Capítulo 3 – Bochechas Vermelhas

Nina seguia andando com Borges encantada com Roberto, quando seu celular tocou:
– Alô! Nina atendeu com a louca expectativa de ser Roberto.
– Oi Nina. Disse Erica.
– Oi Amiga! Que número é esse?
– Meu novo número. Por que? Está esperando alguém ligar? Perguntou Erica.
– Só se fosse a minha mãe! Riu Nina.
– Onde você está?
– Indo para o parque para o meu passeio com cachorros.
– Vou te encontrar.
– Venha.
– Chego em 30 minutos.
– Combinado. Ainda estou indo buscar os cachorros. Nos encontramos lá.

Nina se sentia feliz como há muito tempo não acontecia. Tinha algo dentro dela dizendo que as coisas iam mudar.
Ela pegou seus 8 cachorros e foi para o parque, como costumava fazer todos os dias. O final de tarde estava particularmente bonito naquele dia.

Ela estava sentada em frente a um grande lago quando Erica chegou.
– Oi Nina! Como você dá conta desse monte de cachorros?
– Oi Erica! Eles são bonzinhos. Que delícia ter companhia. Obrigada por ter vindo.
– Amiga está sendo tão estranho viver aqui de novo. Voltar para a casa dos meus pais. Que retrocesso. Logo eu que tinha uma vida tão minha e tão independente.
– Amiga, nem sei o que te dizer. Não moro com meus pais, mas me sinto totalmente parada no tempo. Não sei por quanto tempo vou conseguir levar essa vida.
– Mas o que há de errado exatamente? Você fala dos trabalhos temporários? Perguntou Erica.
– Falo da vida temporária Erica. Respondeu Nina.

Nesse momento um silencio, quase dolorido, se instalou entre elas.

E Nina voltou a falar.
– Hoje conheci um cara. O dono do Borges. Acho que foi o homem mais bonito que já vi pessoalmente na minha vida. Ele parecia tão bem resolvido, tão independente, tão competente. Me senti tão… pouco perto dele. Ele pareceu muita areia para o meu caminhãozinho. A sensação que eu tenho é que ter me tornado uma pessoa com emprego temporário me diminui e me torna inelegível a um relacionamento com uma pessoa incrível como essa.
– Quanta bobagem! Meu Deus! Acho que nunca ouvi tanta bobagem junta. Você é uma mulher maravilhosa. Linda. Sempre atraiu olhares por onde passou. Não deixe que nenhuma insegurança tire o seu brilho. Sorte do homem que conquistar seu coração. E se esse moço deslumbrante aí não te quiser, ele que é um louco. E vamos combinar que é um pouco cedo para saber que esse homem é tão especial.
– Ai amiga! Queria que o mundo me visse através dos seus olhos.
– Você precisa parar de bobagem. Imagine como será comigo! Não tenho ideia se vou ter capacidade de amar novamente. Lamentou Erica.
– Amiga, você foi a primeira de nós a se apaixonar. Me lembro dos dramas. Não me lembro de você sem estar apaixonada, na verdade! É claro que você vai amar novamente. Disse Nina.
– Pensando por esse lado, as perspectivas até que parecem boas. Você que precisa se abrir para o amor. Nunca te vi enlouquecida de amor.
– Ah minha amiga… acho que sou imune a esse tipo de sentimento…
– Ninguém é Nina! E como você sabe que esse homem é tão especial?
– Eu simplesmente sei. Respondeu Nina.
E nesse momento, a fala de Nina foi interrompida pelo celular dela tocando. Ela atendeu em expectativa.
– Alô. Disse ela.
– Oi Nina! Tudo bem? Aqui é o Roberto.

O coração de Nina acelerou e ela ficou com as bochechas rosadas.
– Oi Roberto! Respondeu ela, sem saber o que dizer.
– Estou ligando para saber se o Borges está bem.
– Ah! Sim. Ele está super bem. Ainda estamos no parque. E ele está te mandando um beijo. “Ai que merda foi essa? Por que eu disse isso meu Deus?” Pensou ela consigo mesma depois de se arrepender completamente da bobagem que tinha acabado de dizer.
– Mande outro para ele. Respondeu ele achando graça.
– Pode deixar. Daqui meia hora devo deixa-lo na sua casa.
– Excelente! Muito obrigado pela sua disponibilidade hoje.
– De nada! Está sendo um prazer.
– Até mais então. Qualquer coisa me liga.
– Pode deixar. Beijo.
– Outro para você. Disse ele ao desligar o telefone.

Nina ficou alguns segundos segurando o celular na orelha depois que Roberto desligou o telefone.
– O Q-U-E F-O-I I-S-SO? Disse Erica arrancando Nina de seu estado hipnótico.
– Acho que foi um caminhão! Que me atropelou e depois deu ré.
– Amiga, nunca te vi assim.
– Assim como?
– Com as bochechas vermelhas e meio que… sem fala. Disse Erica.
– Achei tudo muito normal.
– Foi sim amiga! Bem normal. Suas bochechas ficaram quase roxas. Mas foi tudo normal. Certamente era o homem mais bonito que você já viu pessoalmente.
– Era. Preciso confessar que paralisei amiga. E não costumo paralisar.
– Amiga, paralisar é MARA! Se joga.
– Preciso começar a tentar.
– Definitivamente.

As duas ficaram ali em silencio por mais alguns minutos, olhando o sol se pôr e as pessoas que passavam se exercitando aproveitando os longos dias de verão.

Os pensamentos de Nina ficaram totalmente perturbados. Ela geralmente fugia de situações que tirassem a sua paz. Mas de alguma maneira ela queria cultivar aquela nova obsessão, que tinha surgido despretensiosamente algumas horas antes.

Erica também se perdeu em seus pensamentos. Um frio na barriga trazido pelo medo, acabava por percorrer todo o seu corpo. Ela sempre foi muito decidida e certa de si e de suas decisões, mas nunca tinha se sentindo tão perdida e tão incerta sobre o seu futuro. De repente ela já não sabia de mais nada e tentava desesperadamente ter fé de que tudo iria dar certo.

A noite já dava sinais de sua chegada quando elas foram embora. Erica para um lado e Nina para outro. Se despediram prometendo se encontrar com frequência.
Nina deixou os cachorros em casa e decidiu deixar Borges por último. Tinha uma esperança tola em seu coração que a fazia pensar ser possível encontrar Roberto em casa, quanto mais tarde ela fosse para lá deixar o cachorro.
No caminho para o apartamento de Roberto, Nina seguiu em expectativa falando consigo mesma em seus pensamentos, treinando suas falas, caso se encontrasse com ele.
Já no elevador um pânico tomou conta dela.
“Meu Deus! E se ele estiver em casa? O que vou falar para ele? Nina… pelo amor de Deus pare de bobagem!” Seguia falando consigo mesma enquanto se olhava no espelho.

Ela finalmente chegou e ficou parada em frente à porta, criando coragem para entrar. O cachorro olhava para ela em expectativa.
“Esse cachorro deve me achar uma maluca!” Pensava ela olhando de volta para o cachorro.

Ela respirou fundo e finalmente tomou coragem para colocar a chave na porta.
Ela entrou e encontrou tudo escuro.
Roberto ainda não havia voltado para casa. A escuridão tomava conta de tudo e não deixava dúvidas sobre não ter ninguém na casa. Ela pensou em explorar a casa. Conhecer melhor o Roberto, seus hábitos e preferências. Procurar por fotos de uma possível namorada ou uma família. Mas voltou a ter sanidade. Ria de si mesma por ter considerado essa possibilidade.
Ela colocou água para o cachorro e foi embora.

No caminho para casa ela sentia um misto de emoções e não tinha ideia como um simples encontro com um completo desconhecido tinha despertado aquela inquietude nela.

Ela chegou em casa e seguiu sua rotina de sempre. Tomou banho, checou seus e-mails e começou a procurar por um filme na Netflix. Ela percorria as opções de filmes, mas nada chamava atenção dela a ponto de escolher alguma coisa. Acabou desistindo.
“Acho que vou enviar uma mensagem para ele para perguntar se o cachorro está bem.” Pensava Nina consigo mesma enquanto olhava o celular, no momento em que caiu na gargalhada. Ela ria de si mesma pensando nas ideias loucas que passavam em sua cabeça.
Ela revolveu voltar para o menu que trazia as opções de filmes para assistir.
“Vamos Nina! Concentre-se! Você consegue!” Dizia para si mesma, no momento em que decidiu abrir uma garrafa de vinho. Ela nunca tinha feito isso. Deixava algumas garrafas que comprava em promoções no supermercado para beber com as amigas quando elas iam na casa dela. Mas naquele dia ela quis aproveitar sua própria companhia e resolveu beber sozinha, pela primeira vez na vida.

Ela abriu a garrafa de vinho, se serviu em uma linda taça de cristal e finalmente conseguiu escolher um filme para assistir. Ela não se lembrava do dia em que tinha curtido sua própria companhia como naquele dia.

O filme acabou e com ele quase toda garrafa de vinho. Nina se sentia leve e feliz no momento em que foi para cama.
“Amanhã vou comprar minha passagem para Portugal.” Pensava ela no momento em que caiu no sono.

O dia seguinte chegou logo. Apesar do sol invadir o quarto cedo, Nina seguia dormindo.

Já se passavam das 10 horas da manhã quando o celular de Nina a acordou.
– Alô. Disse ela ao atender ao telefone, em dúvida sobre estar realmente acordada.
– Oi Nina. Tudo bem? Aqui é o Caito. Você pode falar?
– Oi Caito. Posso sim. Disse ela
– Surgiu uma festa importante hoje. Você tem disponibilidade a partir das 20h?
– Tenho sim Caito.
– Vamos prestar serviço na festa de um prêmio no centro da cidade. A festa será no último andar do prédio mais alto de São Paulo. Por favor, chegue mais cedo para pegar seu uniforme. Vou enviar endereço por mensagem no seu celular.
– Perfeito. Estarei lá! Pode contar comigo.
– Até mais então! Beijos.
– Até! Beijos.

Ela desligou o telefone e seguiu ali na cama olhando para o teto curtindo seu momento de ócio.

“Mais um trabalho!” Pensava ela, se sentindo feliz com a boa onda de trabalhos que ela estava vivendo.
“Já fiz o total de grana que costumo fazer em 1 mês em uma semana. Ah e conheci o homem da minha vida ontem!” Ela riu alto de si mesma e se seus pensamentos.

Naquele dia Nina se permitiu não fazer nada. Geralmente ela vivia carregada de culpa por não ter um emprego formal e acabava dando um jeito de se manter ocupada o tempo todo. Mas naquele dia tinha algo diferente.

A tarde passou rápido e Nina se apressou em sair para passear com seus cachorros. Por causa do evento que teria naquela noite, ela precisaria ser mais rápida do que costumava. A falta de tempo acabou afastando Roberto de seus pensamentos e por algumas horas ela parecia ter voltado a ser imune a ele.

Ela voltou para casa e tomou um banho rápido. Caprichou na produção com maquiagem e estreia de roupa nova.

Ela seguia correndo contra o tempo.

Foi de metro para ganhar tempo, e tinha vontade de cumprimentar todos que cruzavam o seu caminho. Ela estava otimista. Tinha uma certeza enorme dentro dela de que ela seria muito feliz.

Quando ela chegou foi recebida por Caíto. Ele era o responsável pelos prestadores de serviços de uma agência de eventos. Era um cara simples, muito batalhador e dono de uma beleza diferente. Moreno de pele bronzeada, cabelos bagunçados e olhos castanhos.
– Oi Caíto. Disse Nina ao chegar.
– Oi Nina! Você está uma gata! Uau!
– Obrigada! Disse Nina surpresa.
– Que bom que conseguiu chegar mais cedo. Algumas pessoas estão atrasadas. Tome aqui o seu uniforme. Vocês terão um treinamento breve em 20 minutos. Vá lá se trocar.
– Combinado! Disse Nina pegando o uniforme.

Ela trocou de roupa e se aprovou no espelho, apesar de estar esperando por um resultado muito pior, depois de ver que tinha até gravata borboleta colorida na relação de peças do unififorme.

Ela estava usando uma calça preta de cintura alta, justa no corpo e uma camisa branca bem cortada. Uma gravata borboleta colorida e sapatos confortáveis de verniz. A roupa valorizava o seu corpo e combinava com sua maquiagem, que trazia um rosto iluminado, delineador preto e batom vermelho. Ela prendeu o cabelo liso e brilhante, igual ao de uma japonesa, em um rabo de cavalo alto.

Ela foi até o local do treinamento onde algumas pessoas já esperavam.
As pessoas eram todas muito bonitas. Homens e mulheres altos, com corpos bem definidos.
“Gente só tem modelo aqui!” Pensou Nina quando viu aquelas pessoas.

Nesse momento uma mulher começou a falar, tirando Nina de seus pensamentos.
– Boa noite! Obrigada por estarem aqui e por terem atendido ao nosso pedido. Desculpem tê-los chamado tão encima da hora. Hoje acontecerá uma premiação para os melhores profissionais de rádio e televisão do ano. São esperadas 500 pessoas. Vamos dividir vocês em 2 grupos. As pessoas com gravatas borboletas coloridas ficarão encarregadas de servir bebidas e as que tem gravata preta, os canapés. Há muitas pessoas famosas aqui hoje, peço que as tratem normalmente. Vocês não podem abraçar, beijar, pedir para tirar foto, pedir autografo a nenhum convidado. Não falem, se não forem perguntados. Alguma dúvida?

Nina estava achando graça. Ela imaginava pessoas com bandejas, deslumbradas, agindo de maneira pouco madura em frente à celebridades.

Eles se direcionaram para a cozinha para encher suas bandejas com drinks e canapés.

Nina encheu sua bandeja com taças de champagne e entrou no salão.

Assim que ela entrou, se maravilhou com a vista. O salão era inteiro ladeado por vidros e era possível ver as luzes da cidade dali. Os olhos alcançavam longe. A paisagem era de cair o queixo.

As pessoas que circulavam ali estavam impecavelmente vestidas e parecia ser uma pessoa mais bonita que outra.

A festa ainda estava vazia, comparada ao número de pessoas que estavam sendo esperadas naquela noite.

Nina seguiu em silencio servindo os convidados perecendo invisível. Algumas celebridades começavam a chegar criando certo alvoroço no local.

A cada celebridade que chegava, mais invisível Nina se sentia. Ela já não falava com ninguém há mais de uma hora quando foi surpreendida por uma pessoa chamando o seu nome.
– Nina?

Aquela voz era familiar. Em segundos ela se lembrou da conversa que tinha tido com Roberto na calçada no dia anterior.

“O Roberto está aqui.” Pensou ela, no momento em que começou a sentir seu rosto ferver.

– Oi Roberto! Ela se virou para responde-lo com as bochechas vermelhas e encontrou o homem mais bonito que ela tinha visto na vida vestindo um smoking.

CONTINUA…
O CÁPÍTULO 4 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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