Helena lamentava ter ido dormir tão tarde depois de beber tanto vinho na noite anterior. Seu dia estava repleto de coisas para fazer e à noite aconteceria a comemoração do aniversário da Lara. Logo, aquele dia parecia interminável.

O dia se arrastou e Helena seguia com dificuldades para se concentrar. Ela já estava atrasada para encontrar as amigas no bar onde Lara ia comemorar o aniversário e depois do dia bastante desafiador, aquele final de dia não parecia muito animador. Ela terminava de salvar sua apresentação, que faria para um cliente no dia seguinte, rezando para que o computador colaborace para ela terminar logo e encerrar aquele dia difícil, em que nada parecia estar dando muito certo.

 A apresentação finalmente estava salva e ela respirou aliviada.

“Enfim, tudo parece estar melhorando.” Ela pensava no momento em que seu celular apitou anunciando a chegada de uma nova mensagem.

“Oi Helena, tudo bem? Espero que sim. Faz tempo que não nos falamos. Nos últimos 10 anos nunca ficamos tanto tempo sem nos ver ou conversar. E você não retornou nenhuma das minhas mensagens. Não consigo acreditar que nossa separação é para sempre. A data da minha ida para os Estados Unidos chegou. Estou indo no próximo sábado. Não queria ir sem te ver. Hoje vou fazer uma festa de despedida e queria muito que você fosse. Vai ser no Pub Irish e espero que possa passar por lá. É isso! Sinto sua falta. Beijo, Gustavo”

Helena lia e relia a mensagem e já não conseguia sentir nada. Uma leve tristeza passava por ali, mas algo tinha mudado dentro dela. A forma como tudo aconteceu fez congelar o coração dela. E ela parecia ter um filtro de frieza transformando tudo o que ele dizia.

Ela resolveu responder rápido e friamente:

“Gustavo, espero que você esteja muito feliz e te desejo toda a sorte do mundo nessa nova fase da sua vida. Eu não posso hoje. Já tenho compromisso. Mas te desejo tudo de melhor. Beijo, Helena”

Ela enviou e sentiu uma enorme libertação.

“Era isso que eu precisava! Dizer boa sorte para ele!” Helena pensava enquanto se preparava para ir embora, finalmente.

Ela já estava com a bolsa no ombro, quando sua chefe a chamou.

– Helena pode vir até a minha sala, por favor?

– Claro! Estou indo. Ela respondeu lamentando o episódio.

“O que mais universo? O que mais você me reserva para hoje?” Ela pensava enquanto caminhava rumo à sala se sua chefe.

– Oi Marta! Estou aqui! Disse Helena ao chegar.

– Helena! Ainda bem que está aqui! Preciso muito de um favor.

– Diga.

– Você tem compromisso hoje?

– Na verdade tenho. Mas o que você precisa?

– O Philipe, gerente da unidade da França, está aqui no Brasil, pra nossa reunião para apresentação da concorrência amanhã. Nós íamos fazer um happy hour com ele e leva-lo a algum lugar típico aqui, pois é a primeira vez que ele vem pra cá e está louco para conhecer o Brasil, mas tivemos um problema com as planilhas para a reunião de amanhã e só podemos sair daqui com isso resolvido.

– Você não me chamou aqui para tentar resolver problemas de planilha, né? Helena perguntou de maneira divertida.

– Não. Te chamei aqui para você me salvar. Leve o Philipe em algum lugar, por favor!

– Marta, isso é mesmo necessário? Eu nunca vi esse homem na minha vida. Sobre o que vamos falar?

– Perfumes?

– Ok! Eu vou turistar com o Philipe. Na verdade vou encaixar ele no meu happy hour. Hoje é aniversário de uma das minhas melhores amigas e será num bar bem tradicional no centro com uma vista panorâmica da cidade! Logo me parece perfeito.

– É perfeito! Vou te agradecer eternamente.

– Vou cobrar! Onde o Philipe está? Helena perguntou de maneira pragmática.

– No hotel aqui perto. Foi deixar as malas e tomar um banho.

– Vou busca-lo.

– Você é a melhor funcionária do planeta. Vou avisar que vc vai com ele e encontramos vocês mais tarde quando tudo se resolver com as planilhas.

– Ok! Não estou fazendo nada demais. A propósito, enviei a apresentação de amanhã para sua validação.

– Você é demais! Vou olhar. Estou certa que estará excelente, como sempre.

– Você que é! A chefe mais inspiradora que alguém pode ter.

Helena saiu animada da conversa com a chefe, apesar da conversa ter mudado um pouco os planos daquela noite.

Em poucos minutos ela estava no hotel de Philipe, que ficava bem perto do escritório.

