Capítulo 3 – O que está acontecendo?

Vitoria se sente estranha em relação a tudo que está sentindo e resolve ir para casa. Se despede rapidamente de todos e sai deixando um grande ponto de interrogação no ar. Ninguém entende a saída repentina, muito menos a mudança de humor.

Já dentro do taxi Vitoria tenta esclarecer tudo para si mesma e se perde em seus pensamentos.

“Eu bebi demais, como não fazia há muito tempo. O José estava mais bonito do que nunca em cima daquele palco. E ele é o homem que mais me trata bem no universo. Ele conhece todos os meus segredos. Minhas fraquezas. Meus sonhos. Ele é o homem da minha vida. E ele está prestes a namorar. A Tati vai casar e o fotografo delicioso, oficialmente, não me notou o dia inteiro. Estou carente. O José foi o único homem que me notou quando eu estava invisível. Ele dormiu comigo na noite seguinte ao término do meu namoro e não tentou nada. Ele me respeita. Meu Deus quanta coisa. Quanto álcool. Acho que preciso vomitar. Vou tentar dormir um pouco e acalmar minha mente.”

– Hey, senhora. Dizia o motorista de taxi tentando acordar Vitoria. – Chegamos.

– Ah! Me desculpe. Peguei no sono. Quanto te devo?

– Já está debitado no seu cartão de crédito.

– Ah claro. Então vou indo. Boa noite.

Saiu do carro e sentiu sua cabeça rodando. Teve medo de desmaiar ali na porta do prédio. Conseguiu chegar na sua cama e dormiu profundamente. De roupa e sapatos.

Ao abrir os olhos no dia seguinte, ainda sentia o estomago embrulhado e a cabeça, além de doer muito, parecia pesar muitos quilos. Se levantou e foi até cozinha para tentar comer alguma coisa. Não tinha ninguém em casa. Sua mãe tinha ido visitar uma obra no litoral e a irmã havia viajado com o seu sobrinho.

Ela tomou um café puro e dois analgésicos. Foi tomar banho e de repente os sentimentos da noite anterior se reapresentaram. Seu coração disparou com tanta confusão.

Deitou ainda de toalha em sua cama e ficou contemplando o teto por alguns minutos. Foi tirada de seus devaneios pelo toque do seu celular.

“Meu Deus! É ele!” Pensava ela enquanto via o nome de José no visor de seu celular. “O que eu faço?” E resolveu não atender o telefone.

Alguns minutos depois toca novamente o telefone e dessa vez era a Tatiana ligando. E ela resolveu não atender também. Não estava pronta para dar satisfações.

Ela continuou ali deitada, até que pegou no sono. Os analgésicos finalmente tinham feito efeito e dor cessara. Foi despertada pelo seu celular e quando olhou para a janela já era noite. José havia ligado duas vezes e deixado uma mensagem dizendo que estava preocupado e pedindo para ela retornar. Ela continuava ali deitada ainda de toalha.

Reuniu forças e se levantou. Colocou um pijama e foi assistir a um novo episódio de sua série de TV favorita. Finalmente conseguiu comer um sanduiche.

Já se passavam das 22 horas e ela seguia assistindo um episódio seguido do outro, quando o interfone tocou.

Ela correu para atender e era o José. Ela deixou ele subir.

– Hey, tudo bem com você? Estamos preocupados. Saiu esquisita ontem e sumiu hoje o dia inteiro. Chegou já falando José quando foi dar um abraço nela. – Que alivio te ver bem.

– Está tudo bem. Só bebi demais e passei mal o dia inteiro hoje.

– Poderia ter atendido o telefone né?

– Podia. Não sei porque não atendi. Acho que fiquei com preguiça de conversar.

– O que você está fazendo?

– Assistindo Game of Thrones.

– Posso ficar aqui com você?

“Meus Deus, como ele é bonito. Como não reparei nisso nos últimos 15 anos?” Pensava ela enquanto ele esperava uma resposta.

– Hey Vick! Está estranha. Me responde! Posso ficar aqui com você? Voltou a falar José.

– Melhor não. Estou cansada. Tive uma semana complicada e devo ir dormir logo.

– Tem certeza?

– Você não vai ver a Isabela hoje?

– Acabei de deixá-la em casa. Passei o dia com ela.

– Que ótimo para vocês.

– Você chega a estar engraçada de tão estranha que está. E vou ficar sim aqui com você. Vamos pedir pizza? Assistir a um filme de suspense?

“Ai José se você soubesse o que está passando na minha cabeça ia correr daqui!” Pensava ela quando não conseguiu evitar um sorriso ao rir de seus pensamentos.

– Vamos! Pode ficar. Vai ser legal.

Eles passaram a noite juntos como os grandes amigos que eram. Nada aconteceu. De vez em quando Vitoria se perdia em seus pensamentos, tentando entender seus novos sentimentos por ele. Não entendia como não tinha reparado no quanto ele era lindo nos últimos 15 anos e muito menos porque, depois de tanto tempo, ela estava sentindo isso por ele.

No final do filme, Vitoria pegou no sono e José ficou a observando por uns instantes.

“Que linda é você Vick. Sorte do homem que conquistar de novo esse coração que foi tão machucado.” Pensava ele enquanto olhava para ela.

Ele levou as louças para a cozinha e levou ela no colo até a cama. Deu um beijo na sua testa e deixou um bilhete.

“Você dormiu e te coloquei na cama. Como já fiz tantas outras vezes. Obrigado por me deixar ficar. Espero que você fique bem. Beijo”

Ela lê o bilhete quando acorda no domingo e se sente uma adolescente. Toma seu café da manhã já se sentindo muito mais disposta e sente um tremendo alivio por ter tido uma noite comum com José, como se nunca nenhum sentimento tivesse mudado.

Ela resolve ir andar no parque para sentir um pouco de sol na pele e vento no rosto. Liga a TV para lhe fazer companhia enquanto se troca e descobre que o fotógrafo que ela tinha beijado na sexta estaria inaugurando uma exposição de suas fotos naquele dia. Teve vontade de ir, mas preferiu manter seus planos originais de entrar em contato com a natureza e se manter invisível para ele.

A tarde passa rápido e o dia ao ar livre faz muito bem para Vitoria. A angustia e a ressaca se foram e ela começa a se divertir com tudo que aconteceu com ela naquele final de semana. Ela aproveita o final de tarde para fazer um de seus programas preferidos. Passa em uma livraria antes de ir para casa para comprar um novo romance para ler.

Depois de alguns minutos na livraria percorrendo as estantes de romances escolhe um com o título “Feitos um para o outro”, que tem como trama central uma paixão que surge entre dois amigos de infância depois de muitos anos de amizade. Ela acha graça e vê aí uma oportunidade de viver esse romance proibido que ela tinha inventado.

Quando ela chega em casa sua mãe já está de volta. Ela fica feliz ao ver a mãe e se dá conta que estava com saudades.

– Oi mãe! Diz enquanto corre para abraçá-la.

– Oi Vick! Tudo bem, filha?

– Sim! Tudo bem. E você? Tudo bem? Como foi a viagem?

– Foi ótima. Deu tudo certo no trabalho e conheci alguém.

– Não acredito! Quem? Como? Me conta!

Havia anos que Helena não se envolvia com ninguém. Sempre cuidou mais da vida das filhas e do neto do que da dela. Ela tinha 55 anos e era uma mulher muito bonita. Uma morena que lembrava a Luiza Brunet. Foi princesa da cidade na cidade de interior em que nasceu e cresceu, de onde só se mudou quando foi para São Paulo fazer faculdade.

– Foi sem querer. Respondeu a mãe, já sem graça.

– Como assim sem querer? Quero detalhes. Quero nome. Saber até onde essa relação já evoluiu. Essas coisas.

– Que ansiedade! Eu sou das antigas. Uma relação na minha época não evoluía muito em um final de semana em que você acabou de conhecer a pessoa. Ele é o engenheiro responsável pela minha obra em ilha bela. Nós nos interessamos um pelo outro assim que fomos apresentados. Trocamos olhares os dia todo. Tomamos drinks depois do trabalho e nos beijamos à luz do luar.

– Que romântico. E ele é bonito? Tem foto? Como chama? Quantos anos?

– Ele é muito charmoso. Se chama Roberto Salles. Especializado em construções sustentáveis. Ele é muito interessante.

– Vou procurar no google. Mãe ele é famoso no meio! Tem um monte de fotos aqui. E ele é um gato. Estou feliz por você.

– Eu também. Já combinamos de sair para jantar amanhã. E você minha filha? Como está?

– Estou me recuperando e cheia de boas expectativas. Fiquei com um fotógrafo famoso na sexta. Mas não dei meu telefone para ele.

– Ainda em recuperação?

– Sim! Ah e o José apareceu com uma namorada e a Tati vai se casar. Foi pedida em casamento.

– O José namorando. Tinha certeza que um dia ele iria se declarar para você. Ele é um bom moço. Nunca entendi vocês nunca terem ficado juntos.

“Pensando bem, nem eu.” Refletia Vitória, achando graça.

– Você acha mesmo mãe? Por que?

– Sei lá filha. Coisas de mãe boba. Vamos fazer um brigadeiro e comer de colher na frente da TV? Sugere empolgada a mãe já não dando mais a menor importância para o assunto.

“Eu queria que você falasse mais sobre essa intuição ou desejo de mãe boba… Mas de repente é melhor parar por aqui.” Pensou Vitoria.

– Sim! Vou fazer o brigadeiro. E você vai escolher o filme.

Em alguns minutos estavam mãe e filha debaixo das cobertas assistindo uma comédia romântica que tinha acabado de estrear na TV a cabo e devorando o brigadeiro.

Durante o filme, Vitoria checou várias vezes o celular para ver se haviam novas mensagens.

– Hey o que esta acontecendo minha filha? Você não para de olhar para o celular? Ninguém ligaria a essa hora da noite em um domingo.

– Nada mãe. Apenas a força do habito.

– Você pensa que me engana? Só pode estar acontecendo alguma coisa.

– Não mãe. Não está acontecendo nada. E tentava ela mesma se convencer disso enquanto respondia para a mãe.

Apesar da resposta que tinha dado para a mãe, ela continuava com a mesma dúvida que pairava sobre o seu coração desde a sexta feira de madrugada. Ela procurava por mensagens de José. Sem ter como explicar, depois de terem tido uma noite normal que havia a deixado muito aliviada no dia anterior. Mas a grande conclusão do final do dia era que estava sim acontecendo alguma coisa e ela precisava resolver isso para voltar a ter paz.

CONTIUA…

O CAPÍTULO 04 SERÁ PUBICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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