Capitulo 25 – Perdendo o Chão

Eles tomavam café quando a governanta entrou na sala:

– Bom dia Mark. Sua avó está ao telefone e quer falar com você.

– Obrigado. Com licença! Ele pediu e se retirou rapidamente.

– Aconteceu algo na França? Perguntou Elizabeth para Ana.

– Não! Nada fora do normal. Um jornalista abordou Mark no trem para falar de negócios e mais nada além disso. Mas por que pergunta, tia Elizabeth?

– Quando a avó liga é para chamar a atenção dele. Dificilmente acontece, mas desde sempre Mark e Caroline foram muito vigiados. Como os outros da família.

– Mas porque esse controle todo? Tem a ver com a descendência real?

– É esse o motivo, na verdade.

– Mas qual é a posição de Mark e Caroline na descendia real na Inglaterra? Perguntou Ana.

– Achei que você soubesse Ana. O Mark é neto da rainha da Inglaterra.

Ana engasgou!

– Neto? Da rainha da Inglaterra? Da atual rainha da Inglaterra?

– Sim querida! Ele é um príncipe. A mãe de Mark era a quinta e ultima filha da rainha. Por isso a imprensa tem muito interesse pela vida dele, como tem pela de todos os demais membros. Algo deve ter sido noticiado e por isso ela ligou.

– Então o Mark está no telefone com a Rainha da Inglaterra agora?

– Sim meu bem.

– Tia Elizabeth, você conhece ela?

– Sim! Mark e Caroline sempre participaram muito da vida real, mesmo depois da morte da mãe.

– E como é ser parte dessa família?

– Nunca foi nada fácil. Ainda mais para alguém que não veio de nenhum lugar especial, como eu.

– Não posso imaginar. Disse Ana lamentando.

– Mas eu teria feito tudo de novo. O pai de Mark foi o grande amor da minha vida! Disse ela com lágrima nos olhos.

E nesse momento, Mark voltou para a sala.

– Tudo bem, Mark? Perguntou Elizabeth.

– Sim! Está ficando. Ele respondeu. – Ana, podemos conversar?

– Seu Mark, desculpe interromper, mas estão ligando lá da Cave principal e estão precisando do senhor. Disse a governanta entrando mais uma vez na sala.

– O dia está prometendo. Reclamou Mark. – Depois falamos Ana. Preciso ir.

– Está tudo bem? Perguntou ela.

– Sim. Tudo bem. Depois falamos. Respondeu ele secamente.

– Mark, vou com você. Tem tempo que não me envolvo nos negócios. Disse Elizabeth.

– Vamos então.

Elizabeth e Mark saíram, deixando Ilonka e Ana sozinhas na grande varanda onde tomavam café da manhã.

– O que foi isso? Perguntou Ana para a mãe. – Ele é neto da rainha da Inglaterra.

– Minha filha, não sabia que você não sabia. Entende porque eu estava tão preocupada? Não se envolva com ele minha filha. Isso pode virar do avesso seu coração.

– Mãe, não se preocupe. Tenho tudo sob controle. Respondeu Ana, que na verdade estava em pânico.

– Agora me conte o que aconteceu por lá? Aquela conversa de Paris pela primeira vez, com olho no olho entre vocês que me deixou até constrangida.

– Mãe, não aconteceu nada. Chegamos em Paris à noite e fomos jantar em frente à Torre Eiffel e assim que chegamos a torre começou a piscar inteira. Eu fiquei muito emocionada! Depois do jantar estávamos no carro e ele me convidou para explorar a cidade à noite. Fomos até o hotel andando e passamos por lugares lindos. No dia seguinte almoçamos sanduiche às margens do rio Sena. Ele disse que nunca tinha feito isso. E depois fomos para a região de Champagne. Ele trabalhou e eu fui conhecer a região. É ainda mais bonito do que aqui. Depois fomos jantar em um lugar incrível. E aí voltamos de trem. No trem um jornalista quis saber quem eu era. Talvez tenha sido por isso que a avó rainha dele ligou.