Ela esperava no carro, quando ele apareceu.

“Uau! Então você é o Philipe? A Marta não me disse que você era gato assim.” Helena pensava no momento em que ele entrou no carro.

– Boa noite! Muito prazer Helena. Fico feliz em finalmente conhece-la.

– Olá Phillipe. Também fico feliz em conhece-lo.

– Você é famosa no escritório de Paris.

– Sou? Porque eu seria?

– Dizem que tem nariz de perfumista. Além de cuidar dos principais clientes do Brasil.

– Mas que honra! Quero muito ser perfumista e vou começar a me capacitar esse ano. Vou tirar um mês de férias e vou fazer um curso em Paris.

– Acho que deveria.

– Então está decidido. Ela brincou.

– Onde estamos indo?

– Em um bar bem tradicional aqui em São Paulo. Hoje é aniversário de uma das minhas melhores amigas.

– Espero não estar atrapalhando.

– De maneira nenhuma.

A música tomou conta do ambiente e eles seguiram conversando sobre o Brasil,  perfumistas, perfumes e Paris. Helena se sentia confortável ao lado de Phillipe e de uma estranha maneira ela parecia conhece-lo há muito tempo.

Eles chegaram no bar e Philipe se impressionou com a vista. Os amigos de Helena foram extremamente gentis e receptivos com ele e a noite foi muito mais feliz e agradável do que Helena esperava. Ela gostou dele e do jeito que ela a tratou.

As demais pessoas do escritório acabaram não indo e Helena ficou sozinha com Philipe a noite toda. A noite que prometia ser a continuação de um dia problemático acabou sendo uma das mais legais da vida de Helena. Ela comemorou com Lara o aniversário dela, que teve a presença de Rodrigo, mais sedutor do que nunca, multiplicando a felicidade de Lara por mais de mil. Raissa beijou um desconhecido, se desconectando um pouco mais de Vitor e começando a tirar do coração e da memória a cena dele chegando em casa com outra mulher, a tratando como uma qualquer, na noite anterior.

A noite foi até de madrugada. Helena deixou Phillipe no hotel perto das quatro horas da manhã e foi para casa na dúvida entre dormir ou tomar banho e trocar de roupa pois precisava estar no escritório cedo.

“Meu Deus! Que noite foi essa? E o que vai ser de mim durante meu dia de trabalho, cheio de coisas importantes, que começa daqui a pouco? Eu me arrastei hoje, por isso nem imagino o que será de mim vivendo mais um dia arrastado. Mas estou me sentindo entranhamente feliz e disposta.”

Ela pensava se olhando no espelho do elevador enquanto ele subia.

“Pelo menos parei de esperar irracionalmente que o elevador parasse no primeiro andar enquanto ele sobe.” Ela pensava achando graça dos seus pensamentos.

Helena conseguiu dormir um pouco e acordou muito mais animada do que esperava. Como tinha se tornado costume, escolheu uma roupa pensando no seu possível encontro com o vizinho e saiu deslumbrante de casa.

O dia de trabalho começou animado e a apresentação que Helena fez no seu cliente foi excelente, a fazendo ganhar a concorrência que a casa de fragrâncias estava concorrendo.

Depois da sua apresentação Helena foi direto para casa, se sentindo exausta, mas feliz. Ela sentiu falta de Philipe. Ele voltaria para a França em alguns dias e possivelmente eles não se veriam mais.

Ela chegou em casa e colocou seu pijama. Fez um reunião por call e no final da tarde acabou pegando no sono.

Já era noite quando o celular de Helena tocou a despertando. Era Lara ligando empolgada.

– Oi Lara. Ela atendeu.

– Oi Helena! Que voz é essa? Hoje é sexta-feira! Vamos sair! Vou sair com o pessoal do escritório. O Rodrigo está promovendo um happy hour de integração para comemorar o início do projeto.

– Hoje não estou no pique amiga. Mas aproveite!

– Para com isso! Vou passar aí para te pegar.

– Lara, se você me visse nesse momento, desistiria de sair comigo. Disse Helena se olhando no espelho.

– Por que amiga?

– Eu acabei de acordar. Estou de calça de moletom, camiseta florida e meia. O cabelo preso num coque desconstruído, máscara de cilios levemente borrada. Sou quase um panda com um resto de batom na boca. E hoje quero ficar assim. Vou comer pizza e devorar minha serie favorita.

– De verdade?

– De verdade!

– Notícias do vizinho? Sei que ele se chama Miguel, mas é tão mais legal chama-lo de vizinho.

– Nada do vizinho. Estou começando a acreditar que ele não mora aqui.

