Capítulo 20 – Desilusão, Danço Eu, Dança Você, a Dança da Solidão

Quando Vitória entrou no táxi, as lágrimas que estavam resistindo bravamente, finalmente começam a lhe cair pelo rosto. “O que mais preciso ver para me convencer que esse homem e essa vida não são para mim?” Pensava Vitória sentindo raiva dela mesma por ter aceitado chegar até ali.

Ela chegou no hotel e tudo que queria era a casa e a mãe dela. Arrumou suas coisas, trocou de roupa, limpou seu rosto todo borrado de maquiagem pelas lagrimas que ainda insistiam em correr em seu rosto. Ela fazia tudo com muita pressa, pois não queria correr o risco de encontrar Eric ali, antes que saísse.

Carregou suas malas e pegou um táxi para o aeroporto decidida a mudar sua passagem e voltar o mais rápido possível para o Brasil. Tudo que ela queria era fugir dali.

No caminho chegou uma mensagem de Eric em seu celular.

“Onde você está? Já rodei por todos os lugares e não te encontro. Estou preocupado.”

“Um pouco tarde para sentir minha falta.” Digitava ela, sem saber o que responder a ele. Se arrependeu, apagou o conteúdo e respondeu simplesmente:

“Estou bem, não se preocupe. Mas estou voltando para casa.”

“Você quis dizer hotel?”

“Não! Quis dizer casa mesmo.” Enviou sem pensar e desligou o telefone.

Vitória passou a noite no aeroporto a espera do primeiro voo que a levaria de volta ao Brasil na manhã seguinte. No meio do turbilhão de sentimentos e pensamentos de Vitória, ela se surpreendeu por sentir falta de Thomas. Ele definitivamente era o seu porto seguro. “Thomas jamais faria isso comigo…” Pensava ela enquanto morria de pena de si mesma e se esforçava para não começar a chorar a novamente.

Logo cedo ela sentia um tremendo alívio por conseguir embarcar de volta para casa e deixar toda aquela loucura e ilusão para trás. No avião, se esforçando para dormir, depois de uma noite muito mal dormida, os pensamentos dela traziam os melhores momentos que tinha vivido com Eric na Itália, a realização do seu sonho de conhecer a Europa e um sorriso apareceu em seu rosto pela primeira vez depois dos últimos acontecimentos. “Eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde… Sempre soube. Vou ficar com o copo meio cheio e me sentir feliz por tudo que vivi antes de acordar desse sonho.” Pensava ela no momento em que conseguiu dormir.

Já no Brasil, ligou seu celular e viu uma mensagem de Eric.

“Por favor, não vá embora! Vamos conversar. Não sei o que você viu, mas posso explicar. Por favor vamos conversar?”

E ela decidiu responder:

“Vi o suficiente para entender que nunca daria certo nada mais sério entre nós. Eu sempre soube na verdade. Obrigada pelos dias incríveis na Itália.”

E ele respondeu na mesma hora:

“Que alívio ter notícias suas! Onde você está? Vamos conversar?”

“Já estou no Brasil. Quando você voltar conversamos. Ok? Não se preocupe comigo. Estou muito bem.”

“Bom saber que você está bem. Mas é comigo que estou começando a me preocupar.”

“Como assim?”

“Não queria ter deixado você ir embora. Por favor não estrague as coisas.”

“Acho que não fui eu quem estragou as coisas. Depois falamos Eric. Até a sua volta.”

“Vou te procurar assim que eu chegar no Brasil.”

“Ok!” Respondeu Vitória, disposta a não falar mais com ele até que ele a procurasse no Brasil.

“Eu não fiz nada de mais e no final, nunca te prometi nenhum tipo de exclusividade. Por que está tão brava?”

Vitória lia e relia a mensagem para ter certeza que tinha entendido tamanha grosseria. Ele tinha passado do ponto com aquela mensagem. E ela resolveu dizer tudo o que pensava sobre aquilo tudo, por mensagem mesmo, ignorando o fato de que esse tipo de conversa seria mais saudável ter pessoalmente.

