Nós e a nossa busca pela perfeição

Somos na verdade um aglomerado de imperfeições, tentando ser perfeitas o tempo todo. Por isso andamos tão cansados.

Quanto mais o tempo passa, mais papeis ganhamos e com isso, mais responsabilidade. Isso significa que as nossas chances de sermos perfeitos em tudo vai ficando quase nula. Porém nossa cobrança sobre a perfeição, também aumenta com o tempo.

Não estou falando sobre ser melhor. Estou falando sobre ser perfeito. Aquela pessoa que não erra nunca, que entrega todos os trabalhos com muita qualidade. Dona de ideias incríveis que todos aprovam e concordam. Aquela que todos querem no seu time no mundo corporativo. Uma mãe (ou um pai) tão incrível e presente que tem a capacidade de estar em 2 lugares ao mesmo tempo e sempre sabe o que dizer ou o que fazer. Uma beleza irretocável que instiga, que desperta no outro a dúvida sobre a melhor descrição para uma beleza tão autentica, tão genuína e tão bonita. Falando em beleza, queremos ser reconhecidos pelo nosso estilo e porque não, copiados. Não queremos críticas, tampouco aplausos, queremos apenas causar uma boa impressão e algumas vezes até ser invisível.

Isso tudo é impossível! E por mais inteligentes que somos, não conseguimos abandonar a ideia da perfeição. A vida ensina e faz questão de nos mostrar as nossas falhas, porque precisa nos lembrar sempre que somos humanos e a cada falha, rejeição, decepção, cresce dentro de nós um sentimento triste, que toma conta do coração e dos pensamentos, chamado angústia. E essa angustia faz o coração doer.

Somos extremamente exigentes. Não admitimos falhas, principalmente as nossas. Preferimos sempre ter razão a ser feliz. E não importa se na maioria das vezes está tudo bem. As poucas vezes que as coisas não estão, fazem o pequeno ficar enorme.

Não é racional. Em diferentes proporções todos querem ser perfeitos. Todos se angustiam perante a rejeição. É bem difícil constatar que determinada pessoa te rejeita, principalmente quando você a quer. Parece que não fecha a conta. Nesse momento o coração toma conta de tudo, da maneira mais irracional que ele pode ser.

Fizemos um pacto com nossas escolhas. Parece que jamais poderemos caminhar sem estar de mãos dadas com elas.

Nós e os nossos amores não correspondidos. Aqueles em que amamos sozinhos, mas achamos que podemos amar por 2. Esses amores devem ter sido 0,01% de todos os amores que tivemos. Todos os demais foram correspondidos e nos fizeram muito feliz. Mas aqueles míseros 0,01% mexeram com nossa autoestima e por isso se tornaram mais inesquecíveis que os amores que deram certo. Bobagem amor que dá certo, desses a gente esquece! Ficamos por anos tentando entender o que fizemos de errado e nada do que deu certo é suficiente. Essa busca por defeitos não é justa com o nosso coração. Acabamos passando um tempo precioso tentando fazer alguem que não nos merece, mudar de ideia em relação ao que sente por nós. O nome disso não é amor! Isso é cisma, teimosia, orgulho, mas não é amor. E nesse tempo poderíamos estar encontrando um amor de verdade, aquele que não separa defeito de qualidade. O amor que faz a vida fazer sentido. Será que vale a renuncia da chance de encontrar o amor de verdade pela busca da aceitação de quem não quis a gente, do jeito que somos?

Nós e nossa construção de carreira de sucesso. Qualquer pessoa bem sucedida teve que começar e provavelmente teve algumas rejeições pelo caminho, como uma entrevista de emprego que não deu em nada ou uma promoção esperada que não chegou. Tivemos vários chefes e sempre fomos muito bem avaliados. De repente um parecia não nos amar como todos os outros nos amaram. Olha para a gente, lá de novo procurando os nossos defeitos, refazendo todos os nossos passos para entender onde poderíamos ter errado tanto. Na tentativa de construir nosso networking, tão importante para a evolução da carreira nesse mundo corporativo, buscamos nos conectar com pessoas que não nos conhecem e que tem influencia no mercado. Algumas não darão muita importancia para a gente, muito menos para a nossa trajetória. Mesmo que sejam poucas as rejeições, mesmo que não sejam as mais importantes, essas pessoas ganham uma enorme importância, perto da grande maioria que aceitou nosso “convite de conexão” e que aceitaram nos conhecer. É impressionate ficarmos mais tristes pelas 2 pessoas que não estavam nem aí para a gente, do que feliz por todo o resto das pessoas (a grande maioria) que nos acolheu. Por que temos a ilusão de que sempre teremos 100% em tudo? Algumas pessoas simplesmente não irão se interessar e de verdade, tudo bem que não se interessem. Pelo menos deveria ser assim! Mas nunca é tão simples assim.

Nem as mulheres mais lindas do mundo agradam a todos os gostos. As magras demais jamais serão bonitas aos olhos dos que preferem as gordinhas, as loiras não serão bonitas aos olhos de quem prefere as morenas. Para uns seremos bonitos, para outros feios, para outros tanto faz. Sim, feios! Existe uma coisa chamada gosto pessoal e cada um tem o seu, e por esse simples fato, nunca alguem sera bonito para 100% das pessoas. Exigir isso de nós mesmos é tão irracional, como a impossibilidade de atingir a unanimidade.

Estão aí as redes sociais com seus botões de “gosto” e “não gosto” para provar que gosto cada um tem o seu. É inútil lutar contra isso. É inútil querer mudar isso. Os botões de “gosto” provavelmente sempre serão a maioria contra os “não gosto”. Mas esses poucos que não gostam, terão a incrível capacidade de nos fazer questionar sobre onde estamos errando. Como se isso fosse um erro. Tudo errado. Nesse caminho, não chegaremos em lugar algum.

As críticas são boas! Precisam ser aceitas, filtradas, entendidas para nos ajudar a sermos pessoas melhores. Não podem ser considereadas um sinal de falha no nosso modelo de perfeição. Faz parte de todas as nossas tentativas errar, nos equivocar, começar de novo, refazer, repensar.

Errar faz parte do processo de aprender. Porque ninguém nasce sabendo nada. As pessoas mais sábias, tiverema que aprender. Geralmente são os erros que mais nos ensinam.

Parece que sempre vamos buscar conquistar aquele que não nos quer e nesse momento deixamos de cuidar dos que nos querem. No final não teremos nenhum dos dois, porque mesmo quem quer um dia cansa e quem não quer de fato talvez não queira nunca. Esse é o grande risco de querer ter tudo. Acabar sem nada.

Sim, nos cobramos muito. Sim, temos que deixar que as coisas aconteçam com mais naturalidade. Sim, temos que entender que nem sempre vamos ganhar, que nem sempre, a nossa será a melhor ideia. Sim, não existe perfeição. Sim, é melhor ser feliz do que ter razão. E por aí vai. Parte 1 da terapia resolvida, já conhecemos nossas fraquezas, já sabemos a razão da nossa angustia. Próximo passo, admitir que não somos perfeitos, porque a perfeição simplesmente não existe. Último passo, olhar para o que é bom, valorizar o que é positivo e usar o lado negativo para aprender, não para ser perfeito, mas para se aprimorar.

Dessa forma pararemos de buscar a perfeição, para buscar a nossa felicidade. Nas imperfeições da vida que construiremos o nosso caminho, com o objetivo único de chegar em um lugar onde seremos felizes! Certamente não alcançaremos a unanimidade, ainda assim conquistaremos corações de pessoas que vão nos amar com o melhor e o pior que temos, sem separar defeito de qualidade. Isso é amor e por isso o amor nos faz tão bem. O amor coloca a gente muito mais perto da felicidade, apesar de bem distantes da perfeição.
Coração

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