Capítulo 31 – Não acredito que vocês estão aqui

A fisioterapeuta foi embora e Cadu parecia mais feliz do que o normal. Nina encontrou o irmão e estava louca para contar as novidades sobre o livro, mas o estado de espirito do irmão chamou sua atenção.

– Hey! Parece feliz! Como foi sua sessão de fisioterapia? Nina perguntou.

– Foi muito boa. A cada sessão que tenho me sinto mais pronto para voltar a andar e viver minha vida. Mais esperançoso.

– Isso é demais! Te vejo cada dia melhor.

– Me sinto cada dia melhor.

– E que tal a nova fisioterapeuta?

– A Cassiana?

– Sim! Ela respondeu achando graça.

– Ela foi muito atenciosa.

Nina ficou olhando para ele em silêncio.

– Atenciosa? Ela perguntou.

– Sim. Atenciosa.

– E a Carolina não é atenciosa?

– Claro que é. Ambas são atenciosas.

Ela pensou em provocar o irmão, sobre Cassiana, mas entendeu que era melhor não tocar nesse assunto.

– E o que vamos fazer hoje? Ele perguntou.

– Hum! Não sei. Está animado para sair?

– Sim!

– Que legal te ver animado assim. Vamos fazer algo que você goste muito.

– Quero tentar caminhar na praia.

– Então vamos. Vamos naquela que você adora.

– Não. Lá ainda não estou pronto para ir. Era onde eu e Cecília levámos as crianças. Ainda não estou pronto para voltar lá.

– Então vamos em outro lugar.

– Vamos! Vamos ficar aqui em frente.

– Vou trocar de roupa e saímos em 10 minutos. Pode ser?

– Vou resolver um tema com Alfredo e saímos em 10.

Nina deu um beijo no irmão e foi se trocar.

Ela se sentia feliz por ver o sorriso voltar para o rosto do irmão. As coisas finalmente pareciam estar voltando para o lugar. Ela penteava o cabelo se olhando no espelho e se perdia em seus pensamentos.

“Que saudade do Bob. Ele mal foi embora e estou morrendo de saudades. E não tenho ideia de quando o verei novamente. Até quando conseguiremos viver assim? Preciso ligar para ele para contar sobre o retorno do Jaime. Será que vou mesmo conseguir publicar o meu livro?” E com esse pensamento vinha frio na barriga.

“Vou aproveitar essa manhã na praia e escrever um pouco.”

Ela pegou seu computador, arrumou uma sacola com mantas para estender na areia e correu para sala encontrar o irmão. Ela sentia uma tremenda felicidade de constatar que seu irmão estava vivo e que ela estava finalmente tendo encontros reais com ele, depois de 2 meses em Portugal.

Eles foram caminhando até a praia. Foi uma caminhada curta e logo eles chegaram.

– Como gosto daqui. Disse Cadu ao chegarem.

– Também gosto daqui! Disse Nina finalmente curtindo Portugal.

Ela estendeu as mantas no chão e eles se sentaram.

– Essa perspectiva é muito boa. Disse Cadu olhando o mar.

– Também acho. Concordou Nina.

– Feliz com o noivado?

– Sim! Muito feliz.

– Acho que você poderia voltar para casa e ir cuidar da sua vida Nina. Está tudo bem por aqui.

– Cadu. Está tudo bem por aqui. Mas você ainda não está andando. As meninas precisam de mim, porque acabaram de perder a mãe.

– Nina, eu nunca vou conseguir te agradecer por tudo que tem feito por nós.

– Você não precisa agradecer.

– Preciso sim! Sei a que está renunciando.

– Não estou nada.

E a partir daí eles ficaram em silêncio, olhando o mar, sentindo o calor do sol aquecer a pele e o vento entrando pelo nariz e acalmando o corpo e amente.

Os pensamentos de Cadu foram longe e de repente ele pensou em Cassiana. Ele se sentiu mal por isso. Quase envergonhado de pensar em outra mulher. Rapidamente espantou aqueles pensamentos dali.