“Se trata de respeito e consideração, afinal estávamos juntos naquele dia, mesmo não estando juntos em uma vida ou relação oficial que demanda compromisso, exclusividade e fidelidade um do outro. Não é possível que você não entenda isso!”

“Melhor conversarmos pessoalmente.”

“Sim! Melhor. Até a volta Eric.”

E não houveram mais mensagens depois de última troca de insultos por mensagem de texto.

Já em casa, Vitória desarrumava as malas quando Thomas ligou. Ele parecia estar conectado aos pensamentos dela.

– Oi Thomas. Tudo bem? Atendeu Vitória.

– Tudo! E você?

– Tudo bem… Mentiu Vitória.

– Queria te chamar para jantar. Tenho novidades. A Laura recebeu alta. Agora me sinto livre para começar algo novo na minha vida. E você não sai da minha cabeça e nem do meu coração. Disse Thomas se declarando sem tomar ar entre as palavras.

As palavras de Thomas a pegaram totalmente desprevenida. Ela mal tinha encerrado a história que começava a viver com Eric e não podia mergulhar com Thomas tão rápido, depois de tudo que ele passou, que ela passou e que todos passaram. Pensou por um instante sobre como responder para ele sem machucá-lo.

– Nossa Thomas! Que bom que deu tudo certo! Fico feliz que ela tenha recebido alta, e principalmente, que você esteja livre de culpas e pronto para viver novas histórias. Eu adoraria jantar com você. Mas acabei de chegar de viagem. Tenho um compromisso de trabalho hoje.

– Entendo. As coisas estão evoluindo no trabalho?

– Sim. Já estou na reta final do meu projeto de beleza e agora estou correndo contra o tempo.

Thomas acreditava que Vitória o dispensava porque iria sair com Eric e se decepcionou completamente.

– Fui ingênuo achando que a solução de tudo estava em minhas mãos. Disse ele.

– Como assim?

– Acho que já chega de explicações entre nós Vitória. Você tinha razão quando dizia que tudo era muito pesado e que eu me explicava demais o tempo todo.

– Eu te ligo essa semana, quando tudo estiver mais calmo e marcamos algo para nos reencontrarmos. Combinado?

– Combinado. Estou por aqui. Espero que resolva tudo que precisa.

– Eu também.

– Um beijo Vitória.

– Outro para você. Ah, queria que soubesse que fiquei feliz com a sua ligação. Disse Vitória.

Ele não respondeu nada e ela ficou sem saber se ele tinha ouvido e ignorado ou se nem sequer tinha ouvido a última frase dela.

Vitória queria dar uma chance a Thomas na sua vida. Além de sentir falta dele, ela ficou feliz em saber que tudo estava mais calmo e que de alguma maneira ele estava livre, mas não podia entrar de cabeça tão rápido em outra história. E com Thomas tudo parecia acontecer muito rápido. Ela sentia que os tempos deles eram muito diferentes e isso parecia dificultar muito qualquer coisa entre eles. Ela precisava de um tempo para tirar Eric do seu coração e encerrar de vez aquela história, antes de começar qualquer outra coisa. Ela só não tinha certeza sobre conseguir encerrar a história com Eric com a facilidade que ela desejava.

Aquele dia de angustia terminou rápido e nada, nem ninguém, tirava do coração dela a sensação de despedida da vida glamurosa ao lado de Eric lhe causava. E de que Thomas parecia mais tentador do que nunca, mas ela preferia correr o risco de se perderem para sempre um do outro à atropelar as coisas de novo.

Vitória passou e repassou os últimos acontecimentos na sua cabeça. Pensou sobre a relação profissional que precisaria manter com Eric, mesmo não existindo mais nenhum envolvimento romântico entre eles. Pensou ainda que podia estar exagerando em sua reação em relação à última noite na Itália. E em seguida se deu total razão e sentia que não poderia ter feito diferente depois de ter sido tratada daquela maneira. Pensou em Thomas e no quanto estava arriscando perdê-lo enquanto ele pensava que ela e Eric estavam juntos. E até que enfim, depois de horas pensando e repensando sobre tudo, ela finalmente conseguiu dormir.

