Culpados ou inocentes?

“Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.”* Essa foi a melhor descrição de culpa que já encontrei. Vivemos culpados. Mas não da maneira literal que está no dicionário, que diz que culpado é quem cometeu um delito. Nos sentimos julgados o tempo todo e quase sempre o veredito é culpado, mesmo quando não temos culpa nenhuma.

Algumas vezes nós somos os nossos próprios impiedosos juízes.

É difícil comer um doce ou algo delicioso que amamos sem nos sentirmos culpados. Estando de regime ou não. Comemos praticamente pedindo perdão. Sequer aproveitamos o prazer de comer algo tão delicioso. Ficamos contabilizando o número de calorias e pensando em quais serão as compensações pelo delito, como abdominais, corrida, restrição alimentar severa nos próximos dias. Tem ficado cada vez mais difícil se permitir e simplesmente aproveitar o momento sem se comprometer com a compensação, sem que isso nos gere uma dívida. Estamos transformando deleite em delito. E por que mesmo?

Dificilmente temos momentos de ócio. Daqueles em que não fazemos nada. Vivemos colocando a culpa na nossa imensa lista de tarefas. Repetindo, mesmo sem entender os motivos de tamanho caos, que nossas listas de tarefas são intermináveis e as verdadeiras culpadas por não termos muitos momentos de prazer em nossa rotina. A grande verdade é que a maioria das pessoas sente uma culpa enorme em não fazer nada, mesmo que por 10 minutos. Quando as pessoas se vêem em momentos em que não tem nada para fazer, simplesmente não sabem o que fazer. E a primeira reação é pensar em algo para se ocupar, como aproveitar que as crianças dormiram cedo para adiantar o trabalho de amanhã. Ou seja, quando podemos simplesmente não fazer nada, buscamos na lista de tarefas o que podemos adiantar para aproveitar o tempo inesperado que nos surgiu. Tudo pelo simples motivo de que não fazer nada nos faz sentir culpa. E um momento que tem tudo para ser gostoso e inspirador se torna angustiante, porque é enorme a relação de coisas que podíamos estar fazendo naquele momento de ócio como passar roupa, arrumar armários, organizar fotos, pequenos consertos da casa, ir ao supermercado ou a loja de material de construção, costurar uma roupa, levar ou buscar roupas na lavanderia, lavar os banheiros, separar roupas para doar… Eu poderia ficar aqui alguns dias listando tudo o que poderíamos fazer se nos sobrasse um tempo não planejado na agenda, mas certamente não seria simplesmente não fazer nada.

Para as mulheres estarem bonitas de maneira mais “padronizada” precisam estar bem vestidas, de preferência na moda ou tendo um estilo pelo qual são reconhecidas, ter as unhas bem feitas, cabelo impecável com retoques em dia (seja cor, alisamento, relaxamento, cobertura dos brancos, o que for), pés impecáveis, mesmo no inverno em que só usam botas, depilação e sobrancelha no máximo de 20 em 20 dias. Não fazer as unhas, deixar aparecer os brancos, não trocar a bolsa sempre (mesmo tendo um monte do armário), optar pelo conforto do que pela estética, fazem com que as mulheres se sintam culpadas.

Trabalhamos na maior parte do nosso tempo em troca de dinheiro. Pela simples necessidade básica de viver. Precisamos pagar por uma moradia, alimentação, educação. Basicamente para garantir a base da Pirâmide de Maslow. Mesmo com muita dedicação, todas as vezes, na hora de pedir férias nos sentimos culpados. Como se estivéssemos pedindo algo errado, como se isso não fosse um direito. Tem gente que sai de férias se desculpando. Se terminamos mais cedo uma reunião, ir direto para casa e não continuar trabalhando, faz com que a gente sinta culpa, mesmo que isso não prejudique nossa entrega e nossos resultados. Se compramos algo caro ou fazemos uma viagem, morremos de culpa, pensando em voltar lá na loja e devolver o item ou arrependidos de termos gasto tanto dinheiro no cartão de crédito durante a viagem. Nesse momento trocamos nossos sonhos pela culpa. E nos esquecemos totalmente que é exatamente para isso que trabalhamos tanto.

