Capítulo 26 – Coração Acelerado

O despertador tocou e Nina não podia acreditar que já era hora de levantar. Ela demorou para entender onde estava, mas passados alguns segundos e depois de um filme que passou em câmera acelerada em seus pensamentos, ela se lembrou de tudo. A casa do irmão, as sobrinhas que iriam para escola em instantes, o irmão em coma que poderia acordar a qualquer momento ou nunca mais, a morte da cunhada, a ausência de Roberto e a imensa saudade que sentia dele, a saudade das suas amigas e da sua família.

“Não foi um sonho! Isso está realmente acontecendo.” Ela pensava, no momento em que se dava conta de que era hora de se levantar e ir cuidar de sua nova vida.

Quando ela chegou na cozinha, as meninas já tomavam café da manhã.

– Bom dia Nina! Disse Arminda quando Nina chegou.

– Bom dia Arminda! Bom dia meninas!

– Bom dia tia Nina!

– Dormiu bem? Perguntou Arminda

– Muito bem Arminda. Obrigada!

– A senhora foi ver o Seu Carlos Eduardo?

– Fui.

– Como ele está?

– Não dá para saber. Mas ele parece bem. Ele vai ficar bem!

– Estou orando muito por ele.

– Eu também Arminda. Disse Nina.

– Depois do café, vamos trocar as meninas. As coisas já estão prontas e o Dr Alfredo vai passar aqui em meia hora. A Senhora quer participar.

– Sim! Quero fazer a rotina das meninas com você para aprender.

– O que gostaria que eu fizesse para o jantar? Arminda perguntou, pegando Nina desprevenida.

– Não faço ideia. Faça algo que as meninas adorem. Preciso conhecer os hábitos alimentares delas. Vou precisar da sua ajuda. Elas tem alguma restrição alimentar?

– Nenhuma restrição e gostam de coisas saudáveis. A Dona Cecília ensinou as meninas a comerem bem.

– Isso é bom. Respondeu Nina, sentindo a falta de Cecília.

– Hora de ir trocar de roupa meninas! Convidou Arminda. – Vamos Dona Nina?

– Sim! Ela respondeu engolindo o café num gole só.

Nina acompanhou a rotina das meninas e mal se deu conta da passagem do tempo, Alfredo ligou avisando que estava chegando.

– Bom dia Nina! Bom dia meninas! Disse Alfredo quando elas chegaram no carro.

– Bom dia tio Alfredo.

– Bom dia Alfredo. Disse Nina.

– Conseguiu descansar Nina?

– Sim! Dormi melhor do que eu esperava. Mas ainda estou me sentindo muito cansada.

– Compreensível. Ele respondeu.

E a partir desse momento, ficaram todos em silencio até chegarem na escola. Nina levou as meninas até a porta da escola, se despediu delas e voltou para o carro.

– Elas estão reagindo bem. Disse Alfredo quando Nina voltou para o carro.

– Elas são incríveis. A Luiza entende pouco e a Paula parece estar trabalhando bem os sentimentos dela. Ela é muito madura para a uma menina de seis anos.

– Ela sempre foi! Concordou Alfredo.

– Por falar em maturidade, resolvi que vou levar as meninas para ver o pai, mesmo que os médicos não autorizem.

– E como pretende fazer isso?

– Darei um jeito.

– Não vou te impedir e posso ajudar. Ele respondeu.

– Agradeço a ajuda. Ela respondeu, achando graça.

E num instante ele se sentiu encantado por ela, mas ela nem percebeu.

A partir daquele momento ficaram em silencio e em alguns minutos estavam no hospital.

Mais uma vez um frio começava na barriga e percorria o corpo todo de Nina.

“Será que meu irmão estará bem?” Ela se preocupava enquanto ia chegando perto dele.

Ela correu abraça-lo e se sentia aliviada por ele ainda estar vivo.

Alfredo conversou rapidamente com o médico e se despediu de Nina dizendo que voltaria no final do dia para busca-la e irem juntos pegar as meninas. Ela se despediu e se voltou novamente para o irmão.

Ela passou a tarde ali, falando sem parar, como se ele pudesse ouvi-la. Ela prometeu mais uma vez que traria as filhas dele, mesmo que escondida e passou um bom tempo lendo para ele a história que ela estava escrevendo. Ela falou muito de Roberto e de suas amigas.

“Minhas amigas! Não contei para elas nada do que aconteceu. Elas nem sabem que estou aqui em Portugal. Preciso ligar para elas.” Nina pensava entre uma história e outra que contava para o irmão.

No final da tarde ela teve uma conversa com o médico, que repetiu o mesmo diagnóstico do dia anterior e seguiu proibindo a visita das filhas de Cadu.

Nina aproveitou o final do dia mais calmo e ligou para as amigas para avisar sobre o que estava acontecendo e dar seu novo número de celular. Todas elas ficaram surpresas e chateadas com a situação. Erica prometeu ir no final de semana para a Portugal para fazer companhia para ela, assim que estivesse com a vida na Espanha minimamente organizada. Melina prometeu passar lá alguns dias porque estaria na Europa a trabalho. E o simples fato de existir uma pequena possibilidade de encontrar as melhores amigas, trazia alguma felicidade para a vida e o coração dela.

“Como elas me fazem bem!” Nina pensava enquanto seu olhar se perdia em Cadu. “Acorda Cadu! Você precisa viver. Ainda tem muito o que fazer por aqui.”

E nesse momento seu celular tocou.

– Alô. Ela respondeu.

– Oi Nina, aqui é o Alfredo. Localizei seus pais e eles estão vindo para cá. Chegam no final de semana.

– Que bom que conseguiu. Como eles estão?

– Preocupados, mas estão bem. Ficaram mais aliviados quando souberam que você estava aqui. Como está o Cadu?

– Na mesma condição.

– Ele vai acordar!

– Sim! Ele vai. Respondeu Nina. – Ainda faltam 2 horas para irmos buscar as meninas e queria tentar pega-las e traze-las aqui. Você acha possível pega-las mais cedo?

– O médico finalmente liberou?

– Não, mas vou dar um jeito.

– Nina, tem certeza?

– Sim! Mas vou precisar da sua ajuda. Elas merecem ver o pai e o Cadu também merece passar um tempo com elas.

– Conte comigo. Vou pegar as meninas na escola agora e aviso quando eu estiver chegando.

– Obrigada Alfredo.

– Até já.

– Até.

Nina desligou o telefone se sentindo feliz com a expectativa da chegada das sobrinhas e correu conversar com o irmão.

– Cadu, as meninas estão vindo! Vou dar um jeito de vocês se verem. Me responde. Faz alguma coisa para me mostrar que você está ouvindo. Nina implorava, mas não via nada. Nenhuma sinal de que ele ouvia.

Ela seguiu ali orando pelo irmão. Quando o seu celular tocou novamente.

– Alô. Ela atendeu.

– Oi meu amor.

– Bob! Que delícia ouvir sua voz.

– Como estão as coisas por aí?

– Na mesma. Meu irmão segue estável, segundo o médico. Mas as meninas estão vindo para cá e acho que podem ajudar. Elas vão ver o pai pela primeira vez depois do acidente.

– Como assim? As meninas não viram o pai?

– Não. Eles não permitem que venham crianças aqui.

– E o que mudou para elas estarem indo?

– A minha intenção de faze-las virem. Vou dar um jeito de traze-las escondidas.

– E como você pensa fazer isso?

– Ainda não pensei. Nina respondeu rindo.

– Ah meu amor, você realmente é a mulher mais interessante do mundo.

– Não sou nada.

– É sim. E é minha. Estou morrendo de saudades.

– Eu também. E como estão os planos para antecipar as filmagens?

– Está tudo correndo bem. Viajo em 3 semanas. Vou te enviar todos os endereços por email. Porque seu irmão vai acordar e você poderá ir me encontrar.

– Tomara que você esteja certo.

– Não vejo a hora de te ver. A vida perde a graça sem você. Preciso de você meu amor.

– Eu também Bob.

– Te amo Nina. Boa sorte aí com seu plano para levar as meninas até o pai. Preciso desligar. Vou entrar em uma filmagem que deve ir até bem tarde.

– Obrigada Bob. Boa filmagem. Adorei que tenha ligado.

– Adorei falar com você.

– Beijo Bob.

– Beijo Nina.

Ela desligou o telefone e suspirou. “Como amo esse homem. Como tudo fica melhor com ele.” Ela pensava.

Nina estava totalmente decidida sobre trazer as meninas para ver o irmão e começou a pensar em como faria isso. Então foi tomar um café e olhar em volta para ver como poderia passar com 2 crianças sem ser vista. O lugar estava tranquilo e ela perguntou para enfermeira na recepção do andar:

– Você sabe me dizer onde está o Dr Benicio?

– Está passando nos quartos dos pacientes. Acabou de começar a ronda dos médicos. Precisa que eu chame por ele?

– Não. Posso esperar. Ele vai passar no quarto do Cadu?

– Sim! Geralmente é o último.

– Sabe dizer em quanto tempo?

– Daqui 1 hora. Precisa que eu o chame antes? A enfermeira insistiu. – Quer que eu vá vê-lo? Está preocupada com algo?

– Não está tudo bem. Queria só entender a rotina mesmo para me planejar para estar lá. Tenho algumas perguntas.

– Se precisar, estou por aqui.

– Obrigada. Vou dar uma volta.

– Ok! A enfermeira respondeu e voltou para os seus relatórios.

Nina saiu e foi andar pelos corredores. O movimento realmente estava mais tranquilo e ela entendeu que seria uma ótima oportunidade para entrar com as meninas ali.

Ela voltava para o quarto do irmão quando Alfredo enviou uma mensagem.

“Estamos aqui no estacionamento. O que eu faço?”

Ela terminou de ler e se deu conta de que não tinha um plano. “Pensa Nina! Já sei!” Ela se empolgou e começou a digitar.

“Diga que acabou de ter um bebe e as irmãs vieram vê-lo. A maternidade geralmente é permitida para crianças.”

“Boa ideia Nina. Estamos subindo.”

“Vou esperar no elevador. Peça para ficarem bem quietinhas.”

“Ok!”

Nina foi para a recepção onde a mesma enfermeira seguia compenetrada em seus relatórios. Ela cumprimentou e foi para corredor onde o elevador chegava. Ela ficou ali em expectativa até que finalmente as meninas chegaram.

– Oi tia Nina! Elas disseram felizes em ver Nina.

– Oi meus amores. Vocês precisam ficar bem quietinhas. Estamos fazendo uma coisa proibida. Mas vocês vão ver o papai.

– Agora?

– Sim!

– Obrigada tia Nina. Elas responderam muito felizes e correram abraçar Nina.

– Oi Alfredo.

– Oi Nina. O que fazemos agora?

– Entra lá e vai para o quarto. Volta e pergunta de mim e pede ajuda para a enfermeira para me procurar. Pede para ela ir no banheiro feminino ver se estou lá. Diz que está tentando falar comigo e não consegue.

– Boa ideia Nina.

– Eu vou esperar aqui. Quando forem para o banheiro me avisa e corro com as meninas.

– Combinado.

Alfredo entrou e deixou Nina ali com as meninas. O coração de Nina estava acelerado. Ela se sentia dentro de um filme de ação, fazendo algo proibido e tentando escapar de alguém.

– Obrigada tia Nina! Paula disse abraçando a tia. – Estou muito feliz de ver o papai.

– De nada meu amor. Nina respondeu e seus olhos se encheram de lagrimas.

Elas ficaram ali mais uns instantes em silencio e finalmente a mensagem chegou avisando que estavam no banheiro.

Nina correu com as meninas, no mais absoluto silencio. As meninas colaboraram, parecendo entender exatamente o que estava acontecendo.

O coração de Nina parecia que ia sair pela boca, no momento em que finalmente entraram no quarto.

– Papai! As meninas disseram juntas, quando correram abraçar o pai.

As lágrimas rolaram pelo rosto de Nina. Cada uma ficou de um lado da cama.

– Conversem com o papai! Beijem! Abracem. Temos pouco tempo. Vou precisar ir lá fora rapidinho. Não mexam em nada, por favor meninas. Vou ali e já volto.

Nina saiu apressada e preocupada por deixar as meninas ali. Ela estava na recepção quando Alfredo e a enfermeira a encontraram.

– Aí está você! Disse Alfredo. – Estávamos te procurando. Está tudo bem?

– Sim! Fui lá embaixo tomar um ar.

– Que bom. Vamos ver o Cadu?

– Vamos. Ela respondeu. E eles voltaram para o quarto.

As meninas estavam debruçadas no pai, falando sem parar com ele, não ligando a mínima por ele não responder. A cena emocionava e enchia o coração de quem via de emoção.

– Tia Nina. O papai está dormindo? Paula perguntou.

– Sim meu amor.

– Acho que ele estava cansado. Por que não acorda? Perguntou Paula.

– Ele devia estar muito cansado meu amor. Aproveitem para fazer carinho, beijar, abraçar e conversar com papai.

As meninas estavam felizes por verem o pai e ele parecia nem perceber a presença delas. Seguia estático, sem fazer qualquer movimento. Elas já estavam ali a meia hora, quando Alfredo e Nina acharam melhor tira-las dali.

– Pelo que entendi com a enfermeira, o médico passará por aqui em instantes. Melhor tirá-las daqui. Elas já estão aqui a quase 1 hora. Disse Nina.

– Você está certa. Como faremos?

– Agora começa a saga da saída. Vou na frente. Disse Nina. – Envio uma mensagem para você ir.

– Combinado.

Nina saiu e deixou Alfredo com as meninas ali.

A enfermeira não estava na recepção e ela correu avisar Alfredo.

– Vamos! Ela disse.

E eles saíram correndo e os corações deles aceleraram como se fossem fugitivos e estivessem prestes a serem capturados.

Nina e Alfredo retomavam o ar em frente ao elevador quando uma confusão começou a acontecer. Tinha começado uma correria de enfermeiros e um apito parecia anunciar que algo não estava bem.

Alfredo desceu com as meninas e Nina voltou correndo para o quarto onde os enfermeiros estavam. A confusão era no quarto de Cadu.

O painel que monitorava os batimentos cardíacos dele estava apitando anunciando que o coração tinha parado.

– O que foi? Nina perguntou desesperada para os enfermeiros que já estavam ali.

– Ele se mexeu e o aparelho que monitora os batimentos do coração dele saiu do dedo. Está tudo bem. A enfermeira respondeu recolando o aparelho. – Mas o coração dele parece estar mais forte hoje.

Nina começou a chorar.

– Está tudo bem Nina! Foi um escape do aparelho. Ele ter mexido é um excelente sinal. A notícia é boa! O coração parece mais forte e ele se mexeu pela primeira vez em 10 dias.

Nina de descontrolava e não conseguia parar de chorar.

– Eu entendi! Estou emocionada e feliz. Nina correu abraçar o irmão. – Eu sabia que te faria bem ver suas filhas. Estou aqui Cadu! Estamos aqui com você, meu irmão. Obrigada pelos sinais que te pedi tanto.

– Ele parece melhor hoje. O médico vai gostar de saber. Disse a enfermeira.

– Sim! Obrigada! Nina respondeu com a voz embargada pelo choro.

Ela conversava com o irmão quando o médico chegou.

– Fiquei sabendo das boas novas. Ele disse ao entrar.

– Estou muito feliz.

– Deixa eu dar uma olhada nele. O médico disse se aproximando de Cadu.

Nina ficou ali observando. O médico terminava a avaliação quando o Alfredo chegou.

– Oi Alfredo. E as meninas?

– Estão com a Arminda. Como ele está?

– Parece que reagindo melhor hoje.

Os olhos de Alfredo pareciam que iam pular do rosto.

– Aconteceu alguma coisa diferente hoje? O médico perguntou.

– Não. Nada que eu saiba. Respondeu Nina preferindo ainda não revelar nada.

– Ele parece estar reagindo melhor. Talvez os medicamentos estejam agindo. As notícias são boas. Os reflexos dele estão melhores.

– Que notícia excelente. Nina respondeu. – Nós dissemos que nossos pais estão chegando.

– Acho que ele ouviu! O médico respondeu. – Vocês tem mais cinco minutos ok? E as visitas serão encerradas.

– Ok! Nina respondeu. E correu falar com o irmão.

– Cadu! Eu sabia que você ficaria feliz com a visita das meninas. Estou aqui! Estou com você. E estarei aqui quando acordar. Estou tão feliz Cadu! Te amo. Ela disse enquanto enchia ele de beijos e abraços.

E nesse momento o coração dele acelerou de novo.

                                         Continua…

                O capítulo 27 será publicado na próxima sexta-feira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *