Capítulo 4 – Engolindo em Seco

Nina ficou olhando para Roberto com cara de maravilhada. Ele seguia olhando para ela, esperando que ela falasse algo.

– Oi Roberto! O que você está fazendo aqui?

– Oi Nina. Disse ele, dando um beijo na bochecha dela. – Seus cachorros não foram passear hoje?

– Sim! Foram. Claro que foram. Fui antes de vir para cá.

– Então além de passear com cachorros, você também trabalha servindo bebidas em festas?

– E comida também!

– Uma mulher multitarefas!

– Isso.

E antes de que Roberto falasse alguma coisa. Matilde, a coordenadora, os interrompeu.

– Com licença. Desculpe atrapalhar, mas preciso falar com a Nina.

– Claro. Disse ele. Não quero atrapalhar. Bom trabalho Nina.

– Boa festa Roberto.

– Até mais. Disse ele constrangido, indo embora em seu smoking que o deixava ainda mais deslumbrante.

– Eu pensei ter sido bem clara sobre não interagir com os convidados. Disse Matilde brava.

– Você falou sobre celebridades, na verdade.

– Não importa! Não me desafie Nina.

– O Roberto é um amigo! Ele me chamou. Trocamos algumas palavras.

– Que fique de aviso Nina. Não quero ver você de conversa com mais ninguém! Nem com amigos! Você está sendo paga para servir e não para curtir a festa.

– Certamente! Concordou Nina, sentindo a humilhação correr em seu sangue.

– Melhor assim! Agora, de volta ao trabalho. Não vou avisar novamente.

– Já entendi Matilde.

Matilde ficou muda e Nina entendeu que era hora de voltar ao trabalho.

Ela voltou a circular com a bandeja de drinks e a festa já estava bem mais movimentada. Seu humor tinha ido embora e ela se sentia a gata borralheira.

Algumas voltas pelo salão e ela encontrou novamente com Roberto.

– Espero não tê-la prejudicado. Disse ele pegando uma taça de champagne da bandeja dela.

– Não me prejudicou. Não se preocupe. Agora preciso ir. Adoraria ficar aqui conversando com você, mas… Desculpe! Disse Nina já oferecendo drinks para a pessoa ao lado.

– Eu adoraria que você ficasse. Disse Roberto enquanto ela se afastava.

Ela saiu dali sem ouvir o que Roberto respondeu e continuou no modo automático, servindo os convidados. Ela sentia seu corpo arrepiar quando estava perto de Roberto, perdia a fala, esquecia as palavras e não conseguia entender o que estava acontecendo exatamente.

De repente encontrar Roberto se transformou na fascinação dela naquela noite. Mas ao invés de Roberto, ela só encontrou pessoas que nada diziam a ela.

Finalmente chegou a hora do primeiro intervalo dela e Nina agradecia aos céus por aquele momento só dela.

“O que será que ele faz aqui? Será que está concorrendo a algum prêmio? Será que ele trabalha na televisão? Pensava Nina enquanto bebia água em uma taça de cristal muito chique e olhava para as estrelas e a cidade lá embaixo.

E mesmo tentando mudar a direção de seus pensamentos, ela acabava se perdendo em Roberto novamente.

“Ele de smoking e eu de uniforme servindo bebidas. Isso parece o universo me dizendo que eu só posso estar maluca de pensar que eu e o Roberto talvez possamos estar juntos em qualquer situação. E que lindo ele estava de smoking. Que homem é esse meu Deus?”

Nina seguia suspirando quando ouviu alguém chamando o seu nome e entendeu que era de voltar ao trabalho.

Ela seguiu o resto da noite procurando por Roberto, mas não o encontrou mais. A noite começou a se arrastar e apesar das muitas celebridades presentes ali, nada nem ninguém era capaz de roubar seus pensamentos.

Já era quase 1 hora da manhã quando finalmente a festa acabava e ela finalmente podia ir embora.

Nina pensava sobre a noite e no encontro com Roberto, enquanto esperava seu taxi.

“Que coincidência foi essa? Qual a chance de isso acontecer? O que você está querendo me dizer Universo?

Ela entrou no carro e foi para casa pensando em Roberto. Isso a fazia ter certeza que algumas coisas precisavam mudar.

“Um homem desses nunca vai olhar para mim.” Era o que ela pensava quando pegou no sono.

O dia amanheceu chuvoso e Nina ficou na cama. Sem compromissos, sem trabalho temporário, sem perspectivas. Nem seus cachorros ela veria naquele dia. O gosto da cena da conversa com o Roberto de smoking enquanto ela segurava uma bandeja e usava uniforme ainda trazia algum amargor para a sua boca. E com esse gosto, ela seguiu o resto do dia.

No final da tarde Maju ligou.

– Hey Nina, tudo bem aí?

– Tudo! E com você?

– Estou saindo de um cliente e não vou voltar para a agência. Vamos tomar uns drinks? Quero aproveitar que o Beto está em casa e ter uma noite só minha. Vou ligar para as meninas também.

– Claro! Vamos aproveitar sua liberdade. Onde vamos?

– Nos Karls. Até já reservei uma mesa.

– Boa! Vamos. Estou com saudade do Karls. Sempre que vou lá beijo na boca.

– Tomara que hoje não seja diferente. Nos vemos lá às 18h. Pode ser?

– Pode super! Até já Maju.

– Até. Beijo.

Nina tomou coragem para ir tomar um banho. As amigas eram sempre algo que alegrava o seu coração. E seria a primeira vez que sairiam juntas, as quatro novamente, desde a mudança de Erica para a Espanha.

Quando Nina chegou no bar, Maju já estava esperando na mesa.

– Oi Maju!

– Oi Nina. As meninas devem estar chegando.

– Que delícia de programa. Quanto tempo que não fazíamos isso.

– Olha Nina. Nunca imaginei que a vida de adulto era tão insana. A gente passa a vida trabalhando. Não sobra tempo para viver. A vida é muito estranha. Às vezes me pego pensando nisso em determinado momento do dia. E fico me perguntando: O que essas pessoas estão fazendo com a sua própria vida?

– Queria dizer que a minha vida é bem diferente. Não fico enfiada em um escritório o dia inteiro sem ver a luz do dia. Mas passo os dias sem ter ideia se vou ter o dinheiro do aluguel. Eu vendo o almoço para pagar o jantar e te garanto que isso não me dá uma visão tão romântica da vida.

– Não tem vida perfeita. Ser adulto é mesmo um saco. E de pensar que a gente vivia querendo crescer. Lamentou Maju.

– Me lembro dos nossos combinados como se fosse hoje.

– Lembra das noites de fogueira no sítio?

– Lembro. A gente devia voltar lá. Empolgou-se Nina.

E nesse momento chegaram Mel e Erica.

– Oi meninas!

– Que delícia esse encontro.

– Estávamos falando das noites no sítio dos seu pais Erica. Disse Maju.

– O que vocês acham de voltar lá? Propos Erica.

– Estávamos falando justamente isso. Seria uma delícia voltar lá.

– Vamos marcar. Meus pais seguem cuidando de lá como se fosse um filho. Nunca mais voltei lá.

– Aquele lugar é bem especial. Disse Melina.

– Um brinde à nós! Propôs Maju no momento em que os shots de tequila de todas chegavam.

– A nós! Disseram em coro e logo beberam de uma vez só todo conteúdo do copo.

– Ainda bem que tenho você. Se declarou Nina.

– Ai que fofa! Ainda bem que temos você! Disse Maju.

– E os preparativos do casório? Perguntou Nina para Melina mudando o assunto da mesa.

– Ainda nem comecei a pensar na verdade. Tenho trabalhado tanto. Mal vejo o Arthur. Planejar casamento não está cabendo na minha rotina insana. Minha esperança é que o ritmo melhore a partir do mês que vem, depois da semana de moda Paris.

– Você não tem do que reclamar! Você vai para Paris todo ano. Tem o emprego dos sonhos. Viaja para os lugares mais incríveis a trabalho. Disse Erica.

– Amiga, o primeiro ano foi um sonho, no segundo eu ainda achava que estava sonhando acordada, no terceiro, seguia maravilhada… no quarto ano eu já ia meio angustiada e agora chega janeiro e eu começo a ficar em pânico. Não quero ir para Paris de novo. Não quero a rotina insana. Estou cansada de tudo isso.

– Aparentemente a grama do vizinho é sempre mais verde. Disse Maju.

– Com certeza. Disse Erica. – Agora contem alguma novidade boa. Algo novo.

– Esse é ponto. Não há nada novo na minha vida. Disse Melina.

– Amiga, você acabou de ser pedida em casamento. Isso é novo. Disse Nina.

– Bom, mas isso vocês já sabem.

– Mas vale! Disse Erica.

– Eu tenho uma novidade. Disse Maju. – O Beto me convidou para fazer uma viagem. Só nós dois. Vou tirar férias depois de 2 anos sem emendar feriado. Vamos para o Caribe, tomar sol e drinks coloridos. Estou tão empolgada!

– E vai namorar amiga! Disse Nina. – Eu não tenho novidades para compartilhar. Emendou Nina.

– Nina, eu presenciei uma novidade essa semana. Provocou Erica.

– Do que está falando? Perguntou Nina.

– Das bochechas vermelhas.

– Ah! Isso não é uma novidade que mereça ser contada.

– Bochechas vermelhas sempre são novidades a serem contadas. Vamos conte! Incentivou Maju realmente curiosa.

– Mel lembra o dia que almoçamos juntas e um homem me ligou para passear com o cachorro dele?

– Sim! Me lembro.

– Então. Ele acabou de se mudar para o bairro e me ligou para passear com o cachorro dele. Moramos na mesma rua. Quando vi o Roberto fiquei meio paralisada. Eu não acreditava que ele era de verdade. Ele é deslumbrante. O homem mais bonito que eu já vi pessoalmente. Mas foi isso. Não tivemos nada. Ele nunca me deu sinal nenhum e achei ele bonito e ponto.

– Amiga, você ficou sem fala quando ele te ligou. Tentando falar as palavras certas. Ele não é qualquer um. Vamos admita que seu coração está abalado. Provocou Erica.

– Ok! Admito que estou sentindo algo diferente.

– Isso merece um brinde! Disse Erica.

– Não até a senhorita contar sua novidade. Propôs Melina a Erica.

– Não tenho novidades, além das últimas que contei para vocês. Que não são nada empolgantes, mas que são o que são. As minhas novidades. Estou começando de novo meninas e me sinto pronta!

– Isso sim merece um brinde! Propôs Nina.

– Então vamos brindar! Ao nosso reencontro. À nossa amizade de mais de 20 anos. Aos nossos amores, os que já conhecemos e os que vamos conhecer. Propôs Erica.

– Um brinde a todo esse amor. Propôs Nina.

– A todo esse amor. Disseram elas em coro no momento em que viraram mais um shot de tequila.

A noite seguiu animada e por algumas horas as quatro pareciam novamente as adolescentes sonhadoras e sem problemas, cheias de planos e otimismo sobre o que estava por vir.

O bar já estava vazio quando elas decidiram ir para casa. Se abraçaram e prometeram repetir sempre.

Naquela noite não teve beijos na boca de desconhecidos, nem porre, nem choro por desilusões de amor. Naquela noite, de alguma maneira as meninas se sentiam amadas umas pelas outras. E de repente aquele amor fez muito para cada uma delas e mostrou que amor pode ser de muitas formas e tamanhos.

Nina não conseguia dormir. Tinham sentimentos difusos lutando dentro do seu coração. De repente Roberto assumiu o controle de seus pensamentos. Ela tentava entender o porquê daquele fascínio, curiosidade ou o que quer fosse o nome. Pela primeira vez na vida ela não fazia ideia do que estava acontecendo ou que nome dar para o que sentia.

O fato era que ele tinha dominado os pensamentos dela e ela ainda não sabia nada sobre ele. Ela nem sequer sabia se ele era tão apaixonante assim.

E pensando em Roberto, tentando responder às muitas perguntas que tinha sobre ele, ela pegou no sono.

O sábado amanheceu claro e ensolarado e Nina ficou animada em retomar a vida. Naquele dia, além dos passeios com cachorros, ela tinha uma performance de LOL em uma festa infantil. O mês dela seguia sendo promissor em relação aos trabalhos temporários.

Os pais dela iam chegar para passar alguns dias na casa dela e isso a trazia uma alegria enorme para o coração.

Ela se apressou em levantar e preparar uma linda mesa de café manhã para receber os pais.

Enquanto ela terminava de ajeitar as coisas, o pais chegaram.

– Minha filha! Que saudade! Disse a mãe assim que ela abriu a porta.

– Obrigada por estarem aqui. Respondeu Nina abraçando a mãe ainda mais forte.

– Oi minha filha! Como você está?

– Bem pai! Agora ainda melhor. Obrigada por estarem aqui.

– Minha filha, nós que agradecemos. Respondeu o pai também abraçando Nina.

– Fizeram boa viagem?

– Sim! Viemos rápido. O transito estava ótimo.

– Falei com o Cadu essa semana! Contou Nina.

– Tenho falado bastante com ele. Morro de saudades dos meus filhos. Derreteu-se a mãe.

– Precisamos nos planejar para ir para Portugal visita-lo.

– Eu prometi para ele que eu iria. Disse Nina.

– Você sempre promete! E nunca vai minha filha. Ele tem reclamado disso. Disse que as meninas te adoram e sentem a sua falta.

– Eu vou! Esse ano eu vou.

– Vamos juntos! Vamos fazer uma surpresa para ele. Propôs a mãe.

– Vamos planejar.

– E como andam as coisas Nina? Perguntou o pai.

– Tudo bem! E as obras pai?

– Melhores que no mesmo período do ano passado.

– Isso é bom! Alegrou-se Nina. – Você merece pai!

– Obrigado minha filha! E que linda mesa preparou para nós.

– Vocês merecem. E preciso dizer que a vida fica bem melhor quando vocês estão por perto. Derreteu-se Nina.

– Como está sua programação hoje filha? Perguntou o pai.

– Hoje vou trabalhar em uma festa e fazer o meu passeio com os cachorros. Saio de casa por volta de cinco da tarde e volto perto das dez.

– Então vou levar sua mãe para jantar em um lugar especial.

– Acho que devem. Disse Nina. – Há muitos lugares gostosos aqui perto. Dá para ir a pé. Vou fazer uma relação de lugares para vocês.

– E vou levar minhas meninas para um almoço especial e surpresa. Disse o pai empolgado.

– Adoro surpresas! Empolgou-se Nina se sentindo uma criança.

Eles seguiram ali em volta da mesa por mais de uma hora, como não faziam há meses e exatamente como faziam quando Nina era criança. As conversas em volta da mesa criaram deliciosas lembranças em Nina.

A manhã acabou passando rápido, como estavam passando os dias ultimamente.

O pai de Nina as levou no restaurante que sempre iam quando Nina e o irmão ainda eram crianças.

O lugar tinha uma jardim com um lago enorme e parecia um paraíso no meio da selva de pedras da cidade.

A tarde foi acompanhada de muito vinho e muita conversa boa.

Nina se sentia feliz e se dava conta de que não tinha pensado nenhuma vez em Roberto ao longo do dia.

Já era final de tarde quando voltaram para casa e Nina foi se arrumar para passear com seus cachorros. Naquele dia ela se arrumou mais do que o normal. A possibilidade de encontrar Roberto a fez até passar batom.

Ela pegou seus cachorros e ficou alguns minutos esperando seu telefone tocar na esperança que Roberto ligasse pedindo para que ela pegasse Borges. Mas o telefone não tocou.

Ela se sentou embaixo de sua arvore de sempre no parque e seus pensamentos estavam longe quando alguém chamou pelo seu nome.

– Nina?

O coração dela acelerou.

– Oi Roberto! Disse ela surpresa.

– Oito cachorros! Como você consegue?

– Eles são bonzinhos.

– Ainda assim! Você é uma garota surpreendente.

– Não sou nada! E o Borges, como está? Senti falta dele hoje. Achei que você me pediria para ir com ele. Disse ela fazendo carinho na cabeça dele.

– Eu gosto de passear com ele. Vou sempre que posso. E esse parque enorme tão perto de casa é um grande estímulo. Aproveito para fazer algum exercício.

– Faz sentido! E ele é um bom cachorro. Disse Nina sem saber o que dizer.

– Ele é sim… Estou curioso Nina.

– Sobre o que?

– Sobre você.

Nina engoliu em seco e se surpreendeu completamente com a fala dele. Ela ficou ali processando o que tinha acabado de acontecer e buscando as melhores palavras para responder.

                                                     CONTINUA…

              O CAPÍTULO 5 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

 

 

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