Capítulo 27 – O que está acontecendo aqui?

O coração de Ana seguia batendo acelerado. “O que o Michel está fazendo aqui? Logo hoje, que Mark parecia disposto a conversar….” Pensava Ana enquanto decidia o que fazer.

– Michel! Disse Ana tirando as mãos dele dos olhos dela e olhando para trás.

– Oi Ana! Como está linda! Que saudades de você. Disse ele.

– Quanto tempo! Na verdade, nem faz tanto tempo assim, mas parece que faz muito tempo. Uma eternidade, foi o que vivi nos últimos 2 meses. Dizia Ana, muito nervosa, sem conseguir parar de falar.

– A linda e divertida Ana. Que falta você fez na minha vida. Disse Michel encantado.

“Gente, o que ele está querendo? Ele fala como se estivéssemos sido casados. Que papo é esse?” Pensava Ana já sem saber o que falar quando foi interrompida por Mark.

– Não vai nos apresentar seu amigo, Ana?

– Ah! Claro. Esse é o Michel. Ele era meu chefe na revista e nos tornamos amigos. Foi ele quem enviou aquela revista com a minha matéria na capa. E aqui estão Elizabeth e Mark, eles são os donos dessa vinícola incrível e estão gentilmente nos hospedando. E minha mãe e a Agnes você já conhece.

– Prazer conhece-lo. Disse Mark dando um forte aperto de mão nele. – Vocês devem precisar de alguma privacidade. Vou deixa-los a sós. Com licença. Continuou Mark com cara de poucos amigos.

“Que drogaaaaaa!” Pensava Ana sem ter ideia do que fazer.

– Acho melhor irmos dar uma volta. O que acha Michel? Propôs Ana.

– Acho uma ótima ideia. Respondeu ele de maneira charmosa, sem ter a menor ideia do que a presença dele trazia.

Eles pediram licença e saíram da sala. Ana foi andar com ele pelo imenso jardim que circundava a casa.

– Que surpresa Michel! O que faz aqui?

– Estou na Hungria a trabalho e aproveitei para tirar alguns dias para conhecer vinícolas, Eu já tinha comprado ingresso para fazer um tour por essa vinícola, o que foi uma tremenda coincidência. É meu terceiro dia na Hungria e fui até a casa para onde enviei a revista na esperança de te ver. Sua mãe estava lá com sua tia e estavam a caminho daqui. Então resolvi vir com elas. Quando descobri que aqui é a maior vinícola de Budapeste, que eu iria visitar amanhã, entendi se tratar de um sinal.

– Eu estava fora. Voltei hoje depois de 20 dias viajando. Quase não me pega aqui.

– Quando é para ser… Disse Michel começando a se aproximar perigosamente de Ana. Ele chegava perto da boca dela, quando ela deu um passo para trás. – Hey, o que houve? Achei que ficaria feliz em me ver.

– Fiquei feliz! Gosto muito de você. Mas não mais do jeito que eu gostava. Meus sentimentos mudaram Michel.

– Você está namorando?

– Não.

– Parece que seu coração está ocupado.

– Não deixa de estar. Respondeu ela.

– Que sorte tem esse homem. O tal do Mark vai ficar chateado quando souber.

– Souber o que?

– Que seu coração está ocupado.

– Por que fala isso? Ele é noivo e vai se casar.

– Ele me pareceu muito incomodado com a minha presença.

– Ele é assim mesmo quando acaba de conhecer alguém. Nada a favor de mim e nem contra você. É só a personalidade dele.

– Fico aliviado em saber que não atrapalhei nada.

– Não se preocupe. Agora me diga, o que faz na Hungria?

– Vim para uma reunião de trabalho e aproveitei para conhecer vinícolas famosas por aqui. Sou amante dos vinhos e nunca perco oportunidade de conhecer novas vinícolas.

– Fica até quando?

– Vou embora em 3 dias.

– Para o Brasil?

– Sim Ana. Para o Brasil. Michel achou graça. – E você, quando volta para casa?

Aquela pergunta foi estranha porque ela sentia que já estava em casa.

– Não faço a menor ideia. Respondeu ela.

– Que delicia não ter planos.