– Minha filha que viagem mais romântica. Ele te convidou para andar a pé por Paris à noite? Derreti com isso.

– Essa frase é minha mãe!

– Filha vocês dois estão se metendo em encrenca. Se cuide, por favor. Essa situação não é nada simples.

– Mãe não vamos pensar nisso. Quero viver o hoje. Inclusive, vou aproveitar esse dia que está lindo. Vou dar uma volta. Preciso colocar uns pensamentos no lugar.

– Acho que a senhorita faz muito bem.

– Até já mãe! Disse Ana pegando uma maçã.

– Até minha filha.

Ana deixou a mãe e foi dar a sua volta.

Ela dizia que estava tudo bem, mas na verdade sentia um tremendo arrepio que vinha de onde ela nem conseguia explicar.

Ana andava sem direção pedindo ao vento que levasse tudo que ela começava a sentir por Mark.

“Se antes parecia improvável, agora parece totalmente impossível.” Pensava Ana consigo mesma enquanto sentia o vento batendo no rosto.

Enquanto Ana tentava organizar seus pensamentos, Mark e Elizabeth conversavam no carro que os levava para a emergência na cave principal.

– Meu filho, não sei o que está acontecendo entre você e Ana, mas te aconselho a repensar essa relação. Ana é uma menina muito querida, inexperiente, que pode sair muito machucada dessa história.

– Ana e eu não temos nada a ver um com o outro. Ela já deixou isso claro por várias vezes.

– Não é o que os olhos dela dizem Mark. Qualquer um pode ver que ela tem sentimentos especiais por você.

– Você acha mesmo? Interessou-se Mark – Que ela tem sentimentos especiais por mim?

– Isso muda alguma coisa?

– Claro que não.

– Essa conversa começa a confirmar a minha desconfiança. Também achei que seus olhos olhavam de maneira diferente para ela. Posso dizer, inclusive, que nunca vi ninguém despertar tanto o seu carinho e o seu interesse.

– Estou apenas sendo gentil Dona Elizabeth. – Ana parece ter sede de conhecer o mundo e acho isso muito bonito. Poder ajuda-la dessa trajetória está sendo especial para mim. Não quer dizer que quero ter um caso amoroso com ela.

– Espero que sim Mark. E quanto aos negócios? Como foram as reuniões em Champagne?

– Muito bem. Conquistamos clientes importantes na América Latina. Vamos ter um crescimento importante nesse ano.

– Precisamos começar a procurar investidores e compradores interessados para negociar a venda da nossa empresa. Sugeriu Elizabeth com um olhar triste. – Daqui 3 meses a sua licença acabará e não teremos tomado as providencias devidas.

– Não vamos falar nisso agora. Pediu Mark.

– Precisamos falar disso Mark.

– Falaremos no momento oportuno. Chegamos! Vem comigo?

– Acho que vou voltar. Já tive a conversa que queria. Por favor não se esqueça do meu conselho. As coisas podem ficar muito difíceis se vocês insistirem nessa história. Só eu sei o que passei para ficar com o seu pai e ele nem era o filho da rainha. Até hoje não consegui aprovação. Seu pai já se foi dessa vida e ainda não consegui aprovação da família de vocês. Pense nisso. Se quer a Ana bem, se afaste dela.

– Vou pensar Dona Elizabeth. Até mais tarde. Espero que as coisas andem bem por aqui.

– Até mais tarde. Boa sorte Mark.

Mark saiu do carro meio desnorteado.

“Então Ana olha de maneira especial para mim?” Pensava ele, que depois de tudo que tinha ouvido, ficava com aquela frase, que acabava fazendo muito bem para ele. Mais do que ele pensava que faria.

O resto do dia foi cheio de problemas. Cargas de exportação presas dando prejuízos enormes, safras de vinho especiais não rendendo o esperado, colheita abaixo do esperado e um funcionário muito importante pedira demissão. Mark sentia que ia ter um colapso ao final do dia. E tudo que ele pensava era que em poucos minutos ele encontraria com Ana.

