Capítulo 7 – Fugindo para Lugar Nenhum

Vitória acordou atrasada e mal teve tempo de escovar os dentes. Arthur já a esperava quando ela acordou. Ela iria buscar algumas modelos no aeroporto que estavam vindo à São Paulo para desfilar no fashion week.

Chegou no carro sem conseguir respirar.

– Bom dia Arthur! Perdi a hora. Me desculpe.

– Fiquei preocupado. A Senhora nunca se atrasa.

– Cheguei de viagem ontem. E fui dormir muito tarde. Não ouvi o despertador. Ainda bem que você me acordou.

– Dia cheio hoje, né?

– Sim! E já começou atropelado.

– Música Dona Vitória?

– Acho que não. Preciso me concentrar nas tarefas do dia.

Ela realmente tinha muito o que planejar porque seu dia ia ser muito ocupado. Ela acompanhava 5 modelos da agência que iam desfilar para vários estilistas. A tensão era tanta que ela mal se dava conta que tudo isso era um tremendo mérito do bom trabalho que ela realizara. A agência nunca teve tantas modelos contratadas para uma semana de moda e ela nunca tinha tido tanto trabalho desde que chegara.

O silêncio fazia bem para Vitória, que tentava se concentrar mas tinha seus pensamentos sempre chegando em José. Ela resolveu que ligaria para Eric. Era sua esperança para resolver essa questão estranha do seu coração.

“Como vou fazer isso?” Pensava ela. E o silencio foi quebrado, afastando todos os pensamentos, planos e ideias da cabeça de Vitória, no momento em que as 5 modelos entraram histéricas no carro.

– Bom dia meninas! Animadas?

– Sim muito. Responderam em coro.

E partir daquele momento nada mais era possível a não ser acompanhar a histeria que tinha se instaurado no carro.

Chegaram enfim ao local do evento e tudo parecia mais glamuroso do que nunca para Vitoria. Ela já tinha ido inúmeras vezes àquele evento. Mas dessa vez era diferente. Ela tinha muito mais responsabilidade e também tinha acabado de voltar de Paris. Isso mudava absolutamente toda a forma de Vitoria ver as coisas.

As modelos estavam desfilando para vários estilistas, o que fazia com que Vitoria ficasse correndo de um back stage para o outro o dia inteiro.

As modelos estavam brilhando na passarela e Luna parecia realmente despontar para o sucesso. Era alvo de comentários positivos dos mais variados fashionistas e editores de moda e beleza.

O dia terminou com uma festa e Vitória, exausta, estava pegando suas coisas para ir embora para casa sem animo para festas apesar de estar muito feliz com tudo, quando sua chefe a impediu.

– Hey mocinha. Onde você pensa que vai? Perguntou Veronica linda em um vestido de couro sem decote na altura do joelho.

– Oi Veronica! Que bom te ver. Nosso dia foi perfeito hoje.

– Estou sabendo. Estão todos muito felizes. E esse é mais um motivo para a Senhorita ficar pelo menos para brindarmos ao nosso sucesso nessa festa.

– Eu não tenho roupa. Não posso ir assim. Saí atrasada de casa e nem me lembrei da festa.

– Não seja por isso.

Veronica puxou Vitoria pelo braço e a levou para um armário.

– Vamos! Escolha o que quiser.

– Você pode fazer isso? Essas roupas nem chegaram às lojas.

– Posso! Por isso tenho a chave. E sim. Já chegaram! Nessa edição, as roupas saem da passarela direto para as lojas. Portanto, não estamos fazendo absolutamente nada errado.

– Ai meu Deus. Dizia Vitoria mordendo os lábios enquanto escolhia uma roupa. – Quero essa? Disse pegando um vestido frente única largo, plissado feito em lurex colorido em tons de preto, azul e branco que parava na metade das canelas e tinha uma fenda generosa. Era muito sensual e sofisticado ao mesmo tempo.

– Bela escolha. Agora vamos. Já estamos atrasadas.

O ambiente era muito sofisticado e o DJ tocava David Guetta. Estavam todos muito animados e em clima de celebração. O espaço estava todo tomado e Vitoria nunca tinha visto tanta gente bonita em um único lugar, mesmo trabalhando com beleza há anos.

