Capítulo 13 – Ah Se Essas Cortinas Falassem

Ana passou o domingo angustiada. Ela esperava que tudo se solucionasse. Ela temia pelo encontro que teria com Michel no dia seguinte depois de seu último surto onde ela o deixou falando sozinho.

No meio da tarde o telefone finalmente tocou. Ana esperou ser de Michel a ligação, mas era Lara ligando:

– Oi Lara, tudo bem? Disse Ana atendendo o telefone.

– Oi cabeça! Tudo ótimo. Estou na casa do Caíque porque está tendo uma festa para a família aqui. E dormimos juntinhos. E o sexo foi incrível. Estou exausta porque não dormi nada, mas estou muito feliz.

– Fico feliz por você cabeça.

– E como está sendo seu dia? Perguntou Lara.

– Esperando a segunda chegar.

– Que tal um cinema hoje?

– Lara, hoje é aniversário do seu namorado e você quer ir no cinema comigo?

– Cabeça, ele também vai.

– Porque eu iria no cinema com vocês dois? O que você bebeu amiga?

– Porque o Luigi também, então seríamos nós quatro.

– Ah bom! Por que não disse logo?

– Sei lá. O que sei é o Luigi não vale nada e vive arrebatando e trincando corações por aí, mas ele gostou mesmo de você. Ele está aqui desde cedo e me encheu o dia todo para te ligar. Esse homem é um pedaço de mal caminho e está louco por você. Acho que você deveria ir ao cinema.

– E eu acho que preciso dormir. Preciso me despedir de vez da história com o Michel antes de me envolver em qualquer outra coisa. De verdade, não estou com cabeça para nada hoje. Vou preferir ficar quieta em casa.

– Acho que você será a primeira mulher a trincar o coração de Luigi. Acho que ele vai ficar arrasado.

– Diga para ele que podemos sair em uma outra oportunidade e que já tenho outro compromisso hoje.

– Ok Cabeça. Vou dizer. Agora, por favor, devolva a minha melhor amiga. Essa que está no lugar está me parecendo meio bipolar e passional demais.

– Vou busca-la para te devolve-la.

– Sim! Por favor. Fica bem melhor amiga. Disse Lara de maneira carinhosa.

– Obrigada por tudo! Te amo Lara.

– Love you! Aproveite seu namorado.

– Aproveite sua cama.

– Até amanhã. Beijo

– Até! Beijo.

Ana desligou o telefone e ficou parada por alguns segundos tentando absorver tudo aquilo. Tinha um homem da idade dela, com senso de humor, repertório, que era lindo e extremamente interessante aparentemente realmente a fim dela, a tratando bem, se esforçando para ficar com ela, mas que ela não valorizava. Ele definitivamente não queria. Seu coração ainda estava ocupado pela paixão por Michel, ou pela ideia que fazia dele, ou pela cisma de querer aquilo que não se pode ter. E mesmo a iniciativa de arrancar aquela história do seu coração, não parecia abrir espaço para nada novo. Ela queria colocar tudo no lugar e encerrar de vez a história com Michel antes de ter qualquer envolvimento amoroso.

Naquele dia ela só conseguia ver o copo meio vazio. “Despedidas são mesmo assim.” Pensava ela ainda de pijama decidindo que precisava comer um pote de sorvete inteiro com Nutella. Sua mãe estava em mais um final de semana de trabalho, o que deixava Ana ainda mais sozinha e a casa ainda mais silenciosa.

A segunda-feira amanheceu linda, com céu azul e sol. Era um dia típico de outono, porém fazia muito mais frio do que parecia. Ela não tinha muita disposição para colocar uma roupa incrível que a deixasse parecendo uma super mulher. Então naquele dia saiu de sua média de roupas incríveis para o trabalho e voltou a ser a menina de 21 anos com suas roupas comuns e confortáveis, que só queria que aquilo tudo passasse logo.

A manhã na faculdade foi boa, Ana recebeu algumas notas que a faziam estar ainda mais perto de sua formatura e de sua viagem para a Hungria. E de repente a viagem ganhou novamente uma grande importância em sua vida. Mais do que o sonho de conhecer o lugar que sempre quis, a viagem tinha se transformado em um meio de transporte de fuga, um bote salva-vidas, ou algo assim.

Ela terminava de almoçar quando sentiu seu estomago se contorcer com a possibilidade de encontrar Michel em poucos minutos. Como ele era totalmente imprevisível, ela nunca sabia muito bem o que esperar entre os encontros deles. E isso roubou sua fome e impossibilitou de continuar comendo.

Ela olhava suas roupas no espelho do elevador enquanto subia para o andar onde ficava seu escritório e se arrependia da escolha da roupa. “Hoje eu deveria estar mais incrível do que nunca. Afinal nas despedidas mostramos ao outro o que perdeu. Vou pelo menos passar um batom.” Falava em pensamento consigo mesma.

Como sempre, seu coração se acelerou quando a porta abriu. E no meio de alguns cumprimentos, ela conseguiu chegar em sua mesa sem passar por grandes emoções.

Naquele dia, Ana precisava terminar sua matéria sobre a pesquisa sobre idealização que tinha feito. Ela não tinha nenhuma inspiração para começar e resolveu tomar um café antes.

Tomou seu café sozinha, respirou fundo algumas vezes e conseguiu colocar os pensamentos e o coração no lugar. Conseguiu se dedicar à sua matéria, e a medida que a tarde avançava, mais orgulhosa e satisfeita ela ficava. Perto das 17h foi chamada por Cris para apresentar sua matéria, ela estava nervosa, mas a apresentação foi um sucesso. A chefe tinha amado tudo e pediu poucos ajustes. Quando Ana saia de sua sala, a Cris disse que sentia muito por ela não continuar na revista após sua formatura. E assim, todo o seu sucesso profissional deixou enfim o copo meio cheio naquele dia.

Ana se preparava para ir embora, feliz com suas conquistas profissionais quando foi surpreendida por um email que fez seu coração acelerar.

De: Michel Freitas

Para: Ana Tamás

Assunto: O Conto da Ilha Desconhecida

Ana,

Espero que tenha tido um excelente final de semana. O meu foi dedicado aos livros, incluindo um presente inusitado que recebi no sábado de manhã. Eu já tinho lido esse livro no passado, mas confesso que dessa vez enxerguei outras perspectivas.

Se puder, gostaria de tomar um café com você, daqui a pouco, na livraria aqui da frente.

Você mencionou que tudo que queria me dizer estava ali. Como existem uma série de possíveis interpretações, acabei ficando confuso com sua mensagem. Por isso eu gostaria de ouvir de sua própria boca o que tem para me dizer.

Quero reforçar que eu estou bem aqui.

Te espero no café, às 18h30.

Até já.

XO

Michel.

Ela lia e relia aquela mensagem curta várias vezes, como se estivesse algo codificado ali que ela precisava desvendar. “O que responder para ele, meu Deus?” Ela pensava enquanto começava a digitar uma resposta.

De: Ana Tamás

Para: Michel Freitas

Assunto: RES. O Conto da Ilha Desconhecida

Michel,

Meu final de semana foi ótimo, obrigada. Longe dos livros e na companhia de amigos, tequila e música. Mas valorizo finais de semana na companhia de livros.

Não leve tudo tão a serio. Posso falar de minha própria boca, mas gostaria de limitar suas expectativas sobre algo grandioso.

Te encontro lá.

Beijo,

Ana

Ela se sentia feliz ao apertar o botão ‘enviar’ e acabava se arrependendo novamente da escolha da roupa naquele dia. Ela vestia uma calça jeans, um tênis all star vermelho e uma blusa velha que começava a fazer bolinhas de cashmere branca. Sua roupa a fazia parecer ainda mais nova do que era e por isso não era a roupa certa para encarar o Michel. Mas era a roupa que tinha.

Mal Ana teve tempo de sentir ansiedade e já era hora de ir.

Ela passou no banheiro, escovou os dentes e fez uma maquiagem leve com delineador e batom vermelho.

Quando ela chegou no café ele já estava a esperando em uma mesa mais reservada.

– Oi. Disse ela chegando.

– Oi. Toma um café? Come alguma coisa? Perguntou ele.

– Sim. Estou faminta na verdade. Almocei super mal. Mas acho que alguém vem aqui para atender a mesa.

– Você tem razão. Vamos esperar pelo atendimento.

– Mas me diga. O que exatamente você quer saber? Perguntou Ana indo direto ao ponto.

– Direta ao ponto.

– Costuma funcionar. Disse ela prontamente.

E nesse momento foram interrompidos pelo garçom que veio coletar seus pedidos.

