Capítulo 6 – Nossa história dava um livro

A semana passou e seguiu trazendo pontos de interrogação na cabeça de Nina. Por que Roberto tinha sumido afinal?

“Num dia me chama de linda, me chama para jantar, diz que está curioso e no outro parece ter reencontrado seu amor de infância e desaparece completamente. E eu sigo aqui pensando nele 24 horas por dia esperando que ele me chame para passear com o cachorro dele.” Pensava Nina no momento que seu celular tocou.

– Desce Nina, chegamos.

– Estou descendo. Disse Nina. Nina chegou no carro e encontrou suas melhores amigas.

– Não acredito que estamos indo para o sítio! Nós quatro. Como fazíamos mais de 15 anos atrás. Disse Erica empolgada. – No final foi melhor do que ir para a praia. Temos que aproveitar quando meus pais não vão. Porque eles vão sempre afinal.

– E apesar de amar estar com vocês, como se o tempo não tivesse passado, não acredito que terei dois dias só meus. Sem filho, sem marido, sem trabalho até de madrugada, sem clientes, sem drama. Só penso em chegar, ficar descalça, ouvir o barulho da natureza e tomar drinks. Desabafou Maju.

– Nossa! Quem diria que valorizaríamos isso um dia. Quanto mais a vida passa, de mais coisas simples a gente gosta. Concluiu Melina.

– E por que está tão quieta Nina? Perguntou Maju estranhando o silencio da amiga que costumava ser a mais empolgada nesse tipo de situação.

– Não estou quieta. Só estou pensando no que falar. Respondeu Nina.

Elas caíram na gargalhada.

– Você é maravilhosa Nina. Disse Melina.

– E não consegue enganar a gente mocinha. De jeito nenhum. Emendou Erica.

– Já estou com saudades dos meus pais. Eles passaram a semana comigo e foram embora ontem. Desconversou Nina sem mentir totalmente. A partida dos pais no dia anterior tinha deixado uma angustia dolorida no coração dela.

– Seus pais estavam aqui! Que sorte você tem de ter seus pais. Disse Maju.

– Amiga, você deve sentir muita falta do seu pai né? Disse Nina comovida.

– Sinto. Ele teria sido um avô incrível. Mas não quero falar disso. Respondeu Maju já começando a limpar as lágrimas. Desde que o pai tinha morrido, em um acidente de carro, ela chorava todas as vezes que falava dele. Ele morreu quando ela estava grávida e ela sentia muito o pai não ter conhecido o neto. E definitivamente ainda não tinha superado a perda e sentia que jamais iria superar.

– Deve ser difícil. Disse Melina.

– Não sei nem descrever quanto. Respondeu Maju.

– Mas mudando de assunto e voltando para o silencio da Nina… Disse Erica, retomando o tema e voltando o foco para Nina. – Esse papo de meus pais foram embora não me convenceu. Por onde anda o moço do cachorro que te deixa com as bochechas vermelhas?

– Não anda amiga!

– Mas parecia que tinha uma eletricidade aí.

– Não vou negar. Ele me causa calafrios e calor e falta de ar. E dúvidas! Ele me chamou para jantar sábado passado e depois sumiu.

– Como assim? Sumiu? Sumiu, sumiu? Perguntou Maju.

– Pior que isso! Dramatizou Nina. – Ele me ligou no dia seguinte me pedindo para passear com o cachorro dele. Como se nada tivesse acontecido. Respondeu Nina.

– Amiga! Não quero jogar água… mas nada aconteceu. O que você esperava? Provocou Erica.

– Que ele retomasse o convite para sairmos para jantar. Disse Nina.

– De repente ele está ocupado. Se até pediu para você passear com o cachorro dele. Disse Maju de maneira gentil. – Ele realmente pareceu ocupado. Concluiu Nina.

– Amiga! Se for para ser… será! Deixa rolar. Propôs Melina. – Não se preocupe tanto.

– Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Né Mel? Provocou Erica. – Você foi a que mais se perdeu de amor de todas nós. Nunca teve essa serenidade de esperar o destino.

– Bom! Nisso preciso concordar. Concordou Melina caindo na gargalhada. – É mais fácil aconselhar do que agir. Mas acredita amiga. Essa é a máxima do universo.

Nina respirou fundo. – Vou tentar Mel. Respondeu Nina no momento eu que se perdeu em Roberto. “Onde será que ele está agora? O que está fazendo? Deve estar com outra mulher, na certa.” Pensava Nina totalmente distraída por seus pensamentos.

E a distração de Nina acabou trazendo silencio para o carro. De certa maneira as quatro amigas se conectaram com seus próprios pensamentos e a música que tocava no rádio preencheu todo ambiente.

A viagem foi rápida e o sol tinha acabado de se pôr quando elas chegaram no sítio.

O lugar era deslumbrante. Gramados intermináveis que iam além de onde os olhos podiam alcançar, repletos de árvores, flores e plantas das mais diferentes espécies. Os barulhos eram diversos e cigarras, sapos e grilos roubavam a cena parecendo dar um show de música para receber quem chegava. O ar cheirava a terra molhada e tinha uma brisa fresca que perfumava o ambiente e tocava a pele suavemente. Um grande lago trazia ainda mais beleza para a cena, trazendo um caminho branco refletindo a luz da lua.

– Tinha me esquecido de como esse lugar é incrível. Disse Nina se sentindo grata pelo que podia ver e sentir naquele momento.

– Que saudades eu estava daqui. Complementou Maju.

– Ah se esse lugar falasse. Disse Erica quando caiu na gargalhada.

– É uma delícia voltar aqui. É uma delícia estarmos nós quatro juntas novamente. Disse Melina de maneira carinhosa.

– Agora venham! A Joana preparou um jantar delícia para a gente e teremos nosso vinho preferido para acompanhar. Convidou Erica.

– Gente! A Joana é a melhor cozinheira do planeta. Ela ainda trabalha aqui? Perguntou Nina.

– Para nossa sorte sim! Ela e o Sebastião. As filhas moram em São Paulo e fazem faculdade. São o orgulho da vida deles. Disse Erica quando já entravam na casa.

Ao entrarem na casa, ambas sentiram o cheiro de madeira que era o cheiro da casa.

– Nada mudou! Nem o cheiro. Disse Maju encantada.

– Esse cheiro me lembra um pouco coisas velhas. Brincou Erica.

– Para mim, lembra coisas boas. Discordou Nina.

– Vocês chegaram! Fizeram boa viagem? Disse Joana ao chegar na sala vindo da cozinha.

– Joana! As meninas disseram em coro.

– Que especial tê-las aqui! Como vocês estão lindas! Disse Joana realmente encantada.

– Obrigada pelo carinho! Elas disseram.

– Mais 10 minutos o jantar estará pronto. Tem uma salada na mesa com hortaliças da nossa horta. Tudo orgânico e saudável. Vou voltar para a cozinha antes que a carne com panela queime. Disse ela já se afastando.

As meninas foram para seus quartos deixar as malas e logo estavam de volta em volta da mesa.

– Começando a engordar em 3, 2, 1! Disse Maju olhando para a mesa cheia de comidas deliciosas.

– Nem me fale! Preciso pensar no meu vestido de noiva. Disse Melina.

– E eu na minha fantasia de LOL! Imagina se mudo as medidas e perco minha fantasia? Lá se vai meu job de boneca. E por falar em boneca… eu disse para o Roberto que não podia sair naquela noite porque eu ia fazer performance de boneca. Será que foi isso que o afastou?

– Amiga, pare de se torturar com esse assunto. Disse Erica. – Não acredito que ele tenha te desejado e desistido por causa disso. Se você pensar pode ser bem excitante.

– Se ele te descartou por isso, ele não merece nem ser parte dos seus pensamentos Nina! Disse Maju em tom sério.

– Isso é verdade! E homens não costumam estar nem aí com isso. Complementou Melina.

– Ah Nina parece que o amor realmente te pegou! Sai conversa, entra conversa e o Roberto sempre participa. Disse Erica.

– Gente! Como alguém pode estar amando uma pessoa que nem conhece. Não sei nada dele. Nem se é comprometido. Se tem manias estranhas. Se tem senso de humor. O que faz. No que acredita. Mal nos tocamos. Ninguém se apaixona por isso. Defendeu-se Nina.

– Platão explica. Disse Maju.

– Freud explica. Completou Erica.

E elas caíram na gargalhada.

– O amor não é nada lógico amiga! Disse Melina que era a que tinha mais facilidade em se apaixonar entre todas elas.

– Mas vamos parar de falar de dele! Pediu Nina.

– Então pare de falar nele. Brincou Erica.

– Combinado! Vamos falar dos preparativos do casamento da Mel. Já decidiu o lugar amiga? Perguntou Nina.

– Meninas esse casamento está mais me angustiando do que me deixando feliz. Amo o Arthur, não me entendam mal. Mas não tenho tido tempo nem de ouvir meus pensamentos. Imaginem planejar um casamento. E ele me cobra. Parece querer mais do que eu a festa, o bolo, os bem casados. E reclama pela minha falta de interesse.

– Acho que eu também reclamaria. Pontuou Maju.

– Assim você não me ajuda! Disse Mel.

– Amiga é o seu casamento. Você deveria dedicar algum tempo para isso. Acho que só precisa se organizar. Seguiu falando Maju. – Eu queria tanto um casamento para planejar. Não desperdice isso!

– Não estou desperdiçando. Estou somente muito ocupada! E muito cansada. Disse Melina, sem ter tanta certeza se acreditava no que acabara de dizer.

– E você Maju? Quer tanto casar. Por que não se casam? Perguntou Erica.

– Porque nosso dinheiro mal dá para o mês todo. Temos mil prioridades. E temos o João. Quanto mais ele cresce, mais caro fica. Quando eu acho que chegamos no maior patamar de caro que podemos chegar, fica ainda mais caro, me mostrando que não há limites para ficar caro. Precisamos mantê-lo em horário integral na escola. Só aí vai metade do meu salário. Disse Maju revirando os olhos e tomando num só gole o vinho todo da sua taça.

– Não deve ser fácil. Mas vou devolver o que você me disse. Se quer tanto uma festa de casamento, você deveria priorizar isso. Dedicar algum dinheiro para isso. Disse Melina.

– Talvez você tenha razão. Vou pensar sobre isso. Concordou Maju já tonta pelo vinho e querendo mudar de assunto.

– Pelo menos vocês tem um par Maju. No momento, a Nina um amor. E eu? Meu coração nunca esteve tão abandonado. Disse Erica.

– Não deve estar sendo fácil. Você sente falta dele, apesar de tudo que ele fez? Perguntou Nina.

– Boa pergunta Nina? Tenho me questionado sobre isso. Sinto falta dele. Não sei se dele ou da vida que eu tinha com ele. O sentimento ainda é muito estranho.

– Acho que o que você está sentindo parece mostrar que você é humana. Sua vida virou do avesso do dia para a noite. Não esquecemos um sentimento forte só porque fomos machucados. Solidarizou-se Maju.

E nesse momento o silencio voltou a tomar conta do ambiente. A sobremesa foi servida junto com a quinta garrafa de vinho. E elas ficaram ali em volta da mesa por algumas horas.

Seguiram bebendo vinho e comeram bem, como há tempos não faziam. Falaram das boas coisas da vida. Relembraram o passado e falaram sobre o que esperavam do futuro. Nina não confessou, mas fantasiava sobre ter um futuro com Roberto. E por mais feliz que ela estivesse ali naquele momento, tinha algo dentro dela que não deixava ela esquecer dele.

Nina seguia fantasiando quando algo em volta da mesa encheu seu olhar com poesia e o coração com felicidade. Depois de mais de 20 anos de amizade elas estavam de volta ao sitio de Erica, que foi o lugar que mais as acolheu durante a infância e adolescência delas. E nesse momento um filme começou a passar na frente dela.

Elas eram amigas de infância, que se conheceram no colégio e nunca mais se separaram. Apesar de muito diferentes entre si, elas se completam e são inseparáveis, mesmo quando a distância e o ritmo de vida acabam por separa-las fisicamente. Cada uma sabe tudo sobre a outra. Cor preferida, o que gosta ou não de comer, sonhos, medos, inseguranças, brilhos, silencio, gargalhadas, olhares, o primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira transa, absolutamente tudo sobre a outra.

Muitas coisas tinham mudado nesses vinte anos e todas estavam com 28 anos, em diferentes situações e momentos de vida. E Nina começou a pensar sobre o momento de vida de cada uma delas.

Ela, Nina, estava frustrada em relação à carreira. Formada em jornalismo, nunca conseguiu emplacar em nenhum emprego e se frustrava pois sua paixão de escrever tinha virado um pesadelo quando começou a ser uma atividade sob demanda e remunerada. Ela passou a viver de bicos para conseguir pagar as contas e não sobrava dinheiro para fazer as viagens com que tanto sonhava ou para qualquer extravagancia. Sua vida amorosa era uma catástrofe e ela nunca amou alguém a ponto de dedicar seus pensamentos ao longo do dia, tentar planejar um futuro junto e perder o ar algumas vezes por dia.

Melina se formou em moda e trabalhava, desde sua formatura na faculdade, na revista de moda mais famosa do Brasil. Ela vivia uma vida de sonho com desfiles de moda, viagens internacionais de primeira classe. Namorava há muitos anos com Arthur e eram completamente apaixonados um pelo outro. Arthur foi o primeiro namorado da vida dela e ela estava um pouco confusa em relação aos sentimentos dela sobre o casamento.

