Capitulo 20 – Eu não me importo. Eu não me importo. Eu não me importo.

Ana se esforça para conseguir comer uma torrada e tomar um café puro. O gosto amargo da boca causado pela noite anterior parece ainda mais intenso naquele momento. As últimas reações de Mark insistem em tomar conta dos seus pensamentos e isso gera uma enorme angustia no seu coração. Por isso ela resolve dar uma volta por aquele lugar maravilhoso na esperança de as coisias se arrumarem dentro dela.

Ela sai da casa e encontra um dia quente de verão. O céu não tem nenhuma nuvem e um caminho repleto de flores mostra para ela para onde ela deve ir. Enquanto anda, Ana tenta esvaziar sua mente para se acalmar e curtir o passeio. No início não consegue. Mark grita com ela em seus pensamentos e ela sente raiva de Sebastian pelo jeito como ele conduziu as coisas. Ela não tem ideia da parte mentirosa da história que ele contou para Mark, mas só o que ela sabe já é suficiente para deixa-la com raiva.

“Tire essa raiva de você. Isso não mudará o que está feito. Mude sua forma de se relacionar com Sebastian. E tudo ficará melhor. Você só pode mexer naquilo que ainda não aconteceu. Esclareça tudo com Mark.” Dizia Ana para si mesma, quando encontrou companhia no seu caminho.

– Oi Ana! Bom dia.

– Oi mãe. Bom dia! O que está fazendo aqui sozinha?

– Acredito que o mesmo que você minha filha. Esvaziando a mente e organizando os meus pensamentos.

– Então estamos de fato fazendo a mesma coisa. E o Tibor?

– Foi embora ontem.

– Pensei que vocês iam…. você sabe. Acho estranho falar disso com você.

– Mas nós fizemos sexo ontem.

– Como assim? Onde?

– Na grama minha filha!

E as duas soltaram uma gargalhada alta, que faria todos em volta rirem também.

– Na grama? Parecem dois adolescentes. Não acredito que minha mãe está falando isso.

– Foi assim que me senti, na verdade. Mas foi especial. Foi muito bom. Muito melhor do que eu esperava. Acho que tenho que rever alguns preconceitos na minha cabeça. Disse Ilonka sorrindo.

– Nossa mãe, você parece gostar dele.

– Está sendo mais especial do que eu esperava.

– Combinaram alguma coisa para se verem de novo?

– Acho que vou passar uns dias com ele quando seus amigos estiverem aqui. Ele mora em uma espécie de chácara em uma cidade pequena colada em Budapeste.

– Isso é muito excitante! Te ver feliz, finalmente, no amor.

– E você minha filha? Conseguiu resolver as coisas em relação ao homem das flores?

Ana riu. Afinal o homem das flores já tinha ficado para traz há uma eternidade e seus problemas eram bem novinhos.

– O homem das flores já ficou lá atrás, mãe. Devo dizer que em um lugar muito especial, mas lá atrás.

– Então porque parece que tem algo no seu coração minha filha.

– Veja bem, não disse que não tinha algo. Eu disse que um outro algo que teve um dia ficou para trás.

– Mas se não é o homem das flores, quem seria?

Ana ficou em dúvida sobre falar sobre essa história nova e tão sem sentido, protagonizada por Mark, mas acabou se abrindo.

– No dia que chegamos aqui, achei tudo maravilhoso. Eu estava realmente relaxada e em estado de total encantamento. Quando conheci Mark, algo aconteceu no meu sossego. Fiquei curiosa sobre ele, como nunca havia estado na vida. Não senti nada além de curiosidade. E esses dias foram me mostrando um Mark que pode ter coisas muito especiais. Pelo pouco que vi. Estávamos começando a nos aproximar. Conversar mais. Ele começava a relaxar um pouco. A cada pedacinho dele que eu conhecia, mais interessante ele parecia. Daí apareceu o Sebastian. Ele é um cara perigoso. Bonitão, cheio de falas bonitas. E ele começou a se aproximar de mim. Até tentar me beijar ontem à noite. E o Mark viu. Ficou sem graça. E desde então ele está mais frio do que nunca. Parece com o Mark que conheci dias atrás. O Mark hermético. E isso me chateou muito hoje.