– O que exatamente você quis me dizer com o livro? Precisávamos conversar. Nosso encontro na sexta foi uma tragédia. Eu não imaginava encontrar você naquela festa e mesmo não estando exatamente em uma condição de fazer qualquer exigência, não gostei de ver você beijando o primeiro homem que encontrou. E achei que íamos conversar sobre isso tudo, afinal tínhamos um encontro no sábado. Mas quando você me deu o livro falando que o queria me dizer estava ali, entendi que os planos estavam mudados e vi várias possíveis mensagens suas ali. Não temos nada um com outro exatamente. Estamos nos conhecendo, mas não queria que existisse nenhuma situação esquisita entre a gente.

– Michel, acho que você fez um excelente resumo sobre os últimos acontecimentos. O livro foi uma metáfora. Me identifiquei com o que li. Comecei a criar algumas expectativas na minha cabeça a partir de coisas que inventei. Sempre fui muito racional. Nunca trabalhei muito bem com emoção. E de repente você apareceu me fazendo ficar sem ar e sem respostas. Tentei entender tudo isso. Agi de maneira estranha. Eu estava muito diferente do que sempre fui e isso não estava me fazendo muito bem.

– Desculpe por isso. Não quis causar mal algum a você.

– Não foi sua culpa. A culpa foi só minha. Minhas expectativas. Minha criação. Minha culpa. Eu não conseguia entender o tipo de relação que você propunha e isso me deixava muito confusa.

– Ana, acabei de me separar. Eu ia me casar. Estou super focado na minha carreira e você é uma menina. É divertido e revigorante estar com você. Mas eu não posso oferecer nada agora. Nem para você e nem para ninguém.

– Não estou te cobrando nada Michel. Eu mesma não tenho ideia do que quero. E não estou falando de você. Estou falando da vida. Eu só não queria mais me sentir como estava me sentindo desde que você chegou, me oferecendo partes deliciosas de você e depois desaparecendo. Acabei criando uma ilusão. Acho que foi isso. Era isso que eu estava tentando te dizer. Por fim, a culpa era minha.

– Não existem culpados. Estamos somente tentando encontrar a felicidade e aproveitar a vida Ana.

– Acho que você tem razão.

– Você é profunda e intensa demais para uma menina de 21 anos.

– Acho que foram os livros. E também acredito que a falta de irmãos me levou a procurar coisas mais intelectuais para fazer. Mas de qualquer maneira, nada disso importa.

– Fico feliz por estarmos conversando.

– Agora entendo seu comportamento. Você não podia se entregar demais e nem me prometer nada. Por isso vinha aos poucos e desaparecia. E eu não conseguia entender isso.

– É muito difícil resistir a você Ana. Você é uma delícia de menina. Acho que poderíamos ter nos divertido muito.

– Talvez a gente ainda possa. Disse Ana surpreendendo Michel completamente.

– Você me surpreende. E me confunde. E parece mudar de ideia.

– Bem-vindo ao meu mundo. Disse Ana deixando mais uma vez algum mistério no ar.

– E antes que eu me esqueça. Obrigado pelo livro. Disse ele.

– Obrigada pelo café. Retribuiu Ana.

E assim eles terminaram aquele encontro cheio de revelações de onde Ana saia aliviada, mais até do que pensava que estaria, e Michel cheio de sensações estranhas em seu coração.

Eles se despediram com um abraço e um beijo na bochecha em frente ao café e cada um foi para um lado. Ambos tinham o coração acelerado enquanto caminhavam para os seus carros. Parecia que as direções opostas eram o sinal de que Ana precisava para ver com os próprios olhos seus caminhos tão diferentes.

“Diversão. Talvez eu pudesse apenas me divertir. Por que levei tudo tão a serio? Acho que aprendi mais nas últimas semanas do que aprendi a minha vida inteira.” Pensava Ana já em seu carro, tentando concluir algo sobre aquela conversa que tinham tido.

Ela seguiu dirigindo para casa ouvindo suas músicas preferidas e um pouco anestesiada com tudo aquilo. Tudo que ela sabia mesmo era que tinha algo muito especial no Michel e que de alguma forma ele estava marcado ali no coração dela para sempre.