Maju, se formou publicitaria e vivia em dúvida entre família e carreira. Queria se dedicar ao filho, de apenas 4 anos, fruto de uma gravidez não planejada, seguida de um quase casamento também não planejado. Ela trabalhava muitas horas por dia, enquanto o marido tentava fazer sua empresa emplacar.

Erica voltou recentemente de uma vida vivida fora do Brasil em Barcelona após sofrer um golpe de um namorado espanhol. Não bastasse a decepção amorosa, voltou sem dinheiro para o Brasil. Ela era convicta sobre não querer filhos e não conseguia se ver feliz com a nova vida, pois tinha certeza que sua vida pertencia a outro lugar. Se formou em artes plásticas e tem paixão por botânica e artesanato. Sua maior inspiração para a arte e para a vida é a natureza.

E de repente Nina teve uma ideia que a fez pular da cadeira.

– Vou voltar a escrever por amor à escrita. Vou escrever uma história sobre nossa amizade, inspirada na vida e no momento de nós 4! Empolgou-se Nina roubando a atenção de todas falando em um tom eufórico.

– Acho uma excelente ideia! Disse Maju.

– Um brinde a essa ideia e à nossa amizade! Propôs Erica.

– Estou tão empolgada! Vou escrever sobre a nossa amizade. Repetiu Nina ainda eufórica com a nova ideia.

– A ideia é muito boa mesmo. Afinal, nossa história dava um livro. Disse Melina.

– E com final feliz certamente. Completou Maju de maneira meiga.

Elas seguiram bebendo vinho, dando risadas e curtindo a companhia uma da outra, até a hora que a madrugada trouxe cansaço e sono e elas foram dormir.

O dia amanheceu sem nenhuma nuvem no céu. Elas aproveitaram a piscina e fizeram uma longa caminhada pela mata, plantações e pomares. O lugar era deslumbrante e repleto de paz. Viram o pôr do sol jogadas na grama em volta do grande lago que havia dentro da propriedade e mais uma vez receberam a noite em companhia de vinho.

Nina se sentia feliz e cada vez mais animada com a ideia de escrever um livro. Várias passagens da vida com as melhores amigas a inspiravam lhe dando certeza de que seria capaz de escrever uma bela história. O dia terminou com música, jogos de tabuleiro e mímica, ainda mais vinho e muitas gargalhadas.

Nina se deu conta de que pouco tinha pensado em Roberto e a expectativa sobre o que estava por vir encheu o seu coração de felicidade. Ela parecia ter finalmente encontrado seu caminho.

Naquela noite dormiu feliz.

E o dia seguinte foi especial. Cada olhar, gargalhada ou diálogo entre as melhores amigas era material e inspiração para sua história e a nova fase que ela ia começar.

A volta para casa foi acompanhada de céu estrelado e seleção de músicas especiais tocando no rádio do carro.

Já na rua de sua casa, Nina passou em frente ao prédio de Roberto e procurou por luzes no andar dele. Para sua surpresa ele estava ali na varanda, sozinho, segurando um drink. E nesse momento o coração de Nina disparou.

– Lá se vai minha anestesia. Nina disse alto.

– O que foi Nina? Perguntou Melina.

– Olhem o Roberto ali na varanda.

– Gente! Ele parece o Bradley Cooper. Admirou-se Maju.

– Valha-me Deus! Que gato. Acho que ele É o Bradley Cooper. Estou chocada. Disse Erica encantada.

– Agora tudo fez sentido Nina. Por isso você começou a suspirar tanto. Disse Melina boquiaberta.

– Agora vocês me entendem? Brincou Nina.

– Acho que a gente devia parar e você devia gritar o nome dele. Propôs Erica.

– Acho que você está louca. E não bebi o suficiente. E também não tenho mais 19 anos. Seguiu falando Nina.

– Ai! Tomara que ele te veja quando você descer do carro. Empolgou-se Erica.

– Essa pilha toda definitivamente não vai me ajudar! Brincou Nina.

– Vai amiga sai do carro. Boa semana. Foi uma delícia estar com você no final de semana. Disse Erica que dirigia o carro se apressando em se despedir.

– Tchau meninas. I love you girls! Disse Nina saindo do carro. – Obrigada pelo final de semana maravilhoso.

Elas se despediram e Nina saiu do carro. Queria olhar para trás e ver se ele continuava ali na varanda. Mas não teve coragem. Ela ia entrar no prédio quando Erica começou a buzinar e saiu acelerando com o carro.

Nina achou graça e ela ia entrar no prédio quando ouviu seu nome.

– Nina!

Ela congelou. Era a voz de Roberto gritando o nome dela da varanda dele.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 7 SERÁ PUBLICAO NA PRÓXIMA SEXTA-FEITA

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