O sol já tinha se posto quando Mark finalmente chegou em casa. Todos já o esperavam para jantar.

Naquela noite o jantar foi silencioso. Mas tanto Mark quanto Ana agradeciam em silencio estarem um na companhia do outro. Depois do café Mark chamou Ana para dar uma volta.

– Podemos conversar Ana? Mark convidou.

– Claro!

Ana ia pela sala, quando ele interrompeu.

– Vamos por aqui. Disse ele a direcionando para a grande adega que havia na casa. – Escolha um vinho. Vamos beber enquanto conversamos. Preciso de um bom vinho hoje.

Ana não falou uma única palavra e foi escolher a garrafa que os acompanharia naquela conversa.

– Boa escolha! Elogiou ele quando ela entregou a garrafa para ele.

Eles seguiram andando em silencio até saírem de casa e encontrarem uma noite fresca e iluminada pelo céu mais estrelado que Ana tinha visto na vida dela.

– Quando eu estava voltando e vi esse céu, achei que você gostaria de dar uma volta. De repente mais uma inspiração para o seu blog, já que a noite anda te inspirando.

– Mark, acho que você já me conhece muito bem. Certamente isso renderá um post incrível. O meu post sobre Paris à noite teve mais de 100 compartilhamentos. Foi melhor que o primeiro.

– Fico feliz.

– O que você queria falar comigo?

– Ah Ana. Já não quero mais.

– O que houve? Fiquei preocupada.

– Alguns jornais em Londres divulgaram fotos nossas enquanto viajávamos juntos. E minha avó quis entender o que estava acontecendo. Desde muito cedo, tem sempre alguem publicando algo maldoso ou mentiroso sobre mim e tenho que passar um tempo me justificando depois. Mas não quero mesmo falar nisso. De verdade.

– Como quiser Mark. Só espero não te-lo prejudicado. Você foi tão gentil comigo.

– Fico feliz que eu tenha te feito feliz.

– Tim-tim. Disse Mark dando uma taça de vinho para Ana.

– Tim-tim. Respondeu ela. – Onde vamos?

– No meu lugar preferido.

E em poucos minutos estavam embaixo de uma árvore gigante cheia de flores brancas que pareciam iluminar o lugar refletindo a luz da lua.

Eles sentaram na grama próximos à arvore e tudo que se via dali era um céu que parecia não ter mais fim.

– Sabe por que te trouxe aqui? Perguntou Mark.

– Não tenho a menor ideia.

– Você me trouxe novas perspectivas e quis te trazer uma.

– Excelente perspectiva. Te agradeço por isso.

– Não consigo imaginar como isso poderia ficaria melhor. Aqui é onde venho quando preciso organizar meus pensamentos.

– Já tentou essa perspectiva? Convidou Ana deitando na grama.

– Ainda não. Disse Mark se deitando ao lado dela.

Eles se deitaram ali um ao lado do outro e ficaram em silencio só observando aquele céu cheio de estrelas.

– Até quando eu proponho uma nova perspectiva, você consegue me mostrar uma outra. Disse Mark respirando fundo se virando para olhar para Ana.

O corpo de Ana se arrepiou inteiro, ela temia retribuir ao olhar dele. Mas se encorajou e também olhou para ele.

Ele seguiu olhando para ela e ambos ficaram em silencio. Ana queria falar mil coisas, desviar o olhar, mas seguiu ali, em silencio retribuindo ao olhar dele. Ele se aproximou e a boca dele ficou poucos centímetros da boca de Ana. Ele parou e eles seguiram ali há poucos centímetros um do outro. Ana terminou de percorrer o caminho até que as bocas deles se juntaram em um beijo.

Eles de beijaram e naquele beijo aliviaram a enorme vontade que vinham sentindo um do outro e que tentavam negar até aquela noite. Uma explosão acontecia dentro de Ana e ela não fazia a menor ideia de que nome daria para aquilo que estava sentindo. O mesmo acontecia com Mark. Era a primeira vez na vida deles que eles sentiam o que estavam sentindo.

– Ah Ana. Disse Mark quando o beijo terminou, enquanto fazia carinho no rosto dela.

Ela só respirou fundo e continuou em silencio.

– A vida inteira, todos me disseram o que fazer. E pela primeira vez sinto que fiz algo que eu queria fazer, independente do que os outros pensam.

– E quanto a mim… a vida inteira evitei situações como essa. Aparentemente impossíveis e totalmente improváveis em que eu não conseguiria ver futuro ou que eu não pudesse controlar.

– Você me deu a liberdade Ana.

– E você me deu novas perspectivas.

– Não sei o que será de nossas vidas amanhã, mas esse momento valeu qualquer coisa. Declarou Mark.

– Você não deveria se preocupar. Sou grandinha e sei o que estou fazendo e as consequências disso. Você tem uma vida cheia de complexidades e eu tenho uma vida bem longe daqui. Sejamos a aventura um do outro.

– Ana, que delicia de convite. Aventurar-me. E com você. Aceita ser minha aventura? Perguntou ele.

– Só se você for a minha. Respondeu ela.

E eles se beijaram novamente.

Eles ficaram ali por mais de uma hora até que voltaram para casa.

– Sabe o que foi publicado sobre nós? Perguntou Mark enquanto andavam de mãos dadas.

– Não! O que?

– Fotografaram você dormindo no meu ombro. E as legendas eram as mais diversas. Quem é a mulher misteriosa que poderia estar encantando o príncipe?

– Nossa, mas eu dormia. O que tem isso de encantador?

– Depois procure as fotos e acho que vai entender.

– Não queria que essa noite acabasse. Disse Ana quando eles se aproximaram da casa.

– Nem eu.

– Como será amanhã? Perguntou ela.

– Vamos esperar amanhecer para ver como será! Pediu Mark.

– Boa ideia….

E assim acabou o passeio romântico entre Mark e Ana.

Já dentro de casa, tiveram que dar algumas satisfações até irem dormir, cada um em seu quarto.

Tanto Mark quanto Ana olhavam o teto, enquanto ouviam o som da noite lá fora e pensavam nos beijos e no encontro delicioso que tinham tido instantes antes. Até que ambos, enfim, conseguiram dormir.

No dia seguinte quando Ana chegou na varanda para tomar café da manhã, encontrou apenas Elizabeth e Ilonka na varanda.

– Bom dia! Disse Ana.

– Bom dia Ana. Responderam Elizabeth e Ilonka.

No momento em que Mark chegou na varanda.

– Bom dia Mark! Você está bem? Perguntou Elizabeth.

– Bom dia! Estou muito bem. Por que?

– Nunca te vi acordar tão tarde. Disse Elizabeth.

– Estou cansado e tive uma ótima noite de sono. E você Ana? Dormiu bem?

– Sim, muito bem! Respondeu ela.

Eles trocaram olhares que acabaram constrangendo Ilonka e Elizabeth.

– Vou levar Ilonka para a cidade. Querem vir? Propôs Elizabeth.

– Vou trabalhar. Agradeço o convite.

– Você vem Ana?

– Adoraria, mas quero dar uma organizada no material do blog. Responder os comentários de quem interagiu comigo. Estou cansada. Vou ficar por aqui. Agradeço o convite.

– Então comportem-se! Disse Elizabeth se levantando.

– Até mais tarde, filha! Disse Ilonka. – E comporte-se! Disse apenas com os lábios.

Ana sorriu para a mãe.

E assim elas se foram deixando Mark e Ana sozinhos na varanda.

– Dormiu bem então? Provocou Mark.

– Dormiu até tarde? Retrucou Ana.

– Você é mesmo demais. Disse ele.

– Que pena que você tem que trabalhar. Poderíamos ter um dia especial hoje.

– Quer saber? Não tenho que trabalhar hoje. Vou pedir para o Frederico, nosso gerente geral, assumir alguns compromissos meus e vamos dar uma volta.

Todas as células de Ana se alegraram com a notícia de que Mark passaria o dia todo com ela.

– Mas e o seu blog? Precisa falar com os seus fãs.