Vitória acordou depois de uma noite bem dormida confusa sobre tudo ter sido um sonho ou real e de repente uma nuvem de melancolia envolveu Vitória. Ela tinha descido das nuvens e sentia um peso enorme de realidade sobre as suas costas.

O dia ia se arrastando e Vitória mal conseguia se concentrar na televisão, quando Eric ligou:

– Oi. Tudo bem? Atendeu Vitória.

– Bem e você?

– Bem também. Diga. O que você quer.

– Bom quero muito poder me explicar e me desculpar com você, mas também quero marcar uma reunião de trabalho com a Manuela amanhã. Ela já confirmou e preciso saber se você tem disponibilidade.

– Tenho sim. Que horas será a reunião?

– Às 10 horas da manhã, no meu estúdio.

– Estarei lá.

– E sobre o outro assunto? Podemos nos encontrar para conversar.

– Eric, prefiro que a gente não se encontre. Isso vai passar. Acredito que você nunca quis meu mal ou me deixar triste. E você tinha razão quando me disse que nunca me prometeu exclusividade.

– Quando você fala assim tudo parece ainda pior do que é.

– Mais uma vez, você tem razão. Estou exagerando as coisas. Você não fez nada de mais afinal. Não sou sua namorada e eu estava no seu local de trabalho. Preciso compreender ficar 30 minutos sozinha te vendo abraçar outra mulher e falar bem pertinho da boca dela. Afinal esse é o seu trabalho e eu era uma grande intrometida naquela noite.

– Vick! Por favor, não coloque as coisas desse jeito. Me desculpe o meu mal jeito. Agi mal com você. Me atrapalhei com as palavras. Me desculpe. Temos um projeto lindo juntos e não podemos brigar por uma bobagem.

– Você tem razão. Vamos focar no nosso projeto. Mas me jure que nunca teremos mais nada além dessa relação profissional, que te desculpo por tudo que você se desculpou.

– Eu prometo. Faço qualquer coisa para que você me desculpe.

– Desculpado. Agora preciso ir. Até amanhã Eric.

– Hey, vamos jantar hoje?

– Jura?

– Por favor.

– De jeito nenhum Eric. Nos vemos amanhã, na nossa reunião. E estou falando sério sobre não termos mais nenhum envolvimento amoroso. Se você não levar isso a sério, eu vou sumir da sua vida! Não tenho nervos, nem compreensão suficiente para ter qualquer envolvimento com você. E não precisamos nos encontrar pessoalmente para que eu te diga isso. Estou falando sério.

– Ok! Você venceu. Sem mais envolvimento emocional, para eu ter nossa parceria profissional. Aceito as condições porque quero você na minha vida.

– Então pois bem. Estamos combinados. Até amanhã Eric. Disse Vitória decidida e desligou o telefone.

Vitória respirou fundo e morria de orgulho de si mesma por ter conseguido ser tão firme com ele. Já era hora de ela se dar ao valor que ela merecia nessa relação.

Já anoitecia e Vitória seguia emendando um filme no outro sem ter total capacidade de se concentrar em qualquer coisa, quando seu celular começou a tocar.

– Oi José! Atendeu feliz.

– Oi Vick! Que bom conseguir falar com você. Estou morrendo de saudades. A gente não se falou mais e você anda muito sumida.

– Ai meu amigo, ando mesmo. Me desculpe por isso. Vamos dizer que andei me dedicando para algumas coisas equivocadas.

– Por que? O que houve?

– Bobagem. Não quero falar disso. Mas me diga. O que tem para me dizer.

– Terminamos a gravação do nosso primeiro álbum e a gravadora fará uma festa para a nossa banda daqui 15 dias. Por favor, já reserve a data. Preciso de você lá.

– Claro que estarei lá meu amigo querido. Espero que não se esqueça de mim quando ficar famoso.

– Para de ser boba! Nunca vou me esquecer de você.

– Eu amo você José. Parabéns pelo disco.

– Obrigado Vick! Espero que a gente consiga se encontrar pessoalmente até lá. Você e a Tati andam muito sumidas.

– Vamos tentar José.

– Era isso. Beijo Vick.

– Beijo José.

Vitória se sentia feliz por seu amigo e mal conseguia acreditar que em pouco tempo ele seria muito famoso. “Isso não parece real. Minha vida, ultimamente, não tem parecido real.” Pensava ela, até voltar a prestar no atenção no filme que estava assistindo.

Na hora dormir, o sono não veio e Vitória sentiu uma onda de adrenalina percorrer seu corpo ao pensar no encontro que teria com Eric na manhã seguinte.

Depois de algumas horas mal dormidas, Vitória acordou um caco. Sentia sono, tinha olheiras e sensação de que tinha bebido na noite anterior. Temia pela aparência terrível que teria em seu primeiro encontro com Eric depois dos últimos acontecimentos.

Por fim, chegou linda ao encontro, usando meia calça, vestido no meio das canelas, o tênis plataforma da moda e um casaco sobre tudo de cashmere, que a deixava chique e magra. Aquele era o dia mais frio do ano e ela caprichou na sua produção.

O encontro com Eric foi mais fácil do que ela pensava, afinal eles tinham muito o que fazer e Manuela transformava o clima em algo ainda mais profissional. Eric olhava Vitória com olhos tristes e arrependidos e isso a fazia se sentir ainda mais forte para manter sua última palavra.

– Que bom que conseguimos nos reunir hoje. A agenda está uma loucura e tenho muitas coisas a dividir com vocês. Estou super empolgada com tudo isso e vocês precisam aprovar um monte de coisas para podermos marcar o primeiro dia de produção de fotos.

Manuela seguia falando dos avanços que tinha feito e mostrava fotos das locações pensadas por ela para cada uma das mulheres e suas histórias, de acordo com o briefing que tinham passado para ela. Ela já falava há quase 10 minutos, quando parou para provocar Eric.

– Hey, você está mesmo aqui? Perguntou para Eric.

– Claro que sim.

– Sei lá. Estou aqui falando que nem uma matraca, empolgadíssima com tudo e você só balança a cabeça. Está comigo mesmo? Não está gostando?

– Claro que estou com você! E estou adorando tudo. Pode continuar.

– Você está estranho. Aliás, vocês dois estão estranhos.

– Está tudo bem. Estamos somente te dando toda a atenção que você merece. Complementou Vitória.

– Então tá bom. E para essa locação, pensei em irmos para a praia. Vocês acham muita viagem? Porque podemos aproveitar o por do sol…. Disse Manuela meio insegura.

– Não. De maneira nenhuma. Acho que a praia pode ficar incrível. Respondeu Eric.

E Manuela seguiu falando de todas as locações em meio a melancolia que estava instalada entre Eric e Vitória.

A reunião seguiu bem e as ideias de Manuela eram realmente muito boas. Dias antes Vitória ficaria ainda mais animada com tudo aquilo, mas naquele dia, até seu grande projeto que fazia seu coração bater fora do corpo parecia ter perdido a graça. E Eric parecia compartilhar do mesmo sentimento. Ele precisou fazer um esforço tremendo para manter Manuela empolgada e distante da nuvem de tristeza que parecia estar dominando aquele espaço.

Acabaram falando de coisas práticas como datas, cronogramas e briefings. Os sentimentos esquisitos iam se dissipando com o passar das horas e já para lá da hora do almoço, terminaram a reunião.

– Gente! Fomos muito produtivos, mas estou faminta. Vamos almoçar naquele restaurante aqui perto que tem uma comida caseira maravilhosa.

– Vamos! Boa ideia. Esse lugar nos inspirou muito. Né Vick?

– Sim! Nos inspirou muito. E a comida é realmente deliciosa. Mas infelizmente, não poderei acompanhar vocês. Já algo agendado. Mentiu Vitória.