Os dias a partir dali seguiram mais comuns, sem grandes expectativas sobre encontros e telefones tocando, o coração da Ana começava a bater em seu ritmo normal e ela tinha esperança de que ela e Michel iriam conseguir ser apenas bons amigos. Michel viajou a trabalho para uma feira e ficou mais de duas semanas fora. Enquanto Ana apresentou seu trabalho de conclusão de curso e tirou a melhor nota da classe, recebendo até troféu e convite para representar a universidade em alguns eventos com o seu trabalho. O tempo passava mais rápido e leve do que ela esperava após sua breve e intensa história de paixão por Michel.

Um mês se passou desde a última conversa que Ana e Michel tiveram no café e não tinha um único dia em que Ana não pensasse nele, apesar de deixar que seu lado racional vencesse e de ter conseguido estabelecer uma relação profissional e de amizade saudável com ele. Todas as entregas da faculdade tinham ocupado muito sua cabeça e a partir dali ela teria apenas 2 semanas de trabalho e pouco mais de 20 dias para iniciar sua aventura na Hungria, mas ainda sim o coração dela sentia falta de algo. Sentia falta de Michel e de toda emoção que ele trazia para a vida dela. E a sensação de que tinha apenas mais 2 semanas para vê-lo e a ameaça de não vê-lo nunca mais, davam um nó apertado e dolorido em seu coração.

O mês de junho começava e com ele chegava muito frio e a festa de aniversário da revista que naquele ano seria ainda mais especial, porque tinham motivos para comemorar, devido ao lançamento bem sucedido da plataforma digital da revista com tradução em vários idiomas. O tema da festa foi a comemoração ao longo dos anos e o baile naquele ano seria de gala e a fantasia. Varias celebridades estariam presentes e aquela prometia ser a festa do ano.

No dia da festa não se falava em outra coisa. Todos estavam muito preocupados com suas fantasias e não eram capazes nem de trabalhar. Se fazia até um certo mistério sobre o que usariam, como se aquilo tudo fosse o lançamento da segunda temporada de uma série de tremendo sucesso.

Ana se fantasiou de Colombina e surgiu linda no tapete vermelho que forrava toda escadaria até a grande porta de entrada em vidro e metais dourados. Ela usava um vestido deslumbrante bem armado em uma saia de tule preta estampada com bolinhas brancas e um corpete preto com decote sereia bem justo marcando sua cintura. A maquiagem pouco aparecia por causa da máscara que arrematava o look, deixando apenas sua linda boca pintada de batom vermelho à mostra.

A noite estava cercada de um certo mistério, já que todos estavam usando máscaras. Mesmo depois de algum tempo se despedindo da história com Michel, Ana não estava totalmente imune a ele e tudo que ela fez desde que entrou no salão da festa foi procurar por ele. Ela parou em um canto com os olhos atentos quando alguém tocou seu ombro.

– É você Ana?

– Sim! E você é… a Kate!

– Sim, sou eu! Disse Kate tirando a máscara e revelando o seu rosto.

– Que maravilhoso esse baile de máscaras. Esta tudo tão suntuoso e tão misterioso. Disse Ana animada por encontrar a amiga.

– Olha o tamanho desses lustres de cristal! E o tanto que os garçons são bonitos. Você reparou?

– Nos lustres sim. Nos garçons ainda não. Respondeu Ana rindo.

– Venha! Vamos dar uma volta e procurar alguma coisa para beber.

– Vamos! Animou-se Ana, mais encorajada agora que já não estava mais sozinha.

Cada uma pegou uma taça de champagne e foram rodar pelo salão. Encontraram outros estagiários e acabaram ficando por ali com as pessoas que já conheciam. Ana sentia cada vez mais falta de Michel e temia que ele não aparecesse na festa.

O desfile de fantasias deslumbrantes seguia e a cena ganhava certa poesia a medida que a noite avançava e o champagne fazia efeito. A pista de dança se agitou ao som de um DJ badalado e Ana tentava se animar, mas a total ausência de Michel a decepcionava totalmente.

Já era quase meia noite e Ana estava sozinha ao lado do bar, esperando Kate voltar do banheiro, quando foi surpreendida por Michel.

– Ana?

– Sim. Disse ela tirando a máscara.

– Você está deslumbrante!

– Obrigada! Como me reconheceu? Perguntou ela.

– Não tenho ideia. Mas reconheci.

– Você demorou.

– Cheguei a pouco tempo e estou te observando desde que cheguei. Estava só esperando você ficar sozinha.

– Por que?

– Porque preciso te dar algo.

