Capítulo 33 – Beijo Roubado

Nina acordou na segunda-feira e todos já tinham saído. As meninas estavam na escola, Arminda tinha ido ao supermercado, como fazia todo início de semana e Cadu já tinha feito sua sessão de fisioterapia e saído para um compromisso de trabalho. Era o primeiro compromisso dele fora de casa depois do início de sua recuperação.

Ela tomou café da manhã e foi para varanda escrever. Aquele era o primeiro dia do verão e ela completava 3 meses em Portugal. A partida de suas amigas no dia anterior deixava um tremendo buraco no peito dela. Ela abriu o computador, mas seus pensamentos se perderam na linda paisagem.

“O que será da minha vida meu Deus? Todos parecem ter uma vida, menos eu. Pareço eternamente de férias. Mais algumas páginas e terminarei minha história. Acho que vou economizar o final da história, para escreve-la por mais tempo. Que bobagem Nina! Termine logo essa história e comece outra. Você não pode ser uma escritora de um livro só. O que será que o Bob está fazendo agora? Que saudade que estou dele. Esse deserto não acaba mais. Estou aflita sem notícias dele.”

Ela resolveu ligar para Roberto. E o telefone chamou. Ela se encheu de alegria com a perspectiva de conseguir falar com ele.

– Alô! Ele atendeu.

– Bob! Que delícia te ouvir. Estou aqui morrendo de saudades.

– Nina! Estou chegando em Los Angeles, ainda na estrada. Estava esperando o sinal de celular para te ligar.

– Te liguei primeiro. Estou com muitas, mas muitas saudades. Como foram as filmagens no deserto?

– Foram incríveis. Fomos até a fronteira com o Mexico. Acabou durando mais do que esperávamos. Tudo bem por aí?

– Sim! Por aqui tudo bem. Fora as saudades. Mas acho que já disse isso.

– Também estou morrendo de saudades de você. Por que não vem ficar uns dias comigo? Teremos apenas mais um mês aqui. Venha por uns dias por favor.

– Vou tentar.

– Promete?

– Prometo.

– Então estou te esperando aqui.

– Me manda o seu endereço.

– Sua linda! Assim eu acredito que você vem. Vou te enviar o endereço de casa e do estúdio. Venha logo.

– Vou me programar.

– Quero te levar em lugares incríveis aqui. Quando estive nesses lugares, só conseguia pensar no quanto queria que você estivesse lá comigo e prometi a mim mesmo que voltaria com você.

– Então se prepare para voltar para esses lugares em breve. Prometo que vou.

– Venha meu amor.

– Vou falar com o Cadu e te dou notícias. Até já então.

– Até já meu amor.

– Beijo

– Beijo.

Nina desligou o telefone suspirando. Não existia nada e nem ninguém capaz de fazer tão bem ao coração dela como o Roberto. A conversa com ele foi o suficiente para ela se inspirar e voltar a escrever.

Ela passou o resto da manhã escrevendo e já era do almoço quando Cadu chegou animado.

– Oi Nina! Tudo bem por aí?

– Oi Cadu! Bem e com você?

– Tudo ótimo. Acabei de conseguir um caso importante para o escritório.

– Que legal! Parabéns.

– As meninas chegaram bem no Brasil?

– Só a Maju voltou para o Brasil. A Erica voltou para a Espanha e a Melina está em Paris a trabalho, essa semana toda.

– Ah é verdade! E a Melina está bem?

– Acho que sim! Não falei com ela. Mas por que está tão interessado?

– Nada! Só queria saber se elas estão bem.

– Acho que estão bem.

– Vamos almoçar? Ele convidou, mudando de assunto.

– Vamos! Estou morrendo de fome.

Eles chegaram na cozinha e encontraram Arminda terminando de almoçar, com a mesa posta.

– Vocês demoraram. Ela disse. – Devem estar morrendo de fome.

– Um pouco! Disse Cadu.

Eles se serviram.

– Falei com o Roberto e ele ficará mais 1 mês em Los Angeles. Estou pensando em ir para lá passar uma semana com ele. O que você acha? Perguntou Nina.

– Acho uma excelente ideia. E por falar nisso. Acho uma delícia ter você aqui comigo, mas acho que você deveria considerar voltar para a sua vida Nina. Já paralisou muito por mim. Você disse que uma editora estava interessada no seu livro lá no Brasil. Você precisa ir conversar com eles. Você não pode perder uma oportunidade dessas.

– Cadu, só saio daqui quando a sua vida voltar ao normal. As meninas precisam de mim.

– Será uma delícia ficar com você aqui. Só me preocupo com a sua vida.

– Falei com o editor depois que enviei o material e ele me disse que ia mostrar para editora e que entraria em contato assim que tivesse notícias. Caso eu precise muito ir para lá, daremos um jeito.

– Prometa que não perderá nenhuma oportunidade por minha causa.

– Não perderei nenhuma oportunidade.

– E sobre sua viagem para os Estados Unidos, me diga quando quer ir te darei de presente.

– Não precisa Cadu.

– Nina será um presente. Tem uns dias que estou pensando em um presente para te dar em agradecimento a tudo que tem feito por mim e pela minha família.

– Você é o melhor irmão do mundo. Vou sentir falta de ficar pertinho de você assim.

– Sabe que estou pensando em me mudar para o Brasil com as meninas. Vou falar com a mãe da Cecília. Se ela vier comigo, me encorajo a ir para lá.

– Eu ia amar tanto se você se mudasse para lá.

– Estou considerando essa possibilidade. A vida sem a Cecília não tem sentido aqui. Quero ficar perto de vocês. Quero que as meninas cresçam perto da família.

– Acho que a nossa vida seria incrível por lá.

– Eu não tenho dúvidas. Conversei com o Alfredo e vamos nos tornar sócios. A ideia é criar um grupo de advogados que tenha escritórios em diferentes países.

– Que ideia maravilhosa. Vocês são muito competentes. Tem tudo para dar certo.

– Vamos ver no que isso vai dar. Agora me diga quando quer ir para os Estados Unidos.

– Nem ideia. Na sexta?

– Que tal amanhã?

– Amanhã?

– Sim! Amanhã. Acho que você está precisando de uma aventura minha irmã. Vou comprar uma passagem para você ir amanhã. Sem volta marcada. Você escolhe o dia de voltar.

– Nunca imaginei comprar uma passagem sem data de volta.

– Então aproveite e faça as malas

– Cadu! Obrigada! Ela disse se levantando para abraçar e encher o irmão de beijos.

Eles terminaram o almoço e cada um voltou para seus temas de trabalho. Cadu foi para o escritório e Nina voltou para a sua história.

No final do dia eles foram juntos buscar as meninas na escola.

No caminho Cadu disse.

– Já comprei sua passagem! Já avisou o Roberto que está indo?

– Não vou avisar! Vou fazer uma surpresa para ele.

– Boa ideia!

– Adoro quando chega a hora de pegar as meninas na escola. Nina disse, sentindo um enorme amor no seu coração.

– Eu também! Tenho muita sorte de ter filhas tão incríveis e ainda mais sorte por ter tido uma segunda chance com elas.

– E nós temos sorte de termos tido uma segunda chance com você. Eu jamais me perdoaria se você tivesse morrido sem ter vindo te ver antes. Depois de tantas vezes que tentei vir e acabei priorizando outras coisas. Acho que essa era minha maior angustia enquanto esperava você acordar.

– Ainda bem que tivemos uma segunda chance.

– Ainda bem. Aprendi tanto com isso tudo Cadu. Agora olho para o importante. Nunca mais deixarei o importante para depois.

– Também aprendi sobre isso.

E com esse sentimento de gratidão eles pegaram as crianças na escola e resolveram fazer algo divertido, fora da rotina com elas. Antes de voltar para casa, eles decidiram parar para tomar sorvete e curtir o primeiro dia do verão.

Foram caminhar na praia e todos se molharam no mar, mesmo de roupas. Cadu já conseguia caminhar sem muita dificuldade e era a primeira vez que ele se molhava no mar desde o acidente.

A sensação era de gratidão misturada a felicidade.

Nina olhava o irmão e via um milagre acontecer com seus próprios olhos.

O momento foi abençoado e a sensação deles podia ser sentida por quem passava por perto.

Nina caminhava, empurrando a cadeira de rodas do irmão e de olhos nas meninas, quando o celular dela tocou.

– Alô!

– Oi Nina! Disse Melina empolgada.

– Oi Mel.

E nesse momento Cadu olhou empolgado e disse:

– Mande um beijo para ela.

Nina estranhou.

– O Cadu está te mandando um beijo.

– Ah! Mande outro para ele. Melina respondeu suspirando.

– Mandarei. Como está Paris?

– Ainda mais linda no verão. Preciso te contar uma coisa.

– O que?

– Promete não me julgar?

– Amiga! Peloamordedeus! Sou eu! Quando fiz isso com você?

– Verdade. Preciso te contar algo e tirar do meu coração.

– Claro! Diga.

– Prometa que não vai falar para ninguém. Nem para o Cadu. Implorou Melina.

– Prometo. Estou começando a me preocupar.

– Não paro de pensar no seu irmão.

Nina engoliu em seco.

– Como assim?

– Não sei explicar. Algo que eu sentia 10 anos atrás está mais presente do que nunca. Quase nos beijamos. E estou até agora pensando como seria o beijo.

– Isso é novo. Posso te ligar mais tarde. Estamos voltando para casa. Preciso olhar as meninas. Te ligo assim que chegar e continuamos. Pode ser?  Nina pediu tentando disfarçar para que Cadu não percebesse que estavam falando dele.

– Claro! E ele está aí. Te espero.

– Isso! Te ligo. Te amo Mel.

– Te amo Nina.

Nina desligou o telefone sem saber o que falar.

– Ela está bem? Perguntou Cadu.

– Sim! Está bem.

– Ela está deslumbrante. Não me lembrava que ela era tão linda assim.

– Ela é mesmo demais. Respondeu Nina sem saber muito bem o que falar para o irmão.

– E as malas? Terminou de arrumar? Está animada? Ele perguntou querendo mudar de assunto.

– Ainda não! Vou arrumar chegando em casa. Estou mais do que animada! Acho que não vou conseguir dormir essa noite.

– Lembra que a gente não dormia na véspera das viagens? Ele perguntou.

– Lembro! Ela respondeu empolgada. – Bons tempos!

– Bons tempos… Ele concordou.

E partir dali ficaram em silencio, curtindo a paisagem enquanto voltavam para casa.

Quando chegaram em casa, ainda estava de dia. Tomaram banho, jantaram e fizeram uma noite de jogos e histórias com as meninas. Nina ligou para Melina, mas ela não atendeu.

Na hora de dormir Nina foi arrumar sua mala e uma enorme excitação tomava conta dela. Já deitada na cama ela pensava sobre a viagem que faria no dia seguinte e a empolgação levava todo o seu sono. Mesmo cansada, ela não conseguia dormir.

O dia amanheceu e a viagem foi a primeira coisa que passou em seus pensamentos. Ela olhou seu anel de noivado na mão direita e uma onda de gratidão e felicidade tomou conta do coração dela.

“Estou chegando, meu amor!” Ela pensava enquanto levava a sua mão ao coração.

O dia passou rápido e Nina mal se deu conta já era hora de ir para o aeroporto.

Ela esperava o voo em expectativa repassando as cenas que ela viveria em algumas horas com o amor da sua vida.

O avião decolou e Roberto tomou conta de todos os seus pensamentos. Apesar da expectativa e da ansiedade ela dormiu.

Nina sonhava com Roberto quando foi acordada.

– Hora do café da manhã. Estamos chegando em Los Angeles. Uma voz dizia no microfone.

E Nina sentia seu coração acelerando em expectativa.

O avião pousou e em poucos minutos Nina estava aguardando sua mala e pensando sobre a forma que chegaria surpreendendo Roberto em seu escritório.

Ela pegou sua mala e saiu em busca de um taxi. Era início do verão e aquele dia estava particularmente quente. Um bafo fervendo a recebeu no momento em que ela pisou fora do aeroporto em Los Angeles.

Um frenesi tomou conta dela. Ela finalmente conhecia mais um lugar de sonhos e em poucos minutos estaria com Roberto e mataria a enorme saudade que estava dele.

O taxi percorria ruas lotadas de pessoas estilosas, alguns vestindo bermudas e outras saias minúsculas.

Nina ia enchendo o coração de felicidade enquanto o carro a levava até Roberto.

Ela chegou e o seu coração seguia acelerando.