– Minha filha, eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Não se nota nada. O Mark realmente é muito discreto e o Sebastian o oposto, bem expansivo. Mas em tão pouco tempo que o conhece já deu para acontecer tudo isso? Quanta intensidade minha filha. Você precisa levar a vida de maneira mais leve.

– Mãe, não estou apaixonada e morrendo por amor. Não exagere.

– Ana, o pouco que sei de Mark é que ele está noivo de uma mulher nobre, creio ser uma duquesa, e tem uma vida muito diferente dessa aqui, bem longe daqui e desse estilo de vida. Ele parece um bom homem. Mas não acho que seja simples uma relação com uma pessoa tão diferente de você. Ele pertence a um outro mundo minha filha. Um mundo diferente de tudo que somos nós.

– Que importância tem isso mãe?

– Muita minha filha! Talvez ele seja incapaz de valorizar as coisas mais lindas em você e vice e versa. Vocês tiveram uma educação muito diferente um do outro. Vieram de lugares muito diferentes. Ele descende da monarquia minha filha. Acho que esses homens não foram treinados para amar alguém. Eles vivem de acordo com protocolos. Talvez nunca poderão dizer o que sentem e o que pensam de verdade. Eles estão destinados a uma vida discreta demais, resignada. Enquanto você é livre, divertida, espontânea. Você tem uma vida linda pela frente. Vai poder desbravar o mundo, como sempre quis, conhecer pessoas, viver e construir uma história, o que te encanta tanto. Acho que você merece um homem que esteja disposto a te acompanhar nessas descobertas.

– Acho que você pode ter razão. Mas não estou apaixonada por ele! Pelo amor de Deus. Na sua perspectiva, mais parece a história de Romeu e Julieta. Onde jovens querem viver um amor proibido e impossível. Eu só disse que estava curiosa.

– Meu amor, você disse que está chateada, pois ele voltou a ser frio com você. Isso me parece mais do que estar curiosa.

– Mãe, você está vivendo o amor e está vendo romance em tudo. É só curiosidade sim!

– Não importa o que eu ache. Só quero te proteger minha filha. Ele vai se casar com uma mulher do mesmo universo que o dele. Não quero que você se machuque.

– Sou crescidinha mãe. Não se preocupe comigo. Vou ficar bem. Te prometo.

– Vou ficar de olho na senhorita. Agora mudando de assunto. O que vai querer de aniversário?

– Você já me deu o meu presente. Essa viagem é meu presente.

– Ana, essa viagem é parte do meu presente. Vou falar com Elizabeth e vamos às compras. Quero te dar um vestido lindo para o seu aniversário. E vou aproveitar para comprar algumas roupas para mim.

– Ah o amor! Brincou Ana. – Vou adorar fazer compras com você.

Elas ficaram ali em silencio. Deitaram na grama e ambas agradeciam a sensação incrível de sentir o sol aquecer a pele.

– Como a vida é boa né, mãe? Disse Ana ainda de olhos fechados.

– Sim minha filha. A vida é muito boa. Respondeu a mãe também sem abrir os olhos.

Elas seguiram ali mais uns minutos em silencio e Ana já começava a se sentir melhor em relação à toda aquela angústia que tinha tomado conta de seu coração. Aquele momento tinha sido importante para colocar as coisas no lugar. Mas algo seguia cutucando seu sossego. De repente a fala da mãe sobre a noiva do Mark ressurgiu em seus pensamentos.

