Capítulo 25 – Um novo dia

O voo foi tranquilo e Nina finalmente chegava em Portugal, país que sempre quis tanto conhecer. Ela finalmente começava a conhecer o mundo, porém da maneira mais triste possível. E esse era o sentimento dela enquanto andava para o local onde acontecia a imigração no país.

Ela entrou na pequena fila de controle de passaportes e tentava organizar seus pensamentos e acalmar seu coração, quando Roberto invadiu seus pensamentos e tudo que ela queria era que ele estivesse ali com ela.

– Bom dia. Ela disse chegando no guichê.

– Bom dia Senhorita. Qual o motivo da viagem? Ele perguntou de maneira simpática.

– Meu irmão mora aqui, sofreu um acidente e está em coma. Vim cuidar dele.

O homem ficou assustado. Ela se arrependeu da sinceridade. “Eu poderia ter dito que vim passar férias com a minha família.” Ela pensava.

– Sinto muito. Seja bem vinda. Melhoras para o seu irmão.

– Obrigada! Ela disse pegando seu passaporte.

Ela pegou sua pequena mala e se lembrou de Roberto e de seu conselho sobre as roupas e o tamanho da mala.

“Ele estava certo! Uma mala pequena não limita meus movimentos. Ele sempre está certo! O que será que ele está fazendo agora? Ah como gosto dele. Como sinto falta dele.” Ela pensava no momento em que seus olhos se encheram de lágrimas.

Logo que ela saiu da área de embarque, encontrou Alfredo esperando com uma placa que levava o seu nome.

– Oi Alfredo!

– Oi Nina. Prazer conhece-la. Fez boa viagem?

– Sim! Obrigada! O vôo foi muito tranquilo.

– Que bom. Agora vamos ver seu irmão e conversar com os médicos. Ok?

– Ok! É para isso que estou aqui. E as minhas sobrinhas?

– Estão na escola.

– Elas sabem o que está acontecendo?

– Sim.

– Por que foram para escola? Deveriam estar com o meu irmão.

– A área onde seu irmão está não permite transito de crianças.

– Que crueldade com elas e com ele.

– Podemos falar com o médico sobre o assunto.

– Certamente falarei com o médico sobre esse assunto.

– O hospital fica aqui perto. Você quer passar em algum lugar antes?

– Não. Podemos ir direto para lá.

– Perfeito.

Eles chegaram no carro e Alfredo deu um telefone celular para ela.

– Tome. Esse será seu telefone aqui. Esse é o número.

– Obrigada! Você conseguiu contato com os meus pais?

– Ainda não. Parece que o local onde eles estão não tem sinal de celular. Eles chegam em Pequim em 3 dias, então devemos conseguir fazer contato com eles.

– Excelente. E o meu irmão?

– Permanece com o mesmo quadro.

– E como será o dia hoje?

– Vamos buscar as meninas na escola no final do dia e você pode ficar o dia com o seu irmão ou fazer o que quiser, até lá.

– Vou ficar com ele.

– Eu imaginei que ia querer isso.

Eles andaram por mais alguns minutos e chegaram ao hospital.

– Que bonito esse lugar. Nina disse.

– Esse é o melhor hospital de Lisboa.

– Fico feliz que meu irmão esteja sendo tratado aqui.

– Por aqui Nina. Ele disse direcionando ela, assim que saíram do carro.

Eles caminhavam na direção onde o irmão de Nina estava e o coração dela acelerou. Ela chegou a perder o ar e sentiu suas mãos suando.

“Calma Nina! Você precisa ficar bem.” Ela dizia para si mesma em seus pensamentos.

Alfredo conversou por alguns instantes com o médico responsável pelo tratamento do irmão e o apresentou para Nina.

– Nina, esse é o Benício, responsável pelo seu irmão.

– Benício, essa é Nina, irmã do Carlos Eduardo.

– Prazer conhece-la Nina.

– O prazer é meu. Como ele está?

– Está estável.

– Ele tem chances de viver? Ela perguntou.

– Sim! Mas não podemos prever nada. O quadro dele é estável. Ele pode acordar a qualquer momento ou não acordar mais.

– Meu Deus! Não posso nem imaginar a segunda parte da sua fala. Posso ver meu irmão?

– Claro! Por aqui.

Eles entraram no local onde Cadu estava e as lágrimas tomaram conta do rosto de Nina. Ela correu abraça-lo.