Nas bandejas que circulavam desfilavam Moet Chandons, muitos tipos de uísques importados e drinks coloridos. O que fazia todo mundo beber além da conta.

Era quase meia noite e Vitoria foi ao banheiro para retocar sua maquiagem porque o cansaço tinha ido embora, dando lugar a uma grande euforia.

Ela passava seu batom quando uma mulher deslumbrante, cabelos compridos e muito brilhantes, olhos verdes, 1m80 de altura, pele bronzeada e corpo escultural parou ao seu lado e também começou a passar a batom.

“Meu Deus, Isabel Arantes. Ela estava saindo com Eric. Como ela é deslumbrante. Nem minha roupa recém desfilada na passarela me coloca a altura dela.”

Vitoria se apressou para sair do banheiro, sentindo-se totalmente diminuída ao lado daquela mulher deslumbrante. E assim que abriu a porta, ainda se recuperando da comparação injusta que o espelho tinha imposto a ela, deu de cara com Eric.

– Uau! Você aqui? Seria o destino de novo? Ela pergunta, querendo amenizar o clima pois sabia o que estava para acontecer.

Ele totalmente sem graça, a cumprimentava no momento em que Isabel sai do banheiro:

– Como vai Vitória? Deixa eu te apresentar minha namorada Isabel.

– Ah! Namorada? Prazer, Vitória.

– Foi meu Vitória. Respondeu Isabel. – Agora podemos ir Eric? Estou cansada.

– Claro. Tchau Vitória. Foi um prazer te ver.

– Tchau! Disse ela derrotada, se sentindo o último ser humano da face da terra. E com aquele encontro, ela perdia completamente a vontade estar ali e toda a euforia dava lugar para um enorme nó na garganta e uma vontade absurda de chorar.

Ela respirou fundo e decidiu ir embora sem se despedir de ninguém. Já perto da saída, sentiu uma mão tocar seu ombro.

“Fui descoberta fugindo!” Pensava ela se virando e preparando a desculpa que daria por ser pega indo embora sem se despedir de ninguém.

Mas para a surpresa dela, não era sua chefe, nem Eric, nem ninguém do escritório. Era Thomas, uma grande amigo da época da escola que ela não via há 10 anos.

– Vick! Quanto tempo! Tudo bem com você?

– Thomas! Muito tempo mesmo. Mais de 10 anos na verdade! Comigo tudo bem! E com você?

– Bem também! Que delícia te encontrar. O que faz aqui?

– Trabalho para uma agência que teve algumas modelos desfilando por aqui. E você?

– Também trabalho para uma agência de modelos. Toma um drink comigo?

– Tomo! Estava indo para casa porque estou realmente muito cansada, mas não é todo dia que encontro um grande amigo que não vejo há tempo.

– Vem! Vamos beber algo. Que delícia te ver aqui.

Ele pediu uma garrafa de Moet Chandon e levou Vitória para um grande terraço ao ar livre. A noite estava fresca, tinha uma brisa suave e perfume de flores brancas. Ainda tinham muitas pessoas ali. Eles se sentaram embaixo de um grande guarda-sol e se acomodaram nos sofás com almofadas muito aconchegantes.

– Que coincidência te ver aqui. Você está linda. Como sempre. Não mudou nada. O tempo não passou para você. Disse Thomas encantando com ela.

– Foi mesmo uma coincidência. Obrigada pela sua generosidade. Já você mudou um pouco. Disse corando as bochechas.

– Ainda bem que você reparou. Você sempre soube que eu era apaixonado por você, enquanto você queria ser somente minha amiga. Né? Hoje entendo. Como uma menina linda como você ia querer algo com um gordinho nerd como eu?

– Que bobagem! Você era meu melhor amigo. Sempre adorei você. Você era o mais inteligente e o mais divertido de todos. Eu desconfiava mesmo das suas segundas intenções.

– Mas não o mais bonito.

– É não… Concordou ela. – Mas o tempo fez muito bem a você. Está mais bonito.

– Então as horas de corrida e boxe, enfim valeram à pena. Agora me conta, por que você estava indo embora tão cedo?

– Estou cansada e hoje foi só o primeiro dia.

– Você parecia triste.

– E estava. Mas estou feliz agora. E gostaria de não falar de coisas tristes. Me fala de você. Como anda a vida?

– Bom, se você não quer falar de coisas tristes vou pular a parte amorosa e ir direto para a vida profissional. Sou diretor de uma agência internacional de modelos e estou liderando um projeto muito desafiador que será um mérito para minha carreira se der certo.

– O que houve na vida amorosa?

– Acabei de terminar um relacionamento. Nós morávamos juntos e ela me pressionava para casar. Ela não aceitava o foco que eu estava dando para a minha carreira e me cobrava demais. Acabei sendo um cara que não servia para ela e terminamos. Eu gostava muito dela, mas acho que não o suficiente para dar a ela o que ela precisava. Isso aconteceu a menos de um mês. Estou me recuperando. Mas acho que foi melhor.

– Juntando os cacos?

– Sim! Me reencontrando. E como anda a sua vida amorosa?

– Também rompi meu namoro. Fui traída. Aconteceu na minha casa. Eu vi tudo. Cheguei mais cedo de uma viagem e queria fazer uma surpresa e quem foi surpreendida fui eu. Eu ainda quis perdoar, dar uma segunda chance, mas ele preferiu ela. Duas porradas de uma vez. Isso já faz mais de 5 meses. Estou começando a respirar de novo agora.

– E foi isso que te deixou triste hoje?

– Não. Minha perda de esperança que o amor é para mim é que me deixou triste.

– Não diga uma bobagem dessas! Você é jovem, linda e tem a vida pela frente. Aliás, vamos parar de falar do que passou e brindar pelo que está por vir. Um brinde ao nosso futuro. Disse Thomas levantando a taça.

– Ao que está por vir. Respondeu Vitória já sentindo o efeito de todo álcool que tinha ingerido.

Enquanto bebiam, Vitoria observou Thomas por alguns instantes. Ele era moreno, tinha olhos castanhos e uma bela barba, muito alto, tinha 1m90 de altura, magro com o corpo bem definido. Ele não lembrava em nada o gorducho tímido da época da escola. Parecia um homem bem resolvido e bem sucedido.

– O que foi? Perguntou ele tirando Vitória, já ligeiramente bêbada, de seu momento de contemplação.

– Nada. Você me fez sentir uma tremenda nostalgia.

– Boa?

– Boa! E já estou um pouco bêbada… Confessou Vitória.

– Se é um pouco, acho que podemos tomar mais uma taça. Aceita? Perguntou já levando a garrafa até a taça dela.

– Só mais uma.

Eles acabaram bebendo toda a garrafa de champagne e falaram sobre a época da escola, riram muito, falaram sobre suas famílias. Falaram sobre José e Tatiana. Eram um quarteto que tinha virado um trio e Thomas ficou impressionado pela amizade dos três ter durado até aquele momento.

Já perto das 2 horas da manhã, Vitória disse que precisava ir embora e Thomas insistiu para que ela ficasse mais, mas ela não aceitou pensando no duro dia de trabalho que teria no dia seguinte.

– Bom, se você vai embora e eu não posso fazer nada quanto a isso, vou embora também.

– Então vamos. Estou de taxi. Onde está o seu carro?

– Estou de taxi também.

Eles caminharam pelo parque onde acontecia a festa a caminho do ponto de taxi. Estavam em silêncio até que Thomas começou a falar.

– Sabe quantas vezes, no passado, eu quis te beijar, mas nunca soube como fazer isso?

– Nem ideia.

– Muitas. Sempre gostei de você, mais do que como amiga.

– Não acredito que fiz isso com você.

– Não se preocupe. Já superei.

– Fico feliz e aliviada em saber.

Nesse momento ele para, segura o rosto de Vitoria com as 2 mãos e encosta ela contra o tronco de uma árvore.

– Mas dessa vez não vou desperdiçar a segunda chance que o destino está me dando.

E antes que ela falasse qualquer coisa, ele a beijou, com carinho mas com intensidade, como se matasse a vontade que sentiu por tanto tempo anos atrás.

Assim que se beijaram, se olharam por alguns segundos em silêncio e voltaram a caminhar em direção ao ponto onde uma fila de taxis aguardava os convidados da festa. Vitoria estava se sentindo estranha por beijar seu amigo por quem nunca sentiu nada, tendo tantos sentimentos mal resolvidos com Eric e José. Já Thomas se sentindo triunfante por beijar a garota do poster que sempre esteve ali na parede do quarto dele, mas era impossível de alcançar a não ser em sonhos.