Na educação dos filhos a lista é interminável. Nos sentimos culpados quando damos bronca, quando não permitimos algo, quando dizemos não, se chegamos depois que eles já dormiram, se não conseguimos comprar algo que eles queriam muito porque era muito caro, se não conseguimos fazer uma super festa de aniversário, se privamos eles de qualquer coisa. Pais sentem uma culpa enorme, mesmo tendo a certeza que tudo é feito para o bem dos filhos e que estão fazendo o melhor que podem.

Quando algo dá errado ou quando compartilhamos um problema, a primeira reação das pessoas, geralmente não é buscar a solução, mas encontrar os culpados. Encontrar o culpado não resolve o problema e tira o foco da solução. Nem sempre precisamos achar os culpados. E nem sempre a culpa é nossa.

Queremos estar em vários lugares ao mesmo tempo. E passamos a vida tentando fazer isso. Quando estamos trabalhando sentimos culpa por estar terceirizando o cuidado com os nossos filhos. Se ficamos em casa cuidando dos filhos nos sentimos culpados por não estar trabalhando. Ficamos em relações por comodidade e não porque nos faz feliz, geralmente desejando estar em outro lugar. Precisamos assumir que estaremos apenas em um lugar por vez e que essa escolha é nossa. E uma vez estando nesse lugar, estaremos realmente presentes, sem culpa por não estar em um outro lugar. Quem fica em um lugar, pensando em um outro lugar, não está em lugar nenhum.

Precisamos fazer sempre o melhor que pudermos e agir de acordo com o que acreditamos em todas as áreas das nossas vidas, nos comprometer somente com o que cabe na nossa agenda e no nosso saldo bancário. Fazer o que acreditamos ser melhor para o futuro dos nossos filhos, mesmo que eles sejam incapazes de compreender agora que é para o bem deles. Precisamos simplesmente fazer o melhor que pudermos.

Comer aquele brigadeiro gourmet ou qualquer que seja o nosso doce preferido até lamber os dedos, simplesmente porque merecemos esse momento de prazer e porque é nesse tipo de momento que mora a verdadeira graça da vida. Aproveitar os momentos de ócio para não pensar em nada. Apenas para sentir o corpo descansar, recarregar as energias. Nos comprometer com il dolce far niente sem que isso nos cause culpa e permitir que essa doçura de não fazer nada nos traga inspiração, energia, novas ideias, momentos para nos ajudar a organizar nossos sentimentos e pensamentos e a estabelecer nossas prioridades. Assumir os cabelos brancos ou as unhas sem fazer, se realmente não priorizamos isso na vida, sem sentir culpa por isso. Ter mais tempo de qualidade com os nossos filhos, cuidar do futuro deles, mas garantir que tenham lembranças inesquecíveis da infância. Sair mais cedo do trabalho de vez em quando. Fazer a viagem dos sonhos. Fazer muitas viagens dos sonhos.

O sentimento de culpa deveria dar espaço ao sentimento de gratidão. Esse sim dá sentido à vida!

Na hora que pisar no mar azul turquesa daquela praia paradisíaca que estava nos seus sonhos, comer seu doce preferido, passar horas desenhando com os seus filhos, trocar a hora da manicure para ler um livro ou para dormir mais um pouquinho ou naqueles momentos para não fazer nada a não ser escutar seus pensamentos e seu coração, deveríamos simplesmente agradecer. Respirar fundo e agradecer por tantas possibilidades, significado e sentido na nossa vida. É nessa hora, que a culpa certamente vai embora.

Parece bem complicado, mas não é, simplesmente aproveitar o momento sem se sentir culpado por estar sendo somente feliz, aproveitando os pequenos prazeres da vida ou a doçura de não fazer nada.
Coração
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*frase de Adriana Falcão, do livro Mania de Explicação.

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