Capítulo 6 – Para feridas, band aid

Malu acorda assustada. Tinha perdido a hora. Voa para o chuveiro. Consegue chegar no escritório pontualmente às 9h30. No horário em que tinham combinado de sair para a reunião onde apresentariam a proposta da concorrência. Vão os 4 no carro de Pedro. Além de Pedro, Guto, Malu e Caique. Malu termina de se arrumar no carro. Está no banco de trás e Pedro a observa pelo espelho retrovisor. Ela passa um batom vermelho e ajeita a franja do cabelo ainda molhado. Fazia frio e ela vestia uma roupa muito sofisticada. Camisa branca sobreposta com uma peça de lã de decote canoa preta com mangas curtas na altura do cotovelo, calça de alfaiataria preta, sapatos de salto coloridos da Sarah Chofakian, uma bolsa balenciaga cinza chumbo quase preta (peça mais cara que comprou na vida, influenciada pelo seu melhor amigo Vitor) e brincos pequenos que pareciam 2 diamantes. Estava particularmente bonita e por isso Pedro tinha dificuldade de parar de olha-la pelo espelho retrovisor. Ela nem percebeu.

Começam a apresentação da proposta. Tinham trazido como principal ação uma ideia de Malu, que tinha sido totalmente inspirada no habito que ela tinha de celebrar a vida com seus grandes amigos. A proposta foi criar uma coleção de edições especiais das bebidas premium para grandes marcos da vida que envolvem celebração como Casamento, Formatura, A maioridade, Nascimentos, Grandes Conquistas. A proposta envolvia uma coleção de produtos especiais, uma robusta estratégia digital que se embasava no consumidor como gerador de conteúdo e agente de virilização da mensagem, decorações especiais para os pontos de venda e para os produtos embalagens, acessórios e fórmulas especiais. Como um champagne com menos álcool para diluir em gelo para anunciar uma gravidez ou uma garrafa com muitos metais, acompanhados de berloques especiais que simbolizam a conquista a ser celebrada, como o pingente de uma casa. Seriam edições de bebidas premium inspiradas em marcos da vida convidando as pessoas a celebrarem os seus momentos de maior felicidade. Após concluirem a apresentação recebem parabéns pelo trabalho e o aviso de que seriam informados sobre o resultado da concorrência em 2 dias.

Voltam muito otimistas e falam sobre a apresentação o tempo todo no carro. Pedro diz que o resultado nem é importante, que aprenderam muito com esse trabalho e que ele tinha ideias para trabalhar mais com esse tipo de projeto, porque trazia energia nova, mesmo que acompanhada de muito trabalho. Ele conta que quer criar uma área de inovação em ideias para os seus clientes, apoiada em pesquisas com uma forte atuação de um consumer insight. Malu se encanta com a ideia e diz que amaria ajudar nesse projeto. Pedro diz que não podia pensar em outra pessoa.

Pedro leva o time para almoçar em um restaurante muito sofisticado. Quando pára o carro diz: – Não podemos beber muito e ainda não temos o resultado. Mas tivemos uma conquista importante com esse trabalho, então vamos celebrar com uma excelente comida e nos presentear o paladar. Se nada der certo, o que tivemos até aqui já valeu a pena.

Era um restaurante muito sofisticado que ficava no último andar de um hotel de luxo nos jardins. Pediram uma mesa colada à janela, que dava uma visão privilegiada do cenário super cosmopolita lá embaixo.

Eles conversam sobre vários assuntos até que Guto, com um ar bem curioso, pergunta:

– Malu, de onde veio a ideia que você propôs e porque você sempre quis tanto trabalhar com bebidas?

– Tenho muitos amigos queridos e entre nós o habito de celebrar é bastante forte. Para tudo que nos faz feliz estouramos champagne e brindamos. Sempre senti falta de edições especiais, mais conceituadas para esses momentos. Sabe quando você se orgulha de uma conquista e guarda a rolha da celebração? Se a rolha não tiver uma marcação especial ela se perde entre as tantas outras rolhas. Eu mesma customizava as edições classicas de champagne para presentear meus amigos em momentos de grandes celebrações. Enfim, sempre quis vender essa ideia e a convesa sobre a concorrência lá atrás me deixou bastante animada. A celebração de marcos e conquistas deveria ser emoldurada e pregada na parede para sempre nos lembrarmos delas. Não podemos esquecer nossas conquistas importantes.

– Faz bastante sentido! Deveríamos emoldurar a escritura do apartamento como fazemos com nossos diplomas. As rolhas e garrafas podem ficar esteticamente muito bonitas. Gosto disso! Se não rolarem as edições especiais de bebidas, eu mesmo vou começar a customizar minhas garrafas.

Terminam o almoço brindando e Guto faz um desenho em um porta copos que trazia a marca do restaurante e diz que era a celebração de uma grande ideia, que iria para a parede de sua sala na agência. O material era parecido com o da rolha. Brinca dizendo que era a rolha da celebração daquele dia que iria para a parede.

Já na agência, no final do dia, Malu está envolta em seus pesamentos no seu cantinho preferido nas alturas no café do último andar. Apesar do frio, típico do comecinho do inverno, escolheu a mesa de sempre, do lado de fora. Enquanto repassava seu dia na cabeça e as possibilidades que tinha pela frente, se deu conta de que não pensou nos buracos de seu coração, nem no Rodrigo e não desejou Pedro, nenhuma vez naquele dia e que vinha pensando cada vez menos neles. O trabalho estava preenchendo os vazios de sua vida e a possibilidade de ajudar a estruturar a area de inovação proposta por Pedro a deixava bastante animada. De repente, seus devaneios são interrompidos por Pedro.

– Sabia que te encontraria aqui. Posso me sentar com você? Diz Pedro.

– Claro que pode!

– Obrigado por tudo Malu! Você foi demais. Quero você comigo estruturando essa área nova. Vou falar com a Rebeca assim que ela voltar.

– Pode contar comigo! Estava agora mesmo pensando nisso e estou cheia de ideias!

– Adoro ouvir suas ideias e ver seus olhos brilhando enquanto fala delas.

– O que você adora mesmo é rir da minha cara quando falo sem pausa para respirar, o que geralmente acontece quando estou falando sobre uma ideia.

– Também gosto dessa parte! Diz Pedro.

Nesse momento, são interrompidos por Priscilla.

– Oi! Estava te procurando. Desculpe interromper, mas nosso cliente chegou para aquela reunião de crise. Você pode descer?

– Claro! Vamos lá. Fala isso dando um longo gole no seu café.

Pedro se despede de Malu e some a caminho das escadas com Priscilla. Ela estava ainda mais bonita naquele dia. Se vestia bem sempre. Usava roupas que valorizavam seu corpo. Vinha insistindo cada vez mais nas suas tentativas de chamar a atenção de Pedro. Malu acredita que Pedro não resistirá muito tempo. Estranhamente não se importava muito com isso. O tempo que tinha passado com Pedro, foi essencial para transformá-lo em um chefe admirável e em um grande amigo. Ela queria ele feliz.

O dia tinha voado. Malu se prepara para sair cedo do escritório porque tinha o jantar de aniversário do Edu que aconteceria no restaurante onde Vitor trabalha, já que ele precisaria trabalhar naquela noite. Se apressa para pegar o elevador e quando a porta está quase se fechando, vê um braço impedindo o fechamento da porta. Era Pedro que segurava a porta para Priscilla entrar. Os 2 cumprimentaram Malu e Priscilla conversava animadamente com Pedro, como se Malu não existisse ali, sobre o drink que tomariam naquela noite para discutir algumas ideias. Priscilla estava maquiada e muito perfumada. Não parecia querer vender somente suas ideias. Se despedem com um até amanhã e Malu não sente nada, absolutamente nada em relação a isso.

No meio do jantar animado entre Malu e seus amigos, liga Pedro.

– Oi Pedro! Tudo bem?

– Sim! Tudo e você? Na verdade queria sua companhia. Acabei de deixar a Priscilla na casa dela e não quero ir para casa. Você sabe o porquê. Podemos nos encontrar?

– Claro! Estou em dos melhores restaurantes da cidade, que tem o melhor chef da cidade, comemorando o aniversário de um grande amigo. Pode vir para cá se quiser.

– Me parece irresistível! Estou morrendo de fome.

– Então venha!

Pedro chegou em 20 minutos. Malu apresentou os seus amigos e o seu namorado para ele. Grazi ficou boquiaberta enquanto olhava Pedro. Eric morreu de ciúme porque percebeu o encantamento imediato. Ele nunca conseguiu partir para outra desde que Grazi terminou o namoro com ele. Pedro sentiu um pouco de ciúmes de Malu com o namorado e mal o Pedro chegou Rodrigo recebeu uma ligação e precisou ir embora correndo.

Malu vai com Rodrigo até o carro. Ela implora para que ele fique com ela. Desaba a chorar dizendo em 5 minutos tudo o que ela vinha sentido há tempos. Ele abraça ela, diz que não pode ficar, mas que vai melhorar. Que ela tem razão. Pede desculpas, mas ainda assim, entra no carro e vai ao encontro da sua emergencia, deixando Malu parada ali, chorando, sem conseguir de mover.

Ela limpa as lágrimas. Respira fundo e resolve que não sofrerá mais por isso. Volta para a mesa. Grazi conversa animadamente com Pedro, que nota na hora que Malu tinha chorado. Ela tenta disfarçar, porque não quer estragar o aniversário de seu amigo. Acaba até conseguindo se divertir, depois de algumas taças do vinho delicioso que estava sendo servido durante todo janar. Vitor finalmente vai para a mesa por volta de 23h. Se preocupa ao ver a cara de choro da Malu enquanto Grazi conversa animadamente com Pedro. Corre para perguntar para ela se está tudo bem.

– Sim está tudo bem!

– Então me explica que cara de choro é essa? Tem a ver com aquilo? E aponta para Grazi conversando animadamente com Pedro.

Malu fala sobre o Rodrigo e garante que nem se importa com a conversa animada entre Pedro e Grazi. Vitor duvida.

No final da noite estão todos meios bêbados e Pedro oferece uma carona a Malu porque ela estava sem carro, já que Rodrigo tinha ido embora. Pedro não parecia se importar tanto com Grazi como ela parecia se importar com ele.

Na volta para casa Pedro estranha o silêncio de Malu e pergunta o que aconteceu. Como ela parece muito disposta a não falar no assunto, muda o rumo da conversa e diz que adorou os amigos dela. Que entende perfeitamente o que ela descrevia durante a construção da ideia da concorrência em torno da celebração com bebidas caras.

Pedro não se conforma em ver ela daquele jeito e insiste em saber o que esta deixando Malu tão triste. E ela insiste em dizer que está tudo bem. Ela não quer falar no assunto, porque sente que vai chorar de novo e não quer que Pedro a veja assim. Pedro não insiste mais. Apesar de ficar muito preocupado com ela.

Se despedem e Malu não diz nada ao sair do carro. Quando fecha a porta do carro começa a chorar e assim ela vai para cama. Chorando como se tivesse desabafando em lagrimas tudo que vinha passando ultimamente.

A noite mal tinha passado e já era hora de ir trabalhar. O dia se arrastou e Malu foi para casa cedo. O time fez um hapoy hour, mas ela não tinha a menor vontade de ir. Falou com Rodrigo por telefone. Ele se desculpou, perguntou se ela estava melhor. Pediu que ela tivesse mais compreensão e eles brigaram de novo.

Mais uma noite de choro. Rodrigo era um cara incrível e ele estava renunciando a ela pelo trabalho, ou seja, ele precisava trabalhar, por isso era difícil para Malu brigar com ele. Porém a solidão que ela sentia ultimamente andava fazendo muito mal para a sua auto estima.

Quando chega no escritório Caique a recebe muito feliz, dizendo que tinham ganhado a concorrência e que estavam planejando um happy hour de comemoração naquela noite. Estavam todos muitos felizes e não se falava em outra coisa na agência durante todo o dia. Malu estava feliz, mas não completamente feliz.

Já no final do dia, Caique chama Malu para tomar um café e entrega o convite de seu casamento para ela. Ela se sente feliz por ele e a felicidade dele contagia ela, que sai melhor da conversa do que tinha entrado. O casamento aconteceria em um pouco mais de 1 mês.

Era uma noite de comemoração e a agencia fechou uma parte de um bar bem sofisticado para a comemoração regada à bebidas caras sendo servidas com porta copos especiais criados por Guto. A decoração estava linda, a bebida farta e as pessoas bem animadas. Theo, o diretor financeiro, dava uma atenção especial e exclusiva para a Malu, se derretia em elogios para ela, que acabou gostando, porque de alguma maneira aqueles elogios estavam fazendo muito bem para a sua auto estima que andava tão mal tratada ultimamente. Pedro conversava com Priscilla, enquanto observava Theo e Malu conversando e não gostava de vê-los juntos. Se preocupa tanto por Malu que não consegue ouvir uma única palavra do que Priscilla fala. Num determinado momento, Malu viu Priscilla se derretendo para Pedro e não gostou. Não vinha ligando muito para isso, mas naquele momento sentiu muito ciúme. Se irritou, porque ele parecia se derreter para todo mundo ultimamente, menos para ela, o que ajudava a pisotear ainda mais a sua auto estima. Pediu licença e foi embora da festa, num piscar de olhos. Pedro viu Malu indo em direção à saída e correu atrás dela. Porém quando chegou na porta ela já estava entrando no taxi. Naquele momento a festa perdeu o sentido para Pedro e ele também resolveu ir embora. Afinal, aquela comemoração acontecia para celebrar uma conquista dela.

No sábado de manhã, Rodrigo e Malu viajam para Campos do Jordão convidados por Betsy. Ela faz um almoço especial para convidá-los para serem seus padrinhos de casamento. Malu fica radiante com o convite e se pergunta, se perdendo em seus pensamentos, se um dia era ela quem estaria convidando Betsy para ser sua madrinha de casamento. O final de semana passou depressa e foi delicioso, regado a brindes com bebidas caríssimas, jogos de tabuleiro e conversas intermináveis em frente à lareira. Foi um final de semana gelado típico do inverno. Rodrigo, tentando manter sua palavra de que as coisas iriam melhorar, cancelou o plantão e ficou com Malu também no domingo a noite, com direito a jantar, garrafa de vinho e sexo calmo, sem pressa e delicioso. Antes de dormir Malu vê uma chamada não atendida de Pedro no seu celular. Ela se preocupa, mas não retorna porque já é muito tarde. Malu acorda cansada, afinal tinha dormido poucas horas, mas feliz.

Quando chega no escritório se espanta por ver Pedro tão cedo na sua sala. Então ela vai direto para a sala dele. Bate na porta, mas já vai entrando:

– Oi tudo bem? Posso entrar?

– Claro! Tudo bem e você?

– Tudo bem também. Vi sua ligação ontem, mas já era muito tarde. Fiquei preocupada.

– Pedi o divorcio. Eu tentei, mas não deu. Achei melhor resolver logo. Estava sendo torturante para nós dois. Ela viajou para a casa dos pais no Sul. E eu vou colocar o apartamento à venda. Já entramos em um acordo sobre a divisão de todos os bens. Não tem nada de digno na separação. Divisão de bens é uma coisa horrorosa. Esses DVDs são meus, o sofá fui eu quem comprou, mas eu que paguei para trocar o estofado, e por aí vai. Só não entramos em acordo sobre a guarda do Borges, nosso cachorro. Mas vamos discutir isso depois. Enfim, queria te contar. Sempre que acontece algo comigo, bom ou ruim, desde que te conheci, quero contar para você. Você se tornou uma grande amiga. Preciso dos seus conselhos e da sua opinião.

– Isso é uma merda. Você tem razão de se sentir assim, mas foi melhor. Agora você vai poder seguir em frente. Não se preocupe ou desanime por começar tudo de novo. Você é um homem incrível. Certamente encontrará alguém incrível. Mas se eu puder te dar um conselho hoje, te digo para ir para a sua casa, colocar a cabeça, o coração e os seus pensamentos no lugar. Vai fazer algo que aquiete sua mente e que te faça feliz. Você não tem cabeça para fazer nada aqui hoje.

– Eu adoraria, mas hoje teremos nossa primeira reunião com o nosso novo cliente do grupo de marcas de bebidas.

– Eu e o Caique podemos tocar a reunião e se tiver algo muito urgente pode ficar tranquilo que te ligamos. Agora vai para casa. Leva o Borges para andar no parque. Aproveita que o dia está lindo.

Pedro abraça Malu, agradece por tudo e vai embora. Ela fica arrasada com a tristeza dele. Pensa em Pedro o dia inteiro e tenta planejar algo para animá-lo.

No final do dia, Malu passa no prédio de Pedro e deixa um pacote para ele na portaria.

Fabio esta na casa de Pedro, tinha saído mais cedo do escritório para ajudar seu amigo. No momento em que entornam o quinto shot de tequila, toca o interfone avisando sobre o pacote que Malu tinha deixado.

Pedro sobe com o pacote. Abre. Tira de dentro uma caixa de band aid e um bilhete. No bilhete tinha desenhado um coração partido remendado com band aid e uma única frase: “Sei que está doendo, mas vai passar”.

CONTINUA…

O CAPITULO 7 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEITA

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