Antes de irem embora, se despediram com mais beijos e trocaram telefones. Ela entrou primeiro no taxi.

– Que delicia ter te encontrado. Ele disse enquanto o taxi começava a andar.

– Também achei. Respondeu ela mais por educação do que por empolgação.

Vitória se sentia muito zonza e se arrependeu por ter bebido tanto. Só de pensar no seu dia cheio de trabalho e na possível ressaca que certamente teria, ela estremecia. Ela começou a pensar nas suas possibilidades para o amor. José era coisa resolvida, pelo menos de maneira racional, porém sua boia salva-vidas não estava mais disponível. Eric apresentou uma namorada para ela, depois de tratá-la de maneira quase desprezível. Ele namorava uma mulher bem sucedida, rica e deslumbrante. O que ela podia contra isso afinal? ”Mas onde mesmo estava meu juízo achando que um homem como Eric, que pode ter qualquer mulher, ia me querer?” Pensava ela. “E José, que parecia ser o homem que mais me amava no mundo, não me vê além da nossa amizade. Acho que não sou bonita o suficiente. Acho que ele não me acha atraente. E agora aparece o Thomas. Ele mudou, está bonito. Continua divertido. Mas não sinto nada por ele. O beijo foi bom. Uma delícia na verdade, mas não sinto nada por ele.” “Por que precisa ser assim? A gente querer quem não quer a gente e não querer quem quer?”

Ela chegou em casa e dormiu profundamente sem conseguir pensar em mais nada. O dia seguinte começou um pouco mais tarde, o que era um tremendo alívio para Vitória que conseguiu dormir um pouco mais e acordar melhor do que esperava.

Logo que acordou viu uma mensagem de Thomas no seu celular.

“Que delícia foi te reencontrar. E te beijar então… Obrigado pela noite maravilhosa. Espero que você tenha chegado bem. Se estiver livre alguma noite nessa semana, gostaria de levá-la para jantar.”

Ela respirou fundo antes de responder e ponderou sobre o que responderia.

“Também adorei. A noite e te reencontrar. Essa semana está bem complicada, mas vamos nos falando. Beijos”

Ela adoraria que fosse diferente, mas ele não fazia o coração dela bater mais rápido. Logo que enviou a mensagem foi tomar banho e se arrumar para mais um dia cheio de desfiles.

A semana passou voando e finalmente chegou sexta-feira. Durante a semana Vitória respondeu as mensagens de Thomas, mas não aceitou sair com ele. E combinou de encontrar os amigos no bar onde José tocava na sexta. Ela se sentia mais imune a ele. Eric não tinha se manifestado desde o encontro onde apresentou sua namorada e Vitoria ia tentando tirar ele dos seus pensamentos. Assim que chegou no escritório percebeu um movimento estranho. Pessoas estranhas, muitas conversas no corredor e no café.

– Hey Vick, bom dia! Disse Cristina, que se sentava ao lado de Vitória.

– Bom dia Cris. O que está acontecendo por aqui hoje? Nunca vi tanta gente no escritório numa sexta. As pessoas parecem estar andando de um lado para o outro, sem destino… sei lá está esquisito. Passei a semana fora do escritório e quando chego parece que teve uma guerra aqui.

– Estão especulando sobre uma possível venda da agência. Parece que o sucesso dos últimos tempos nos deu projeção e a agência será vendida.

– Jura? Não ouvi falar nisso.

– Pois é. Mas não se fala em outra coisa por aqui.

– Isso pode ser bom para a gente. Mais investimentos, trabalhos mais relevantes.

– Vick, podemos perder nossos empregos. Não se sabe o que a agência compradora vai fazer com as pessoas.

– Você tem razão. Mas de onde surgiram essas especulações?

– Essa semana vieram pessoas estranhas aqui. A Veronica e o Omar fizeram muitas reuniões. E isso foi suficiente para começar o falatório. Mas parece ter sentido. Gente estranha, reuniões fora da rotina e tudo em um momento em que agência começou a fazer sucesso.

– Acho que não devemos nos preocupar tanto com algo que nem aconteceu. Apesar de fazer bastante sentido. Vamos esperar e depois vemos como resolvemos.