E nesse momento Michel puxou Ana para atrás de uma enorme cortina de veludo que decorava o local.

Ana não conseguiu falar uma única palavra e Michel a encostou na parede e começaram a se beijar. Foi um beijo longo e cheio de desejo.

Eles retomavam o ar quando Michel falou:

– Eu realmente tentei. Mas você mexe muito comigo. Quis te dar esse beijo desde que pus os olhos em você essa noite.

– E eu nem sei o que te dizer. Respondeu Ana sem fôlego.

– Então não vamos mais dizer nada. Disse Michel voltando a beijar Ana.

O beijo ficava cada vez mais quente, quando Michel começou a levantar a grande saia do vestido de Ana. Ela, sem racionalizar nem um pouco, se entregou totalmente àquela loucura e fez sexo em pé, atrás de uma cortina enquanto rolava uma festa da empresa em que trabalhava, onde participavam centenas de pessoas. Como acontecia com frequência, Michel levava Ana à loucura e a fazia agir de maneira totalmente irracional.

Eles terminavam de se arrumar para sair de trás das cortinas e voltar para a festa e se olhavam e riam maliciosamente, não somente com a boca, mas também com os olhos e se comunicavam sem trocar uma única palavra.

– Você é uma menina adorável. Disse ele dando um selinho nela.

– E você um perigo! Também adorável.

– Nos vemos já. Preciso ir, pois vou precisar subir no palco. Obrigado por me dar uma segunda chance de tocar você.

– Eu que agradeço. Agora vá. Saia primeiro e depois saio eu.

E assim Michel a deixou ali com o coração acelerado, se beliscando para acreditar no que tinha acabado de acontecer. “Esse homem me tira do eixo e me faz perder totalmente o juízo. E me faz visitar as estrelas.” Pensava Ana enquanto esperava para sair detrás daquelas cortinas.

Ana saiu e não foi vista por ninguém. Foi direto ao banheiro retocar a maquiagem e ver se estava tudo no lugar. Ela se olhava no espelho e ria sozinha. Seu estado era de graça depois do que tinha acabado de acontecer.

Ela foi ao bar pegar uma taça de champagne e saiu a procura de Kate. Em poucos instantes se encontraram.

– Hey. Aí está você! Por onde andou? Perguntou Kate. – Voltei ali no bar, mas você não estava mais lá.

“Ah eu estava sim! Só que atrás das cortinas. Você que não viu.” Pensou Ana achando graça.

– Também fui ao banheiro e acho que nos desencontramos. Depois voltei ao bar e fiquei conversando com algumas pessoas.

– Você não vai acreditar. Viram o Michel saindo de trás de uma cortina agora há pouco. Acham que ele beijou alguém às escondidas. Disse Kate em tom de fofoca.

Ana engasgou com o champagne.

– Não acredito!

– Que sorte dessa mulher. Disse Kate suspirando.

– Acho que as pessoas fantasiam muito. Ana desconversou.

– Nisso você tem razão. Agora venha! Vamos dançar. Convidou Kate.

Elas foram para a pista de dança que seguia super animada, quando interromperam a festa para chamar algumas pessoas no palco. Alguns prêmios foram entregues e Michel fez um lindo discurso. Ele, como sempre, causava um certo furor quando falava em público.

Os discursos terminaram e a pista voltou a bombar com música e luzes piscantes. Ana dançava, se sentindo andando em nuvens, quando Michel chegou perto delas.

– Boa noite meninas! Disse ele ao chegar. – Estão se divertindo?

– Muito! Disse Kate.

– E você Ana?

– Estou me divertindo muito também.

– Fico feliz que estejam se divertindo.

E ficaram ali dançando. Michel não tirava os olhos de Ana e ela se sentia queimando por dentro.

Eles ficaram ali se provocando por algum tempo até que Michel foi requisitado e precisou sair dali.

– Que homem é esse? Disse Kate assim que ele saiu.

– O homem dos sonhos de alguém. Disse Ana.

– De vários alguéns! Agora vamos beber. Se empolgou Kate.

– Assim vamos ficar bêbadas. Brincou Ana

– E que mal há nisso?

– Nenhum na verdade.

– Então cheers! Disse Kate propondo um brinde.

– Cheers.