– Que saudades que eu estou de você. Acorda meu irmão! Me perdoa ter demorado tanto para vir. Ela dizia abraçando ele com a voz embargada pelo choro.

Alfredo e Benício se emocionaram com a cena e saíram para que ela ficasse sozinha com ele.

Ela se debruçou no irmão e seguiu rezando e conversando com ele. Como se ele pudesse ouvir. Ele parecia dormir tranquilamente. Tinha muitos hematomas pelo corpo, mas não parecia sofrer de forma nenhuma.

Nina falou sobre o seu livro e prometeu que leria para ele todos os dias, até ele acordar. Ela prometeu que iria cuidar de tudo e que ele podia ficar tranquilo. Ela falou sobre o Roberto e sobre o enorme amor que eles sentiam um pelo outro. E prometeu para ele que daria um jeito das filhas virem visita-los de vez em quando.

Nina já estava a quase quatro horas ali, falando sem parar, quando Alfredo os interrompeu.

– Nina, precisamos ir. Temos que buscar as meninas na escola.

– Claro. Vamos. Eu gostaria de falar um minuto com o médico. É possível?

– Claro. Vamos lá.

Eles caminharam até a recepção onde o médico assinava alguns papéis.

– Dr Benício, ele parece bem. Por que a dúvida sobre ele acordar ou não?

– Como eu disse, ele está estável. Seu irmão teve uma hemorragia cerebral, que foi controlada com a cirurgia. Mas o dano cerebral no local responsável pela vigília foi bastante grave.

– O que isso quer dizer?

– Ele machucou a parte do cérebro responsável por nos fazer dormir e acordar.

– Se ele acordar pode ter que tipo de sequelas?

– Não dá pra saber. Ele pode não ter sequela nenhuma, mas pode ficar com alguma deficiência grave. Desde não conseguir andar. Mas não temos como dizer isso.

– Mas existe chance de ele acordar?

– Sim! Existe.

Nina sentiu uma enorme felicidade.

– Pode demorar?

– Pode. Vamos dar tempo ao tempo e vamos avaliando. Pode ser?

– Pode! Meu coração se encheu de esperança. Obrigada! Ah eu gostaria de trazer minhas sobrinhas aqui para ve-lo.

– Essa área é proibida para crianças, infelizmente.

– Entendo o ponto, mas gostaria que tentasse alguma exceção. As meninas perderam a mãe. Elas precisam do pai. E meu irmão precisa delas.

– Entendo o seu ponto. Vou tentar, mas não te prometo.

– Agradeço que tente.

– Farei o possível! Obrigado por estar aqui Nina. Fará bem ao seu irmão. Tenho certeza. Preciso ir. Nos vemos amanhã. Conte conosco.

– Obrigada por tudo doutor. Até amanhã.

– Até amanhã Nina. Tchau Alfredo. Benício disse, já saindo.

– Até amanhã. Alfredo respondeu. – Vamos Nina?

– Quero só dar um beijo no meu irmão.

– Claro. Vamos lá.

Nina deu um beijo em Cadu e prometeu que tentaria trazer as meninas em breve. Ela disse que estava indo busca-las na escola e que seguiria cuidando de tudo.

Já mais calma e com o coração cheio de esperança, Nina deixou o hospital e começou a preparar seu coração para o encontro que teria em instantes com as sobrinhas.

Alfredo era reservado e falava pouco. Nina ficou quieta com seus pensamentos. E assim eles foram em silêncio para a escola das crianças.

Nina esperava ansiosa pelo momento em que as meninas apareceriam na porta.

“Será que elas vão gostar de me ver?” Nina pensava temendo a reação das sobrinhas, no momento em que a porta se abriu.

A expectativa de Nina triplicou.

Elas saíram pela porta e quando viram Nina, os rostos delas se iluminaram.

– Tia Nina! Elas disseram em coro, correndo para abraçar Nina.

– Oi meninas! Que saudades eu estava de vocês.

– Que bom que você veio tia Nina. O papai está dodói e a mamãe virou estrelinha. Disse Paula.

– Fui ver o papai. Acho que ele vai ficar bom logo. Disse Nina.

– E a mamãe? Você viu a mamãe? Perguntou Paula.

Nina ficou surpresa com a pergunta.

– Vi também! Ela mentiu.

– E como ela está? Perguntou Paula curiosa.

– Ela está muito bem. Colorida e linda olhando o tempo vocês lá do céu. Ela me pediu para cuidar de vocês e disse que sempre estará por perto.

– Onde ela está agora tia Nina?