– Você tem razão. E no final pode ser bom e nos preocupamos à toa.

– Isso! Vamos tomar um café. Quero contar as fofocas da semana de moda.

– Boa. Vamos.

Vitória preferiu não se preocupar tanto, mas no fundo do seu coração estava receosa depois da conversa com Cristina. “Será que vou perder meu emprego logo agora que as coisas melhoraram e perto de viajar para fazer meu curso. Vou ficar para sempre na casa da mãe. Não posso perder meu emprego agora.” Pensava Vitoria aflita, com medo do que estava por vir.

No final do dia que foi arrastado e tenso Vitoria foi se maquiar no banheiro pois iria direto para o bar encontrar seus amigos. Enquanto se olhava no espelho pensou em José e um arrepio percorreu seu corpo.

“Ele quer ser racional. Mas não consigo. Hoje vou beijar ele na boca. Dane-se nossa amizade. Por mais importante que seja ser amiga dele. Hoje não sou nem amiga, nem namorada. Hoje tudo já está diferente. Vou dizer que não quero continuar assim e que não consigo tirar as coisas que sinto do meu coração.”

Vitória saiu decidida a conquistar o coração de José, cheia de confiança e linda. Ela atraia os olhares dos homens por onde passava.

Quando ela chegou José estava no palco cantando e ela se sentia totalmente atraída por ele. Ela olhava encantada para ele quando foi surpreendida por Tatiana.

– Que bom que você chegou! Vem, temos uma mesa. Disse Tatiana.

– Vamos. Respondeu Vitória que começava a caminhar seguindo Tatiana, mas não tirava os olhos do palco.

Elas tomavam drink e conversavam quando José chegou.

– Hey meninas, que bom que vocês vieram. Vão chegar alguns amigos aqui. Tudo bem Vick?

– José preciso conversar com você. Podemos ir lá fora um minuto?

– Claro.

Eles caminharam constrangidos até conseguirem enfim estar ao ar livre onde podiam se escutar muito melhor.

– Pensei em tudo José. Mas na verdade, na tentativa de preservar nossa amizade, ou o que tivemos, estamos só nos distanciando mais. Já não temos o que tínhamos. Nos falávamos quase todos os dias. Você era a primeira pessoa para quem eu ligava quando algo de bom ou ruim me acontecia. E eu não tenho mais isso. As coisas mudaram. Meus sentimentos mudaram. Não dá para mudar isso. Não existe mais o que nós éramos. Precisamos pensar no que vamos ser.

– Vick, já gostei de você um jeito diferente e a sobrevivência da nossa amizade foi eu ter transformado esse amor numa amizade incrível. De verdade. Não acredito que do nada você goste de mim. Acho que você está carente e confundindo as coisas. Dar uma chance para isso e no final ser só carência sua, pode arruinar o meu coração. Você é uma pessoa fácil de se apaixonar e não acredito de verdade que você esteja gostando de mim.

– Por que você não acredita no que eu sinto?

– Porque aconteceu de maneira repentina em um momento que você está muito vulnerável. Você está com ciúmes.

– José. Eu gosto de você!

– Vick, eu também gosto de você. Muito…

Antes que ele terminasse de falar, Vitória o interrompeu e o beijou. Ele aproveitou o beijo. Tinha desejado aquele beijo muitas vezes no passado, mas caiu em si e afastou Vitória.

– Hey! Não podemos fazer isso.

– Por que?

– Eu pedi a Isabela em namoro essa semana e ela aceitou. Tenho uma namorada agora.

– Como assim? Eu me declaro para você e você arruma uma namorada?

– Vick! Será melhor assim.

– Não! Não será! Você não me acha atraente? Não gostou do beijo? Qual é o seu problema afinal?

– Você é a mulher mais bonita do universo e o beijo foi perigosamente delicioso. Mas agora tudo mudou. Para de achar que você é o problema.

– Ai José. O que vou fazer com tudo isso?

– Vamos dar um jeito! Confia em mim. Te amo Vick. Se daqui a algum tempo esse sentimento persistir, a gente volta a conversar. Mas estou certo que isso é uma grande confusão da sua cabeça.

– Eu também te amo José. E acho que você pode ter razão. Mas o fato é que desde que me descobri sentindo isso, não consigo sentir outra coisa.

– Vick, eu preciso voltar. Vou voltar para o palco. Por favor, nos dê uma chance para não nos perdermos um do outro. E para eu não arruinar com o meu coração. De novo…

– Ok José. Eu vou tentar. Mas eu não sabia sobre esses seus sentimentos do passado. Por que nunca me contou?

– Porque eu não sabia o que fazer com isso. Porque achava que não faria diferença. Porque nunca pensei que você pudesse gostar de mim de outro jeito. Sei lá porque. Agora preciso mesmo voltar.

– Vamos então.

Eles voltaram para dentro do bar atordoados com tudo o que tinha acontecido. José queria se defender e não acreditava no que Vitória sentia. Vitória queria mostrar que era real, mas de tanto José questionar ela começou a pensar que ele podia ter razão.

Em poucos minutos José estava de volta no palco e os amigos dele chegavam junto com Isabela, a nova namorada. A cabeça de Vitoria dava voltas e ela resolveu ir embora para casa. Ela não queria ver José com Isabela.

Ela estava indo embora sem se despedir de ninguém quando foi interrompida por Tatiana.

– Hey sua doida. Onde está indo?

– Para casa.

– Mas você acabou de chegar.

– Acabei de beijar o José.

– Que??????

– Nos beijamos e ele recusou meu beijo. Disse que não acredita nos meus sentimentos e ele não quer se machucar. Porque já gostou de mim.

– Eu sabia disso.

– Porque nunca me contou?

– Porque ele pediu para não contar. E você nunca disse nada sobre ele. Nunca manifestou qualquer interesse por ele. Por isso sempre preservei a história.

– Ai Tati. Estou tão perdida. Disse Vitória desabando em lágrimas.

– Hey, calma. Disse Tatiana abraçando a amiga.

– E agora ele ainda resolve namorar uma desconhecida. Vou perder ele para sempre. Dizia soluçando.

– Calma Vick. Vem vamos tomar uma água.

– Quero ir embora.

– Não vou deixar você ir embora assim. Vamos lavar esse rosto e se acalmar. Pense por outro lado. Tem o Eric. Partidão, louco por você, que te levou para ver o por do sol em um lugar especial para ele.

– Não tem mais amiga. Ele me apresentou a namorada dele pessoalmente nessa semana em uma festa do Fashion Week. No more Eric. Seria hilário se não fosse trágico.

– Ai amiga. Que fase!

– Mas apareceu o Thomás. Lembra dele? Nosso amigo da escola?

– Lembro! Não acredito. E como ele está? Ele era tão legal! Tão divertido.

– Nós nos reencontramos e ele está ótimo.

– Continua gordinho, tímido e engraçado?

– Ele emagreceu e parece menos tímido. Está bem. Parece bem sucedido. Mais do que eu com certeza. Aliás, todo mundo parece ser mais bem sucedido do que eu. O que estou fazendo com a minha vida?

– É só uma fase. E até ontem estávamos brindando seus sucessos profissionais. Não misture as coisas.

– Beijei o Thomas.

– Gente. Você está beijando todo mundo. E aí?

– Foi uma delícia. Ele é gentil, me trata bem, beija bem, parece ter gostado muito de mim no passado. Mas não sinto nada por ele.

– Mas pode vir a sentir. Você acabou de reencontrá-lo.

– Ele tem me chamado para sair. Mas eu não tenho vontade. Tenho dado desculpas e na maioria das vezes, não tenho atendido o telefone.

– Acho que você deveria dar uma chance para ele. Vamos marcar para nos reencontrarmos. Será uma delícia.

– É pode ser. Agora quero mesmo ir para casa. O José vai descer do palco e não quero ver ele com a Isabela.

– Vai amiga. E preciso voltar para o Tato. Deixei ele lá sozinho. Se cuida. E não se cobre tanto.

– Pode deixar. Obrigada por tudo.

E Vitória foi para casa relembrando do beijo interrompido tentando entender seus sentimentos e começava a acreditar que José poderia ter razão. Nem ela própria se entendia. E de repente, no meio do turbilhão de pensamentos, o beijo de Thomas também tomou conta dos seus pensamentos e seu coração acelerou. “Estou mesmo muito louca. Do que estou fugindo? Estou fugindo para lugar nenhum.” Pensava ela enquanto dirigia até sua casa.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 08 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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