– Pois é! Nunca imaginei que gostaria tanto de não ter planos. Nunca fui tão feliz na minha vida e ao mesmo tempo, nunca fui tão incerta sobre o meu futuro.

– Esse lugar é incrível! Só esse lugar já traz felicidade. Como você veio parar aqui? De onde conhece os donos?

– Elizabeth, a dona da propriedade, é prima da minha mãe. Eu não sei se você se lembra, comecei a viagem para conhecer a minha família e finalmente começar a conhecer o mundo após minha formatura. Sempre quis muito conhecer esses lugares que estou tendo a oportunidade de conhecer agora. Inclusive foi por isso que recusei a vaga de efetiva na revista. Essa viagem foi planejada por meses. A ideia era ficar um pouco em cada lugar. Mas o marido da tia Elizabeth faleceu há pouco tempo atrás e decidimos passar mais tempo aqui com ela.

– E o cara?

– Ele é filho do segundo marido dela.

– Ele parece alguém conhecido.

– Acho que ele tem uma cara comum.

– Acho que não… ainda descubro de onde conheço ele.

– Deve ser por causa da marca. Os rótulos são famosos no mundo inteiro. E como você gosta de vinhos.

– Ele pareceu não gostar nada da minha presença.

– Deve ter sido impressão sua… Já te falei. O Mark é muito serio. Agora me conta quais são os seus planos. Pediu Ana que não entendia ainda como se sentir em relação à presença de Michel.

– Acho que depois do que vi por aqui, meu plano é não ter planos.

Ana riu.

– Ah parabéns pelo blog! Comecei a te acompanhar desde o primeiro post. Você escreve lindamente. Tem poesia no que descreve. Fiquei com vontade de percorrer também cada um desses caminhos.

– Obrigada Michel! Mas devo confessar que as paisagens e os passeios me inspiram muito. É fácil escrever quando descrevemos coisas lindas. Respondeu Ana sem graça.

E nesse momento, foram interrompidos por Mark.

– O jantar está servido. Disse ele friamente e ficou estático esperando que Ana e Michel se movessem.

– Obrigada Mark, já vamos. Respondeu Ana.

Mark ficou contrariado. Ele queria tirar Ana dali de qualquer maneira.

– Como quiser! Disse ele ainda mais frio porém fervendo por dentro. E muito contrariado, foi embora.

– Posso ter esperança de conseguir o que vim buscar aqui? Perguntou Michel.

– Michel, acho que devemos ir jantar.

– Ana eu preciso saber.

– Michel o que tivemos ficou lá atrás. Muitas coisas aconteceram desde então. Posso te dar muitas coisas, mas o que diz que veio buscar, se é o que estou pensando, já não mais. “Não posso dar a alguém, algo que já pertence à outra pessoa.” Pensava Ana querendo Mark ali mais do que qualquer coisa.

– Sorte de quem tiver o seu coração Ana.

– Então você veio buscar meu coração? Eu não tinha entendido assim? Ana brincou.

– Eu vim te buscar inteira Ana.

Ana achou melhor encerrar a conversa por ali. Ela até achava que poderia gostar de ver o homem que a fez comer grama por meses pedindo para que ela considerasse a hipótese de ficarem juntos de novo. Mas definitivamente Ana sentia que o Michel era uma página virada em sua vida e nem a chance de ser desejada depois de ter desejado tanto animavam seu coração. Ela estava despida de vaidade e completa por amor. Então resolveu parar com aquela conversa ali.

– Sorte de quem tiver o seu coração também, Michel! Você é um cara incrível. Agora vamos jantar. Estou morrendo de fome e você deve estar também.

– Vamos. Respondeu Michel desistindo de lutar para reconquistar qualquer pedaço do coração de Ana.

E os dois ficaram estranhos em relação um ao outro. Ambos pareciam diferentes do que eram quando se relacionaram em um passado não muito distante, mas que parecia uma eternidade depois das transformações que tinham ocorrido em Ana.

– Você está muito diferente Ana. Comentou Michel enquanto andavam em direção à casa.

– Acho que foram os 22 anos. Brincou Ana.

– Não Ana, eu acho que não.

– Estamos em constante mudança e transformação Michel. Tenho vivido coisas intensas aqui. Realizar sonhos nos transformam de todas as maneiras. Conheci outras perspectivas e isso também contribui com a transformação.

– Nisso você tem razão. Por isso te vejo tão madura. Você se transformou em uma mulher ainda mais interessante.

Eles chegaram na sala de jantar e encontraram um clima tenso. Mark estava calado e as mulheres evitavam falar em respeito ao silencio dele. Ana e Michel se sentaram.

– Obrigado por me receberem por essa noite. Estou ansioso pelo tour de amanhã pela vinícola. A marca de vocês é muito reconhecida no Brasil. Sempre quis conhecer as vinícolas de vocês.

– Michel é um prazer recebe-lo. Sinta-se na sua casa. Obrigada pelo carinho com a nossa marca. Respondeu Elizabeth de maneira gentil.

Elizabeth era muito gentil e mesmo com a frieza de Mark, Michel se sentia estranhamente bem.

Eles seguiram ali falando de amenidades enquanto Mark e Ana seguiam em silencio.

“Ele deve estar muito bravo.” Pensava Ana. “Antes ele, do que eu!” Ana ria de seus pensamentos. “Só eu sei o que senti quando ele protagonizou uma cena com a noiva aqui depois de termos tido o dia mais romântico que já existiu. Hoje é a vez dele. Ele não tem nenhum direito de ficar assim ou me cobrar alguma coisa depois do que ele fez…Ok! Ana, a culpa não foi totalmente do Mark, porque ela apareceu de surpresa. Mas o Michel também apareceu de surpresa. Então a culpa não foi minha.” Seguia Ana se perdendo do grupo enquanto falava consigo mesma em seus pensamentos.

– Está tão calada Ana. Está tudo bem? Perguntou Mark, quebrando o seu silencio.

– Tudo bem sim Mark, obrigada pela preocupação. Estou apreciando essa deliciosa refeição. Aliás como se come bem aqui.

– Eu ia dizer isso. Além da bebida, a gastronomia húngara, também é deliciosa. Comentou Michel.

Mark se aborreceu.

“Que cara mais intrometido. Ele precisa se envolver em todos os assuntos? ”

– Já terminei. Peço licença. Vou resolver alguns assuntos de trabalho. Disse Mark totalmente aborrecido.

– Precisa de ajuda Mark? Perguntou Elizabeth.

– Não obrigado!

– Vou pedir para Tina te levar um café.

– Agradeço. Boa noite para vocês.

Mark foi embora e parecia que um pedaço de Ana ia junto com ele.

“Bem no dia do nosso reencontro acontece tudo isso.” Pensava Ana que sentia Mark indo para longe dela.

– Que tal um vinho especial de sobremesa para acompanhar o delicioso rocambole de papoula que a Tina preparou para a gente. Disse Elizabeth.

Eles terminaram a sobremesa, apreciaram o vinho e foram tomar café na grande e aconchegante sala de estar.

– Estou ansioso pelo passeio pela vinícola amanhã. Disse Michel.

– Tenho algumas fotos aqui de que talvez você goste. Disse Elizabeth.

Michel se perdia vendo as fotos que compunham a história daquele lugar e começava a se inspirar para produzir uma matéria sobre a marca. Ele tentava encaixa isso ao propósito da revista.

Ana aproveitou o momento em que todos estavam distraídos com as fotos e foi até a cozinha pegar um pedaço de rocambole para levar para Mark. Ana andava rápido com o coração acelerado com a expectativa de surpreender Mark.

– Oi Mark. Disse Ana ao entrar no escritório.

Mark se surpreendeu com a presença dela.

– Oi Ana.

– Trouxe um pedaço de rocambole para você. A Tina está trazendo café.

– Obrigado Ana. Disse Mark não deixando transparecer sua alegria com a presença dela.

– Bom… espero que aproveite seu rocambole. Vou te deixar trabalhar. Disse Ana sem saber muito o que fazer ali.

Mark queria que ela ficasse. Ele queria passar a noite conversando com ela, mas a deixou ir embora.

– Obrigado, mais uma vez Ana. Você foi muito gentil.

– Boa noite Mark!

– Boa noite Ana.

Ana foi embora e Mark respirou fundo tentando organizar seus sentimentos até conseguir voltar ao trabalho.

Ela voltou para sala querendo ter ficado ali naquele escritório. Mas sabia que precisava dar espaço para Mark e não podia ignorar o fato de que Michel estava ali na sala por causa dela. Qualquer que fosse a solução para o coração dela, precisaria esperar pelo dia seguinte.

– Aí está você! Disse Michel quando Ana entrou na sala.

– Aqui estou. Animado com as fotos?

– Muito. Vou fazer uma matéria sobre a história da vinícola. Quer me ajudar como freelancer? Pagaremos pelo seu trabalho.

– Você quer que eu ajude em uma matéria sobre a vinícola? Ana perguntou.

– Isso. Respondeu Michel sem entender muito a complexidade do convite.

– Será um prazer. Mas como funcionaria isso?

– Traçamos um cronograma e alguns rituais de entregas até a matéria ser aprovada para publicação. E te faremos uma pagamento com depósito em sua conta.

– Acho que gostei da ideia.

– Muito bem. Vou estruturar a matéria e volto a falar com você na semana que vem por email. Acho que será uma matéria incrível. Disse Michel olhando encantado para Ana.

– Elizabeth, o que acha dessa ideia? Perguntou Ana.

– Acho a ideia maravilhosa, minha querida. Respondeu ela, muito orgulhosa. – Pode contar com meu apoio. Inclusive, acho que Mark vai gostar da ideia também, já que estamos investindo na América Latina.

– Tem razão! Respondeu Ana, sem ter tanta certeza de que ele gostaria.

A noite seguiu agradável, com jogos de cartas e conversa divertida. Mark não voltou mais para a sala e apesar da noite seguir super agradável, um pedaço de Ana passou a noite olhando para a entrada da sala na esperança de que ele aparecesse.

Na hora de dormir Ana passou pelo escritório e viu a luz acesa por debaixo da porta. Pensou em entrar, mas a visita anterior já não tinha sido tão boa quanto ela esperava, então resolveu ir dormir.

Pouco depois da passagem de Ana ali na porta do escritório, Mark concluiu seu trabalho e foi dormir. Ele passou pelo quarto de Ana e viu a luz acesa por debaixo da porta. Ele parou na frente da porta do quarto dela. Fez menção de bater na porta. Mas desistiu. Seguiu ali mais alguns instantes, mas desistiu e foi para o seu quarto dormir.

Mark acordou antes do dia nascer. Ele tinha muitas coisas para fazer e não queria encontrar com Ana e Michel. Ele se arrumou, tomou café e saiu para trabalhar antes que todos acordassem.

Quando Ana chegou na varanda para tomar café da manhã, estavam todos lá, menos Mark.

– Bom dia! Perdi a hora hoje. Disse ela ao chegar.

– Aproveite para descansar enquanto está de férias. Disse Elizabeth.

– Animado com o passeio Michel? Perguntou Ana.

– Muito animado! Gostaria que você viesse comigo. Podemos preparar algo para a nossa matéria.

– Pode ser. Vou com você. Disse Ana empolgada. – Vamos mãe?

– Vamos para cidade fazer umas compras. Até ia perguntar se queriam se juntar a nós, mas imagino que Michel não perderia um passeio pela vinícola, gostando tanto de vinhos, para fazer um passeio de compras. Mas estão convidados mesmo assim.

– É mãe! Até eu que gosto de compras prefiro um passeio pela vinícola.

– Então divirtam-se.

– Vocês também. Disse Ana.

Logo depois disso Ana e Michel terminaram o café e saíram em direção a parte turística da vinícola. Eles passaram o dia juntos e Ana já parecia conhecer bem o lugar. Michel a elogiou pelo seu conhecimento e terminou o dia ainda mais encantado. Mark os viu no final do dia, e ficou ainda mais irritado do que já estava com tudo que já tinha acontecido naquele dia.

Ana e Michel voltaram para casa no final da tarde. E Michel foi organizar suas coisas para voltar para Budapeste.

Ana o esperava para ir com ele até o carro.

– Vou sentir sua falta. Foi delicioso estar na sua companhia e ter vivido esses bons momentos com você. Disse Michel já na frente do carro que o levaria de volta para Budapeste.

– Adorei a sua visita! Respondeu Ana. – Estou animada com a matéria que escreveremos juntos.

