Capítulo 23 – Viagem de trem

Ana acordou mais animada do que nunca. Correu acordar Lara para que não se atrasassem para a viagem que fariam para a França.

– Lara! Bom dia! Disse Ana entrando no quarto dela.

– Oi Cabeça, bom dia.

– Você já está pronta? E eu achando que ainda estava dormindo. Eu que estou atrasada.

– Cabeça, eu não vou com vocês.

– O que houve?

– O Caíque me escreveu ontem dizendo que chega hoje. Antecipou alguns dias o voo porque estava com saudades. Então vou encontra-lo no aeroporto e ficaremos em Budapeste.

– Que pena que você já vai Lara! Vou sentir a sua falta.

– Mas nossa viagem ainda está de pé cabeça. Nos encontraremos em alguns dias para viajaremos juntas. A Europa nos espera.

– Eu sei! Mas seria uma delicia ficar mais alguns dias com você. Você me ajuda a mostrar o meu melhor lado.

– Ah que fofa cabeça! Disse Lara emocionada. – Você é linda sob qualquer perspectiva. De qualquer lado. E não precisa de mim e nem de mais ninguém para mostrar isso.

– Cabeça! Vou sentir saudades. E não tenho ideia como será uma viagem de 2 dias somente com Mark. Só de pensar sinto frio na barriga.

– Aproveite a viagem! Simples assim. Respondeu Lara.

– E vou! Agora vou me trocar. Você vai com a gente para Budapeste?

– Sim. Termino rapidinho de arrumar as coisas.

– Combinado! Nos vemos daqui a pouco. Disse Ana já caminhando na direção da porta. Agora, sentindo ainda mais frio na barriga.

Ana se trocou rápido. Optou por uma roupa confortável, mas que a deixava linda. Arrumou uma mochila com duas trocas de roupa, seu perfume, maquiagem e produtos de banho. Pegou seu computador prometendo a si mesma que escreveria o primeiro post do seu blog enquanto viajava pela primeira vez de trem pela Europa. E mais uma vez sentia um frio começar na barriga e percorrer seu corpo.

Logo Ana estava na varanda para tomar café da manhã.

– Bom dia! Disse Ana quando chegou para todos, que já tomavam café.

– Bom dia! Animada com a ida à França? Perguntou Mark.

– Muito! Minhas coisas estão prontas. Podemos ir quando quiser.

– Que bom. Sairemos em 30 minutos. Disse ele.

– Mãe, está bonita. Onde vai?

– Obrigada minha filha. Vou aproveitar que vocês ficarão fora dois dias e vou visitar Tibor. Farei uma surpresa. Aproveito a carona de ida e a de volta. Volto com vocês, quando voltarem da França.

– Que ótima ideia mãe!

– Estou animada com essas coisas todas que estou experimentando pela primeira vez na minha vida.

– Você mãe! Isso e muito mais. Disse Ana transbordando carinho.

– Obrigada minha filha! A Lara está indo embora né? Esteve aqui, tomou uma xícara de café e nos disse que estava voltando para Budapeste para encontrar o Caíque. O namoro deles está bem sério né?

– Está mesmo! Lara está super apaixonada.

– Ela merece também.

Nesse momento Mark pediu licença e repetiu à Ana que sairiam em alguns minutos, ao sair da mesa.

Ana terminou seu café tranquilamente e seguiu conversando com a mãe e com Elizabeth.

– Decidi sobre o primeiro capítulo do meu blog. Vou escrever sobre Budapeste e sobre a sensação maravilhosa de conhecer um lugar novo. E vou escrever durante minha primeira viagem de trem pela Europa. Disse Ana transbordando empolgação.

– Ana que inspirador. Comentou Elizabeth. – Fico feliz que Mark tenha antecipado a ida dele à França e te convidado. Ele também parece feliz com a viagem.

– Ele antecipou a ida dele? Perguntou Ana surpresa.

– Sim. Essa viagem não estava programada. Ele adiou algumas vezes, mas precisa ir para lá. Ele finalmente tinha marcada a ida dele, e por fim, decidiu antecipar. Ele disse que, na noite do seu aniversário, tinha prometido a você que te levaria lá.

Ana ficou sem ar.

– Ele tinha mesmo prometido. Fico feliz que esteja sendo agora. Porque estou muito ansiosa para conhecer esse lugar, que parece ser maravilhoso.

– Aproveite a viagem com ele. Mark conhece muito bem a região e tem muita influencia por lá. Espero que te inspire a escrever seu segundo post no seu blog. Disse Elizabeth.

– Eu também espero! Respondeu Ana.

– Você deveria vir comigo para Budapeste nesses dois dias. Será um período curto. Venha Elizabeth. Convidou Ilonka.

Elizabeth respirou fundo.

– Sei que é curto. Mas não posso deixar tudo aqui. Ainda mais sem o Mark.

– Elizabeth, tudo está indo muito bem por aqui. Venha comigo.

– Não vou atrapalhar nenhum romance.

– Ficaremos na casa de Agnes. Não ficarei na casa dele.

– Ah Ilonka, não sei estou pronta para sair daqui.

– Está sim minha amiga. Vamos tentar pelo menos?

– Acho que ainda não. Mas obrigada pelo convite. Vou aproveitar para organizar coisas por aqui e nos vemos em 2 dias, quando voltarem.

– Então fique bem por aqui prima. Preciso ir terminar me arrumar. Disse Ilonka.

– Eu também preciso ir. Obrigada por tudo Elizabeth. Estão sendo dias muito felizes para mim. Disse Ana de forma carinhosa.

– Eu que agradeço. Vocês estão transformando a minha vida minha querida. Aliás, estão transformando tudo por aqui. Respondeu Elizabeth.

– Fico feliz em contribuir, da forma que for. Agora vou indo. Até já. Disse Ana já saindo.

Ana apenas escovou os dentes e passou batom. “Acho que preciso cortar meu cabelo.” Pensou ela analisando seu look no espelho. Ainda um pouco contrariada com o cabelo, pegou suas coisas e foi encontrar com Mark para começar sua aventura pela Europa.

Quando Ana chegou Mark, Lara e sua mãe já a esperavam. Eles se despediram de Elizabeth e entraram no carro.

– Sentirei falta desse lugar. Disse Lara olhando pela janela, se despedindo daquele lugar que encantou de todas as maneiras.

– Eu também! No dia que eu for embora daqui. Disse Ana.

– Aliás, quando você volta para o Brasil cabeça? Vou morrer de saudades de você.

– Acho que em alguns meses. Minha mãe tirou uma licença de um ano. Estamos vivendo sem fazer muitos planos.

– Nossa! Isso é muito libertador. Disse Lara com admiração.

– Nunca imaginei que conseguiria ser feliz vivendo uma vida sem planos. Disse Ana.

– Cuidado para não gostar demais disso. Brincou Lara.

– Animada com o encontro com o Caíque? Perguntou Ana.

– Mais do que eu esperava!

– Que pena que não vai com a gente.

– Uma pena mesmo! Mas daqui a pouco nos encontramos. Será uma delicia ter você com a gente em parte da nossa viagem. A Espanha nos espera melhor amiga!

– Te encontro na Espanha em alguns dias. Sabe Lara, acho que nunca fui tão feliz na minha vida. Não sabia nem que esse tipo de felicidade que estou sentindo existe.

– Ana o nome disso é outro. Não é felicidade.

– O que é então? Estou me sentindo cheia de vida. Se não é felicidade é o que?

– É amor cabeça! Desses que daria um livro de romance ou um filme ou os dois.

– Cabeça, acho que você está exagerando. Sinto algo especial, mas não é isso que está me deixando assim. Não é possível que o amor seja capaz disso.

– Vamos ver cabeça! Eu também não sei nada dessas coisas. Mas acho que você está amando.

– Seja o que for. Isso é muito bom de sentir!

– Sobre o nosso encontro. Vou desenhar com o Caíque nos percurso e te envio assim que tiver. Será uma delicia! Estou super animada. Convide ele para vir com a gente. Propôs Lara apontando para Mark com os olhos.

– Acho que não cabeça! Imagine ele com essas roupas e toda sua experiência com lugares de luxo, viajando com a gente de tênis e mochila nas costas, contando os centavos para poder ter duas refeições.

– Acho que você tem razão, cabeça. Imagina ele dormindo em um hostel.

E as suas caíram na gargalhada.

Mark e Ilonka estavam quietos no carro enquanto as melhores amigas conversavam. De repente tudo ficou em silencio e a expectativa que todos ali tinham sobre as coisas boas que estavam por vir, enchia os pensamentos todos, dando a sensação de que na verdade o silêncio não existia.

Logo a viagem terminou e Mark e Ana foram deixados na estação de trem, na sequencia Ilonka ficou na casa de Agnes para esperar por Tibor e Lara seguiu para o aeroporto para encontrar Caíque.

Mark e Ana caminhavam para dentro da estação e Ana sentia que seu coração batia alto que todos em volta podiam ouvir.

– Está tudo bem Ana? Perguntou Mark.

– Sim! Tudo ótimo. E com você? Perguntou ela automaticamente.

Ele riu.

– Comigo está tudo bem também.

Nesse momento eles entraram dentro de uma linda e clássica estação de trem. O espaço era grandioso e preservado. E o lugar estava repleto de pessoas. Mark comprou as passagens e eles foram para a plataforma que os levaria à França.

– Quanto tempo até lá? Perguntou Ana.

– 14 horas. Respondeu Mark.

– Demora! Respondeu Ana espantada com o tempo que levariam. – 12 horas? Não vai atrapalhar sua rotina de trabalho, passar um dia viajando?

– Me programei para isso. Optei pelo trem para você poder ter uma experiência de viagem mais interessante. Pararemos em Zuric, antes de chegar à Paris.

Ana ficou sem ar.

“Ele topou uma viagem de 12 horas, tendo que trabalhar, para fazer uma gentileza para mim. E vamos chegar lá à noite.”

– Chegaremos à noite lá.

– Sim! Jantaremos em um restaurante em frente à Torre Eiffel, dormiremos em Paris. Exploraremos Paris pela manhã e tomaremos um trem logo após o almoço para cidade de Reims. Esse trecho dura apenas 45 minutos, então chegaremos para a minha reunião às 16h.

– Nossa você planejou tudo muito bem. E onde vamos amanhã de manhã?

– Você pode escolher. Teremos poucas horas, mas conseguimos explorar alguma região que seja do seu interesse.

– Vou aproveitar para pesquisar sobre Paris. É difícil escolher quando há tanto o que ver.

– Pesquise então! Desculpe não poder ficarmos mais tempo. Mas teremos outras oportunidades. Disse Mark.

– Se eu tivesse apenas 1 hora, já estaria muito feliz. Respondeu Ana suspirando.

E em poucos minutos eles estavam dentro do trem acomodados em seus bancos super confortáveis com uma mesa entre eles.

– Nossa! Tem uma mesa aqui.

– Optei por esse tipo de assento para que você pudesse escrever confortavelmente.

– Que gentil! Muito obrigada Mark.

– De nada, Ana.

Em poucos minutos o trem estava andando em direção à França. O coração de Ana seguia acelerado e ela preferiu curtir a paisagem antes de tirar seu computador da mochila. Ela pensava sobre as 12 horas que teria com Mark pela frente e isso a intimidava um pouco. “O que vou conversar com ele por tanto tempo, meu Deus?”

Eles se sentaram e foram servidos de bebidas e de comidinhas bem diferentes e bem gostosas. O trem já se movimentava e Ana olhava atentamente pela janela, tentando assimilar e registrar cada paisagem que passava por ela. Mark não conseguia olhar para lugar, senão para Ana e sua curiosidade que a enchiam de charme. O silencio se fez presente, mas entre Mark e Ana ele não era nada estranho ou dolorido.

Alguns minutos se passaram quando Ana finalmente, se voltou novamente para dentro do trem.

Ela respirou fundo.

Ela não sabia, mas seguia sendo admirada por Mark.

Nesse instante uma mulher os interrompeu.

– Será que poderiam, por favor, tirar uma foto minha e do meu marido?

Mark não gostou nenhum pouco. Ele não gostava de falar com estranhos. Enquanto Ana se prontificou em registrar o momento do casal.

Ana se levantou, bateu algumas fotos, conversou rapidamente com o casal e voltou para o seu lugar.

– Você não deveria conversar com estranhos dessa maneira, Ana. Disse Mark a repreendendo.

– Por que? Existem estranhos e estranhos.

– Que coisa engraçada de se dizer. Estranhos são estranhos Ana. A definição por si parte do ponto que estranhos são completamente desconhecidos. Você não tem base nenhuma para classifica-los. E isso pode ser perigoso.

– Nesse ponto você tem razão. Sempre parto do ponto que as pessoas são boas.

– Isso é realmente bonito em você, mas pode ser perigoso.

– Vou pensar nisso da próxima vez.

– Acho que deveria.

Ana engoliu em seco. “Nossa, me parece um casal em lua de mel. Que mal poderiam me fazer meu Deus?” Pensava ela consigo mesma, achando Mark um pouco antipático e preocupado demais.

– O verão na Europa é mesmo muito quente. Disse Ana, tentando mudar o clima de tensão, a primeira coisa que falaria com um estranho para preencher o silencio.

– Costuma ser. Respondeu Mark, que ainda parecia bravo pela atitude descontraída demais de Ana, na visão dele.

Ana preferiu não seguir tentando conversar e resolveu pegar o seu computador. Ela estava perdida olhando para tela, pensando por onde começar e Mark acabou se perdendo enquanto olhava a paisagem pela janela.

Ana finalmente conseguiu começar o seu texto e enquanto escrevia trazia toda a emoção que sentiu na sua chegada e durante as suas descobertas.

“Descobrindo um outro país. Porque conhecer é pouco para definir o que senti…” Começou Ana.

Ela seguiu ali por quase 1 hora, até que terminou o seu primeiro post.

– Consegui! Ela disse, mais alto do que queria.

– Terminou seu post? Respondeu Mark em tom muito mais baixo.

– Sim! Quer ler?

– Quero!

Ana virou o computador para ele.

– Vou aproveitar e pedir os dados para acessar o wi-fi. Já volto! Disse Ana adorando a ideia de passear um pouco.

– Eles vem até aqui Ana. Não precisa ir.

– Prefiro ir. Quero mesmo dar uma volta.

Ana foi passear pelo trem e resolveu explorar o lugar e conversar com as pessoas. Tudo ali parecia ser inspiração para seus textos.

Mark terminou de ler o texto admirado com a qualidade do material. Ele tomou um café e começou a estranhar a demora de Ana, por isso resolveu ir atrás dela. Ele andou alguns vagões até encontra-la conversando com algumas pessoas da idade dela.

– Aí está você! Disse ele, espumando de raiva, mas não expressando uma única reação.

– Sim! Aqui estou eu. Eles são brasileiros.

– Muito bem. Prazer conhece-los. Ana podemos ir? Disse Mark secamente.

– Claro Mark.

Ana se despediu e eles começaram a caminhar.

– Ana você precisa parar com esse habito de falar com todo mundo. Isso pode ser perigoso. Disse Mark sem conseguir esconder que estava realmente contrariado.

– Você se preocupa muito Mark. Dê uma chance para as pessoas te surpreenderem.

– Prefiro não correr o risco de sair contrariado.

– Isso me lembrou uma frase da Clarice Lispector, uma escritora brasileira que eu amo. “A salvação é pelo risco. Sem o qual a vida não vale à pena.”

– Ana, você é mesmo surpreendente.

– E você previsível.

– Ser previsível não é necessariamente ruim. Disse ele se defendendo.

– Nunca disse que era. Respondeu Ana prontamente. – Vamos tomar um sorvete? Convidou ela.

– Acabei de tomar café. Disse ele.

– E daí?

– Desisto! Vamos tomar um sorvete. Disse ela, achando graça e muito mais relaxado.

Eles tomaram o sorvete e falaram de coisas mais leves por todo o resto do dia. Ambos descobriram muitas afinidades e coisas em comum. Ana conseguiu publicar o primeiro post do seu blog com uma série de fotos.

O resto da viagem correu bem e já era final de noite, quando eles finalmente chegaram em Paris. Tinha um motorista esperando por eles, que os levou direto para o restaurante onde havia feito reserva.

Ana seguia olhando pela janela totalmente encantada. Ela finalmente via pessoalmente o lugar que mais queria conhecer no mundo.

– Você parece animada. Disse Mark interrompendo os pensamentos de Ana.

– E estou! Esse era o lugar que eu mais queria conhecer no mundo.

Ele se encantou com a paixão que morava na voz dela e não conseguiu falar mais nada.

Em poucos minutos estavam no restaurante que ficava na cobertura de um prédio de 4 andares e tinha uma vista estonteante para a Torre Eiffel, que começou a piscar inteira, no momento em que Ana colocou os olhos nela. A cena veio carregada de poesia e ela acabou sentindo tanta emoção, que chorou. Mark assistindo àquela cena, acabou emocionado, como nunca antes tinha estado na vida.

No jantar Ana experimentou o que tinha de mais tradicional no cardápio e ia se permitindo descobrir e apreciar novos sabores. Mark não se lembrava de ter tido um jantar tão especial em toda a sua vida.

Depois do jantar ele a levou para ver alguns pontos famosos da cidade à noite.

– Agora entendo porque chamam essa cidade de Cidade Luz. Disse Ana com brilho nos olhos.

– Acho que agora entendo também. Apesar de já ter vindo aqui muitas vezes. Nuca vi tanta luz. Disse ele. – Isso me deu uma ideia!

Mark pediu em francês para o motorista levar as bagagens para o hotel e convidou Ana para descer do carro.

– Venha! Vamos dar uma volta.

– Agora?

– Não vejo melhor momento. Essa cidade fica linda à noite. Disse ele empolgado.

Eles desceram do carro e caminharam pela famosa avenida Champs Elysees, atravessaram os jardins de Tulieres e andaram em volta do Louvre. Seguiram caminhando até o hotel, que ficava no Marais, dos bairros mais charmosos da cidade.

– Cansada? Perguntou ele quando entraram no hotel.

– Acho que eu poderia andar por toda a madrugada. Brincou Ana. – Obrigada pelo passeio. Aliás, obrigada por tudo!

– Está sendo um prazer. Respondeu ele.

Eles subiram um lance de escada e os quartos ficavam em cantos opostos. Na hora de se despedirem Ana foi dar um beijo no rosto de Mark. Ele ficou surpreso e enrijeceu. Era a primeira vez que ele seria tocado por ela e ele não costumava se sentir bem quando desconhecidos tocavam nele. Apesar de estar se aproximando de Ana, ainda não eram próximos o suficiente para ele gostar de ser tocado por ela. A reação acabou deixando Ana constrangida e por isso, ela apenas desejou boa noite e seguiu em direção ao seu quarto. Mark ficou contrariado consigo mesmo e também seguiu para o seu quarto.

No dia seguinte eles foram para o Museu D’Orsay, que tinha sido o destino escolhido por Ana, e fizeram uma passagem pela Catedral de Notre Dame. Já perto da hora do almoço, Mark pediu para que Ana sugerisse um restaurante:

– Onde você quer almoçar? Pode escolher qualquer lugar.

– Quero comprar algo para comer em um supermercado bem tradicional e comer às margens do Rio Sena.

Mark ficou espantado.

– Você pode escolher o melhor restaurante Paris e escolheu fazer um pic-nic?

– Sim! Se não for um problema para você.

– De maneira nenhuma. Seu passeio! Sua escolha. Respondeu ele ainda muito surpreso, sem estar tão certo que se sentiria a vontade em tal situação.

Eles foram a um supermercado bem tradicional e muito aconchegante e compraram sanduiches de salmão defumado e uma garrafa de vinho da marca da família. E foram se sentar às margens do rio para almoçar. Mark se sentia muito desconfortável no início, mas começou a apreciar a refeição diferente, enquanto Ana sorria de orelha a orelha amando cada detalhe de tudo aquilo.

– Você deve se sentir muito orgulhoso ao ver sua marca assim disponível para as pessoas. Disse Ana enquanto comiam.

– Hoje em dia sinto ainda mais orgulho. Agora entendo melhor o alcance dessa marca.

– As pessoas amam essa marca Mark. E olha que tenho a perspectiva do Brasil. Não conheço nada do mundo ainda. A não ser por livros.

– Fico feliz em saber. E fico feliz em ajudar a acabar com a injustiça.

– Que injustiça?

– Uma garota com tanta vontade de descobrir o mundo presa a alguma fronteira é um tremendo desperdício. Por que nunca tinha saído do Brasil, se sempre quis tanto? Perguntou ele.

– Meus pais se separaram em uma situação complicada. Ele foi morar em outro Estado e minha mãe, que na época era totalmente dependente, passou por um momento difícil. Ela estava destruída pela separação e tinha que aprender uma profissão aos 40 anos, para poder nos sustentar. Foi um recomeço difícil e tivemos que abrir mão de algumas coisas. Ela pagou uma faculdade muito cara e sempre tivemos uma vida de pequenas indulgencias. Mas ela começou a trabalhar demais e aí não sobrava tempo para as viagens longas. Quando ela tinha dinheiro, não tinha tempo. E a minha descoberta foi sendo adiada.

– Sua mãe é uma grande mulher!

– Imensa!

Mark seguia olhando para Ana encantado. Ela era leve e divertida, mesmo tendo passado por renuncias. Ela era paciente e sabia aproveitar o momento.

– Por isso, você dá tanto valor às coisas. É bonito de ver, olhar você enquanto descobre coisas novas.

– Eu sempre quis muito viver o que estou vivendo. Você está certo.

– Quem está por perto consegue notar. Disse ele ainda mais encantado.

– Não exagere, Mark. Disse Ana sem graça.

Mark ia dizer, mas deixou em seus pensamento “Você é diferente de todas as mulheres que conheci na vida.” E acabou não respondendo nada. Apenas continuou olhando para ela, como se pudesse ver a sua alma. Ana se arrepiou e desviou o olhar.

– Agora, infelizmente precisamos ir Ana. Disse ele.

– Claro! Respondeu ela já começando a ajeitar as coisas.

Eles caminharam até a estação de trem em silencio. Ana tentava capturar cada momento enquanto se despedia de Paris.

O trem chegou rápido a Reims. A beleza que Ana esperava superou suas expectativas assim que ela colocou os olhos na paisagem.

“Meu Deus! Como é bonito aqui.” Pensou ela.

Em poucos minutos já estavam na enorme propriedade da família que era ainda mais grandiosa que a da Hungria onde tudo tinha começado.

– Vou precisar deixa-la por algumas horas. Mas um carro ficará à sua disposição para te levar conhecer o lugar. E nos encontramos às 18h. Tudo bem? Disse Mark já totalmente formal.

– Tudo bem! Boa reunião. Respondeu Ana.

Em poucos segundos Mark já havia desaparecido e Ana se viu sozinha em meio a uma imensidão. Tudo era muito lindo ao redor, mas ela não se lembrava de ter se sentido sozinha dessa maneira alguma vez na vida dela.

Ana foi passear, para tentar preencher o vazio que a ausência de Mark tinha causado. A paisagem ficava mais bonita a cada passo que ela dava. O passeio foi guiado por uma pessoa que admirava muito Mark e toda a família e isso acabava fazendo Mark muito presente.

No final do dia Ana finalmente encontrou Mark.

– Oi! Disse ela. – Como foi sua reunião.

– Melhor do que eu esperava. E você? Como foi o passeio.

– Ainda melhor do que eu esperava.

– Fico feliz. Agora vamos jantar. Temos uma mesa reservada no restaurante mais tradicional daqui.

– Que delícia. Estou morrendo de fome.

– Então vamos.

Mark se despediu e seguiu com Ana a caminho do carro.

O restaurante era maravilhoso. Tinha um ar clássico e muito requintado. Ana seguia se maravilhando e se permitindo indulgencias. Ela já tinha tido ideias para pelo menos mais uns 5 posts em seu blog. O jantar foi delicioso, mas ambos estavam muito cansados, então logo foram para o hotel.

No dia seguinte saíram cedo para pegar o trem que os levaria de volta para casa. Depois de algumas horas de viagem Ana, que estava sentada ao lado de Mark devido a um trem lotado de pessoas, pegou no sono e sua cabeça caiu, sem que ela percebesse, parando no ombro de Mark.

Ele tentou se deslocar, quase deixou a cabeça dela cair, se enrijeceu inteiro incomodado com o toque daquela pessoa ainda muito nova na vida dele e muito diferente para ele.

Depois de um tempo, ele acabou se acostumando com aquela presença estranha, que ficava menos estranha a cada dia, e relaxou. Estranhamente começou a gostar daquela situação. Ele adorou o perfume de Ana e de repente aquele cheiro o levou através de suas memórias para uma situação muito feliz do seu passado.

Ele estava quase romantizando a cena, quando seus olhos se perderam em Ana. Ela dormia com a boca levemente aberta. “Claro que ela ia dormir com a boca com a boca aberta, será que ela vai roncar?” Pensava ele achando graça da cena e da personalidade tão descontraída de Ana.

A viagem seguiu e Mark já mais relaxado sentia que aquele perfume jamais sairia dele.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 24 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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