Capítulo 4 – Virando o Jogo

O dia começou agitado com muitos novos briefings chegando e a necessidade de conseguir um novo rosto com potencial que era o pedido de um cliente e sua chance de conseguir fazer algo relevante no trabalho. Por isso Vitoria fez uma demorada avaliação de possíveis novos talentos. Consultou todas as novas campanhas e checou os nomes de todos os modelos do último fashion week que aconteceu em São Paulo. Estudou as tendências de moda e comportamento que eram disponibilizadas todos os anos por um bureau de tendências. Ela sabia que descobrir um novo talento poderia ser valioso para uma possível promoção, o que lhe daria mais reservas para ela poder ter finalmente a cada dela. E ainda a ajudaria manter a cabeça ocupada para que ele não pensasse em bobagens sobre a sua relação com José.

O final do dia chegou logo e tudo ocorreu como o planejado. Seu dia de busca e pesquisas foi totalmente inspirador, mas ela ainda não tinha o novo rosto para um dos seus briefings, apesar de ter conseguido resolver todos os outros.

Resolveu que passaria a semana rodando lugares da cidade em busca do tal rosto desconhecido.

A semana foi repleta de trabalhos e Vitoria precisou passar mais tempo em estúdio do que tinha planejado. Portanto lhe sobrou pouco tempo para buscar o novo rosto. O que começou a lhe gerar certa angustia, já que tinha prazo para responder ao único briefing que ainda estava pendente naquela semana.

A sexta chegou e com ela a angustia da pendencia, porque Vitoria não conseguia encontrar o rosto ainda desconhecido e ela passaria quase toda a sexta-feira em estúdio acompanhando o trabalho de 2 modelos.

O fotografo, mais uma vez, seria o Eric e isso lhe causava certo frio da barriga. Ela pensava sobre a possibilidade de não estar mais tão invisível como da outra vez, depois dos beijos que trocaram.

Mas o dia começou e ela tinha voltado a ser invisível. Ele era muito simpático com todos, mas realmente parecia não notar ninguém além das modelos, do diretores de criação das campanhas e dos clientes.

Ele sabia usar a luz certa para tornar real cada um dos pedidos dos diretores de criação. No final tudo parecia um pouco poético, enquanto acontecia. Nesse dia estava participando do shooting uma modelo muito famosa que veio exclusivamente da Inglaterra para o trabalho. Então tudo parecia também um pouco mais glamuroso.

Vitoria, mesmo se sentindo invisível e odiando temporariamente o seu trabalho, sentiu que muitas pessoas gostariam de ganhar dinheiro para fazer o trabalho dela. Comer bem, viajar, conhecer pessoas famosas e badaladas, ter acesso a grandes festas, passar o dia em um estúdio onde uma mágica com poesia acontece, ver coisas bonitas o dia inteiro. Ela entendeu que precisaria ser mais grata e reclamar menos da parte difícil da vida dela.

Enquanto observava todo aquele ballet acontecendo, onde tudo fluía com graça e a fazia sentir-se grata, uma mensagem no celular interrompeu seus pensamentos e era de José. Seu coração disparou e ela pensou que ele sairia pela boca.

“Oi Vick, tudo bem? Vou cantar hoje à noite no NOW. Se anima?”

Ela se animaria com certeza, não fossem os sentimentos estranhos que ela tinha começado a cultivar naquela semana. Mas não queria viver aquilo tudo de novo. Achou melhor evitá-lo.

“Hum… acho que não. Estou trabalhando, sem hora para sair daqui.”

“Que pena! Tem um amigo meu louco para te conhecer que estará lá. Se animar… estaremos lá.”

Ele queria apresentar um amigo dele para ela e ela se sentia triste por isso. “Não quero nenhum amigo seu…quero você.” Pensava ela. E resolveu não dizer mais nada.

O dia de estúdio foi produtivo e acabou antes da hora prevista. Vitoria aproveitou para tomar um açaí em um bar a beira da calçada aproveitando o final de um dia quente de verão.

Ela aproveitava o por do sol e se sentia grata pelas boas coisas da vida. Tinha uma boa intuição sobre José. Sentia que consertaria as coisas antes que ficassem mais serias. Pensou sobre sua semana produtiva e inspiradora no trabalho e de repente em meio aos seus pensamentos, uma menina de uns 18 anos no máximo, pediu o porta-guardanapos de sua mesa. Ela era linda, mas não tinha uma beleza nada comum. Olhos verdes amendoados, pele dourada, cabelo castanho levemente avermelhado repicado na altura dos ombros. Magra, mas não sem graça, e tinha 1m80.

Na hora que colocou os olhos na menina, ela se deu conta que o rosto desconhecido que precisava tanto acabara de ser encontrado.

– Oi! Claro, pode pegar. Respondeu Vitoria.

– Obrigada! Responde ela com um sorriso encantador.

– Desculpe te aborrecer. Mas como você se chama?

– Luna. E você?

– Vitoria. Muito prazer. O que você faz Luna? Já trabalhou como modelo?

– Estou no primeiro ano da faculdade de jornalismo. E não. Nunca trabalhei como modelo. Sou desengonçada demais para essas coisas.

– Sou agente de modelos e acho que você não parece nem um pouco desengonçada. Eu estou procurando um rosto exatamente como o seu. Você teria interesse em fazer algumas fotos? Tenho uma campanha de uma joalheria com um excelente cachê. Pense e me ligue na segunda, se tiver interesse.

– Que legal! Nunca tinha pensado, mas vou pensar e te ligo. Obrigada!

– Obrigada a você. Disse Vitoria lhe entregando um cartão.

E assim terminou a semana para Vitoria, sem nenhuma pendencia, e isso a fazia sentir-se muito bem. Foi para casa caminhando, devagar. Olhando as pessoas e sentindo o ar entrando em seus pulmões.

Ela se sentia grata. Não pensou nenhuma vez em José. Curtiu seu sobrinho que retornara de uma semana de férias com a sua irmã. Conversou com a irmã e fizeram planos juntas. Recebeu atualizações sobre o novo romance da mãe que ia ficando cada vez mais sério.

No sábado de manhã foi despertada por Tatiana.

– Vick, bom dia! Está tudo bem? Você sumiu. Disse a amiga verdadeiramente empolgada.

– Oi Tati! Sim, está tudo bem. E com você, tudo bem?

– Sim. Tudo ótimo. Gostaria de te fazer um convite. E quero saber se podemos almoçar juntas.

– Claro. Vamos no nosso restaurante preferido?

– Sim. Nos encontramos lá às 13h. Pode ser?

Vitoria desligou o telefone curiosa sobre o convite. “Deve ser algo relacionado ao casamento. Pensou ela. E foi tomar seu café da manhã.

Passou a manhã sozinha em casa, arrumou seu guarda-roupas e decidiu que precisava comprar roupas novas. O universo foi impondo que ela ficasse invisível de tal maneira que se refletiu até nas suas roupas. “Em que momento, uma apaixonada por moda como eu, me permiti ficar tão sem graça?” Pensava ela enquanto tirava uma pilha de roupas velhas para doar.

Escolheu uma roupa básica para seu encontro com a melhor amiga. Mas dessa vez saiu de vestido jeans e tênis. Estava estilosa. Como sempre arrematou o look com uma bolsa grande e uma maquiagem leve, mas com um olho bem delineado e esfumado com um lápis kajal. Ela se sentiu bonita pela primeira vez em meses.

Quando chegou no restaurante, Tatiana já a esperava em uma mesa na varanda e ficou muito feliz com a chegada da amiga.

– Oi Vick! Que linda! Fazia tempo que não te via tão bem arrumada.

– Ai Tati, estou precisando me reencontrar comigo mesma. Permiti coisas demais nos últimos meses que acabaram minando a minha autoconfiança.

– Você passou maus bocados. Mas já passou. Está na hora de sair desse luto. Deixar para trás.

– Não estou me referindo somente ao fim do meu namoro. No trabalho e na vida estou me colocando como antagonista das histórias. Parece que sou uma telespectadora, que assiste, mas não vive de fato. Preciso reaparecer.

– Então um brinde a sua reaparição. Disse Tatiana levantando sua taça suada pelo vinho rose extremamente gelado.

– Um brinde a minha reaparição e ao seu casamento! Complementou Vitoria empolgada.

– E por falar nisso. Quero que você seja a minha madrinha. E quero que você participe de todos os preparativos desse grande dia. Aceita?

– Claro que aceito minha amiga querida! Respondeu Vitoria emocionada, enxugando as lágrimas nos olhos. – Minha amiga de tanto tempo, com quem eu brinquei de boneca, dividi toda a emoção do primeiro beijo, da primeira transa. Com quem eu falei sobre os nomes dos filhos que teríamos. A amiga com quem me vestia de noiva e fazíamos casamentos. Lá atrás. Quando tudo era muito mais fácil e mais simples. Essa minha amiga vai se casar. Meu Deus! Que emoção Tati. Que feliz estou por você. Por esse convite. E por você ser minha amiga e ter me dado o presente de dividir tantas coisas importantes da vida comigo, como esse momento que está dividindo agora. Obrigada! 1000 vezes obrigada. Disse Vitoria com a voz embargada pelo choro levantando para abraçar a amiga.

E assim ficaram por alguns segundos. Abraçadas e chorando de emoção. Uma no abraço da outra.

Passado o choro e a emoção elas se jogaram nas garrafas de vinho rosé e se divertiram tarde a dentro.

Vitoria não se lembrou da traição recente, nem de José, nem de suas frustrações profissionais. Naquela tarde ela parecia não ter nenhuma bagagem.

Já no final do dia, um arrepio começou no estômago e percorreu seu corpo todo ao se lembrar das possibilidades de trazer um novo rosto ao mercado com a Luna. Seria a primeira vez que ela conseguiria fazer isso desde que começara a trabalhar na agência.

E assim, cheia de expectativas, ela terminou seu final de semana e foi dormir esperando pela ligação que poderia enfim, começar a mudança que ela tanto queria.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 05 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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