– Eu também. Disse Michel abraçando Ana.

Eles se abraçavam quando Mark chegou.

– Oi Mark. – Disse Ana se soltando de Michel. – O Michel está indo embora.

– Boa viagem de volta Michel. Disse Mark já entrando na casa.

– Obrigado. Respondeu Michel, sem ter certeza de que Mark tinha ouvido. – Ele realmente parece serio demais, ou está bravo. Que tipo de problema um homem desse tem? Herdeiro de uma fortuna imensa. As pessoas não sabem aproveitar a vida.

“Você não tem ideia do quanto a vida dele está complicada nesse momento.” Pensava Ana.

– Pois é. Disse ela simplesmente. – Boa viagem de volta. Nos falamos para combinar como faremos nossa matéria.

– Combinado. Foi delicioso estar com você. Disse Michel, pelo vidro, já dentro do carro.

Ana não respondeu nada, apenas acenou enquanto o carro começava a se movimentar. Ela ficou ali parada esperando o carro sumir. Ela sentia um certo alivio por Michel ter ido embora, pois agora poderia retomar com Mark de onde tinham parado no dia anterior. E também não podia acreditar que não sentia mais nada por aquele homem que tinha tirado a sua paz, alguns meses atrás. Ela respirou fundo e se preparava para entrar na casa e encarar Mark e sua aparente fúria.

Quando ela se virou, Mark estava atrás dela.

– Que susto! Ela disse.

– Precisamos retomar nossa conversa.

“Que conversa?” Pensava ela. Parecia ter passado uma eternidade desde que Michel tinha aparecido.

– Mark, não precisamos levar tudo tão a serio.

– Mas você levou muito a serio! Você começou com isso quando fugiu daqui sem dizer uma palavra e ficou 20 dias sem dar notícia. Disse ele.

– Por que mesmo eu fugi? Disse Ana brava. – Me deixe pensar… será que foi por ter sido ignorada após a chegada da sua noiva, depois de tudo que passamos juntos?

– Vamos dar um volta. Não dá para conversar sobre isso aqui.

– Acho que vai chover. Não é uma boa ideia.

– Não chove nessa época do ano.

– Sempre chove no verão Mark. De onde tirou isso?

– Não vou ficar discutindo a meteorologia com você. Vamos andar aqui por perto. Se chover, voltamos.

– Está bem! Mas se chover voltamos! Concordou Ana.

Eles saíram juntos para caminhar. O sol começava a se por e no céu tinha uma briga de cores. Tons avermelhados atrapalhados por nuvens cinzas que começavam a chegar.

Eles caminharam alguns metros e já estavam à uma certa distancia da casa, quando o céu desabou em uma chuva torrencial.

– Eu falei que ia chover! Disse Ana já ensopada.

– Vem, vamos nos proteger aqui.

Eles pararam em uma pequena casa de concreto, que era o ponto onde os carrinhos vinham buscar as pessoas para levar à vinícola.

Eles tentavam se secar tirando o excesso de água de suas roupas, pois ambos estavam ensopados, quando Mark retomou a conversa.

– Vamos Ana, responda. Por que desapareceu dessa maneira? O Michel apareceu aqui convidado por você? Queria me irritar? Porque se era essa a intenção conseguiu!

– Eu não vou deixar você falar assim comigo! Muito menos me acusar de qualquer coisa. Respondeu Ana em um tom de voz mais alto pelo seu nervosismo e também para se fazer entender devido ao barulho que a chuva fazia.

– Assim como Ana?

– Você acha mesmo que eu ia convidar alguém para vir na sua casa e fazer cena só para provocar você? Você não me conhece Mark! Não mereço esse tratamento depois de tudo! E não quero mais ficar aqui com você. Disse Ana saindo de perto de Mark e caminhando em direção à tempestade.

– Onde vai Ana? Está caindo uma tempestade! Volte aqui Ana. Não seja tão irresponsável! E teimosa!

Mas ela ignorou e seguiu caminhando. Mark percebeu que ela não voltaria e correu atrás dela.

– Ana essa tempestade é perigosa. Volte aqui. Gritava ele.

E ela sem responder andava firme, sem intenção de parar.

“Que teimosa!” Pensava Mark no momento em que começou a correr para pega-la. Até que conseguiu alcança-la.

– Hey, pode ser perigoso andar nessa tempestade. Volte aqui. Disse Mark a segurando pelos braços e a empurrando para debaixo de uma grande arvore.

– Por que está tão preocupado? Não pensei que se importasse tanto. Gritou ela.

– Por que estou tão preocupado? Porque quero proteger você. Porque não quero que nada de ruim te aconteça. Porque você mexe comigo de todas a maneiras Ana. O que você está fazendo comigo? Disse ele a encostando em um grande tronco de uma árvore que estava lotada de flores vermelhas, que pintava o chão de vermelho com as pétalas caídas das flores. Sem conseguir resistir, no meio daquela discussão, ele esqueceu das brigas, dos motivos, de Sophie, de Michel, da chuva, dos problemas e a beijou apaixonadamente.

Ana se perdeu naquele beijo e também se esqueceu de tudo. Não tinha nada que ela desejasse mais do que aquele beijo. Aquele beijo que não podia ser mais romântico. Eles estavam protegidos por uma árvore imensa e florida enquanto chovia muito em volta deles. E apesar da tempestade, ela nunca tinha se sentido tão protegida quanto se sentia naquele momento, sentindo os braços fortes de Mark envolver todo o seu corpo.

Eles terminaram de se beijar e Mark encostou a testa dele na dela. Suas respirações ofegantes se misturavam. E ele começou a fazer carinho no rosto dela, sem descolar a testa dele da dela. Era como se ele quisesse manter contato físico para sempre com ela.

– Ah Ana. Disse ele. – É impossível resistir a você. Mesmo quando você me deixa muito bravo.

Ela ficou em silencio aproveitando aquele momento. O reencontro tão esperado, enfim estava acontecendo. Até que ela se conectou rapidamente com a realidade e se preocupou com a tempestade.

– Mark, árvores atraem raios. Acredito que não seja o melhor lugar para nos abrigarmos. Disse Ana de maneira divertida depois de ouvirem um grande trovão.

– Vou precisar concordar com você! Venha! Vamos correr.

Eles correram de mãos dadas de volta para a pequena casa de concreto e ambos estavam encharcados e morrendo de frio.

– Vou chamar um carro para nos buscar. Disse ele. – Acho que já podemos voltar para casa.

Enquanto esperavam o carro chegar, Mark e Ana se beijaram de novo. Dessa vez com calma e com carinho.

– Nunca senti nada parecido por ninguém Mark. Confessou Ana. – Sinto que perco o chão quando estou com você. E a razão também.

– Eu também Ana. Concordou ele, que começava a ficar preocupado com a demora do carro, com a intensificação da tempestade e com o quanto Ana tremia de frio. – Agora preciso tirar você daqui. Precisamos de um banho quente… Bem que você disse que ia chover. Poderia trabalhar como meteorologista.

Ana riu, mas tremia de frio, porque começava a ventar muito. Por isso não conseguia ser muito gentil naquele momento.

“Acho que não precisa ter nenhum diploma para identificar uma chuva chegando quando o céu está como estava quando saímos.” Pensou ela, achando graça.

E o carro finalmente chegou para buscá-los.

– Acabamos não conseguindo conversar. Disse Mark.

– Teremos tempo. Aliás, acha que ainda precisamos conversar? Provocou ela.

– Pensando bem… acho que não. Ele respondeu, já muito mais relaxado.

Eles chegaram em casa e foram tomar banho.

Ana sentia a água quente na pele e ia relaxando cada musculo do corpo dela. O beijo embaixo da arvore cercada por uma tremenda tempestade e a paixão que Mark transmitia não saiam da cabeça e do coração dela.

“O que é isso que eu estou sentindo? Chego até a sentir medo disso.” Pensava Ana arrumando forças para sair debaixo daquela água deliciosa. “Me envolvendo como nunca pensei ser capaz de me envolver, com um príncipe, que tem um reino para herdar, uma avó Rainha e uma noiva prometida que tem a ver com os interesses da família.” A alegria de Ana começava, novamente, a dar espaço para angustia e medo. “Apenas viva o momento.” Dizia para si mesma enquanto se olhava no espelho enrolada em uma toalha. “Sou alguém muito comum, não trago nada de extraordinário, venho de nenhum lugar, não sou interessante para nenhum tipo de acordo com a família real.” Seus pensamentos se voltavam para o problema que alimentava para crescer dentro dela. “Mas mesmo assim, o príncipe não resistiu a você.” De repente parecia que ela começava a ganhar aquela batalha de sentimentos controversos. E assim, se sentindo vitoriosa, foi feliz escolher uma linda roupa para jantar naquela noite.

Quando Ana chegou na sala de jantar, todos já esperavam por ela. Eles iam em direção à mesa quando Mark cochichou no ouvido dela:

– Você está linda. Quando te vi entrando fiquei com vontade de raptar você essa noite.

– Sou toda sua!

Mark ficou sem ar com a resposta de Ana e a partir daquele momento tudo que ele queria era levar Ana dali.

Eles terminaram o jantar e foram para sala. Mark voltou a cochichar para Ana.

– Sairemos daqui a pouco. Pegue uma troca de roupa, porque vamos dormir fora daqui.

– Como assim? Onde vamos?

– Surpresa.

Ana sentiu seu corpo se arrepiar em expectativa.

– O que falo para minha mãe?

– Que vai dormir lá na Cave. Vai me ajudar com algumas coisas de trabalho.

– Peça para que ela não diga nada para ninguém.

– Ok.

– Agora dê boa noite e diga que vai dormir. Pediu ele.

– Mas como vamos passar por aqui?

– Não sairemos por aqui.

– Do jeito que fala parece que vamos sair pela janela. Ana disse em tom de brincadeira.

– E vamos! Respondeu ele de maneira divertida.

– Então vou me preparar para a fuga. Brincou Ana. – Vou dormir pessoal! Boa noite. Pode vir comigo um minuto mãe?

– Claro filha.

Elas saíram da sala e foram para o quarto de Ana.

– O que está havendo Ana? Perguntou Ilonka.

– Nem sei por onde começar.

– Está me assustando filha.

– Não é nada de mais. Eu não podia te contar. Mas não consigo esconder algo tão importante de você.

– Agora estou começando a ficar apavorada. Fale logo minha filha.

– Eu e o Mark ficamos juntos.

– Ai meu Deus! Eu sabia! Disse a mãe colocando a mão na frente da boca e arregalando os olhos. – Minha filha, isso pode ser tão perigoso. Uma simples viagem de trem fez a avó ligar aqui, como se isso fosse comprometer o futuro da Inglaterra. Imagine se começa de fato um caso amoroso. Não quero nem pensar nisso. Ele está noivo minha filha! Vocês perderam o juízo?

– Mãe, não exagere. Não disse que vamos nos casar! Só disse que ficamos juntos.

– Quantas vezes?

– 3.

– Quando?

– Duas vezes, antes de eu ir viajar e hoje.

– Hoje? Mas seu amigo estava aqui. Que horas isso poderia ter acontecido?

– Agora há pouco. Logo que Michel foi embora fomos conversar e aconteceu. Bem debaixo de uma árvore toda florida enquanto chovia forte. Não é romântico?

– Sim, minha filha. Perigosamente romântico. Mas por que me chamou aqui agora?

– Quero te contar que vamos passar a noite fora. Para que você não se preocupe quando acordar e não me encontrar aqui.

– Vocês só podem ter perdido o juízo.

– Mãe, tenho tudo sob controle. Por favor me apoie! Estou me divertindo tanto.

– Não tem o que eu fale que te faça mudar ideia, né?

– Não mesmo!

– Quero que se divirta, mas que encerre essa história logo. Isso não vai acabar bem.

– Combinado! Vou aproveitar enquanto durar.

– Boa noite minha filha.

Ilonka beijou a filha e já ia saindo do quarto.

– Mãe, por favor, não conte para ninguém.

– Não vou contar. Juízo Ana. Pediu a mãe enquanto fechava a porta do quarto.

Assim que a mãe saiu, Ana correu para arrumar uma mochila com uma troca de roupa. Em pouco minutos Mark bateu na porta.

– Oi. Disse ela.

– Está pronta? Disse ele entrando no quarto dela.

– Sim.

– Então vamos! Ele disse enquanto abria a janela.

– Vamos sair pela janela mesmo? Você falava sério? Espantou-se Ana.

– Sim senhora. Disse ele pulando.

– Venha. Ele pediu levantando os braços na direção dela já do lado de fora.

Ana sentiu uma onda adrenalina percorrer seu corpo e pulou.

– Não acredito que estamos fazendo isso. Não era mais fácil você vir dormir aqui no meu quarto? Disse ela recuperando o fôlego já ao lado dele.

– Era! Mas quero viver algo especial com você.

Ana ficou sem fala. “Ele quer viver algo especial comigo.”

Eles andaram até o caminho de pedras onde tinha um carrinho parado esperando por eles.

– Você planejou tudo! Disse Ana ao ver o carrinho.

– Claro que planejei.

Eles entraram no carro e Mark saiu dirigindo. Eles andaram alguns minutos de carro e chegaram no lugar que tinham ido ver o sol nascer na madrugada da festa de aniversário da Ana.

– Vamos dormir nas espreguiçadeiras? Perguntou Ana quando Mark parou o carro.

– Não! Vamos dormir ali. Disse Mark apontando para uma pequena casa.

– Que casa é essa?

– Uma casa de hospedes.

Eles entraram e tudo estava impecavelmente limpo. A decoração era simples e aconchegante.

Antes que Ana falasse qualquer coisa, Mark começou a beija-la. Em poucos segundos estavam tirando as roupas um do outro.

Eles fizeram sexo apaixonadamente, matando as saudades e vontade que estavam um do outro. Ana sentia que cada centímetro do corpo de Mark se encaixava com precisão em cada centímetro do corpo dela. E ele sentia a mesma coisa. Nunca tinham tido tanta química com alguém, como tinham um com o outro.

Mark levou Ana para uma grande varanda onde tinha uma mesa arrumada com frutas, taças de cristal e um balde com uma garrafa do espumante mais valioso da marca deles.

– Que noite especial você planejou! Disse Ana enrolada em uma manta de cashmere.

– Fico feliz que tenha gostado. Um brinde ao nosso reencontro. Propôs ele dando uma taça para ela.

– Eu sempre acho que estamos nos despedindo. Disse Ana.

– Não pense nisso agora Ana. Estamos aqui. Vamos aproveitar.

– Impossível não pensar. Parece que vou acordar a qualquer momento desse sonho.

– Vamos viver esse sonho. Lembra que prometemos sermos a aventura um do outro?

– Lembro! Sejamos a aventura um do outro. Concordou Ana tentando ver o copo meio cheio.

Ele se encantava com ela a cada gesto. A cada olhar. Quando deixou escapar sentimentos importantes.

– Esses dias sem você foram muito diferentes. Confessou Mark.

– Diferentes como?

– Diferentes estranhos.

– Hum… estranhos?

– Sim! Faltava alguma coisa. Tinha silencio demais. Risadas gostosas de menos. Eu sentia falta de ver você chegando com cara de sono para tomar café da manhã. Senti sua falta Ana.

– No Brasil chamamos isso de saudade. Eu adoro essa palavra.

– Isso é tudo que tem para me dizer? Ele perguntou.

– Também senti sua falta Mark. Senti muitas saudades de você.

– Te ver chegar foi uma alegria Ana. E um alívio também.

– Chegar foi uma alegria Mark. E essa alegria veio com a expectativa de finalmente ver você.

Aquelas confissões sobre sentir saudades aliviaram seus corações e trouxeram silencio. Não um silencio ruim, mas algo que dava tempo para ambos processarem o que acabavam de confessar um para o outro.

Eles seguiram ali relaxados bebendo champagne e falando sobre as coisas da vida. Eles não falavam sobre o futuro, não faziam planos, mas curtiam cada segundo daquele momento que viviam juntos. Também, não falaram mais sobre nenhum tipo de sentimento.

Eles pegaram no sono abraçados na espreguiçadeira ali na varanda. Quando o sol começou a nascer, Mark acordou. Ainda era muito cedo. Ele ficou alguns minutos olhando para Ana enquanto ela dormia.

“Não tem nada nesse mundo mais bonito do que você.” Pensava ele, se entregando totalmente à paixão que estava sentindo por ela.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 28 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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