“Ele vai se casar com uma pessoa do mesmo universo que o dele… Pensando bem, nada poderia impossibilitar mais uma relação do que isso. Não temos mesmo nada a ver um com o outro. Mas não sei porque me preocupei tanto. Esse homem, na verdade, não tem nada que me atraia, que eu valorize ou procure em um homem. Ele é quieto demais, formal demais, sério demais… ele é quase arrogante. Eu nunca ia querer ficar com um homem desses. Que loucura ter pensado nisso. Mas não pensei nisso. Eu só estava curiosa. E agora preciso parar de pensar nele. Dane-se o que ele é! Não quero mais decifra-lo. Não me importo mais. Não me importo mais. Não me importo mais.” Seguia Ana falando consigo mesma, esperando que aquilo fosse jogado ao universo e que ela realmente parasse de se importar.

– Vamos voltar Ana? Podem estar nos procurando. Disse mãe a tirando de seus pensamentos.

Ana respirou fundo. Ela não queria sair dali. Não estava pronta para encarar Mark e Sebastian. Ela se sentia melhor, mas não o suficiente para voltar.

– Mãe, acho que ficarei mais um pouco.

– Vou deixa-la então. Tudo vai se resolver. Sempre se resolve.

– Com certeza mãe.

– Não demore muito aqui. O sol está quente.

– A sombra dessa arvore está quase me cobrindo. Ficarei bem.

– Até já minha filha.

– Até.

Assim que Ilonka saiu, Ana voltou a fechar seus olhos. Ela nunca tinha gostado tanto do silencio. Em poucos minutos uma grande árvore fazia uma generosa sombra sobre ela. Seu corpo relaxava, os pensamentos conturbados iam se dissipando e ela acabou dormindo.

Ela ficou ali por quase 2 horas, quando acordou assustada ao ser chamada:

– Como você pode ser tão irresponsável? Perguntou Mark.

– Por que está dizendo isso? Respondeu ela, tentando se situar.

– Sua mãe ia vir procura-la porque estava muito preocupada com você. Estão todos a esperando para almoçar. Você ainda poderia ter sido mordida por algum bicho venenoso. O que deu em você?

– Acabei pegando no sono. Não tive a intenção de causar esse transtorno todo. E não sabia que aqui tinham bichos tão perigosos. Isso é um grande jardim, afinal. E minha mãe sabia que eu estava aqui. Poderia ter vindo antes.

– Ela queria vir, mas eu me ofereci para vir aqui busca-la. Agora, por favor, podemos ir? Estamos todos com fome. Disse ele estendendo sua mão para tira-la do chão.

– Claro. Respondeu Ana aceitando o apoio para se levantar.

– Você dormiu aqui sob o sol. Isso poderia ter feito mal à sua saúde.

“Gente, ele está aqui no meio desse jardim imenso, em um dia teoricamente de folga, de camisa e calça social? De onde ele saiu meu Deus?” Pensava Ana ao olhar as roupas dele. Ignorando completamente a bronca que ele insistia em dar nela.

– Ainda bem que não fez. Estou muito bem. Aliás, muito melhor do que quando cheguei. Acho que me recuperei de todo o álcool que ingeri ontem. Estou até com fome. Respondeu Ana enquanto já começavam a caminhar lado a lado.

– Não deveria beber tanto. Disse Mark a repreendendo.

– Só percebi depois que já tinha bebido. Mas nisso você tem razão. Respondeu ela totalmente relaxada.

Ele seguia tenso ao lado dela. E ponderou antes de responder.

– Então precisa prestar mais atenção. Uma mulher não deve se comportar assim. Uma mulher não deve perder o controle. Disse ele em tom serio.

Ana sentiu raiva. Achou o comentário machista e queria manda-lo para o inferno, mas preferiu se manter calma e seguir com a boa sensação que aquelas últimas horas tinham trazido para ela. Então resolveu não responder. Nesse momento, Mark pisou em um buraco cheio de lama e sujou seus sapatos sociais, que acompanhavam o look todo social.

– Por isso, prefiro a cidade e o asfalto. Gritou ele, realmente bravo por causa do contratempo.

Ana achou graça. E tambem achou merecido, depois do seu comentário machista. Mas seguiu em silencio.

Eles terminaram o percurso quietos e logo estavam em casa. Mark foi direto para o seu quarto trocar de roupa e Ana foi falar com a mãe.

– Minha filha, você demorou! O que houve com o Mark?

– Pisou no barro no caminho. Deve ter ido trocar de roupa.

– Quando eu disse que ia procura-la, ele se prontificou em ir em meu lugar. Parecia estar preocupado com você.

– Não entendi porque se preocuparam.

– Você demorou demais para voltar Ana.

– Eu dormi mãe! Tive momentos deliciosos e relaxantes. Fiquei exatamente onde você me deixou.

– Acho que ele gosta de você. Disse Ilonka.

– Acho que está maluca mãe. Por favor, não vamos mais falar sobre isso.

– Como quiser Ana. Agora vamos almoçar. Estão todos esperando.

– Vamos! Disse ela.

Elas chegaram na sala de almoço e todos pareciam aliviados por Ana ter reaparecido.

– Que bom que está tudo bem com você! Disse Elizabeth. – Acho que agora podemos almoçar. E o Mark?

– Estou bem aqui mãe. Respondeu ele com uma outra roupa, tão social como a última.

– Então estamos todos. Vamos? Convidou Elizabeth.

– Onde estão Sebastian e Caterine? Perguntou Ana, achando a casa vazia.

– Já foram. Não queriam chegar tarde em Londres. Respondeu Elizabeth.

– Ele não se despediu de você? Que falta de educação a dele. Disse Mark para Ana.

– Mas não estou preocupada com isso. Só achei que podiam estar atrasados para o almoço também. Achei a sala vazia, perto dos últimos dias.

– Ana, não preciso de nenhum tipo de explicação. Isso tudo diz respeito a você somente. Respondeu ele, sem olhar para ela.

– Acho que devemos comer. Estamos todos com fome. Disse Ana contrariada.

– Nisso vou concordar com você.

Eles se sentaram para comer e Ana conseguiu até tomar uma taça de vinho, mesmo depois de todo o vinho da noite anterior. Afinal era impossível fazer uma refeição naquela casa e não tomar uma taça de vinho. Ela se sentia feliz apreciando tantas coisas deliciosas quando Elizabeth começou a falar sobre a festa de aniversário dela:

– Está gostando do vinho Ana?

– Muito! Aqui tenho experimentado muitas coisas de que tenho gostado muito. Estou construindo deliciosas memórias.

– Fico feliz que esteja gostando. Eu queria falar sobre a sua festa de aniversário. Sua mãe me disse que gostaria de te levar às compras para comprar seu presente de aniversário. Amanhã iremos à cidade fazer compras. Teremos uma tarde de meninas. Desde que minhas filhas se mudaram, nunca mais fiz isso. Fiquei animada quando sua mãe comentou.

– Obrigada Elizabeth! Ficarei feliz em ir.

– Eu estive pensando sobre a festa e gostaria de propor uma festa de gala, com vestidos longos, música, dança e uma safra de espumante especial em homenagem a você. O que acha?

Ana quase cuspiu o conteúdo do seu copo, surpresa com a fala de Elizabeth.

– Acho muito legal. Mas não precisamos de tudo isso. Podemos fazer algo mais simples.

– Quero te dar uma linda festa Ana! Fiquei muito feliz em saber que escolheu passar seu aniversário aqui. E estou muito feliz com a presença de vocês. Será delicioso organizar uma festa aqui. Esta casa está precisando de uma festa.

– Eu fico honrada. E aceito de coração. Disse Ana feliz.

– Então está feito. Amanhã compraremos lindos vestidos para a gente. Disse Elizabeth realmente empolgada.

Ana seguia em silencio refletindo sobre o que tinha acabado de acontecer. “O que seria uma safra de espumante especial em homenagem a mim?” Se perguntava em seus pensamentos realmente curiosa sobre o tema.

E nesse momento foram surpreendidos pela voz forte de uma mulher.

– Espero que de tempo de aproveitar essa refeição que parece realmente maravilhosa.

– Sophie, o que está fazendo aqui? Perguntou Mark surpreso.