– Ou vocês tem horários diferentes. Você começa a trabalhar muito cedo e ele é arquiteto, deve ter o escritório dele e uma vida menos escrava que a sua.

– Lara você é muito maravilhosa.

– Que pena que não vai. Aproveite sua pizza.

– Aproveite sua balada. E se mudar de ideia e preferir uma pizza no lugar da balada, está convidada.

– Combinado! Te amo amiga.

– Love you. Aproveite.

Helena desligou o telefone e na sequência pediu sua pizza. Ela mal tinha começado a assistir o capítulo inédito da sua série e o interfone tocou, anunciando a chegada da pizza. E nesse momento, uma alegria contagiou seu corpo, começando no estômago dela.

Ela correu para o elevador animada, como se estivesse indo para um encontro. Quando ela chegou no elevador, viu sua imagem no espelho começou a pentear o cabelo com os dedos.

“Meus Deus Helena, você não deveria ir assim nem na cozinha.” Ela pensava, achando graça de seus pensamentos, quando o elevador parou.

O coração dela acelerou.

“Parou no primeiro andar! Parou no primeiro andar. Será que é ele?”

A porta abriu e atrás da porta apareceu o vizinho, vestido impecavelmente em um smoking.

Helena perdeu o ar e por um instante acreditou de verdade que estava sonhando.

– Boa Noite! Ele disse ao entrar.

– Boa noite. Ela respondeu, tentando manter a calma.

“Ai meu Deus! Tanta espera e tantas produções e acabo encontrando ele assim! Vestida de pijama, com resto de maquiagem e cabelo despenteado. E ele nesse smoking! E cheiroso. Que homem é esse meu Deus?”

Enquanto ela se perdia em seus pensamentos, ele não parava de olhar para ela e acabou soltando um sorriso involuntário, a fazendo sorrir também. O clima no elevador mudou e Helena ficou toda arrepiada.

Depois do que pareceu uma eternidade, recheada de silêncio, pensamentos barulhentos, trocas de olhares e sorrisos, o elevador chegou no térreo.

Helena foi pegar a pizza e Miguel foi em direção ao portão para entrar no táxi que o esperava.

– Boa pizza! Ele disse ao fechar o portão dando um lindo sorriso para ela.

– Boa festa! Helena respondeu encantada.

Ele se foi, Helena pegou sua pizza e foi feliz para casa.

“Finalmente encontrei ele novemente! E que lindo ele estava! Que lindo ele é! Ele aparentemente não se importou muito com a minha maquiagem borrada e meu pijama.” Ela pensava se olhando no espelho do elevador.

Naquela sexta-feira Helena foi dormir feliz. O sábado chegou ensolarado e os raios de sol a acordaram cedo.

Ela se revirava na cama, tentando voltar a dormir, quanto o interfone tocou.

Ela correu atender.

– Alô.

– Dona Helena, chegaram flores para a senhora. Pode descer para pega-las?

– Claro Lucivaldo. Estou descendo.

Ela desceu animada e curiosa para saber quem tinha mandado as flores. Ela se olhava no espelho do elevador e via um brilho nos seus olhos, que há tempos não esta a ali.

CONTINUA…

O  CAPÍTULO 7 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA 

Capítulo 6 – Encontros e flores

Sabrina Almeida


Sou mãe, filha, esposa, mulher, amiga, confidente, conselheira. Sonhadora, determinada e realizadora. Organizada, mas com um que de caótica. Apaixonada pela vida e pelas pessoas. Intensa! Publicitaria, trabalho desenvolvendo produtos e marcas para deixar as pessoas mais bonitas e felizes. Escrevo porque amo escrever. Minha cabeça está sempre repleta de sonhos e devaneios. Sigo sempre meu coração. Hoje penso mais antes de tomar uma decisão. Encontrei a FELICIDADE, assim todinha maiuscula, nas coisas simples da vida. E escrever é uma delas. Enquanto as pessoas vão para a academia, fazem trilhas, tocam instrumentos musicais, cozinham… Eu escrevo! Esse é o meu hobbie… Escrevo para traduzir o que está no meu coração, sem regras, métodos ou filtros. Escrevo porque me inspira e me faz feliz. Acredito que é simples ser feliz e que para isso é preciso uma boa dose de coragem, de sorte e de sonhos e devaneios. Quando eu decidi escrever, uma pessoa me perguntou: “quem te garante que as pessoas vão se interessar pelo que você escreve?” E a minha resposta é como vou concluir minha apresentação. Vou escrever para tentar ajudar as pessoas a ver diferentes perspectivas, rir no meio de um dia difícil ou enxergar poesia no dia a dia. E se eu conseguir tocar o coração de pelo menos uma única pessoa, já terá valido à pena.


Post navigation


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *