Capítulo 9 – Fantasiada de galinha

Nina estava ansiosa, esperando que Roberto abrisse a porta;

– Aí está você! Disse ele ao abrir a porta já entregando uma taça de vinho para ela e lhe dando um beijo carinhoso.

– Obrigada! Disse ela.

– Tim tim! Disse ele batendo com sua taça na dela.

– Esse jantar está muito cheiroso.

– Estou fazendo um risoto de cogumelos e uma carne assada.

– Hum! Que delícia. Você gosta de cozinhar? Cozinha sempre?

– Sim! Adoro cozinhar, mas só cozinho em ocasiões especiais. Para pessoas especiais.

– Me sinto lisonjeada e especial.

A cozinha não tinha paredes e da sala era possível ver a cozinha toda. Roberto voltou para frente do fogão e Nina se sentou em do bancos do balcão, ficando de frente para Roberto.

– Fiquei feliz que tenha aceitado meu convite. Que bom que nenhuma boneca te chamou hoje. Disse ele.

– Na verdade até tinha uma festa hoje. Não era como boneca. Mas gentilmente declinei a proposta.

– Por que declinou?

Nina não queria dizer que pela esperança de vê-lo.

– Na verdade estou cansada. Trabalhei bastante nesses últimos dias. Há tempo eu não tinha um final de semana só para mim.

– Fez muito bem. Sabe que ainda sigo muito curioso em relação a você.

– O que quer saber?

– Por que escolheu essa vida sem compromisso? Você é assim com tudo?

– Na verdade não escolhi. Aconteceu. E não sei mais como sair disso.

– Mas deve ser muito se sentir livre. Cada hora fazer algo diferente. Quando escolhi o cinema, foi essa minha motivação. Eu queria estar em projetos diferentes. A vida de escritório nunca brilhou para mim.

– Para mim também não. Na verdade cheguei a trabalhar na redação de uma revista, mas escrever por obrigação me fez repensar minha paixão por escrever.

– Então você gosta de escrever?

– Gosto! Acho que é a coisa que mais gosto no mundo.

– Sobre o que gosta de escrever?

– Sobre qualquer coisa. Estou começando um projeto agora. Decidi que vou escrever um livro. Um romance, baseado na minha história com minhas melhores amigas, que você conheceu ontem.

– Que legal! Admiro muito quem consegue escrever. Mas ainda mais quem consegue manter uma amizade como a sua com as suas amigas. A cada nova descoberta sobre você, te admiro ainda mais. Disse ele se aproximando dela.

E assim ele foi chegando cada vez mais perto e o coração de Nina disparou. Ele tinha um enorme efeito sobre ela.

Eles se beijaram. A cada beijo, parecia que eles se beijavam pela primeira vez. Nina se perdia em Roberto e sentia coisas que ela nem sabia que existia.

De repente começaram a tirar as roupas um do outro. A carne no forno corria risco de queimar, mas aquele era o último pensamento de Roberto naquele momento.

Eles transaram intensamente, mas com carinho. Roberto beijou todo corpo de Nina. Ela nunca tinha se sentido tão bem cuidada em sua vida.

O forno começou a apitar dizendo que o jantar estava pronto. Na mesa de jantar, as luzes vinham de velas.

– Espero que você goste. Disse Roberto servindo o prato de Nina.

Ela estava faminta.

Ele se serviu e sentou no lugar a frente dela;

– Está uma delícia. Ela disse.

– Fico feliz que tenha gostado!

De repente o silencio tomou conta de tudo. Nina queria perguntar sobre as posições políticas e religiosas dele. Queria saber tudo sobre seu último relacionamento. Queria saber quais eram os sonhos dele. O que o frustrava. Países que conhecia. Se queria ter filhos. Os pensamentos de Nina a atropelavam e ela se dava conta que estava louca por um homem que na verdade ela nem conhecia.

Roberto começou a falar quebrando o silencio e interrompendo os pensamentos dela.

– O que você mais admira em uma pessoa?

– Generosidade. Respondeu Nina sem pensar muito. – E você?

– Lealdade. Disse ele.

– Qual o seu maior sonho? Perguntou ela, se sentindo encorajada pela pergunta dele.

– Quero conhecer pelo menos metade do mundo.

– E o seu?

– Quero conhecer algo do mundo. Nunca sai do Brasil e esse é o maior sonho.

– E por onde quer começar? Perguntou ele.

– Por qualquer lugar. Pela primeira oportunidade. Não existe um lugar que quero mais que outro. Quer dizer… quero muito conhecer Paris. E quanto a você? Que lugar quer mais conhecer?

– Quero ir para China. Ele disse.

Era engraçada aquela situação. Ela pensava na próxima pergunta e se dava conta que estava jantando com um total desconhecido e isso a fazia rir. Aquele desconhecido tinha tomado conta dos pensamentos e do coração dela.

– Agora me diga algo que se arrependeu de não fazer.

– Essa é boa Nina! Quando me formei na faculdade, tive oportunidade de fazer um mochilão pelo mundo, mas preferi ser efetivado na produtora que eu fazia estagio.

– Nossa, você tá teria realizado seu sonho de conhecer pelo menos metade do mundo. E teria sido apenas 1 anos a menos na sua trajetória profissional.

– Você tem toda razão Nina. Foi uma em enorme cagada. Eu deveria ter ido. Mas talvez não tivesse uma carreira de que gosto tanto.

– Ou talvez tivesse. Ela disse, sem pensar muito.

– Ou talvez eu tivesse. Ele concordou em voz alta. – Agora sua vez de falar algo de que se arrepende.

– De não ter ido ainda visitar meu irmão que mora em Portugal.

– E por que não foi?

– Por que não posso tirar férias. Se saio de férias não ganho dinheiro. Meus trabalhos são temporários.

– Você não se permite férias? Perguntou ele chocado. – Você nunca tirou férias?

– Nunca. Respondeu ela, que ouvindo dele parecia ainda pior do que era.

– Por que se arrepende?

– Por que a vida está passando e fico me perguntando se seria apenas isso. Vender o almoço para pagar o jantar. Na verdade, tem um lado meu que não perdoa meu irmão. Ele foi embora. Nos deixou aqui. Eu vou cuidar dos meus pais na velhice deles. Estou sozinha. Acho que nunca tinha dito isso para ninguém.

– Entendo seu ponto. Sou filho único e me preocupo com o futuro. Quero estar perto dos meus pais.

– Eu jamais deixaria tudo aqui.

– Será Nina? Provocou Roberto.

– Ah não sei! Disse ela, já se sentindo zonza pelo vinho.

– Você deveria ir visitar seu irmão.

– Ei sei! Tenho pensado muito sobre isso.

– Você quer ter filhos Nina?

– Acho que não. Respondeu ela, sem pensar.

– Não quer filhos?

– Não sei exatamente. Quero uma vida simples. Quero uma vida em que eu possa escolher onde vou estar. Me apavora pensar que pessoas vão depender de mim.

– Acho que você é primeira mulher que conheço que não quer ser mãe.

– Não penso muito sobre isso na verdade. Você quer filhos?

– Eu também não sei se quero filhos. Me entristece saber que depois de mim tudo acaba.

– O mundo vai continuar depois de nós.

– Mas qual seria o meu legado?

– Seus filmes, as vidas que tocou, as vidas que transformou e mais um monte de marcas que você deixa no mundo todos os dias. Filhos não são garantia de legado.

– Nina! Você tem toda razão. Disse ele totalmente encantado.

– Agora me fale sobre o enredo do filme que está dirigindo.

– É um romance. Você gosta de romance?

– Amo romances!

– É um romance digno de ser chamado de romance. Tem mais drama do que o necessário, mas é um filme que faz pensar.

– Adoro filmes que fazem pensar.

Ele achou graça.

– Vou te levar na pré-estreia do filme. Será daqui um mês.

– Eu vou adorar. Disse ela bebendo todo vinho de sua taça.

“Ele está se comprometendo em me levar em um compromisso de trabalho que acontecerá daqui um mês. Acho que estou namorando.” Pensava Nina morrendo de rir de seus pensamentos.

Roberto encheu mais uma vez sua taça.

“Que sexy ele fica abrindo garrafas de vinho. Que sexy ele fica o tempo todo.”

– Nina, acho que você seria uma ótima inspiração para um filme. Disse ele no momento em que começou a beijá-la novamente.

Ela não podia acreditar, mas estavam de novo tirando as roupas para transar ali mesmo na sala. Ele tirava delicadamente cada peça de roupa dela e acariciava todo seu corpo a ponto dela se arrepiar inteira.

Eles ficaram ali sem roupas por um tempo retomando o ar. Nina se sentia a pessoa mais sortuda do universo. Seu momento de relaxamento depois do sexo foi interrompido por aquele homem maravilhoso trazendo um bolo de chocolate com sorvete de creme e calda de Nutella.

– Sobremesa! Disse ele ao entregar o prato para ela.

– Você não existe. Obrigada Roberto.

– Pareço 10 anos mais velho quando você fala meu nome.

– Mas é o seu nome. É um lindo nome.

– É o nome do meu pai. Sempre me senti velho com esse nome. Te ouvindo falar meu nome me sinto ainda mais velho.

– Como você quer te chame então?

– Não quero que me rebatize. Só estou te falando que me sinto velho. Não se preocupe. Nem sei porque te disse isso.

– Acho seu nome lindo.

– Você é linda.

– Essa sobremesa está deliciosa. Obrigada Bebeto.

Ele deu uma gargalhada.

– Você não existe Nina.

– Aproveitando… sempre achei Nina um nome estranho. A vida inteira ouvi pessoas dizendo que parecia que meu nome era um apelido. Sempre perguntavam: Nina, qual o seu nome? Assumindo que Nina era diminutivo de algo. Você não está sozinho com seu Roberto.

– Ainda bem que não perguntei qual era o seu nome.

Nina riu.

Eles ficaram ali mais algumas horas. Falaram de muitas coisas e Nina sentia conhecer melhor Roberto a cada minuto, a cada novo assunto que se iniciava.

Ele pegou no sono e ela preferiu ir embora. Era muita intimidade acordar do lado dele à luz do dia, sem maquiagem e com os poros do rosto abertos.

Nina caminhou até a casa dela se sentindo leve. Parecia que ela andava em nuvens.

O domingo amanheceu chuvoso e passou lentamente, sem muitas notícias de Roberto. Ele tinha sumido o dia inteiro.

Já no final do dia, Nina enviou uma mensagem agradecendo pelo jantar da noite anterior, mas Roberto não respondeu.

“Que estranho!” Pensava ela, no momento em que recebeu uma mensagem de Erica.

“Oi! Posso passar aí? Tenho novidades.”

“Claro! Venha.”

“Até já, chego em 10 minutos.”

“Até.”

Nina desligou o celular e correu tomar banho. Ela espera por um sinal o dia inteiro, e esse sinal veio da melhor amiga.

“O que será que aconteceu para o Roberto sumir assim?” Pensava ela enquanto sentia a água limpar seu corpo.

Quando Erica chegou ela sentiu alívio. Aquela solidão e a ausência de notícias de Roberto tinham levado sua alegria.

– Amiga! Obrigada por me receber?

– Quer beber alguma coisa.

– Qualquer coisa alcoólica que tiver.

– Vou abrir um vinho.

– Sabe amiga, quando cheguei aqui há pouco mais de 1 mês não imaginava minha aqui. Não imaginava que ia me recuperar rápido do tombo que levei. Mas algo mágico está acontecendo comigo.

– Você conheceu alguém? Perguntou Nina empolgada, interrompendo a amiga.

– Sim! O Francisco. Foi minha dupla no nosso primeiro dia de curso. Lembra que comecei um curso. Nos entendemos tão bem, que saímos para tomar uns drinks e acabamos na cama. Estou amando amiga.

– Ah como é lindo é o destino.

– Não sei o que ocasionou esse encontro, mas estou nas nuvens. Ele é maravilhoso. Já passou por coisas difíceis. Foi casado e a mulher se suicidou. Ele tem um filho, que está com 2 anos agora e que cria sozinho. Os pais moram no interior. E ele tem uma irmã que ajuda muito. Ele tem 35 anos amiga. É um homem de verdade. Quero ele inteiro para mim. Nunca imaginei que aceitaria um homem com filhos. Mas eu não tenho a menor dúvida que aceitarei ele com tudo que vier com ele. Já não imagino minha vida sem ele. E o Pedro é um fofinho. Conheci ele ontem.

– Minha amiga! Que lindo te ver assim.

– Nunca imaginei que meu coração amaria novamente. A vida pode ser muito maravilhosa.

– E é!

– Agora me conte do Roberto. O Bradley foi na festa da Mel. Chocada! E ele é um Deus Grego amiga e parece ser doido por você. Você ganhou na loteria do amor.

– Depois da festa viemos para cá e transamos amiga! Ele se encaixa perfeitamente comigo. Sério! Que incrível que foi. Ontem ele me chamou para jantar e cozinhou para mim.

– Não acredito! Nunca nenhum homem cozinhou para mim.

– Ele cozinhou pra mim e transamos loucamente de novo.

– Meu Deus! Vocês estão namorando.

– Não! Claro que não. Estamos nos conhecemos. Ontem falamos um pouco um sobre o outro e talvez algo que eu tenha dito não o encorajou a seguir me conhecendo. Talvez eu tenha sido bloqueada nos primeiros filtros.

– O que você poderia ter dito?

– Por exemplo que acho que não quero filhos.

– Isso pode ter sido um problema. Mas certamente ele não iria embora por isso. Hoje você não quer, talvez amanhã queira. Maternidade é isso.

– Você tem razão! Mas o fato é que ele sumiu hoje.

– Não acho que depois de cozinhar pra você e transarem loucamente ele simplesmente desapareceria. Calma amiga. Não faz a louca.

– Você tem razão.

– Daqui a pouco ele te dará notícias.

Elas ficaram ali a tarde toda, ouvindo música e bebendo vinho até que se animaram para sair para jantar. Seguiram conversando e curtindo a companhia uma da outra.

Nina seguia sem sinais de Roberto.

No final do jantar Francisco passou no restaurante para buscar Erica.

Nina voltou sozinha para casa e sua angustia tomava cada vez mais conta de seu coração.

Ela olhou no apartamento dele e não viu nenhuma luz acesa.

“Ele não está em casa.” Pensou ela.

Ela foi dormir, ainda sem notícias. No dia seguinte tinha que estar cedo na agência de caracterizações para um possível novo trabalho.

Ela acordou de manhã e finalmente viu um mensagem de Roberto.

“Fui andar de barco com alguns amigos e fiquei sem sinal o dia todo, por isso não consegui manter contato com você. Adorei nossa noite. Vamos repetir. Beijo”

Ela estava feliz com as notícias, mas de alguma maneira sentia ele estranho.

“Que louca que sou! Por que estou achando ele estranho?”

Ela preferiu não responder naquela hora. Deixou para pensar e responder depois.

Se apressou em sair para não perder seu horário e seu novo trabalho.

Ela chegou pontualmente no horário marcado e foi recebida pela coordenadora que cuida das fantasias de LOL.

– Olá Nina, como está?

– Bem e você?

– Bem também. Temos um novo job. Serão cinco dias seguidos e a grana será boa.

– Oba! O que seria.

– Você vai se vestir com essa fantasia e vai ficar dançando pelas ruas da cidade.

– Isso é um frango?

– Sim! Uma galinha na verdade. Se trata de um teaser para o lançamentos de um novo tempero.

– Então o trabalho é se vestir de galinha, nesse calor e andar pela cidade?

– Sim!

– E essa é a grana. A coordenadora mostrou a proposta.

– Uau! Isso é mais que ganho no festa com as festas de LOL.

– A grana é boa! Topa?

– Topo. Quando começo?

– Agora. Vamos ali para você experimentar a fantasia.

Nina terminou de vestir a fantasia e dava graças a Deus que ninguém seria capaz de ve-la atrás daquela fantasia ridícula.

“A grana é boa!” Pensava já vestida a caminho da van.

Eles pararam em uma das avenidas mais corporativas e movimentadas da cidade. Nina começou a sua performance e se tornou o centro das atenções naquela esquina. Todos olhavam para ela. A galinha era um fenômeno.

Já perto da hora do almoço Nina estava faminta e já tinha suado até sua alma quando uma cena chamou a sua atenção.

Lá de dentro da galinha ela via Roberto. E ele caminhava lado a lado com um uma mulher deslumbrante e muito bem vestida. Nina observava tudo que de repente parecia estar em câmera lenta e aquela galinha ainda mais quente. A sensação térmica naquele momento batia os 50 graus.

Os cabelos loiros da mulher ao vento e a lenta subida do braço dele, no momento que ele colocou o seu braço sobre os ombros dela para entrarem no restaurante mais badalado da cidade na atualidade.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 10 SERÁ PUBLICA NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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