– Depois me desculpo com eles. Eles entenderão que minha demora foi por uma boa causa.

Mark deu alguns telefonemas, enquanto Ana se arrumava para saírem. Quando se encontraram Mark vestia um traje social.

“Gente onde ele vai assim?” Pensou Ana consigo mesma achando graça.

– Vamos! Disse ele quando Ana chegou.

– Vamos.

Eles pegaram um carro e foram para um lugar muito bonito cercado de cachoeiras e fontes de águas quentes. Andaram por ali por uns minutos até que Ana convidou Mark para entrar na água.

– Vamos nadar! Essas aguas são imperdíveis.

– Ana, estamos de roupa.

– Qual é o problema? Disse Ana tirando sua camisa e ficando apenas com uma blusa de alças bem fininhas e shorts. – Tire a camisa. Vamos nadar.

Mark obedeceu. Tirou a camisa e entrou na água com Ana. Assim que entraram na água Mark puxou Ana para perto dele e se beijaram. O beijo ficou apaixonado e eles começaram a tirar a roupa um do outro. Mark beijava o corpo de Ana aproveitando cada centímetro de pele dela e alguns beijos depois eles estavam transando às margens daquela enorme piscina natural. Eles ficaram ali curtindo um ao outro sem pressa. Ana não acreditava no imenso prazer que Mark a fazia sentir e Mark nunca havia sentido tanto prazer com alguem como sentia com Ana.

Ao final daquela relação intensa e prazerosa, ficaram ambos olhando o céu, retomando o ritmo de suas respirações.

– Eu nunca tinha feito isso em um lugar aberto e publico. Disse Mark.

“E eu quase nunca tinha feito isso PONTO.” Pensou Ana, mas preferiu fingir alguma experiência.

– Eu também não. Respondeu simplesmente.

– Ana isso foi incrível. Sua coragem é admirável.

– A coragem não foi só minha afinal.

– Tem razão. Tirar esse dia de folga foi a melhor decisão que tomei desde que assumi esses negócios.

– Às vezes é preciso uma pausa para poder ver tudo com mais claridade. Amanhã você saberá o que fazer.

– Espero que sim! Sinto que sim.

Eles continuaram ali em silencio. As respirações voltavam para o ritmo normal e o sol secava suas peles e suas roupas.

Algum tempo depois Mark propôs:

– Que tal um pic-nic para o almoço?

– Onde tem um supermercado por aqui?

– Na nossa cave principal há uma mercearia. Podemos tentar lá.

– Excelente ideia.

Eles terminaram de colocar as suas roupas e já estavam quase secos quando começaram a caminhar no sentido da cave principal.

Após uma bela caminhada, chegaram. Mark se apressou para entrar, para que ninguém o visse. Eles compraram alguns queijos, presunto parma, uvas, pão e vinho. Pagaram e saíram como turistas, sem serem vistos por ninguém, além da mulher que ficava no caixa.

– Vamos por aqui. Convidou Mark.

Eles passaram por alguns corredores até chegar a um túnel repleto de barris de carvalho.

– Aqui estão as uvas da última Vindima. São as melhores safras colhidas no início da primavera no ano passado. O envelhecimento mínimo é de 18 meses nas caves, como essas aqui, cujas paredes estão cobertas por um mofo muito peculiar, o Cladosporium Cellare, em barris de 200 ou 220 litros.

– Quando exatamente essas uvas foram colhidas?

– A vindima começa em setembro para o vinho seco. As três castas principais são vinificadas para originarem vinhos secos muito elegantes, aromáticos e com boa acidez. A tradição manda que as colheitas tardias e da uva botritizada comecem em 28 de outubro, dia de São Simão e São Judas. Somente os bagos afetados pela botritis são colhidos. A cada cinco dias há uma nova passagem pelas vinhas para recolherem as uvas que estão no ponto. O longo processo da vindima termina em novembro.

– Esses barris estão aqui desde setembro?

– Sim Ana! E deles sairão as safras dos nossos melhores vinhos do ano passado, que venderemos o ano que vem.

– E estamos desfilando por eles?

– Sim! Esse é um lugar somente para pessoas autorizadas… e especiais. Disse ele encantado.

– Agradeço por poder passear por aqui.

Eles caminharam por alguns metros em um grande túnel repleto de barris até que finalmente chegaram ao lado de fora da propriedade. Ali havia um lugar para refeições rápidas em meio a um lindo jardim, com mesas e cadeiras de ferro.

– Creio que aqui pode ser um bom lugar para nosso almoço. Disse Mark.

– Não poderia ser melhor. Respondeu Ana, se derretendo.

Eles seguiram falando do processo de envelhecimento de vinho e de bagos de uva afetados pelas botritis e Ana achava lindo tudo que vinha da boca de Mark. Enquanto Ana seguia curiosa descobrindo coisas novas a cada momento e ia ficando cada vez mais bonita por causa do seu estado de espirito e assim, seguia deixando Mark cada vez mais encantado.

Naquela tarde seguiram falando de coisas leves e das curiosidades da vida. Mark dava repertório para Ana a deixando cada vez mais falante e divertida e Ana ia amolecendo o coração duro de Mark o fazendo ver poesia na rotina.

Depois do almoço andaram descalços na grama e se permitiram um banho na chuva com direito a beijo cinematográfico. Eles estavam vivendo em um mundo sem problemas, sem relacionamentos impossíveis, sem casamentos arranjados, sem rainhas, sem qualquer barreira. Aquele estava se tornando um dos dias mais especiais da vida deles. Eles viviam aquele dia como se os obstáculos para ficarem juntos simplesmente não existissem.

Já anoitecia quando eles voltaram para casa. Já secos pela segunda vez naquele dia. Primeiro do banho nas piscinas de aguas quentes e depois do banho de chuva.

Ao se aproximar da casa, ambos instintivamente já se distanciaram um do outro. Pareciam as mesmas pessoas de sempre: o Mark e a Ana improváveis um para o outro e sua relação aparentemente fria e distante.

– Estamos chegando…. lamentou Ana.

– Já sinto a sua falta. Ele respondeu.

E essa foi a última troca de carinhos daquele romance proibido antes de entrarem na casa e voltarem para a realidade.

Quando entraram cumprimentaram Ilonka e Elizabeth.

– Tudo bem Dona Elizabeth? Perguntou Mark.

– Nos preocupamos com vocês. Desapareceram o dia todo. E você tem visitas.

– Fui ensinar algumas coisas para Ana e falamos da Vindima. Sobre a visita… quem seria?

– Finalmente apareceu! Disse Sophie em um tom de voz mais alto do que ela costumava usar, aparecendo na sala.

– O que você está fazendo aqui? Perguntou Mark espantado.

– Você não tem gostado muito das minhas surpresas meu amor. Achei que ficaria mais feliz. E acho que precisamos conversar.

– Ah Sophie. Não complique tanto as coisas.

– Venha me dar um beijo. Estou com saudades. Não vou começar brigando. Tenho apenas dois aqui com você. Quero aproveitar.

– Vai ficar dois dias? Que pena.

– Como assim?

– Achei pouco. Disse ele.

Nesse momento Ana já não parecia ter a menor importância para ele. Parecia que ela nem existia. Ela pensou por um instante que aquele dia tinha existido apenas na sua cabeça. Ela queria sair dali, desesperadamente. E também queria um travesseiro fofo e uma caneca de chocolate quente.

– Oi Sophie! Disse Ana sentindo o chão se abrir sob os seus pés. – Vou deixar vocês. Seguiu falando já andando em direção ao quarto.

“Eu já sentia a realidade se aproximando. Só não sabia que seria assim, tão cruel.” Pensava Ana enquanto as lágrimas começavam a escorrer pelo seu rosto. No seu intimo ela esperava que Mark fosse deixar Sophie ali e correr atrás dela. Mas tudo que ficava no espaço que era percorria era o silencio. Isso a fazia se sentir sozinha. Como nunca antes tinha ficado na vida dela.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 26 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *