Capítulo 2 – Onde Você Estava?

Nina acordou assustada. Por falta de luz o despertador não tinha tocado e ela estava atrasada para o seu compromisso de trabalho. Aquele dia seria intenso. Ela ia passar a manhã inteira em um estúdio de fotografia, trabalhando como modelo de mãos para uma marca de esmaltes.
Além de trabalhar como boneca, ela tinha mais 3 empregos temporários. Era modelo de mãos, passeava com cachorros e prestava serviço de garçonete em festas para um buffet muito chique e tradicional da cidade.
Ela se apressou e não teve tempo de tomar banho, nem de tomar um café puro. Por falta de luz, a cafeteira que sempre ficava programada para fazer o café, também não funcionou.
Quando Nina saiu de casa para pegar o ônibus, desabou um temporal.
“Ainda mais essa!” Pensava Nina. “Agora terei que ir de taxi. Daqui a pouco esse trabalho nem compensa o que estou gastando.”
Mesmo contrariada por gastar, em poucos segundos estava entrando em um carro.
– Bom dia Senhorita! Para onde vamos? Perguntou, de maneira muito simpática o motorista.
– Bom dia! Respondeu ela de maneira doce. – Vamos para a Vila Leopoldina. Está aqui o endereço. Disse ela apontando a tela do seu celular para o homem.
– Muito bem. Levaremos 30 minutos de acordo com o GPS.
– Vou me atrasar somente 10 minutos então. Menos mal. No final ainda bem que choveu. Certamente de ônibus eu me atrasaria muito mais.
– O transito está bem complicado hoje.
– Isso não é bom. Lamentou ela.
– O ar e a música estão agradáveis?
– Sim! Está tudo ótimo.
E nesse momento ambos ficaram em silencio. Nina se perdia em seus pensamentos, respirando fundo para voltar seu coração ao ritmo normal. Aquela manhã tinha a deixado extremamente ansiosa.
O motorista olhava ela pelo retrovisor. Ela era muito bonita e ele ficou hipnotizado por ela por um instante.
– Se me permite, o que a Senhorita faz? Perguntou ele, quebrando o silêncio.
Nina ficou paralisada com a pergunta. Era para ser muito simples responder essa pergunta, mas a atual situação da vida dela, fazia essa pergunta parecer um caos.
– Eu faço várias coisas. Respondeu ela.
Ele levantou as sobrancelhas. Surpreso e curioso.
E ela continuou.
– Sou jornalista. Mas não trabalho na minha área. Hoje em dia tenho 4 trabalhos temporários.
– 4 trabalhos? Como consegue? Admirou-se ele.
– São horários e dias diferentes. Passeio com cachorros, todos os dias no final do dia. Levo oito cachorros para passear de uma única vez. E também sou modelo de mãos. Faço propaganda para esmaltes e já fiz campanhas de joias. Aos finais de semana visto fantasias de bonecas para animar festas infantis. E também trabalho servindo como garçonete para Buffets.
– Nossa são muitas atividades. Como você consegue dar conta de tudo?
– A gente vai dando um jeito.
– Ah sempre! Eu sou engenheiro mecânico. Perdi o emprego há um ano e como estava difícil conseguir me recolocar por causa da minha idade, creio eu, acabei virando motorista de taxi. Fora o transito, não tenho do que reclamar. Conheço muita gente boa e já destrinchei todos os cantos dessa cidade. A grana é mais ou menos, mas estou conseguindo pagar as contas. Por que a senhorita não trabalha como jornalista?
– Na verdade me frustrei com o jornalismo já no meu primeiro estágio. Descobri que eu amo escrever, mas nunca de maneira remunerada. Meu texto, minhas regras. Mas quando se trata de um trabalho contratado, as regras são sempre de quem está pagando. Por fim, não funcionava. Amo escrever. Mas de maneira livre. Não acho que vá funcionar como profissão.
– Você tem muita coragem.
– Não é preciso coragem. Meu lema é não me demorar onde não sou feliz.
E nesse momento o celular de Nina começou a tocar.
– Oi Cadu! Que surpresa. Disse Nina ao atender o telefone.
– Tudo bem com você? Estou com saudades. Liguei para dar um oi.
– Adorei a ligação inesperada. Como estão as meninas? E a Cecília?
– Por aqui tudo bem? E por aí? Quando você finalmente virá para Portugal nos visitar?
– Eu adoraria mas a vida anda muito corrida.
– Nina, você precisa priorizar isso. Já te ouvi falar mil vezes do seu sonho de viajar e conhecer o mundo, mas nunca te vi fazer algo de fato para isso acontecer. Você tem uma parte da família aqui em Portugal louca para te ver, mas nunca aceita nossos convites. Por favor Nina, venha. Aproveite a fase de trabalho mais informal e venha passar um tempo aqui com a gente. Estou indo viajar com a Cecília. Vou leva-la a Paris nesse final de semana para comemorarmos nosso aniversário de casamento.
– Ah irmão! Você é tão romântico. Será que em algum lugar há alguém que um dia me levará a Paris no nosso aniversário de casamento?
– Claro que sim! Estou certo que logo ele aparecerá. Mas te conhecendo, não adiantaria ele programar nada fora do Brasil com você. Você não iria. Não vem visitar sua família. Suas sobrinhas são loucas por você. Nós somos loucos por você.
– Vou tentar prometo.
– Quantas vezes já renovou o passaporte Nina?
– 4
– Quantas vezes usou?
– Nenhuma.
– Minha irmã está mais do que na hora de se jogar nesse mundo que você sempre quis tanto conhecer.
– Você tem razão. Vou me planejar! Prometo.
– Vou cobrar Nina! Posso enviar a passagem para você, se a questão for dinheiro. Agora preciso ir.
– Pode cobrar! Dessa vez eu vou.
– Vamos te esperar. Bom dia para você.
– Para você também! Te amo Cadu.
– Te amo Nina!
Quando Nina desligou o telefone, uma saudade imensa tomou conta dela. Desde que o irmão tinha ido morar em Portugal, ela o viu poucas vezes. E em todas as vezes, foi ele que veio para o Brasil.
– Era o meu irmão. Disse Nina ao motorista.
– Ele não mora aqui? Perguntou ele.
– Ele se chama Cadu, Carlos Eduardo na verdade. Ele vive em Portugal há 6 anos e foi para lá a trabalho. Se casou com a Cecília, uma portuguesa lindíssima e teve 2 filhas, a Luisa e a Paula, com 3 e 5 anos. Eles vivem uma vida de sonho por lá. Eles viajam com frequência e o Cadu já teve oportunidade de conhecer todos os países da Europa. De alguma maneira ele realizou esse sonho para mim. Desde pequena sempre sonhei em conhecer o mundo todo.
– E o que já conhece do mundo?
– Nada ainda. A grana está sempre curta e sempre acabo precisando priorizar outras coisas.
– Precisa realizar seu sonho! Vá visitar o seu irmão.
– Estou pensando seriamente nisso.
– Tudo é uma questão de prioridade.
– Você tem razão.
– Chegamos! Disse o motorista. – Mais rápido do que o previsto. No final não vai nem se atrasar.
– Você foi um anjo! E muito gentil. Disse ela ao motorista.
– Foi um prazer conhece-la. Tenha um bom dia.
– Você também. Disse Nina dando o dinheiro ele.
– Não precisa me pagar. Disse ele.
– Como assim? Claro que preciso.
– Por favor guarde esse dinheiro. Comece a poupar para fazer sua viagem a Portugal.
– Você não existe.
– A Senhorita é muito divertida. Me prometa que vai para Portugal.
– Te prometo! Disse Nina feliz querendo dar um abraço no motorista. – Muito obrigada por isso.
– Disponha.
Nina saiu do carro feliz e incrédula sobre o que acabara de acontecer.
Ela chegou no estúdio e todas as modelos já estavam se arrumando.
– Bom dia! Disse ela.
– Bom dia! Respondeu a manicure que ia fazer suas unhas.
– Como está indo o seu dia? Perguntou Nina super simpática.
– Normal! Respondeu secamente a manicure.
“Ui! Que grossa! Acho que não quer conversa.” Pensou Nina ao constatar que era melhor se calar. Ela não se importou tanto. A ligação do irmão e o presente do motorista de taxi blindaram o seu humor naquela manhã.
O silencio tomou conta do ambiente e os pensamentos de Nina foram para o seu irmão. Ela morria de saudades dele e das meninas. Depois daquela conversa ela estava realmente disposta a juntar dinheiro para ir vista-lo.
Os pensamentos de Nina a embalaram e num piscar de olhos ela estava pronta para ir para o estúdio.
Ela não tinha muita paciência para aquilo, fazia exclusivamente pelo dinheiro. Naquele dia em especial, estava tudo mais chato e demorado do que o normal. O diretor de arte responsável pelo trabalho era muito detalhista e Nina já estava até suando para eles enfim conseguirem as fotos perfeitas.
Finalmente aquela manhã terminava e Nina tinha o valor do aluguel garantido com o trabalho de modelo e as performances de boneca. Ela se sentia mais feliz do que o normal resolveu almoçar com uma de suas amigas.
Escreveu no grupo das amigas:
“Alguém se anima para almoçar?”
“Onde você está?” Perguntou Melina.
“Pertinho de você.” Respondeu Nina.
“Posso almoçar. Você vem para cá?”
“Chego em 10 minutos.”
Assim que enviou a mensagem, o taxi de Nina chegou.
Em pouco minutos ela chegou no prédio onde Melina trabalhava e enviou uma mensagem para a amiga.
“Cheguei.”
“Sobe aqui! Temos um almoço incrível na cobertura.”
“Indo.” Nina respondeu quando foi anunciar sua chegada na recepção.
O lugar era muito suntuoso. Tinha uma mesa redonda de madeira chiquérrima, bem no meio do ambiente com um vaso grande com 10 pencas generosas de orquídeas brancas. O chão e as paredes eram todos revestidos de mármore carrara. As recepcionistas pareciam modelos de passarela.
Nina subiu e Melina já a esperava na recepção.
– Que delícia de surpresa! Disse Melina indo abraçar a amiga.
– Eu estava aqui perto.
– Teremos uma reunião importante aqui e por isso tem um almoço delícia aqui no andar de cima. Vamos?
– Vamos! Estou morrendo de fome.
Elas subiram um lance de escada e chegaram ao terraço do prédio. Era possível ver a cidade inteira dali, além do trafego intenso de helicópteros indo de um lado para o outro.
– Que lugar é esse? Disse Nina pensando em voz alta.
– Aqui é demais né?
– Demais! Disse Nina boquiaberta. – Tudo aqui é muito chique.
– Esse é o mundo da moda minha amiga. Tudo muito chique… e muito… Melina perdeu as palavras.
– Vazio? Tentou concluir Nina.
– Pode ser… respondeu Melina.
– Deve ser gostoso viver cercada de tantas coisas bonitas.
– No começo é. Depois tudo vira paisagem. Confessou Melina. – Agora me diga! O que está fazendo por aqui?
– Fiz um trabalho hoje. Fotos para uma campanha de esmaltes.
– Que benção de mãos você tem. Lindas como tudo em você.
– Melina! Que exagero.
– Você deveria se olhar mais no espelho Nina. Você é L-I-N-D-A!
Nina corou.
– E você exagerada!
– E como andam as coisas com o André?
– Não andam! Já tem dias que nem nos falamos.
– O que houve dessa vez?
– Mel, ele era muito possessivo e forçava a barra. Sei lá. Não parecia natural.
– Você vai acabar sozinha e cercada de gatos se continuar assim. Parece que nunca ninguém é bom o suficiente. Disse Melina. – O que você está procurando afinal?
– Alguém que meu coração aprove.
– Boa resposta. Queria tanto beber um vinho. Mas hoje sem chance. Tenho mil compromissos a tarde.
– E eu tenho 8 cachorros para passear. Ainda bem que parou de chover.
– Você precisa de um emprego de verdade.
– Estou começando a achar que sim. Concordou Nina.
E nesse momento, o celular de Nina tocou.
– Alô. Disse ela ao atender o telefone.
– Oi! Nina?
– Sim!
– Aqui é o Roberto. Tudo bem? A Andrea me deu seu telefone.
– Que Andrea?
– Você passeia com o cachorro dela.
– Ah! Sim! Claro. O que você precisa?
– Acabei de me mudar para o bairro e hoje não tenho como passear com o meu cachorro, então ela me indicou você. Você poderia passear com o Borges hoje?
– Claro! Você precisa somente hoje?
– Sim! Geralmente chego cedo e passear com ele é uma das coisas que mais gosto. Mas tenho um compromisso e não poderei ir com ele.
– Eu posso ir sim. Me passa seu endereço.
– Claro. Às 18h funciona para você?
– Sim! É o horário que costumo ir. Passo na sua casa antes de pegar os outros cachorros.
– Combinado! Te envio o endereço por mensagem. Até mais tarde. Disse Roberto, desligando o telefone.
Nina desligou o telefone feliz.
– Hoje é meu dia de sorte! Mais um cliente.
– Outro cachorro?
– Sim!
– Que demais.
– O que você acha de irmos para a praia nesse final de semana. Temos muito o que comemorar. Disse Melina.
– Acho ótimo. Não tenho nenhuma festa agendada.
– Vou falar com as meninas. Vamos ter um final de semana só nosso. Só nós 4!
– Será uma delícia.
Elas seguiram conversando e poucos minutos depois a chefe de Melina chegou pedindo uma conversa com ela, antes de uma reunião que teriam mais tarde. Elas apressaram o almoço e se despediram.
Nina voltou para casa se sentindo feliz. Fez bolo com café e seguiu preguiçosa o resto da tarde.
Perto das 18h foi colocar seu uniforme de passeadora de cachorros. Camiseta branca, legging preta e tênis. Rabo de cavalo em um hidratante nos lábios. Ela não costumava passar nada de maquiagem porque sempre acabava totalmente suada pelo esforço do passeio e com a maquiagem derretida.
Ela estava feliz esperando por Roberto e Borges, seu novo cliente, quando um homem deslumbrante apareceu no portão.
– Oi você deve ser a Nina. Esse é o Borges.
Ela ficou sem fala. Aquele era o homem mais bonito que ela já tinha visto pessoalmente. E ela se arrependia totalmente da escolha do seu visual.
– Prazer Borges. Disse ela olhando fixamente para Roberto.
– Eu sou o Roberto! Ele é o Borges. Brincou ele apontando para o cachorro.
– Prazer Roberto. Ela disse, ainda sem mover o olhar dele.
Ele riu. De maneira muito charmosa.
– O prazer foi meu. Obrigado por atender um pedido tão encima da hora. Cuide bem dele. O dinheiro está na lavanderia. Pode pegar quando deixa-lo. A porta estará aberta e você deve usar essa entrada. Meu apartamento é o 21.
Nina não tinha certeza se conseguia memorizar todas aquelas informações. Ela estava hipnotizada por aquele homem.
Ele ficou olhando para ela esperando que ela dissesse algo.
– Ok! Pode ficar tranquilo às 19h eu entrego ele de volta.
– Combinado. Bom passeio para vocês.
– Obrigada! Disse ela ainda sem conseguir se mover.
Ele riu.
– Minha carona chegou! Preciso ir. Disse ele.
– Ok! Bom passeio para você também. Disse Nina.
Ele entrou no carro e deixou Nina ali segurando Borges pela coleira. Ela seguia incapaz de se mover digerindo aquele encontro que tinha acabado de acontecer.
“Que homem é esse meu Deus? Onde esse homem estava todo esse tempo?” Se perguntava em seus pensamentos enquanto tomava coragem para se mover.

CONTINUA…
O CAPÍTULO 3 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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