– Você não gostou da surpresa? Perguntou ela.

– Você sabe que não gosto muito de surpresas. Disse ele se levantando da mesa para recebe-la.

– Claro que ainda da tempo de almoçar conosco. Disse Elizabeth se levantando para cumprimentar a noiva do filho.

– Obrigada Elizabeth. Parece estar mais feliz em me ver do que o seu filho.

– Não fale bobagem. Eu sempre fico feliz em vê-la. Disse Mark.

– Eu nunca falo bobagem, meu amor. Disse Sophie, em tom arrogante.

– Sophie, estamos felizes em tê-la conosco. Essas são Ilonka e Ana. Elas são parte de nossa família e moram no Brasil.

– Prazer em conhece-las. Um dia ainda irei ao Brasil. Fico muito curiosa sobre esse país. Disse Sophie formalmente.

– O prazer é nosso. Respondeu Ilonka. – Deveria ir conhecer o Brasil. Por lá tem lindas praias, cidades muito cosmopolitas, muita cultura. Acho que você vai gostar.

– Ouço coisas incríveis e outras nem tanto. Mas certamente irei um dia. Respondeu Sophie.

Ana ficou em silencio. Ela se sentia intimidada pela presença de Sophie.

Mark, que já estava tenso, dobrou seu nível de tensão após a chegada da noiva, que ao se sentar na mesa roubou totalmente as atenções para ela.

– Você chegou no último dia do feriado! Veio para ficar alguns dias com a gente? Perguntou Elizabeth.

– Tive que viajar a trabalho no feriado. Então pedi alguns dias de folga nessa semana para ficar um pouco aqui com vocês. Foi tudo decidido ontem. Por isso nem consegui avisar. Espero que eu não atrapalhe.

– Você nunca atrapalha meu amor. É uma delicia tê-la aqui. Fique quanto tempo quiser. Disse Elizabeth.

– Você é um amor Elizabeth.

– E como foram seus dias na Alemanha? Perguntou Mark.

– Foram intensos. Mas tudo deu certo. Estamos com um caso complexo no escritório.

– Fico feliz que tudo tenha dado certo.

– Mais do que certo na verdade. Respondeu ela.

“Essa mulher foi feita para o Mark! Consegue ter uma soberba ainda maior que a dele.” Pensava Ana um pouco chocada com a postura de Sophie.

Sophie era uma mulher forte e muito bonita. Tinha cabelos curtos, bem pretos cortados em um chanel impecável, eram brilhantes e não tinham um fio fora do lugar. Os olhos eram cor de mel e sua pele era impecável. Era alta e muito magra. Se vestia muito bem e aparentava ser mais velha do que realmente era.

O clima do almoço mudou depois da chegada de Sophie e se ela não falava o lugar acabava ficando em silencio.

Depois do café, que tomaram na varanda Sophie pediu que Mark a levasse dar uma volta pela propriedade. E então eles saíram, sem hora para voltar. Elizabeth foi descansar como fazia após o almoço. Ilonka e Agnes ficaram conversando sobre a família e Ana conversava consigo mesma em seus pensamentos, até que resolveu ir para o seu quarto falar com sua melhor amiga. Aquele definitivamente não estava sendo um bom dia. Era o que ela pensava enquanto ia para o seu quarto.

Quando chegou no quarto deitou na cama com o celular e chamou Lara:

“Oi cabeça! Está por aí?

“Oi cabeça! Sim. Tudo bem por aí?”

“Tudo! E aí?”

“Tudo certo.”

“Conseguiu mudar a passagem? Quando chega?”

“Consegui! Te enviei um email. Você não viu? Chego na sexta de manhã em Budapeste.”

“Que FELICIDADE ouvir isso. Estou precisando da minha melhor amiga.”

“O que houve cabeça?”

“Nada que mereça gastar nosso tempo juntas agora.”

“Cabeça, eu te conheço. Quero saber. Isso está com cara de amor. Ah já sei! É o misterioso Mark!”

“Lara, não tem nada acontecendo. E não estou mais curiosa sobre o Mark. Desencanei totalmente de tentar entende-lo.”

“Então tá bom Ana. Não vamos falar se não quiser. Agora me fale sobre o seu aniversário. O que faremos?”

”Traga um vestido de festa. Será uma festa de gala.”

“Para.”

“Sério.”

“Onde?”

“Aqui na casa.”

“Chocada.”

“Eu também Lara. Estou contando os dias para sua chegada cabeça. Vou te buscar no aeroporto. Me envie os dados do seu voo.”

“Pode deixar. Preciso ir. O Caique acabou de chegar aqui.”

“Até daqui a alguns dias.”

“Não vejo a hora! Até cabeça. Bjs.”

“Bjs”

Ana terminou a conversa com Lara se sentindo um pouco melhor, mas toda a história com o Mark insistia em povoar seus pensamentos e a chegada de Sophie transformava aquele universo já meio cinza em algo muito mais nebuloso.

“Ela é bonita. E parece alguém que descende da nobreza. Ela parece ser uma grande mulher. Bem sucedida. Mas também parece muito arrogante e muito tagarela. Pensando bem ela é perfeita para o Mark.” Dizia para si mesma, pensando alto.

Ela queria espantar aqueles pensamentos e se levantou com a ideia de ver o sol se por da sua janela.

Era realmente uma paisagem paradisíaca. Trazia paz instantaneamente. A respiração dela começava a entrar em seu ritmo normal. Ela começava a ver o céu se pintar em várias cores, quando Mark e Sophie tomaram conta da cena caminhando de mãos dadas no seu campo de visão.

“Eles até que formam um casal bonito. Mas não transborda amor deles.” Dizia ela em voz alta enquanto observava a cena com atenção. E a cena levou a sua paz, a fazendo desistir da vista estonteante, do céu colorido e do por do sol. Assim ela fechou as cortinas e voltou para a cama. Se deitou e ficou ali em silencio olhando para o teto que ela começava a conhecer em seus mínimos detalhes.

O sol se pôs. A noite chegou e Ana continuava ali paralisada, quando a mãe bateu na porta do quarto:

– Oi Ana. Tudo bem?

– Entra mãe.

– Vamos jantar?

– Meu Deus, como comemos nessa casa. Acabamos de almoçar.

– Minha filha não acabamos de almoçar. A vida é assim mesmo. Almoçamos e jantamos todos os dias. Não há novidade.

– Tem razão. Mas estou sem fome. Acho que não vou jantar.

– Se é para evitar o casal, te comunico que eles não estarão aqui. Foram jantar fora.

Ana ficou com raiva. Mas negou para si mesma.

– Não é para evitar o casal. Respondeu ela.

– Venha filha. Coma o que conseguir e depois assistimos um filme. Que tal?

– Boa ideia mãe. Eu vou! Me ganhou com o filme.

– Fico feliz.

– Mães se preocupam demais quando os filhos não querem comer. Brincou Ana.

– Se um dia tiver filhos, vai entender. Brincou a mãe.

O jantar foi servido na varanda, para aproveitarem a noite fresca de verão. Era a primeira vez que a casa ficava tão vazia desde que tinham chegado e isso trouxe uma certa angustia para o coração de Ana. Ela jurava para si mesma que era o número de pessoas e não a presença de Mark, mas a verdade, que nunca admitiria, é que era dele a falta que ela sentia na mesa. Era a primeira vez que ele não estava presente, desde que ela tinha chegado.

Ela começava a comer, mas não apreciava a comida e não sentia a menor vontade de comer. Ela se esforçava, mas era em vão.

Seguia falando consigo mesma em pensamentos:

“Por que estou me sentindo assim? Afinal eu não me importo.” E seguiu repetindo a frase que insistia em afirmar para si mesma ao longo de todo aquele dia, na esperança de acreditar de fato naquilo: Eu não me importo! Eu não me importo! Eu não importo!

CONTINUA…

O CAPÍTULO 21 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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