– Ai que pena! Disse Manuela. – Você vem né Eric? Ou vai mudar de ideia porque a Vick não vai nos acompanhar?

– Claro que vou. Respondeu Eric sem conseguir tirar os olhos de Vitória.

Vitória se perdeu por um minuto no olhar dele, mas rapidamente caiu em si e levantou já se despedindo.

– Muito bom Manuela! Você é demais. Nos vemos em dois dias na nossa primeira locação. Disse Vitória dando um abraço de despedida em Manuela.

– Obrigada Vick! Teremos 10 dias intensos pela frente. Estou muito animada.

– Eu também. Mal posso esperar. Respondeu Vitória.

– Tchau Eric. Até segunda. Vitória falou secamente se despedindo de Eric.

Os dias seguintes foram tomados de trabalho e todos estavam muito envolvidos com a produção das fotos, que iam ficando cada vez mais expressivas e bonitas. Tinha muita leveza e muita beleza em tudo que estava sendo retratado por Eric. As paisagens escolhidas eram lindas, mas reais. Eram lugares que qualquer um poderia ir. Thomas ligou algumas vezes, mas Vitória sequer ouvia o telefone tocar e quando retornava, já tarde da noite, ele que não atendia. Eric respeitou o pedido de Vitória e apesar de se sentir muito triste com que tinha se tornado a relação deles, não tentava qualquer coisa com ela, por medo de ela ir embora para sempre. Sua promessa resistiu a dias na praia e momentos de descontração que envolviam muito álcool com todo o time. Vitória parecia realmente decidida à transformar aquela relação em algo meramente profissional. Ela sentia tanta raiva de Eric por tudo que ele a tinha feito passar e pelas palavras infelizes e atrapalhadas sobre exclusividade quando tentava se desculpar, que toda a distância imposta por ela, acabava sendo mais fácil para ela do que ela mesma pensara que seria.

No último dia de produção das fotos, estavam todos felizes, porque já tinham marcado a data de estreia da exposição que seria em 40 dias. Eles teriam pouco tempo para produzir tudo e trabalhar na divulgação da abertura da exposição. Isso lhes fazia a adrenalina percorrer o corpo.

Assim que fizeram o primeiro brinde Eric disse a todos:

– Isso tudo não seria tão incrível se não fosse pelo trabalho e pelas ideias da Vitória. Ela deu vida para um projeto que existia na minha cabeça, mas também a direção sobre como ele deveria acontecer para alcançar o máximo do seu potencia. Então quero reconhecer essa mulher brilhante que tive a sorte de conhecer. E pedir desculpas por não ser o cara que eu deveria ser…

Vitória começou a temer pelo discurso dele, que já estava muito alterado pelo álcool e parecia não estar racionando tão bem, e acabou interrompendo o discurso dele.

– Eu que agradeço a oportunidade e o reconhecimento. Mas você está exagerando. Um brinde também a Manuela que fez esse excelente trabalho e viabilizou todas as nossas boas ideias.

– Um brinde! Disseram todos em coro.

Vitória aproveitou o momento de descontração e excesso de álcool geral para sair à francesa. Ela já saindo, sem se despedir de ninguém, quando sentiu uma mão em seu ombro.

– Obrigado por tudo. Disse Eric. – E desculpe por tudo. Me atrapalhei com os sentimentos que você me apresentou, que eu nem conhecia. Não soube lidar com isso. Me perdoa. Você não merecia nada disso.

Vitória começava a sentir uma tremenda vontade de chorar e lutava com ela mesma e com suas lágrimas para se manter firme.

– Eu entendo Eric. Sei que você se esforçou, mas os nossos mundos são diferentes demais. Eu mesma, não estava sabendo lidar direito com isso. Foi melhor assim. Acredite.

– Não consigo ver dessa forma. Seu mundo é apaixonante e me arrebatou Vitória.

Vitória respirou fundo e ponderou sobre sua resposta, mas acabou dizendo o que vinha do seu coração.

– Já seu mundo, não é nada apaixonante para mim e me afastou de todas as maneiras que alguém poderia ser afastado. Agora vai curtir sua noite, seu momento e sua equipe.

– Fica! Por favor. Isso tudo aqui não faz sentido sem você. Implorou Eric.

– Eu adoraria, mas realmente não posso.

Eric agarrou Vitória e deu um abraço apertado nela. Olhou profundamente nos olhos dela e se aproximou como se fosse beijá-la. Ela ficou estática. Ele encostou a testa dele na dela. E ficou ali, imóvel, por alguns segundos, com a respiração acelerada.

– Não consigo deixar você ir embora. Ele disse depois de alguns segundos.

– Só que essa decisão não é sua. Respondeu Vitória que saiu sem olhar para trás.

Vitória deixou Eric paralisado para trás e seguiu triunfante, orgulhosa de si por ter mantido sua promessa para ela mesma. Mas alguns passos adiante todo o orgulho se cansou de brigar dando lugar às lágrimas que rolavam impiedosas sobre o seu rosto.

Ela entrou no carro chorando até o ar lhe faltar. Chorou desesperadamente por alguns minutos. Se olhou no espelho, limpou as lágrimas e disse em voz alta para si mesma.

– “É a última vez que choro por alguém que não me merece.”

E como se aquelas palavras fossem mágicas, ela se acalmou, parou de chorar e conseguiu dar partida no carro, deixando tudo aquilo realmente para trás.

No caminho de casa, Vitória recebeu uma ligação de Thomas, mas apesar de querer muito falar com ele, não queria falar com ele naquela hora.

O dia seguiu melancólico e Vitória se sentia um pouco anestesiada com tudo. Mas ela não tinha muito tempo para curtir aquela melancolia porque poucas horas depois que ela tinha chegado em casa, Tatiana estava passando com Tato para buscá-la para irem juntos à festa de lançamento do disco de José.

O lugar era enorme e parecia que aconteceria uma entrega de Oscar ali, tamanha a elegância em que todos estavam vestidos. José estava radiante e tinha a namorada a tira colo o tempo todo. Ele parecia muito apaixonado por ela, que retribuía cada olhar apaixonado dele.

A comida era boa, a pista de dança fervia e tinha muita gente bonita e badalada circulando por todos os cantos. Vitória parecia nem estar ali, mas se esforçava para parecer animada, por seu amigo que não cabia em si de tanta felicidade.

Já estava quase amanhecendo quando Vitória sentou sozinha em um sofá e observava tudo de longe. José apaixonado por Isabela, depois de bater tanto a cabeça no amor, começando a crescer na carreira de músico, como sempre sonhara. Tatiana e Tato pareciam mesmo terem nascido um para o outro. Tatiana dançava com Tato descalça, como se só existem eles ali, e nem mesmo o ritmo da música era tão importante como o ritmo deles. “O amor está em todo o lugar. Parece ter sido feito para todos, menos para mim.” Pensava ela, sob total efeito de uma garrafa inteira de champagne, que naquele momento, ela terminava de tomar pelo gargalo.

Mesmo sendo 5 horas da manhã, ela decidiu ligar para Thomas, certa de que era o momento de começar de novo. Certa de que tinha deixado aquela história surreal com Eric para trás. Certa de que ele era o amor tranquilo, com sabor de fruta mordida, que ela tanto queria e que ele nunca ia fazer com ela se sentisse perdida e rejeitada, como Eric a fazia sentir o tempo todo quando estavam juntos.

Ela ligou ansiosa para que ele atendesse e ensaiava o que iria dizer para ele. “Entre por essa porta agora! Diga que me adora! Você tem meia hora para mudar a minha vida…” Ela ria e cantava alto na expectativa dele atender o telefone. Mas, mesmo depois de algumas tentativas, ele não atendeu. Ela sentia que a felicidade dela estava lhe escapando pelas mãos, como areia. Ela sentia que tinha feito tanta bobagem que ele tinha cansado de esperar por ela. E assim, ela sentia que tinha perdido o único homem que parecia ter gostado dela de verdade.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 21 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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