Elas beberam mais algumas taças e Ana se sentia cada vez mais eufórica. Ela se sentia ansiosa sobre seguir com Michel o resto da noite. Mas a noite parecia ainda ir longe para ele e ela já estava morrendo de cansaço. Ele sumiu por quase uma hora e Ana resolveu ir embora, sem se despedir, mas levando um pedaço dele para casa com ela.

Ana já chegava em casa quando recebeu uma mensagem de Michel.

“Onde você está? Estou te procurando para irmos embora juntos.”

“Chegando em casa. Estou exausta e vi que sua noite ainda iria longe.”

“Que pena. Queria que você fosse embora comigo.”

“Que pena mesmo.”

“Ainda bem que as cortinas não falam.”

“Ainda bem que elas estavam lá.”

“Obrigado pela noite. Você foi a melhor parte dela e estava mais linda do que nunca.”

“Obrigada também, você estava incrível no seu smooking. E também preciso confessar que foi a melhor parte da minha noite.”

“Durma bem então!”

“Você também.”

E assim eles se despediram daquela noite que nenhum dos dois queria que acabasse.

Ana se sentia um pouco a Cinderela depois dos encontros com o Michel. Ela achava que tinha estado com o príncipe encantado, mas que após as badaladas da meia noite o encanto se acabava.

Toda aquela conversa de despedida que tiveram tempos atrás perdia completamente o sentido e Ana percebia claramente que aquela história acabaria, mas no tempo das coisas e não no tempo da Ana. A proximidade da despedida fazia Ana se abrir para viver aquilo tudo de novo, com a diferença que desse vez ela parecia saber melhor onde estava pisando.

Naquela noite ela resolveu curtir as lembranças de tudo que tinha vivido independente do que virá amanhã ou daqui a pouco.

Os dias seguintes foram ocupados com as últimas entregas da faculdade e os preparativos para a festa de formatura. O clima da revista já era de despedida e os beijos com Michel acabaram não acontecendo mais. Eles ficaram apenas trocando mensagens picantes e promessas não concretizadas de encontros. O Michel voltava a ser o mesmo de sempre e Ana voltava a criar falsas expectativas. Parecia que tudo voltava ao normal.

Os amigos da revista organizaram uma festa de despedida para Ana e ela se encheu de expectativa. Era a oportunidade perfeita de se despedir de fato daquela história então esse virou o motivo para ela acreditar que se despediria dele e da história deles.

O dia de ir embora chegou. Ana recebeu flores e muitas mensagens carinhosas no escritório. De Michel, apenas um email desejando boa sorte. O coração dela se partiu em vários pedaços, porque esperava algo especial vindo dele. Na noite de sua festa de despedida organizada pelos amigos do escritório Ana se divertiu, se sentiu querida, mas passou o tempo todo olhando para a porta na esperança de ver Michel entrando. Mas ele não entrou. Ele não apareceu. Não enviou uma única mensagem além do email mais cedo. E o coração da Ana ia se partindo em pedaços ainda menores.

Um novo dia nasceu e com ele, chegava enfim o dia da viagem dos sonhos de Ana, porém o fato de Michel ter desaparecido a tratado de maneira tão fria e formal tiravam um pouco da graça daquele momento.

Perto da hora do almoço, Ana estava perdida em meio às suas malas, quando a mãe a chamou:

– Ana, tem algo na portaria para você. Por favor, desça lá para pegar.

– Obrigada mãe. Disse ela eufórica, colocando seus chinelos.

Quando ela chegou na portaria se deparou com um enorme bouquet de flores coloridas. Deviam ter mais de cem flores, dos mais diferentes tipos. Eram o emaranhado de flores mais lindo que ela já tinha visto. Ela começou a ler o cartão.

“Desculpe a ausência e a falta de jeito dos últimos dias. Desculpe minha ausência em sua festa de despedida. Eu não consegui ir. Eu não consegui me despedir de você.

Espero que essa nova aventura em sua vida seja colorida e florida como esse bouquet de flores.

Espero que a gente se encontre de novo um dia.

Espero que me desculpe pela minha falta de coragem de me despedir de você.

Preferi ficar com o nosso último encontro na memória e no coração. Ah se aquelas cortinas falassem.

Boa sorte e dê notícias.

Com carinho,

Michel”

Ana terminou de ler com lágrimas nos olhos. “Foi real para ele também.” Pensava ela sentindo uma felicidade que vinha sei lá de onde.

CONTINUA…

O CAPÍTULO 14 SERÁ PUBLICADO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

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