– Hum… ali. Olhando através das flores. Disse Nina apontando um grande jardim.

– Mas ela não virou estrelinha? Paula perguntou confusa.

– Sim! A noite ela sempre está no céu brilhando. Durante o dia, está nas coisas bonitas do caminho de vocês. Sempre que virem algo e sentirem felicidade, a mamãe estará lá. Nina disse.

Elas não entenderam muito bem. Mas gostaram do que Nina dizia.

– E você Luluca? Como está?

– Quero a mamãe e o papai. Ela respondeu.

– Eu sei que quer. O que vocês querem fazer?

– Tomar sorvete. Disse Paula.

– Então vamos tomar sorvete antes de ir para casa.

– Você vai morar aqui? Perguntou Paula.

– Sim! Nina respondeu sem pensar.

– Que bom, tia Nina! Paula respondeu dando um abraço em Nina.

Elas saíram de mãos dadas com Nina e Alfredo seguia mudo. Ele pouco falava. Eles tomaram sorvete e foram para a casa de Cadu.

– Oi Arminda. Disse Alfredo quando chegaram.

– Oi Dr Alfredo.

– Essa é a Nina, irmã do Carlos Eduardo. Ele disse apresentando Nina a Arminda.

– Prazer em conhece-la. Disse Nina.

– O prazer é meu. Seja bem vinda. Ela respondeu.

– Arminda trabalha com o Carlos desde que a Paula nasceu. Ela cuida de tudo por aqui.

– Depois me diga como quer fazer as coisas Dona Nina. Disse Arminda.

– Por favor, faça como sempre fez. Nina respondeu. – Podemos conversar um instante Alfredo?

– Claro.

Eles foram até o escritório da casa, que era imensa.

– Alfredo, a casa é enorme e tem funcionários. A escola das meninas parece cara. Eu não trabalho e não tenho dinheiro. Sem a renda que eles tinham, não vejo como manter isso tudo.

– Nina, calma. Seu irmão tem bastante dinheiro investido. Você conseguirá administrar bem o dinheiro. Vamos te ajudar. Não se preocupe com isso agora. Se ele falecer, você será a beneficiaria do seguro de vida. Não se preocupe com dinheiro agora.

– Ok! Obrigada Alfredo. Por tudo. Mas não quero nem pensar nisso.

– Não por isso. Converse com Arminda sobre a rotina da casa. Ela sempre cuidou de tudo por aqui. Ela é de confiança e conhece as meninas desde que nasceram.

– Por que você sabe tanto da vida deles? Nina perguntou curiosa.

– Ele é meu melhor amigo. Nos conhecemos logo que ele chegou em Portugal. Ele contratou meu escritório para cuidar da herança das crianças, preocupado com a possibilidade de acontecer o que aconteceu, já que ele e a Cecília viajavam muito. E aí acabamos ficando muito amigos. Ele sempre me fez prometer que eu faria o que estou fazendo.

– Então esse sempre foi o plano caso algo acontecesse?

– Sim! Desde que as crianças nasceram. Eu sou padrinho da Paula.

– Você deve estar arrasado. Que bom tê-lo por perto.

– Sim, estou arrasado! Nunca imaginei que precisaria colocar esse plano em prática. Mas essa é a vida.

– Sim! Impossível controlar.

– Amanhã te pego aqui cedo e vou com você levar as crianças para a escola. De lá vamos para o hospital. Pode ser?

– Claro.

– Tente descansar. Passo aqui amanhã às sete da manhã.

– Combinado.

Ele deu um beijo na bochecha dela e foi embora.

Nina continuou ali, pensando sobre cada nova descoberta e seus pensamentos foram interrompidos por Arminda.

– Dona Nina, pode falar um instante?

– Sim Arminda.

– Vou dar banho nas crianças. A senhora quer acompanhar a rotina delas?

– Quero sim. Vamos lá.

Nina acompanhou Arminda, que tratava as crianças com muito carinho. Elas conversaram sobre a família e Arminda contou sua história de vida. Ela não tinha ninguém e morava com eles desde que tinha se mudado para Lisboa. Ela era muito grata a eles e estava sofrendo muito com tudo que estava acontecendo. Era mais como alguém da família, do que uma funcionária.

Nina sentia um certo alívio por tê-la por perto e isso a fazia se sentir menos desesperada do que estava quando chegou.