Ela entrou no estúdio e se intimidou um pouco. O lugar era enorme. Tudo muito minimalista, com poucos móveis e canos aparentes no teto.

Nina caminhava, um pouco constrangida quando um rosto conhecido apareceu na frente dela.

– Nina? 

– Clara! Ela disse.

– Oi Nina! Que legal te ver aqui. O Roberto sabe que está aqui? Vou avisar que você chegou.

– Eu vim para fazer uma surpresa.

– Que legal! Ele vai amar. Nina não tem um único dia que ele não fale de você. Aliás, parabéns pelo casamento. Ele contou que pediu sua mão em Paris. Vocês definitivamente foram feitos um para o outro.

– Ah! Foi tão especial. Estamos muito felizes.

– Ele está radiante desde então. Vamos lá. Vou te levar ao escritório dele.

– Vamos. Nina respondeu ansiosa.

Elas caminharam por corredores escuros.

– É bem ali. Clara disse apontando para a sala. Vou te pedir licença. Porque acabei de ver que a pessoa com quem tenho uma reunião já chegou. Tudo bem?

– Claro! Vou até lá sozinha. Você já me ajudou muito. Boa reunião para você.

– Ok! Bom encontro para vocês!

Clara foi para sua reunião e Nina caminhou em expectativa. Alguns passos depois uma grande parede de vidro já mostrava a sala de Roberto e ele estava lá conversando com uma mulher.

“Ele está conversando com a Raquel!” Nina constatou se apavorando.

A mulher viu Nina se aproximando. Roberto estava de costas para o vidro. Ela se aproximou dele e antes que Nina chegasse na sala, Raquel beijou Roberto.

Nina paralisou. Ela não podia acreditar no que estava vendo e no mesmo instante se virou e percorreu o caminho que tinha feito até ali apressando os passos.

Ela saiu do estúdio e assim que viu a claridade, sentiu o ar entrar novamente em seus pulmões e desabou a chorar.

“Isso nunca daria certo!” Ela pensava enquanto seu fôlego se perdia em suas lágrimas. “Não acredito que ele fez isso comigo.”

Ela tentava voltar a pensar para decidir o que fazer.

“Preciso de um táxi! Vou embora daqui.”

Ela chamou um táxi e quando entrou, não tinha ideia para onde iria.

Quando entrou ficou em silencio por alguns segundos. O taxista não entendia o que acontecia.

Quando finalmente ela falou.

– Aeroporto, por favor.

E ele seguiu em direção ao aeroporto.

Ela chegou no lugar que tinha estado poucas horas atrás e andava de uma lado para o outro sem saber o que fazer.

Depois de algum tempo tentando materializar tudo que tinha visto e estava sentindo, ela decidiu voltar para Portugal. Foi até o guichê e marcou sua volta para o voo mais próximo, que partiria em 4 horas.

Ela estava no portão de embarque aguardando seu voo e chorando. Descrente sobre ainda ter lágrimas para chorar quando o telefone dela começou a tocar.

Era o Roberto ligando.

Ela não atendeu.

Ele ligou mais de 10 vezes, até que enviou uma mensagem para ela.

“Pelo amor de Deus, me atende!”

Ela olhava o telefone e as lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela não respondeu. “Eu nunca mais vou falar com você” Ela pensava enquanto as lágrimas seguiam rolando pelo seu rosto.

Ele voltou a enviar mensagens.

“A Clara me contou que você estava aqui. Eu te juro que o que você viu foi uma armação. Meu amor. Eu te amo tanto. Fica comigo. Me atende! Me diz onde você está. Não desiste de nós.”

Ela seguia paralisada, chorando, sem forças para nada. E simplesmente respondeu.

“Acabou.”

“Não faz isso comigo. Com a gente. Foi um grande mal entendido. Me deixa explicar.”

Ela desligou o telefone e as lágrimas seguiam rolando em seu rosto.

Uma senhora de cabelos brancos, tocada pela cena, ofereceu um lenço de papel e uma garrafa de água para Nina.

– Obrigada! Ela respondeu, aceitando a oferta.

– O que houve para você estar assim? A mulher perguntou.

– Acabei de desistir do homem da minha vida.

– Por que você faria isso?

– Eu não sei! Ela respondeu, desabando em lágrimas e constatando que ela realmente não sabia.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 34 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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