Enquanto Nina pensava em suas amigas, na vida que tinha que adorava e em Roberto. Ela tentava adivinhar como seria o futuro com ele. Como seria viver uma vida com alguém que tinha uma vida tão glamorosa. Ela sentiu medo. Mas rapidamente tentou espantar aqueles pensamentos. O medo, a saudade, a sensação de renúncia foram substituídas pela felicidade que ela estava sentindo naquele momento. Num exercício de escolha de pensamentos ela escolheu seguir pensando em coisas boas.

– Me conte do seu livro. Perguntou Cadu quebrando o silencio.

– O editor me disse que vai apresentar meu material para uma grande editora. Estou tão animada. Nem te contei.

– Que legal! Quando foi isso?

– Hoje de manhã! Enquanto você fazia fisioterapia.

– Você merece! Sempre escreveu muito bem. Imagina ter uma irmã escritora?

– Estou muito animada com a possibilidade de publicar meu livro. E estou morrendo de saudade das minhas amigas. Minha vida mudou tanto. Nina desabafou.

– Eu posso imaginar. Me preocupo com a sua felicidade.

– Mas estou feliz aqui. Não se preocupe. Passei um mês dormindo e acordando com os pensamentos em você meu irmão. Orando para que você sobrevivesse e acordasse. Quando estamos diante disso, tudo perde importância. Até as coisas muito importantes. Eu faria tudo de novo. Mas agora que as coisas estão entrando no lugar outras coisas importantes começam a aparecer novamente nos meus pensamentos. Essa história que estou escrevendo, se inspira na minha vida com elas e já não ficamos juntas há muito tempo. Estou realmente com saudade delas.

– Mas vocês tem se falado?

– Pouco! A Erica já está aqui há quase 3 meses e não sei se está feliz. Daqui 4 meses nasce a filha da Maju e eu não sei se vou ve-la grávida de barrigão. A Mel vai se casar e não estou perto dela ajudando com tudo sobre a festa, como sempre pensei que estaria. De repente já nem sei mais como vou terminar esse livro.

– Ah minha irmã. Vá ver suas amigas.

– Não tenho como fazer isso.

– Convide elas para virem aqui.

– Essa pode ser uma boa ideia.

– Acho que deveria chama-las.

– Farei isso.

– E já disse que pode voltar para sua vida.

– Estou na minha vida Cadu. A vida muda. Já mudou tantas vezes. Essa é mais uma mudança. As pessoas importantes sempre ficam.

– Já estou com saudades do papai e da mamãe. E eles acabaram de ir embora.

– Eu também. Engraçado com a gente se acostuma com a distância. Mas basta ficar perto para a distância começar a doer de novo.

– Você tem razão. Sabe que comecei a pensar sobre ir morar de novo no Brasil.

– Mas você construiu coisas importantes aqui.

– Mas posso reconstruir lá.

– Deixe para pensar nisso depois. Agora o foco é sua completa recuperação.

Ele respirou fundo.

– Você tem razão. Mas tudo mudou. E sinto que tenho oportunidade de recomeçar e acho que quero fazer isso perto de vocês.

– Seja o que for. Você saberá o que fazer.

– Será que vou me apaixonar por alguém de novo? Perguntou Cadu mudando de assunto.

– Claro que vai. Nosso corpo foi projetado para isso.

– Me parece tão impossível.

– Agora sim! Mas daqui a pouco não será mais.

– Espero que sim! E quanto a você, chame suas amigas para virem para cá. E se programe para ir ver o Roberto. Faça uma surpresa para ele. Te dou de presente a passagem. Surpreenda ele, como ele tem feito com você.

– Sabe que isso poderia ser uma boa ideia.

– Qual parte?

– As duas! Vou falar com as meninas e vou programar uma surpresa para o Roberto.

– Mande agora uma mensagem para as meninas. Vou gostar de ve-las também.

– Farei isso! Disse Nina pegando o celular.

Ela criou um grupo no celular e enviou uma mensagem:

“Hoje estou sentindo mais saudades de vocês do que achei seria possível sentir. Coisas incríveis tem acontecido comigo e não estou conseguindo compartilhar com vocês. A vida toda foi assim. Algo bom acontecia e eu corria contar para vocês. Sinto falta do nosso cotidiano e da proximidade. Queria muito estar com vocês agora para contar as novidades. Meu irmão está cada dia melhor e agora a saudade de vocês está explodindo em meu coração. O que acham de programarem umas férias rápidas e virem uns dias ficar aqui comigo. Convite do Cadu. Venham meninas por favor! Só contarei as novidades pessoalmente. E quero saber tudo de vocês. Erica e a vida nova, Maju e sua barrigona crescendo e Mel e os preparativos do casamento. Amo vocês.”

“Nina, que saudade! Quero saber essas novidades. Estou indo para Paris a trabalho e estava planejando mesmo uma visita para vocês. Pode contar comigo! Vamos meninas?”

“Pedindo férias agorinha! Quero viajar antes que minha barriga não permita mais. Também quero saber das novidades.”

“Eu já pedi alguns dias. Vamos combinar! Vou mesmo se ninguém for. Pode tratando de contar suas novidades! Não vamos esperar.”

O coração de Nina estava em festa! A vida ficava muito melhor quando falava com as amigas. Ela passou o endereço.

“Me avisem quando estiverem chegando para eu botar a água do café para ferver. Amo vocês! Estou morrendo de saudades.”

– Acho que elas se animaram para vir. Nina disse para Cadu.

– Tomara que elas venham. Nossa casa precisa de gente.

Eles seguiram ali em silencio e ambos se perderam novamente em seus pensamentos.

– O verão começa na semana que vem, mas já parece verão. O vento está mostrando que o verão está chegando.

– Você é muito poetiza Nina. Desde sempre vendo poesia das coisas. Só tinha mesmo que ser escritora.

– Será que vou ser escritora?

– Você já é.

– Mas e se não der certo publicar o livro?

– Independente de publicar você já escreveu a história. Já escreveu o livro. E isso por si já faz de você uma escritora.

– É verdade. Já sou uma escritora. E por falar nisso. Vou escrever um pouco e aproveitar essa paisagem. Trouxe o computador. E uma garrafa de vinho. Quer tomar uma taça comigo?

– Você trouxe vinho! Minha irmã poetiza.

– Sim! E queijos também.

Ela serviu as duas taças e eles fizeram um brinde. Nina se envolveu com a sua história e Cadu se perdeu em seus pensamentos.

Eles já estavam ali em silêncio, há pouco mais de uma hora quando foram surpreendidos por Alfredo.

– Aí estão vocês. Disse Alfredo ao chegar.

– Como acho a gente aqui? Perguntou Cadu.

– Passei lá para dar um oi e Arminda disse que vocês tinham saído a pé. Imaginei que estariam por aqui. Oi Nina! Como foi a viagem?

– Oi Alfredo! Foi muito legal.

– Está escrevendo? Quanto falta para terminar o livro?

– Falta um pouco.

– Estou curioso para ler a história.

– Assim que terminar imprimo para você.

– Posso me sentar aqui com vocês?

– Claro meu amigo. Senta aqui do meu lado.

Nina serviu uma taça de vinho para ele.

– Vai se casar Nina? Perguntou Alfredo ao ver o anel do dedo dela.

– Sim! O Roberto me pediu em casamento na viagem.

– Que romântico! Parabéns Nina. Ele respondeu, sem conseguir esconder que tinha ficado contrariado.

– Obrigada! Ela respondeu entregando a taça para ele.

Cadu e Alfredo começaram a conversar e Nina se entregou novamente para a sua história.

Já eram mais de duas horas da tarde quando decidiram ir almoçar. Foram caminhando até o restaurante preferido de Cadu. Depois do almoço ele conseguiu caminhar na areia e se ajoelhou para agradecer pela sua vida. Seguiram o resto da tarde ali e foram embora no entardecer buscar as meninas escola.

Naquela noite Alfredo parecia não querer ficar longe deles e ficou para o jantar.

Eles seguiram noite a dentro tomando vinho e conversando. Alfredo olhava de maneira encantada para Nina, que aos seus olhos parecia cada vez mais bonita. As bochechas dela estavam coradas pelo vinho e as risadas a deixavam ainda mais charmosa. Algo nela hipnotizava Alfredo completamente.

A noite seguiu divertida e o vinho ajudava a trazer leveza e alegria.

Já era tarde quando Nina pegou no sono no sofá. Alfredo e Cadu seguiram conversando. Na hora de dormir Cadu foi acordar Nina, mas Alfredo não deixou.

– Eu levo ela pra cama.

– Alfredo, Alfredo. Disse Cadu.

– Não se preocupe. Tenho total consciência de tudo. Quero só que ela durma bem.

– Ai meu amigo. Tomara que tenha consciência.

– Vou leva-la e vou te ajudar. Ele respondeu.

Alfredo pegou Nina no colo e foi leva-la para cama. Ele voltou e ajudou Cadu.

– Você gosta mesmo dela né? Perguntou Cadu.

– E tem como não gostar?

– Ela é mesmo demais.

– Vamos dormir cara. Matei uma tarde de trabalho hoje e preciso chegar cedo amanhã.

– Vamos!

– Te ajudo.

– Não precisa cara! Vou te levar na porta.

– Não precisa. Boa noite Cadu.

– Até amanhã.

Alfredo se despediu e foi embora. Cadu conseguiu se virar bem para se arrumar para dormir e se sentia feliz por estar cada vez mais independente.

O dia seguinte amanheceu chuvoso e Nina foi levar as meninas para escola. Quando chegou o irmão fazia fisioterapia com a nova fisioterapeuta.

Cassiana foi embora e Nina encontrou Cadu cantarolando.

– Vejo que tem alguém feliz hoje. Disse Nina.

– Estou mesmo me sentindo feliz hoje.

– Como fui parar na minha cama ontem?

– O Alfredo te levou.

– Ele sempre me leva.

– Como assim?

– Numa outra vez peguei no sono e ele me levou.

– Ele gosta de você.

– Não sei de onde você tira isso.

– Não sei como você não percebe isso.

E nesse momento o telefone de Nina começou a tocar.

– Oi Bob! Ela disse atendendo o telefone.

– Oi meu amor. Como estão as coisas por aí?

– Muito bem! Ontem o Jaime me disse que uma editora de São Paulo parece estar interessada na minha história.

– Que boa notícia.

– Estou ainda mais inspirada para escrever.

– Estou com saudades. Ele disse.

– Eu também.

– Depois que passo um tempo com você, fica ainda mais difícil focar longe de você.

– Nem me fale.

– Não vamos falar disso. Já estou aqui planejando a próxima vez que vamos nos ver.

– Alguma ideia?

– Ainda não. Mas estou buscando uma oportunidade. E queria que soubesse que pode vir quando quiser e tiver um tempo aí.

– Meus pais foram embora hoje. Mas a recuperação do meu irmão está indo bem. As perspectivas são positivas.

– Que bom meu amor. Preciso ir. Bom dia para você e até breve.

– Bom dia para você também! Até logo.

– Te amo.

– Te amo.

Ela respondeu e desligou o telefone.

Nina passou o dia dedicada à sua história e Cadu saiu para fazer sua primeira reunião de trabalho depois do acidente. No final do dia Alfredo trouxe Cadu e as crianças para casa e mais uma vez ficou para o jantar. Ele de alguma maneira fazia tudo ficar mais leve e Nina ficava cada vez mais feliz com a presença dele porque de alguma maneira ela se sentia amparada.

O final de semana chegou e o sábado começou animado. Nina tomava café da manhã quando a campainha tocou.

Como sempre ela sempre tinha esperança de ser Roberto atrás da porta, mas acabava rindo dessa expectativa.

Quando ela abriu a porta, seu coração quase saiu pela boca de tanta felicidade.

Ela deu um grito!

– Não acredito que vocês estão aqui!

E correu abraçar Mel, Erica e Maju.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 32 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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