Elas fizeram juntas a rotina de banho, pijama, lição de casa e o jantar das meninas. Nina brincou com elas, leu histórias. E por um instante, tudo ficou mais leve. Aquela noite parecia anunciar que tudo daria certo e o coração de Nina sentiu alegria pela primeira vez, desde a leitura da carta do seu irmão, há alguns dias.

As meninas dormiram e Nina foi para o seu novo quarto, que tinha sido impecavelmente arrumado para ela.

Ela tomou um banho demorado e fez uma retrospectiva de tudo que tinha acontecido desde sua despedida de Roberto no Brasil.

“Parece que já passou um mês, desde ontem.” Nina pensava perplexa com tudo que estava vivendo.

Ela colocou seu pijama e tentou escrever. Abriu o seu computador, mas não tinha cabeça, nem inspiração para nada.

Naquele momento as saudades que sentia de Roberto ocupavam todo o seu coração e ela sentia uma tremenda falta dele. Então resolveu ligar para ele. Ela pegou o telefone empolgada, mas ponderou. Seu lado racional pedia por distância, mas seu lado emocional implorava para ela ligar para ele. E depois de um turbilhão de emoções e ponderações, o lado emocional dela venceu e ela começou a digitar o número do telefone dele.

O telefone chamava e ela estava em expectativa, quando ele atendeu.

– Alô.

– Oi Bob!

– Oi meu amor. Que bom ouvir sua voz. Parece que faz um ano que nos despedimos. Como você está?

– Estou bem. E você?

– Estou bem também. Morrendo de saudades de você. E como está seu irmão? Como estão suas sobrinhas?

– Meu irmão está estável e tem chances de sobreviver. Minha sobrinhas, ainda assimilando tudo. Perguntando e pedindo pelos pais. Mas elas parecem bem. No final, as coisas estão melhores do que eu esperava.

– Fico feliz em saber. Antecipei minha ida aos Estados Unidos. Vou no final desse mês e em dois meses vou para Portugal ficar um tempo com você.

– Não acredito que mudou toda a agenda. Eu te pedi tanto para não bagunçar a sua vida por minha causa.

– Eu faria muito mais por você. Que pena que não estará lá comigo. Lamento tanto você não estar lá comigo.

– Também lamento Bob. Prometa que não vai ficar bagunçando a sua vida e sua agenda por minha causa. Por aqui parece tudo muito instável ainda. Não consigo prever o curso de nada.

– Um dia de cada vez. Lembra? Ele pediu.

– Sim! Combinado! Um dia de cada vez.

– Estarei sempre aqui. Ele disse de maneira carinhosa.

– Eu sei Bob. Estou morrendo de saudades de você. É muito estranho não estar dormindo com você ou na mesma rua que você.

– Para mim também Nina. Mas logo estaremos juntos.

“Tomara que você esteja certo!” Ela pensava, implorando que o universo ouvisse e realizasse esse desejo.

– Sim Bob! Logo estaremos juntos. Agora preciso dormir. Estou exausta e vou acordar muito cedo amanhã. Te ligo amanhã mais tranquila e conversamos melhor. Ah e esse é meu número aqui. Ligue sempre que quiser.

– Que alívio saber como falar com você. Descanse. Você deve estar super cansada. Espero seu contato amanhã. Um beijo meu amor.

– Beijo Bob.

– Amo você! Ele disse antes de desligar.

O coração de Nina sorriu.

– Eu também meu amor! Amo muito você. Ela respondeu.

Nina desligou o telefone sentindo um mix de sensações e o cansaço tomava conta de todo o corpo dela, depois de um dia que parecia ter durado mais do que cem horas. Mas naquele momento, o cansaço e todas as preocupações, pareciam dar lugar a um sentimento bom e ela sentia um tremendo alívio por ter ouvido a voz de Roberto e suas declarações de amor. De alguma maneira, ela se sentia esperançosa, acreditando que viriam tempos melhores. E depois de dias tão complexos, ela enfim sentia um certo alívio e seu coração, depois de muita angustia, se acalmava.

“Hoje foi um novo dia! Tudo vai dar certo!” Ela pensava, no momento em que pegou no sono.

                                                      CONTINUA…

              O CAPÍTULO 26 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

2 thoughts on “Capítulo 25 – Um novo dia

  1. Uffa!!! Consegui ficar mais tranquila com esse capítulo; Agora só falta ele aparecer de surpresa e deixar ela mais confiante. Meu Deus e esses país deles no outro lado do mundo, não fazem contato?? Ela precisa de uma força; talvez um contato com a amiga que está na Espanha, que é a mais próxima no momento???!!!!

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