe e nunca cheguei perto das praias paradisíacas de Bora Bora ou Maldivas.

– Então você também ainda tem muito o que descobrir pelo mundo.

– Tenho. E morro de vontade. Meu ex-namorado era meio preguiçoso e vivia para guardar dinheiro. Viajávamos pouco. Viajei muito com a minha mãe. Conheço toda a américa latina, o estados unidos quase inteiro. Minhas férias eram aqui e uma semana no ano viajávamos para algum lugar que só se chegava de avião. Minha mãe sempre trabalhou muito e perdi meu pai muito cedo. Ela fez tudo o que podia.

– Nada mal passar férias aqui.

– Vinham os primos. Era uma bagunça. Daqui de desse lugar que vem as melhores lembranças da minha infância. Desse lugar no meio do nada com sabor de chocolate e cheiro de terra molhada.

– Suas palavras e descrições me surpreendem o tempo todo Vick! Já eu, não tenho muitas lembranças da infância. Acho que sempre fiz programas de adulto. Coisa estranha.

– Bom! A conversa está ótima, mas precisamos trabalhar. Temos muito o que fazer e não sei direito como, mas parece que o tempo passa mais rápido aqui do que em qualquer outro lugar do mundo.

– Bora trabalhar.

Eles entraram na casa e foram direto para o escritório improvisado na sala de artesanatos da avó. Eles espalharam as fotos por uma enorme mesa de madeira e Vitória assumiu o controle do computador para iniciarem o desenho do roteiro da exposição. Era preciso ter belas fotos, buscar pelas mais belas expressões, mas também conectar as histórias de vida daquelas mulheres. Esse era o segredo para expor a beleza da forma que eles queriam. Eles passaram horas lendo trechos das entrevistas, separando possíveis citações, definindo o mood board da exposição, o espaço que ela ocuparia, como seria a narrativa, como as histórias seriam contadas visualmente, como seriam as fotos produzidas para exposição, se seriam dentro de um estúdio ou em contextos verdadeiros. Se preocupavam com o desafio de manter a alma de cada história e contar a história pelas lentes e pela marca de Eric, porque ele tinha o jeito dele de retratar as coisas e isso precisava estar impresso ali. Eles tinham tremendos desafios pela frente, mas a cada desafio que desenhavam e resolviam, mais empolgados eles ficavam. Perto das 15 horas foram interrompidos pela avó de Vitória que os chamava para almoçar. Ambos estavam ainda satisfeitos pelo farto café da manhã e empolgados com o sucesso da tarde de trabalho que estavam tendo, mas não resistiram a mais um prazer culinário proposto por Dona Elizabeth. E assim eles terminaram a tarde. Em volta da mesa, falando sobre a vida, satisfeitos depois de uma refeição completa e farta com direito à sobremesa.

– Por sorte nosso trabalho está muito empolgante e cheio de desafios, porque do contrário, eu não teria forças para sair dessa mesa. Disse Eric. – Estava tudo muito delicioso.

– Parece que essas cadeiras tem imã. A gente não quer levantar daqui nunca mais. Complementou Vitória.

– E parece que a sua avó tem um varinha mágica que a ajuda a cozinhar. Brincou Eric.

– Mas precisamos ir. Temos muito o que fazer. E acho que esses dois dias não serão suficientes.

– Quero te agradecer por tudo isso. Acho que nunca estive tão inspirado em toda a minha vida.

– Imagina! Não estou fazendo nada demais. Respondeu Vitória feliz por causar algo tão positivo em Eric.

E nesse momento o celular de Eric começou a tocar e ele pediu licença para atender do lado de fora da casa.

Assim que ele saiu para atender o telefone, Vitória voltou a sentir aquela sensação de que o Eric nunca seria totalmente só dela e que apesar de estar totalmente entregue a ela quando estavam juntos, ele poderia ir embora a qualquer momento. Isso tirava a paz dela e fazia não valer a pena o coração acelerado que transbordava de felicidade todas as vezes que eles estavam juntos.

Ela ficou se consumindo pensando no que poderia ser aquela ligação que o fazia demorar tanto a voltar e nem o café ou o bolo a faziam desviar seus pensamentos daquilo.

Eric chegou depois de 20 minutos, como uma belo sorriso no rosto, se desculpando pela ausência e avisando que havia acabado de marcar um compromisso no domingo à noite e por isso precisariam voltar mais cedo.

Eles voltaram para o trabalho e seguiram o resto do dia ainda mais eficientes do que tinham começado, conseguindo desenhar mais coisas do que acreditavam que seriam capazes e as trocas de ideias que tiveram os ajudaram a desenhar todo o roteiro da exposição. Passado esse desafio eles precisariam agora mergulhar nas fotos e finalmente escolher as seis mulheres que os ajudariam a gritar as suas ideias sobre beleza para o mundo.

Já tinha anoitecido e eles seguiam ali, em meio à fotos e citações, com a lareira acesa emanando um calor que tornava a temperatura perfeita, servidos de biscoitos e chocolate quente.

Já perto das nove horas da noite a avó de Vitória os interrompeu.

– Meu Deus. Estão aqui a muitas horas. Isso não faz bem meninos. Vamos jantar?

– Vó ainda não acabamos o chocolate quente. Respondeu rindo Vitória.

– Eu vou jantar então, porque vou jogar um baralhinho com a Vanda e as meninas que estão aqui essa noite. Está bem?

– Está bem vó. Mais tarde comemos algo.

– Tem muitas frutas frescas e chocolate para derreter na frente da lareira. Como a gente fazia quando você era criança. O que você acha de fazermos um foundue mais tarde?

– Boa ideia vó. Muito obrigada! Já vamos parar aqui, tomar um banho e nos encontramos para o fondue.

– Não trabalhem tanto meninos. Há muita vida para viver. Disse a dona Elizabeth já fechando a porta.

– Acho que sua avó esta certa. Disse Eric para a Vitória. Podemos continuar amanhã. Você não está cansada?

– Estou! Mas ficaria aqui por horas ainda.

– Gostei da ideia do foundue.

– Você não acredita como isso é bom! Vamos fazer. Podemos parar por hoje e tomar um banho. O que você acha?

– Acho uma ótima ideia. E acho também que já é hora de você me dar um beijo. Disse Eric.

– Como assim…

E antes que ela terminasse de falar ele já estava a abraçando e sua boca estava totalmente colada na dele. Um beijo que era para ser rápido acabou ganhando força e em poucos minutos as mãos de Eric já exploravam o corpo de Vitória por baixo da blusa dela. Sem racionalizar nem um pouco eles estavam a ponto de tirar suas roupas quando foram surpreendidos por batidas na porta.

– Oi entre. Disse Vitória retomando o fôlego.

– Oi, espero não estar atrapalhando, mas as meninas chegaram e querem te dar um oi. Disse Vanda, se referindo às filhas que tinham acabado de chegar e que brincaram muito com Vitória na infância.

– Não atrapalha nada Vanda. Claro que quero dar um abraço nas meninas. Disse Vitória sem jeito, ainda se ajeitando.

– Então venha! E vocês já trabalharam demais. Disse Vanda sem perceber o que tinha interrompido.

Eles saíram da sala que tinham ficado praticamente o dia inteiro. Vitória apresentou Eric para as meninas e ele foi tomar banho. Ela ficou um tempo com as meninas, falando do tempo, relembrando histórias, até que foi tomar banho também.

Assim que terminaram de se arrumar voltaram para a sala e estavam na companhia de 6 mulheres que iam jogar baralho e aproveitar da mesma lareira e do mesmo fondue que eles.

Dona Elizabeth tinha preparado um delicioso foundue de queijo e chocolate e todos se acomodaram em volta da lareira para apreciar mais uma refeição digna de banquete dos deuses.

A noite foi se estendendo e Vitória chateada no inicio por não ter uma noite somente com Eric acabou adorando a companhia divertida de todos, a conversa descontraída e atmosfera que o vinho e o chocolate iam criando. De vez em quando Vitória se surpreendia com um olhar de Eric meio fascinado para ela. Ele parecia dizer pelos olhos que estava muito feliz ali.

As meninas foram jogar baralho e finalmente Eric e Vitória tiveram um tempo somente deles em frente à lareira com suas taças de vinho. Eles conversavam sobre o que tinha acontecido naquele dia e um brilho de empolgação tomava conta do olhar dos dois. Já se passava da meia noite e Vitória sentia o peso das noites anteriores mal dormidas e do dia cheio de coisas que tivera. Também sentia medo de fazer sexo com ele e começar a se ver dentro de uma relação que talvez só existisse na cabeça dela. Agradecendo silenciosamente pela interrupção de Vanda horas antes ela resolveu parar por ali e reclamou do cansaço dizendo para o Eric que precisava ir dormir.

Eles subiram e apesar de Eric insistir para dormirem juntos, ela não cedeu e cada um foi para o seu quarto.

Vitória estava deitada, com as cortinas abertas tendo o quarto iluminado pela luz da grande lua cheia lá fora, tentando processar tudo o que tinha vivido com Eric até ali e sentindo uma enorme empolgação com o que estava por vir. Ela evitava estreitar a intimidade com ele, mas não conseguia pensar em mais nada a não ser na vontade que tinha que ele estivesse ali. Como se o universo ouvisse os seus pensamentos, ela ouviu suaves batidas na sua porta.

– Oi. Está tudo bem? Perguntou para Eric parado à sua porta.

– Sim. Mas não consigo dormir, pensando que poderia estar aqui com você.

– Eric, por que está fazendo isso?

– Não estou fazendo nada.

– Vem entra. Mas tem que ir embora antes de amanhecer. Minha avó acorda cedo e não entenderia meu chefe dormindo comigo.

– Combinado!

Ele entrou animado como uma criança na noite de Natal.

– Esse dia foi surpreendente e delicioso. Disse Eric.

– Também achei. Respondeu Vitória.

– E olha a vista desse lugar a noite! Nunca imaginei que existissem lugares assim, no meio do nada, onde se podia ser tão feliz. Disse Eric olhando pela janela.

– Ainda bem que eles existem.

– E para terminar perfeito, como foi o dia todo, queria recomeçar de onde paramos.

– E onde paramos? Perguntou Vitoria de maneira sedutora.

– Hum… eu acho que minha mão estava bem aqui e minha boca bem aqui. Disse Eric beijando Vitória e colocando a mão debaixo da camisola dela.

Eles terminaram a noite dormindo abraçados à luz do luar depois de matarem a vontade que estavam um do outro.

Os primeiros raios de sol acordaram Vitória que se assustou por ter Eric ainda dormindo ao lado dela.

– Hey! Você ficou aqui. Minha avó não vai entender nada. Vai para o seu quarto. E bem escondido. Disse Vitória repreendendo Eric mas com um ar divertido.

– Como eu poderia ir embora daqui? Mas vou… em silencio.

– Nos vemos no café.

– Obrigado pela noite. Disse Eric se levantando para voltar ao seu quarto.

Assim que Eric saiu Vitória abraçou um travesseiro e respirou fundo para sentir o cheiro de roupa limpa que tinha saído de um grada-roupas de madeira. Ela se sentia plena e feliz, como se não precisasse de mais da vida, mas em poucos segundos aquela ponta de angustia, achando que o Eric iria embora a qualquer momento tomou conta de tudo novamente. Ela preferiu colocar tudo de lado e conseguiu voltar a dormir.

Algumas horas depois foi acordada com cheiro de café fresco e seu apetite a fez levantar da cama para ir desfrutar do delicioso café da manhã que sua avó tinha preparado.

Eles tomaram café da manhã junto com a dona Elizabeth que pediu licença pois ia cuidar do seu pomar.

– Essa experiência tem sido deliciosa e reveladora para mim. Confessou Eric.

– Reveladora? Como assim?

– Essa nova perspectiva que você me traz. Respondeu ele mostrando uma xícara de ágata desgastada repleta de café quente.

– Descobrindo novas formas de prazer?

– Acho que isso define muito bem. Concorda ele.

– Que tal antes de mergulharmos de volta ao trabalho darmos uma volta a cavalo? Convidou Vitória.

– Acho uma ótima ideia.

Eles terminaram o café e foram caminhar. Quando chegaram aos estábulos foram recebidos por Manuel, o fiel cuidador dos animais, que trabalhava há anos na propriedade.

– Vai andar a cavalo Dono Vitória?

– Vou! Como vai Manuel? O tempo passa e você não muda nada.

– E a senhora fica cada vez mais bonita. Com todo o respeito, Dona Vitória. Disse Manuel se arrependendo um pouco.

– São seus olhos! Brincou Vitória.

Eles saíram à cavalo sem pressa e Vitória levou Eric para lugares lindos no entorno da propriedade. O lugar era repleto de paz de parecia ter o poder de parar o tempo.

Depois de 2 horas de cavalgada, voltaram os dois para o seu escritório improvisado, com a meta de definir as seis mulheres ainda antes do almoço. Tinham pressa porque Eric tinha um compromisso e precisariam voltar para São Paulo no final da tarde.

Eles colocavam fotos para lá, fotos para cá. Escolheram as mais bonitas plasticamente e Vitória, com a total capacidade de capturar o que Eric dizia começou a descrever as mulheres das fotos escolhidas e como seriam as frases e objetos que poderiam dar vida àquela beleza que ia muito além da plástica, na tentativa de mostrar o que funcionava tangibilizando a exposição.

– Vamos lá, vou tentar ajudar:

“Luciana de 28 anos, morena de cabelos brilhantes compridos e lisos, baixinha e magra – mãe solteira. Jornalista, começa o blog para ter a sensação de estar fazendo algo por ela e vive para dar tudo que não teve para a filha. A citação dela: “Quero mostrar o mundo para minha filha, dando a ela as oportunidades que eu não tive.” Objetos para a exposição: mapa do mundo e signos que remetam a melhores amigas.

Clara, 39 anos, ruiva natural com sardas no rosto, colo, ombros e nas costas. Ficou viúva com 33 anos e tenta retomar a vida ao lado de um novo amor, que era o melhor amigo do marido. Advogada bem sucedida que tenta desesperadamente ter um filho, quando acaba descobrindo que não pode tê-los. Citação dela: “Na minha vida, me senti como a lagarta que sofria de dores enquanto se transformava, sem saber, e pensava que tudo acabava, quando criou asas e começou a voar.” Objeto: borboletas, jardins floridos e signos que remetam à família e a maternidade.

Carmelita, 44 anos, mulata de sorriso largo e dentes perfeitos, cabelos encaracolados, baixinha com muito seio e pouca bunda. Não teve filhos e foi feliz no amor depois dos 40 anos após tomar muitos tombos. Dedica sua vida aos filhos dos outros, mas se sente um pouco mãe de cada um deles. Citação dela: “Fui verdadeiramente feliz quando minha fé me mostrou que meu destino era ser mãe de mil e não de um. Hoje meu coração tem capacidade ilimitada para amar muitas crianças” Objeto: cenário que remeta a uma escola e signos que remetam a muitas crianças e cumplicidade de um casal.

Valentina, 28 anos, em transformação. Loira natural e olhos verdes, alta e nem gorda e nem magra, mas sem definição de músculos, usa óculos pois tem alto grau de miopia. Está mudando seus estilo, sua postura e sua vida para iniciar uma nova fase madura e bem sucedida na sua vida, depois de anos de comodismo e vida estagnada. Objeto: acessórios de moda, óculos, cores e arco-íris e signos que remetam a celebração, independência, autoestima e conquista.

Luiza, 65 anos, cabelos brancos assumidos. Altura mediana e magra, pele enrugada e corpo levemente definido pelas aulas de dança e olhos verdes. Avó com 3 netos e mãe de 4 filhos. Vive entre o Brasil onde tem 2 filhos, Portugal onde mora 1 filha e os Estados Unidos onde tem outra filha, para ajudar a cuidar dos netos recém nascidos. Viúva. Se diverte e rejuvenesceu depois de conhecer um grupo de mulheres mais velhas que viajam juntas de navio duas vezes por ano. Citação: “Uma mulher que vive plenamente a vida como se o tempo não fosse um grande desafio, tornando o tempo um aliado.” Objeto: cartas de baralho, garrafas de champagne, navio sobre um oceano azul turquesa e mapa com três continentes ligados por linhas vermelhas costuradas. Elementos que remetam à passagem do tempo e às grandes amizades.

Maria, 46 anos, artista plástica, mãe de 3 filhos. Negra de cabelo afro assumido pelo qual morre de orgulho, vaidosa, alta e magra, pediu o divorcio aos 40 por se apaixonar por outra mulher. Citação: “É sempre tempo de ser feliz e para isso é preciso apenas se enxergar como a grande prioridade da sua vida e aceitar a felicidade sem medo, com a cara que ela vier.”

Ela terminou de falar e Eric olhava para ela mudo, incrédulo e fascinado. Ele pegou ela no colo, deu um selinho nela e gritou empolgado:

– É isso! Acho que temos nossas mulheres. Excelente trabalho Vitória. Suas palavras me tiraram todas as dúvidas. São essas as nossas mulheres!

– Que bom! Acho que temos! Respondeu Vitória empolgada.

– Agora precisamos avisar essas mulheres, providenciar os contratos e marcar a data das fotos.

– Que tal se chamássemos a Manuela para nos ajudar com essa produção? Teremos fotos fora do estúdio e acho que precisaremos de ajuda profissional para organizar tudo isso.

– Você tem razão. Amanhã vou pedir para secretária providenciar tudo isso. Concordou Eric.

– E com isso terminamos o que viemos fazer. E podemos almoçar! Estou morrendo de fome. Não entendo como isso pode ser possível depois de comer tanto, mas estou com fome.

– Eu também. E compartilho do mesmo sentimento. Esse lugar mexeu com todos os meus sentidos.

– Ele costuma fazer isso mesmo. Respondeu Vitória.

Eles terminaram de arrumar as coisas para poder ir almoçar.

Almoçaram tranquilos, com a sensação de dever cumprido e passaram varias horas relaxados em volta da mesa. Falaram sobre os mais variados assuntos e Vitória se sentia aliviada por sua avó não ter visto o Eric no quarto dela. Ela acabou se perdendo em seus pensamentos sobre a noite anterior e sobre como tudo ganhava nova perspectiva com Eric no dia seguinte. Ele a tratava com carinho, mas claramente não parecia dar continuidade aos momentos de amor e sexo deles. E aí ela se lembrou da ligação misteriosa e a súbita necessidade de voltar mais cedo para um compromisso em São Paulo no domingo à noite. E de um lugarzinho no meio nada, no meio de tanta felicidade, seu o coração gritou mais vez. “Ele nunca vai ser seu. Ele vai embora a qualquer momento.”

CONTINUA…

O CAPÍTULO 19 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

 

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